Blogueiras Feministas: Auxílio financeiro durante a gravidez, aborto e o pulular da misogínia

Segue o vigésimo sexto texto publicado no Blogueiras Feministas.

Semana passada a Defensoria Pública do Estado de São Paulo divulgou que o número de mulheres grávidas que tem ciência do direito de auxílio antes do nascimento é ínfima. A lei que institui o auxílio financeiro as mulheres grávidas é de 2008. Muito bem, a questão é que semana passada o debate voltou à tona e me assustou, como de costume, a baixa noção de comentários sobre os direitos das mulheres.

A lógica de que mulher engravidando é sinônimo de golpe da barriga foi a maior das premissas que ouvi durante a última semana, outra pérola foi o um comentário falando sobre como as feministas e o governo modificam sua posição sobre vida intrauterina quando há dinheiro envolvido. Para quem tem estômago os comentários podem ser lidos aqui.

O texto pode ser lido completo aqui.

Blogueiras Feministas: O Direito ao Parto Humanizado Também é Direito ao Nosso Corpo

Segue o segundo texto publicado no Blogueiras Feministas.

Há alguns assuntos que me interessam e parecem não pertencer ao mesmo universo, dentre eles está a política e a maternidade. Cada vez que leio sobre a situação da assistência à mulher seja no pré, parto ou puerpério, seja na garantia de equipamentos públicos para a mulher conseguir retomar a vida para além da maternidade fico indignada com a falta de assistência, a violência… A relação intríseca existente entre maternidade e política ficou muito nítida depois que entrei para a realidade de mãe militante, pois mesmo em uma sociedade onde somos criadas para sermos mães e cuidarmos de nossos entes, vistas como reprodutoras e sem assegurado o direito ao nosso corpo quando vamos encarar a realidade da assistência ao parto e ao puerpério vemos o quão cruel a sociedade é conosco, pois no final das contas possuímos quase nula informação sobre sexo, parto e o nosso corpo e como dizer que, por exemplo, hoje há liberdade de escolhaem como criar e parir nossos filhos quando estas escolhas são induzidas e feitas por causa de uma severa desinformação?

A mulher no Brasil quando decide por ser mãe também é punida pela sociedade, seja pela falta de creches e uma licença parental que correspondam com as demandas existentes das mulheres e crianças, seja pela violência com que somos tratadas durante o parto. Pra mim no Brasil a mulher não decide se quer ser ou não mãe e quando e como será mãe e foi durante uma conversa em nossa lista que me dei conta o quanto diversos mitos são propagados e nós os reafirmamos como se fossem verdades inquestionáveis e por sugestão da Mari Moscou acabei por escrever este post. Talvez o grande primeiro mito tenha sido mais debatido por conta do parto da Gisele Bündchen no começo do ano passado: Se o parto em casa é arriscado ou não? A esta polêmica acredito que a Dra. Melania Amorim respondeu muito bem em artigo da mesma época, ela apresenta diversas comprovações científicas de que em gravidez de baixo risco o parto em casa é recomendado sim.

O texto pode ser lido completo aqui.

A elitização da USP ajuda a indústria da cesárea e a violência no parto

Lembro de quando descobri minha segunda gravidez, foi tudo de uma vez só descobri que estava grávida e que era de uma menina. Lembro das consultas de pré-natal e de como me sentia alijada do processo, como se fosse algo que não estaria sob minha decisão e poder, acreditava que se tivesse um parto normal ele teria episiotomia de qualquer maneira e aquilo me assustava, intimidava e confundia. Não fazia sentido o que o médico dizia e comecei a buscar respostas, não encontrei todas, mas as que encontrei me foram satisfatórias e condizentes com a minha crença do que deve ser o papel da mulher na sociedade, o debate de autonomia e protagonismo.

A Folha há um mês fez uma materiazinha falando de uma pesquisa que a Fundação Perseu Abramo realizou chamado “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado” e neste estudo há dados sobre violência durante o parto em hospitais privados e públicos. Ao que parece as mulheres na nossa sociedade não pode gozar ou parir, este último nos foi tirado gradativamente justificado por protocolos que acabam não se justificando em evidências. Pela pesquisa da Fundação Perseu Abramo uma em cada quatro mulheres que pariram em hospitais privados ou públicos relatou que sofreu algum tipo de agressão durante o trabalho de parto, são coisas que vão desde negação de alívios para dor, passando por xingamentos, exames dolorosos e contraindicados e chega a ironias e tratamentos preconceituosos em relação a raça e classe social.

As agressões verbais relatadas são assustadoras, coisas como: “Na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe. Por que tá chorando agora?”; ou “Não chora não que no ano que vem você está aqui de novo”; ou ainda “Se gritar, eu paro agora o que estou fazendo e não te atendo mais”, descritas no estudo e relatadas pela reportagem da Folha. (Kathy)

Tal violência faz parte da lógica misógina que encontramos no atendimento a saúde da mulher, atendimento que não é integral a nossa saúde e também não garante o mínimo na assistência ao parto, até hoje a lei garantindo a presença de acompanhante durante o trabalho de parto sofre infração atrás de infração. Isso por que desde 2004 a humanização do parto é uma das prioridades do Ministério da Saúde, porém vemos um número ínfimo de Casas de Parto no país, nenhuma revisão protocolar significativa no que deveria ser a assistência ao parto e, principalmente, capacitação quase zero dos profissionais para o atendimento a mulher em momento de tanta força, mas ao mesmo tempo de tanta fragilidade.

Segundo Sonia Nussenzweig Hotimsky, docente da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a diferença pode ser atribuída à “industrialização” do parto nos grandes hospitais. “Em uma cidade pequena, as pessoas acabam se conhecendo e o tratamento tende a ser mais humanizado”. (CAPRIGLIONE, Laura. Folha de S. Paulo de 24 de fevereiro)

A violência no parto também é resultado do processo de industrialização do parto pelos planos de saúde e grandes hospitais, é a lógica que exerce no Brasil do fordismo, uma parto atrás do outro para produtividade. Não é só assustador os casos de violência no parto que há em nosso país, mas também o alto índice de cesáreas que são feitas elas beiram a quase 50% dos nascimentos realizados no Brasil e em hospitais privados este percentual varia de 70% à 90% dos nascimentos. A grande maioria destas cesáreas são aquelas denominadas “desnecesáreas”, baseadas em mitos já desmentidos por evidências e pesquisas médicas.

Com tanta coisa que acontece no mundo das parturientes me convenci de que parir é um ato político da mulher é quando decidimos sobre o grau do nosso protagonismo junto a sociedade, se vamos ou não nos apropriar daquele momento e compreendê-lo em todas as suas dimensões. Para tal jornada é necessário que a mulher tenha apoio da equipe de acompanhamento do parto, acesso a informações sobre o que é necessário e o que é desnecessário e atualmente o que mais vemos são profissionais estafados por longos plantões e treinados para um conduta mecânica, sem dialética alguma.

Agora em São Paulo foi anunciado o fechamento de vagas no curso de obstetrícia da USP. Para o ex-reitor da universidade dolpho José Melfi e outros professores que participaram do grupo de trabalho que acabou chegando nesta conclusão de fechamento de vagas nos cursos da EACH:

Esta redução sugerida teria um efeito imediato no aumento da relação candidato-vaga, já que a procura por alguns dos cursos da Each é bastante reduzida. Enfim, de modo geral, teríamos um aumento na nota de corte e, certamente, uma elevação na qualidade dos alunos ingressantes, algo desejado por toda a universidade.

Esta opinião do grupo de trabalho que propôs o corte de vagas na EACH pra mim já seria motivo suficiente para ser contra o corte de vagas, pois se baseia no meritocratismo e na sociedade em que vivemos meritocracia equivale a exclusão social, mas pra mimhá um problema tão importante quanto o processo de elitização da universidade pública brasileira, como falei até agora a realidade dos partos no Brasil é dramática e tal decisão só acirra isso, pois não é que a USP reviu suas grades currículares e incluíram de forma transversal a humanização do atendimento à saúde em geral, isso não foi feito. Cortam vagas de um curso que se pretende pensar uma outra forma de atendimento à mulher durante o parto sem modificar a forma técnica e machista como formam outros profissionais da saúde. Sim, por que tolhir a mulher de sua autonomia, fazê-la passar por uma gravidez sem ter real noção dos significados médicos de seus exames e da própria necessidade de parte destes exames é machismo, é referendar o patriarcado.

Um país que não valoriza a formação de obstetrizes mostra que o modelo vigente de atendimento obstétricos é medicamentoso e cirúrgico. Não adianta Ministério da Saúde fazer campanha para reduzir as taxas de cesariana, nem os planos de saúde darem incentivos para partos normais na rede privada. A formação médica não ensina o que é um parto natural e nem se permite isso dentro deste modelo. E se sabe que em locais com ausência de assitência ou com intervenção demasiada, o índice de mortalidade materna e neonatal é o mesmo. (Kalu)

É por acreditar que é preciso modificar profundamente como as mulheres são tratadas na sociedade e também durante o parto é que ajudo a divulgar o apoio ao não fechamento do curso de obstetrícia da USP, por acreditar que este curso coloca um debate sobre tratamento da mulher durante o parto que infelizmente os cursos de medicina e enfermagem tem deixado de lado, propiciando os casos de violência mostrados pelos dados da pesquisa da Fundação Abramo e reforçando a lógica fordista que vem tomado o fazer obstétrico neste país.

Atualização 25 de março:

Segue a carta deblogs  que defendem a maternidade ativa e o parto humanizado:

CARTA DE APOIO AO CURSO DE OBSTETRÍCIA DA EACH-USP

Nós, mulheres usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), mães, profissionais das mais variadas áreas e entidades afins declaramos nosso apoio ao Curso de Obstetrícia da Escola de Artes e Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo – EACH-USP, que terá seu número de vagas reduzido e corre o risco, inclusive, de ser fechado, visto que o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) não reconhece a categoria e a USP por pressão e intimidação se posicionou em seu Relatório Estudos das Potencialidades, Revisão e Remanejamento de Vagas nos Cursos de Graduação da Escola de Artes e Ciências e Humanidades da USP considerando reduzir mais de 300 vagas, de diversos cursos.

Com indignação clamamos e lutamos contra esta ação, visto que o curso é o único no País a formar obstetrizes centradas nos cuidados integrais relacionados à saúde da mulher, especialmente em um momento único como o parto e nascimento de um filho, que é visto pelos atuantes deste ofício como algo fisiológico, próprio do corpo feminino, tendo a mulher como protagonista.

Uma formação desta magnitude é uma inovação, dado que o Brasil apresenta elevadas taxas de cesarianas eletivas, alcançado patamares como o 2º. País com os mais altos índices, seja no sistema público de saúde (cerca de 45%), ou no privado (cerca de 90%), mesmo a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendar um percentual de 15%, assim uma profissão centrada nas especificidades que uma gestante necessita é um ganho para a sociedade e para as futuras gerações, além do mais que já é uma vitória ter o Curso de Obstetrícia reaberto após 30 anos de sua exclusão, ocasionando cenários de violência institucional no atendimento ao parto e nascimento em várias regiões brasileiras, tratando os corpos femininos como templos do saber médico.

Pela continuidade do Curso de Obstetrícia da EACH-USP, pelo reconhecimento de nossas obstetrizes e pela arte de partejar!

Abaixo-assinamos,

Nome das entidades/grupos/coletivos/sites/blogs:

– Blog Buena Leche – Cláudia Rodrigues
– Blog Parto no Brasil – Ana Carolina A. Franzon e Bianca Lanu
– ciadasmães
– Hugo Sabatino
– Kika de Pano – Bruna Leite
– Mamíferas – Kalu Brum
– What Mommy Needs – Carolina Pombo
– Yoga para Gestantes – Anne Sobotta
– Blog Mães Empreendedoras – Vanessa Rosa
– Bidê Brasil – Luka

Rola também uma blogagem coletiva ao qual este blog e post se somam.

Humanização do parto esbarra na cultura das cesarianas

Brasil carrega o triste título de recordista mundial em partos cirúrgicos, em parte por culpa da própria classe médica
Publicado em 29/03/2010 | *Cecilia Valenza*
Iniciativas para incentivar a humanização do parto são simples e na maioria das vezes baratas, mas ainda esbarram na cultura do parto cirúrgico. A inauguração da primeira banheira para parto na água de Curitiba, na semana passada, é um exemplo de que não é preciso muito investimento em estrutura ou equipamentos para garantir às mães o acesso a um parto seguro e com o mínimo de intervenção. Trata-se de uma banheira co­­mum, como a que qualquer pessoa pode ter em casa. Mesmo assim, a opção só está disponível em uma maternidade de Curitiba.
O exemplo ilustra a dificuldade de se superar a chamada cultura da cesariana. Apesar das constantes campanhas de incentivo ao parto natural, o Brasil ainda carrega o título de recordista em partos cesáreos. Eles representam 43% dos partos feitos no país, segundo o Ministério da Saúde, enquanto que a recomendação da Orga­­nização Mundial da Saúde é que essa porcentagem não ultrapasse os 15%.
Nos últimos anos, o governo brasileiro tem realizado uma série de ações e campanhas para tentar mudar esse quadro. No entanto, modificar a mentalidade de mães e médicos não é tarefa fácil, principalmente fora do sistema público de saúde. Cerca de 80% dos partos feitos por convênios ou particulares são cesarianas. “Há uma associação muito forte entre o parto natural e a dor. O medo de sentir dor é o principal motivo para as mães preferirem a cesariana.
É preciso desmistificar isso, os conhecimentos fisiológicos avançaram muito e hoje é possível ter um parto natural, em um ambiente acolhedor com o mínimo de intervenção médica possível e sem dor, graças à analgesia”, afirma o diretor do departamento de ações programáticas e estratégicas em saúde do Ministério da Saúde, José Telles.
Além de vencer a resistência por parte das gestantes, é preciso enfrentar a outra ponta do problema: os médicos. É comum que muitos deles priorizem as cesarianas por questões de comodidade e economia de tempo. “É uma queixa frequente entre as gestantes o fato de querer o parto normal e não encontrar um médico que faça esse acompanhamento. A maioria tenta convencer a mãe a fazer uma cesárea”, conta Patrícia Bortolotto, uma das coordenadoras do Grupo Gesta Curitiba, que reúne gestantes para discussões de temas
relacionados a maternidade e troca de experiências.
A engenheira mecânica Carolina Ribeiro, 34 anos, trocou de médico três vezes durante a gravidez. “Já estava com sete meses quando me convenci de que minha médica não era muito partidária da ideia de fazer um parto normal.
Sempre que eu tocava no assunto ela dizia que era cedo para falar disso e não se mostrava muito entusiasmada”, conta. Descontente, ela decidiu trocar de médico. “Cheguei a ir a uma outra médica, mas também não gostei e no fim encontrei o médico que acabou fazendo meu parto. Ele é um defensor do parto natural e se dedica a isso. Foi muito tranquilo, meu parto durou 20 minutos, se tiver outro filho vou querer parto normal de novo”, diz a moça, que teve a primeira filha, Luize, em outubro do ano passado.
Para o obstetra Carlos Na­­varro, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a capacidade de reverter esse comportamento está nas próprias mulheres. “É preciso que elas se convençam das vantagens do parto natural e questionem o médico, não se acomodem”, defende. Em relação ao comportamento dos médicos, ele considera importante uma mudança na abordagem do tema desde a universidade. “Mudar a cabeça de quem já trabalha de uma certa maneira há muitos anos é difícil, por isso considero fundamental que os benefícios do parto normal sejam discutidos ainda na graduação, para que os novos médicos já tenham uma outra mentalidade”, afirma.
Para Telles, mudar uma cultura é algo que leva tempo, mas que é possível. “Veja o exemplo do alojamento conjunto. Antigamente o bebê era isolado da mãe e os pediatras defendiam que essa era a melhor conduta, hoje ninguém mais faz isso, o bebê é deixado o máximo de tempo possível com a mãe. Estamos trabalhando para que as maternidades se adequem às políticas de humanização, como a presença de um acompanhante ou adaptações físicas no ambiente de parto. São medidas simples, de baixo custo, mas que acabam tendo
um impacto enorme”, afirma.

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/saude/conteudo.phtml?tl=1&id=987298&tit=Humanizacao-do-parto-esbarra-na-cultura-das-cesarianas

Mulher brasileira opina pouco na escolha do parto

Quase 90% dos nascimentos do país ocorre por cesariana
São Paulo – O medo da dor, a preocupação com o bem-estar do bebê e com o próprio corpo são alguns dos fatores que tornam o parto um dos momentos mais delicados da gestação. Mas, com exceção da parcela da população que procura atendimento humanizado e pode pagar por ele, as brasileiras opinam pouco quando se trata de escolher a forma de parir.
A arquiteta Anna Amorim, 27 anos, sempre teve o desejo e a certeza de que teria um parto normal. Durante o pré-natal do filho Pedro, chegou a trocar de obstetra porque sentia que a cesárea era certa. O segundo médico, que atendia pelo mesmo convênio, deu um prazo: 40 semanas:
– Embora seja considerada normal uma gestação de até 42 semanas, ele avisou que não esperaria mais do que 40.
Na data marcada, ainda sem sinais do trabalho de parto, Anna foi avaliada.
– Ele disse que não ia dar certo. Eu acreditei.
Depois de passar por experiência parecida em sua primeira gravidez, a psicóloga Pérola Boudakian, 32 anos, decidiu contratar uma equipe especializada em parto humanizado para assistir ao nascimento da caçula Beatriz.
– Fui atrás do prontuário do primeiro parto e descobri que o médico havia forjado um diagnóstico para justificar a cesariana ao plano de saúde. Não quis arriscar passar por isso de novo – conta.
Pérola enfrentou 33 horas de um trabalho de parto difícil, mas fez valer sua vontade de dar à luz a filha sem cirurgia. Humanização do parto é procurar fazer com que o nascimento seja o menos traumático possível para a mãe e o bebê, explica o obstetra Francisco Vilella. Mas isso tem um custo, que varia entre R$ 6 mil e R$ 8 mil.
– Às vezes fico mais de 12 horas acompanhando um parto – relata Vilella. A remuneração pelo parto na saúde suplementar varia de R$ 300 a R$ 600.
– Uma coisa é ganhar esse valor com hora marcada para trabalhar, outra é viver de sobreaviso. Há 10 anos se faz campanha para diminuir as taxas de cesariana nos convênios, mas os números só crescem. Estamos em quase 90%, embora pesquisas tenham mostrado que só 30% das brasileiras fazem essa opção no início do pré-natal – afirma Olímpio de Moraes Filho, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Para ele, é preciso mudar o paradigma do atendimento obstétrico brasileiro. Uma saída para o problema seria os hospitais privados receberem verba dos convênios para manter uma equipe permanente de obstetrícia. A gestante faria o pré-natal com um grupo de médicos e o parto com aquele que estivesse de plantão.
– Pesquisa recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a mortalidade materna, a necessidade de transfusão de sangue e de internação em UTI é quase três vezes mais frequente nas cesarianas sem indicação médica do que no parto normal.

Fonte: http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,2854619,157,14385,impressa.html

Parir para se ocupar

Há mais coisas entre o céu e a terra do mundo feminino que supõe a nossa vã filosofia e não é por conta das crendices que livros à lá Bridget Jones colocam no imaginário coletivo. Existem determinados momentos que a mulher precisa tomar as rédeas de suas decisões e ser protagonista em sua história, seja numa manifestação política, ao decidir se continua ou não com uma gravidez ou como será o seu parto.

Parir é um ato político da mulher! Li isso semanas antes de decidir pegar o meu próprio parto na mão e encarar inseguranças, medos e questões mal-resolvidas. Defender o protagonismo da mulher diante do seu parto e dar para ela a chance de um momento de empoderamento único é refutar diversas formas de procedimentos desnecessárias e muitas vezes enraizadas numa lógica altamente machista e capitalista.

Até chegar ao ápice do rito de passagem de filha para mãe diversas peripécias aconteceram, daria um capítulo de Reinações de Narizinho inteiro, foi campanha eleitoral municipal, ocupação de reitoria em Sergipe, viagem de ônibus entre Aracaju e Fortaleza, medo de não entrar em trabalho de parto, de cair numa cirurgia desnecessária e o pior deles que me bateu no final da gravidez: o de estar sozinha na cidade quando as contrações começassem. Nesse baú de acontecimentos todos resolvi encarar uma troca de médico aos 45 minutos do segundo tempo, algo meio Corinthians colocando o Ronaldinho para jogar, mas com resultados muito melhores e sem piadinhas sobre peso e joelhos.

Um intensivo emocional, tudo misturado e se resolvendo ao mesmo tempo. O aborto mal-resolvido na cabeça, a vontade crescente de ter a filhota nos braços e a danada resolve ficar sentada, como assim sentada?! Achou que a pélvis era um sofazinho confortável e ficou ali até a hora do tal trabalho de parto, que até o momento era uma abstração total, pois a grande maioria das mulheres conhecidas não haviam entrado no bendito.

A insegurança reinava completa, quando decido virar e dizer: Olha! Esse parto é meu e vai ser do jeitinho que eu quero, sem mais nem menos! . O bebê resolve sentar de vez e ainda dar uma encaixadinha, será possível? Há possibilidade de ainda ter um parto normal nestas condições?

Comecei a ler, pesquisar, conversar… Dava pra tentar, mas o médico precisava dar conta do recado e fazer as manobras necessárias, fui conversar com o médico… Dá pé fazer? Sim… Dá pé fazer.

39 semanas e 4 dias. Um dia após conversar com o médico sobre a possibilidade de um parto pélvico, um dia após ele me passar segurança… Sinto umas coisas esquisitas perto da pélvis, umas pontadas com uma dorzinha lá no fundo, nunca havia sentido aquilo na vida. Acordei e como não parecia nada muito enlouquecedor fui para o computador jogar algum jogo de internet, dá o horário e vou para a yoga e lá pergunto pra professora como é que é entrar em trabalho de parto… Ela responde dizendo que parece uma cólica, beleza! Eu nunca tive uma cólica na minha vida e fica difícil eu saber se era isso mesmo, descrevo o que a barriga tava fazendo e pimba! Era o comecinho do famoso TP, fiz a aula de yoga, contrações de 7 em 7 minutos, as vezes 10 em 10, super irregulares.

Nesta altura dos acontecimentos pelo menos uma pessoa já sabia da possibilidade de eu estar entrando em trabalho de parto (TP). Chega o final da aula e sinto um vazamento, não foi uma enxurrada feito o que vemos nos filmes, foi um vazamento, como se a menstruação tivesse descido. Lá se foi a bolsa d’água, o líqüido amniótico não ta clarinho… Tem cocô lá dentro, eu penso: Porra! Ela já vai nascer cagando em mim… Beleza! Ligo pros amigos e médico avisando que é TP e ao mesmo tempo acalmando dizendo que o TP ta bem no comecinho, um deles vai me buscar na yoga. Até o amigo chegar a professora de yoga pede para a obstetriz que atende no mesmo lugar onde eu tinha aula auscultar o bebê pra ver se está tudo certinho, precisava ter certeza, pois o bebê tinha cagado dentro da barriga.

Tudo certinho, contrações irregulares, coração do bebê fazendo tumtum dizendo que está bem e prontinho pra começar a jornada de saída, vamos então para casa arrumar o que levar pro hospital, almoçar. A irmã já está cantando: Tu vens, tu vens eu já escuto teus sinais… Escuto? Eu tava sentindo mesmo! Começo a almoçar mais contrações. Olha vamos logo pro hospital que não vai dar pé esperar por aqui mais…

Chegando ao hospital eu e meu amigo vamos andando até a admissão da maternidade, é de boa, mas precisei parar alguns momentos para as contrações virem e passarem. Entra na admissão, 5 cm de dilatação e contando. Subo para o quarto de parto andando, se sentasse numa cadeira de rodas naquele momento ia ser o pior martírio, chego ao quarto de parto e vou direto para dentro do chuveiro. Enquanto tudo isso acontecia iam chegando pessoas e mais pessoas no hospital para acompanhar o tal trabalho. Entro debaixo d’água e lá começa uma contração forte atrás da outra… Putaquepariu! O que eu to fazendo aqui? Ouvia as pessoas da equipe médica me dizendo pra respirar, que as contrações eram como ondas que vinham e depois passavam, tudo fazia muito sentido, mas doía e cansava. E as pessoas chegavam e ficavam na sala de espera ouvindo meus urros de dor.

Saí do chuveiro, fica um tempo na banheira para dar uma descansada antes de ir pra cama de parto… Parecia que tinha tomado morfina, entre uma contração e outra eu desmoronava de cansaço.

Vai pra cama de parto, o médico chega: Dá para ficar de 4 ? vai ser melhor para você e o bebê… Hã? Não havia mais forças para nada, só para ficar deitada naquela posição de frango assado. Determinando momento sinto meu corpo pegando fogo, como se entrasse em um daqueles círculos de fogo usados para treinar leões em circos! Era a bunda da minha filha saindo, ardendo… Eu vi o corpo dela sair aos poucos, descomprimindo. Mais força, manobras para tirar a cabeça e ela saiu e foi direto pra cima da minha barriga, sem chorar, mas nós duas sabíamos que estávamos bem. Pensava que já tivesse terminado tudo quando volto a sentir cólicas, hora de parir a placenta, basicamente um grande baby beef. Após parir o acessório da pequenina a minha filha voltou pros meus braços e mamou pela primeira vez, ela nasceu com os olhões abertos e mamou olhando tudo que podia, parecia querer descobrir o mundo todo numa olhada só.

Não estava mais sozinha, literalmente, nos meus braços estava o bebê mais esperado da minha vida e na sala de espera se configurava uma pequena assembléia estudantil discutindo o que fazer após o parir: se continuava no hospital, se saia, se compravam pizza, se compravam esfiha… Quase o hospital teve suas dependências ocupadas por aquele bando de tios e tias ávidos em conhecer a mais nova integrante da trupe. Um levante praticamente!

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