O nome da Rosa

Aqui jaz
Rosa de Luxemburgo
Judia da Polônia
Vanguarda dos operários alemães
Morta por ordem
Dos opressores.
Oprimidos,
Enterrai as vossas desavenças!” (BRECHT, Bertold. Epitáfio)

Este texto era para ter sido publicado no dia 5 de fevereiro quando a minha Rosa fez 5 anos. Porém eu não consegui sentar para escrever, mas a ideia que eu tinha naquele momento também se enquandra neste dia em que uma das Rosas que dá nome a ela foi assassinada. Fazem 95 anos que Rosa Luxemburgo foi assassinada pela social-democracia alemã, aka reformismo.

Quando Luana estava escolhendo o nome da Rosa, um dia sentou comigo e falou: pensei em Rosa. É simples, fácil de aprender, fácil de escrever, e ela vai saber rápido falar de si mesma. Além disso, quero homenagear a Rosa Luxemburgo. (AMORIM, Paloma Franca. Cuba e as imagens)

Lembro de quando descobri que estava grávida. Sai do consultório e liguei do orelhão para meus dois grandes amigos, ambos viriam a ser os padrinhos da menina. Chorava de felicidade, sabia que seria difícil, mas não tinha medo.

Rosa foi um nom pensado em conjunto com um ex-amigo. Ele era gaúcho e morou por um tempo em São Paulo, acompanhou quase toda a minha gravidez. Foi esse rapaz com o qual não falo mais que sugeriu que a Rosa se chamasse Rosa. Lembro que havia falado que gostaria de um nome simples, fácil de aprender a falar e escrever e que tivess um significado forte. Veio Rosa.

Neste mês se completam 95 anos do brutal assassinato da comunista polonesa Rosa Luxemburgo. Ela foi uma combatente de primeira hora contra o revisionismo teórico que irrompeu no interior da social-democracia alemã. Condenou duramente o oportunismo de direita que ganhava corpo nas direções dos sindicatos alemães, e defendeu a experiência da revolução russa de 1905, especialmente o uso da greve geral como instrumento importante na luta revolucionária. Quando se iniciou a Primeira Grande Guerra Mundial e ocorreu a traição da maioria dos dirigentes da II Internacional, Rosa se colocou ao lado de Lênin contra a guerra imperialista e na defesa da revolução socialista. Foi fundadora do grupo spartakista que daria origem ao Partido Comunista da Alemanha. Após sua trágica morte, Lênin fez uma pungente homenagem à águia polonesa, heroína do proletariado mundial, no discurso de abertura do congresso de fundação da III Internacional. (BUONICORE, Augusto. Rosa Luxemburgo: A Rosa Vermelha do Socialismo)

Foi a necessidade que tinha de mostrar para a minha filha que antes dela nascer existiram mulheres que lutavam e construíram movimentos para emancipar a toda classe trabalhadora e dentre destes os mais marginalizados que ela leva em seu nome uma homenagem a duas grandes Rosas: Luxemburgo e Parks.

Ser mãe é igual jogo de videogame: a próxima fase é sempre mais difícil

Olhando as coisas pela internet essa semana me deparei com um vídeo que todas as mães (autônomas ou não) deveriam assistir. Foi relembrando as minhas andanças como mãe, as dificuldades, as felicidades e a própria necessidade de compartilhar mais neste espaço sobre as vezes que a gente coloca as crias para dormir e deita do lado chorando caladinha por não ter para onde recorrer.

Vem a gravidez, as dores nas pernas, o parto. Depois o primeiro ano, as noites sem sono, a preocupação com o crescimento dos bebês, a iniciação da alimentação sólida, os primeiros passos. O tentar compreender os anseios dos filhos traduzindo choros, risos, grunhidos.

Junto com o passar de cada momento nos deparamos também com as nossas ansiedades. O não conseguir tocar mais tudo na nossa vida como antes, as limitações de se ter uma criança pequena que precisa de atenção e muitas vezes só tem a nossa atenção. É uma trincheira, uma corda bamba entre nós e eles. Porém há a vontade de cada passo ser superado para chegar do outro lado, olhar para trás e pensar: valeu a pena.

Talvez a primeira coisa que devamos pensar é: Dentre tudo o que ouço de rotinas, vivências e conselhos o que realmente serve para a nossa realidade? Qual é a nossa realidade e a dos nossos filhos? Como podemos usar coisas já presentes no nosso cotidiano a favor da gente e não como se fosse um empecilho? Não há resposta pronta, normalmente nos fazem acreditar que há, mas é uma bobagem.

Ser mãe é maravilhoso, mas somente nós sabemos a dor e a delícia de ser mãe, e o quanto esta escolha também nos coloca tarefas que as vezes não damos conta sozinhas. Mesmo que tentemos, e contando que nossa tarefa social seja a de criar os rebentos. Digo isso porque toda vez que pensamos em maternidade, vem a nossa mente comercial de margarina, família bonita, alegre e sem problemas. Quase nunca pensamos em noites mal-dormidas, desmame noturno, birras ao entrar ou sair da escola, introdução aos alimentos, relacionamentos interpessoais das crianças, as vontades delas que vão contra os nossos planos e tantas outras coisas. (FRANCA, Luka. Um pouco de culpa materna de uma mãe solteira)

Lidamos com a volta ao trabalho, a adaptação na escolinha, o acompanhamento pedagógico das crianças e como dar conta dessas coisas quando somos apenas uma tentando trabalhar, cuidar deles, cuidar da gente de uma forma saudável. Quantas de nós, mesmo casadas, tentamos dar conta da agenda dos filhos e da nossa própria agenda? Quantas de nós muitas vezes nos sentimos solitárias e prestes a sucumbir por achar que não damos mais contas? Por não saber lidar com as dificuldades não só do nosso cotidiano, mas também das críticas e comentários que ouvimos por aí?

Admiro as mães, admiro mais ainda aquelas que tocam o seu cotidiano sozinhas.

Muitas vezes ficamos receosas de estabelecer limites entre o que pode ou não fazer para nos ajudarem no lidar como nossas crianças, por que sim precisamos de ajuda, precisamos parar e pensar o que é melhor para nós e eles. Sem medo de estabelecer limites e até mesmo nos confrontar com aqueles que estão ao nosso redor. O lidar cotidiano dos filhos, ainda mais quando nos sentimos sozinhas e precisamos tirar forças sei lá de onde para continuar, só funciona se estabelecemos limites não apenas para nós e para as crianças, mas para os que estão de fora também. É díficil mediar tantas ansiedades e vontades de ajudar, mas é necessário. Até para podermos mostrar para nossos filhos que as vezes as regras mudam por que se mudou de casa, há a possibilidade de dar uma folga em algumas coisas e afins. Mas é sempre baseado no acordo cotidiano que nós temos. Nos combinados.

Eu vivo cheia de culpa materna, mas converso isso com a minha pequena, isso é presente na minha vida cotidiana. Assim como a minha filha eu também preciso lidar com as minhas frustrações e poder passar para a próxima fase.

Quando eu aprendi que não precisava ser sozinha

Nos últimos dias tenho pensado muito no que eu me tornei nestes 4 anos de maternidade, quais lições realmente aprendi e em qual pessoa me tornei.

Bem, a Rosa não foi programada, mas ao mesmo tempo me trouxe os meses de espera mais felizes da minha vida, com algumas tempestades, dúvidas e medos. Mas a certeza de que naquele momento eu daria conta das adversidades de ser mãe solteira era absoluta.

Lembro do dia em que ela nasceu, cada minutinho, lembro de quando ela saiu de mim e parou na minha barriga. As duas cansadas, mas ali naquele momento eu sabia ter ganhado não apenas uma filha, mas uma companheira e que grandes desafios viriam pela frente.

Perdi as contas de quantas vezes chorei a noite enquanto ela dormia. Chorava com medo de não dar conta de nós, de não conseguir me levantar quando o sol aparecesse para poder dar continuidade a nossa vida, mas aí eu olhava para ela e a força brotava. A certeza de que no meio de tanta incerteza a gente perseveraria aparecia e me dava força para continuar.

Me apaixonei pela Rosa logo quando descobri que estava grávida, logo ao vê-la pela primeira vez em uma telinha de ultrassom no consultório do GO. Ela estava ali, esperando para me cativar para sempre.

Cometi alguns erros, os quais levo comigo para não acontecer novamente. Aprendi nessa maratona de maternidade que o amor pode se manifestar de diversas formas diferentes e não importa o momento ela sempre tem lugar no meu coração.

Não sei se a Rosa será minha única filha, mas uma certeza eu tenho: Rosa será minha única filha como mãe solteira/sozinha. Aprendi com ela que algumas coisas não fazemos sozinhas, não é plausível se fazer sozinha, é uma tarefa hercúlea e a qual não irei mais enfrentar de forma solitária.

Hoje eu lembro dos dias e noites em que passei acordada sozinha, foram poucos, porém não menos extenuantes. A incerteza de talvez não ter outros filhos vem por aí, apesar da vontade imensa que me arrebata cada vez que ouço uma amiga anunciar a gravidez e afins é automaticamente arrefecida por um: Não… Sozinha não mais.

A minha filha me fez voltar a sorrir, me fez ter preocupações de mãe, me fez ter vontade de mostrar o mundo e contar histórias.

Sobretudo, Rosa me ensinou que não é preciso ser sozinha, que é bom dividir as preocupações, pedir ajuda e que nem sempre precisamos nos esconder para chorar.

Levar a cria para o trabalho, quem nunca?

Normalmente dar cabo desta estratégia deve ser feito apenas em momento de emergência, quando não se tem mais saída para nada. Até por que normalmente crianças não curtem nenhum pouco ficarem em locais em que não podem brincar, correr e fazer qualquer outra atividade por muito tempo. Elas se cansam, mesmo quando utilizados os artifícios dos jogos online, uma hora a única coisa que querem é sentar ao nosso lado para descansar, ouvir uma história ou brincar de faz-de-conta.

Quando se cria uma criança sozinha conseguir fazer este malabarismo normalmente é bem mais difícil, pois precisamos pensar na rotina das crianças, o que vão fazer e ainda nas responsabilidades junto ao trabalho. É de pilha a cabeça.

É sempre importante termos a mão algumas estratégias para entreter os pequenos e ao mesmo tempo conseguir trabalhar sem maiores prejuízos:

1- Sempre levar algum brinquedo que a criança goste, de preferência que não faça barulho;

2- Kit para desenhar é sempre muito bem-vindo dentro da bolsa;

3- Lanchinho;

4- Estabelecer algumas combinações com a criança do que dá ou não para fazer;

5- Criar alguma história sobre o local do trabalho.

Estas coisas dão certo por aqui, porém o ideal é sempre ter uma programação guardada na manga para não ter que levar as crianças ao trabalho. Até por que eles não merecem em meio as férias ficarem cercados de adultos discutindo coisas entre si e os fazendo boiar na batatinha. Para isso procurar perto de casa com agenda de férias que tenha entretenimento durante o tempo que festamos trabalhando, ou fazer acertos com os pais dos amiguinhos é sempre uma boa saída.

“Mas tu também, né? Cagou no pau…”

Muitas vezes ao jogar conversa fora com gente que mal me conhece me deparo com as mais interessantes perguntas, alguns perguntam como foi concluir a faculdade tendo uma filha pequena, outros perguntam se eu sou casada. Há comentários diversos também, mas dia desses me deparei com um comentário que me deixou atônita, até por que tecnicamente vinha de uma pessoa mais libertária. Dia desses conversando sobre crianças, pensões e afins em uma mesa de bar ouvi de um conhecido que eu tinha cagado no pau.

Bem, a começar que não se faz crianças cagando em paus, para ficar grávida é preciso usar um outro orifício, outra coisa me admira o fato de por ser jovem e solteira (tecnicamente solteira, mas isso é papo para outro post) o fato deu ser mãe era algo inevitável de um erro. Bem, eu sou favorável que as mulheres decidam se querem ou ser não mães, ou seja, se eu não quisesse ser mãe e não tivesse topada arcar com o título de mãe e pai ao mesmo tempo eu não teria tido uma filha. Pode ter sido inesperado, mas foi decididamente uma escolha.

Ora, sendo assim não há lugar para se dizer que uma mãe jovem e solteira tenha cagado no pau (como já disse acho que o termo ainda tá fora de contexto, mas enfim, foi como usaram). O engraçado é que sempre olham maternidade como um erro, se tu és mãe solteira pior ainda, desatam a falar mal do pai ou genitor da criança, mesmo sem nem conhecer o babado. Mas no final das contas não são eles que estão cotidianamente na nossa pele, enfrentando cada dia como se fosse o último.

Nunca ninguém durante estes 4 anos (salvo exceções que eu conto numa mão) perguntou se algum momento eu me desesperei com todas as obrigações que eu tenho, muitas pessoas só aparecem para fazer comentários babacas, ou meter o bedelho no processo de educação da minha pequena sem conviver diariamente conosco e nem saber qualé a da nossa familinha. Não, comentários idiotas, perguntas idiotas e conselhos babacas eu recebo o tempo todo, mas aquela mão estendida  para o que der e vier… Ah… Isso é mais difícil, pois no final das contas a responsabilidade é nossa e apenas nossa, de mais ninguém.

Eu não caguei no pau por ter tido uma filha jovem. Eu fiz merda foi na hora de ouvir comentário babaca e não conseguir ter a acuidade de virar e falar: Cara! Deixa de ser burro, por favor!

A necessidade da esquerda socialista compreender o direito ao corpo

Cada vez o domínio sobre o corpo das pessoas tem aumentado e isso tem reverberado diretamente em políticas para a classe trabalhadora, ou seja, o direito ao nosso corpo precisa ser encarado como um patamar importante da luta das mulheres da classe trabalhadora também, não na lógica da liberação sexual pela liberação sexual, isso é limitador, mas como a necessidade da busca de uma sociedade plenamente igualitária e emancipadora. Perder este pé e a noção de que hoje no mundo se reorganiza um pedaço do movimento feminista que precisa ser disputado é um tanto cego, pois a maioria das mulheres que mais precisa destas políticas são trabalhadoras e negras.

A legalização do aborto tem sido um dos temas mais nefrálgicos do programa feminista há muito tempo, ainda mais em países em que a laicidade do estado é uma lenda urbana muito mal contada. Semana passada mais um capítulo da luta pela legalização da prática no país foi escrita, o Ministério da Saúde acabou por divulgar que iria estudar medidas para reduzir os danos do aborto ilegal em nosso país. A notícia obviamente causou furor entre os conservadores de plantão que dizem esta política ser ilegal, confirmando que em nada se preocupam com a vida das mulheres. Pois mesmo uma política recuada do governo que primeiramente só pensa em estudar a possibilidade de uma política de redução de danos (ou só eu acho que a possibilidade da possibilidade é algo recuado?).

Segundo a proposta em discussão, os médicos passariam a orientar as mulheres decididas a tomar o remédio. Explicariam como usá-lo e qual é a dose ideal, de forma a reduzir o risco de complicações. É possível que o governo crie uma cartilha para orientar os profissionais sobre o que fazer quando atendem uma paciente antes ou depois do aborto clandestino. (SEGATTO, Cristiane. O Estado e a mulher que aborta)

Porém esta política necessita de um olhar sobre o que é a saúde pública brasileira hoje. Um país onde parte considerável do serviço público é vendido para OSs e OSCIPs, das quais a maioria é administrada por entidades religiosas e impõe dentro da sua administração seus dogmas. Muitas vezes se negando a atender mulheres em situação de abortamento. Lembrando que no caso das mulheres negras a situaçãod e sangramentos e risco de vida acaba sendo 6 vezes mais do que as mulheres brancas, pois normalmente somos nós que recorremos ao SUS privatizado e desmantelado.

O debate está aberto há tempos, é um embuste dizer que este movimento do Ministério da Saúde reabre o a discussão junto a sociedade, até por que foi este o debate que pautou as eleições de 2010, onde a atual presidenta capitulou de todas as formas aos tucanos e aos verdes, assim como tirou do papel a MP 557 (cadastro de gravidez) para viabilizar o seu Rede Cegonha e escanteou de vez o PNAISM (Plano Nacional de Atendimento Integral à Saúde da Mulher) e o PNHP (Plano Nacional de Humanização do Parto). Ambos de formulação da época do governo Lula  e que atendiam a diversidade de mulheres (negras, lésbicas…) existentes na classe trabalhadora hoje.

A política sobre direitos sexuais e reprodutivos acaba sendo tão controversa no país que é preciso sentar e observar atentamente as movimentações do poder público na área. Como já disse a política de privatização da saúde por parte do governo petista é uma realidade no país. São leitos do SUS terceirizados para planos de saúde, postos de saúde administrados por empresas privadas e não pelo poder público e tudo isso interfere diretamente na aplicação de uma política que leve em conta os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ou seja, o direito sobre o corpo das mulheres tem relação direta com as políticas existentes hoje em nossa sociedade sobre saúde pública. E debate saúde pública e direitos sexuais e reprodutivos deve ser muito pequeno burguês mesmo para parte da esquerda brasileira não fazer esta ligação e não disputar nos espaços do movimento de saúde, feminista, sindical, estudantil e o escambau uma concepção de saúde que contemple a maioria da classe trabalhadora.

A política de privatização da saúde acaba por interferir diretamente no próprio debate de humanização do parto, pois a industria da cesárea no país e a desumanização do atendimento obstétrico, pois a maioria das cesarianas feitas em nosso país é no setor privado, que em alguns lugares chega a quase 80% das taxas de parto.

O Brasil é o país com maior índice de partos por cesariana no mundo.

Isso é uma grande preocupação para os governantes e para as famílias.

Para cada 1% que se cresce no índice de partos por cesariana, o custo operacional para o país e para a sociedade é aumentado em US$ 9,5 milhões. (*)

Uma em cada 1000 mulheres morre em partos por cesariana (**)

Na América Latina estima-se um número de 850.000 partos por cesariana desnecessários e o Brasil tem o índice de 32% bem acima dos Estados Unidos e todos os outros países latino americanos.(***). O Organização Mundial de Saúde desde 1985 recomenda que este número não ultrapasse 15%. (OLIVAS, Walter. Partos Normais x Partos por Cesariana)

Ora, se há um processo de privatização da saúde pública brasileira e os números mais alarmantes da industria da cesárea é na rede privada de saúde é só somar os dois dados para saber o que vai aprofundar nesta seara da saúde da mulher, ou não? Casas de Parto públicas com gerência direta ao governo são raríssimas, mesmo que saiam nos planos votados nas conferências de mulheres e de saúde. O que há na verdade é um descaso geral com os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, mas não apenas aquelas que nasceram com vagina e útero. Porém fomos acostumadas a não compreendê-las como parte também do mundo do gênero feminino.

Sim, as mulheres trans e travestis também sofrem diretamente com essa política aí colocada e que interfere na discussão do direito ao corpo.  Na última Parada Gay de São Paulo o governo tucano soltou nota pedindo para que as travestis e transsexuais se vestissem de maneira “comportada”, além disso a organização da para tirou estas mulheres do carro oficial da parada, onde o querido governador paulistano Chuchu estaria presente.

As travestis e transexuais iriam vestidas de professora, enfermeiras, advogadas. “Eles [os organizadores] pediram que nós não fossemos peladas ou de vestido curto. Mesmo a gente achando que no fundo tinha algum preconceito porque boy de sunga branca sem camisa iria ter aos montes, nós concordamos porque era uma maneira de dar visibilidade aos transgêneros.”

Toda esta situação escancara um certo desdém, mesmo que implícito, pelas vítimas mais visíveis da homofobia. “Com esta gestão não conseguimos diálogo algum, existe uma invisibilidade para as travestis e transgênros. A Parada Gay hoje é uma parada machista e misógina”, desabafa Janaína. (ANGELO, Vitor. Travestis e transexuais protestam contra Parada Gay: “É machista e misógina”)

Compreender o momento histórico onde o qeu há de mais conservador na sociedade acaba nos marginalizando, tirando direitos e justificando isso pela moral e bons costumes é fundamental. Pois o direito ao aborto legal e seguro, ao parto humanizado e a não marginalização dos LGBTs, em especial as TTs é importante. Pois as mulheres marginalizadas por realizarem abortos, por não serem biologicamente mulheres e que sofrem com cesáreas desnecessárias estão de um lado importante da classe trabalhadora, pois na maioria destes casos quem sofre a opressão é quem está na base da sociedade e por estar na base da sociedade é quem mais sofre com as retiradas de direitos e o descaso existente seja pelo governo, seja pela não compreensão de suas lutas por parte da esquerda sectária.

Mães pretas, mães encarceradas, mães trabalhadoras, mães sem direitos

Faz tempo que não consigo sentar e organizar um texto para publicar aqui pelo BiDê Brasil, mas como hoje é dia das mães e também 124 da abolição da escravatura achei por bem juntar os temas e sair do ostracismo aqui do blog.

Hoje é o dia em que a maternidade é celebrada, este instinto divino natural das mulheres que fica anos latentes até elas serem fecundadas e darem a luz aos minúsculos rebentos que formaram novos homens e mulheres da sociedade. Dádiva preciosa, é o significado que foi socialmente construído em nossa sociedade, bem antes da revolução industrial, mais ou menos na época em que surgiu a propriedade privada e a necessidade de se assegurar que os herdeiros de uma determinada linhagem eram seguramente herdeiros legítimos.

O instinto materno, como tantas outras coisas, é socialmente criado. Pior a maternidade da forma como a conhecemos é imposta as mulheres cotidianamente, muitas vezes sem que o estado e os governos garantam o mínimo acesso a direitos para que as mulheres mães tenham condição de criar seus filhos e fazer o mínimo planejamento familiar.

É no mundo do trabalho que vemos mais desnudada a diferença construída por um estado capitalista e patriarcal. Pois é neste espaço em que a diferenciação entre o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo se denudam e podemos perceber o quanto um é menos valorizado que o outro, e o quanto as mulheres acabam por assumir duplas ou triplas jornadas de trabalho. A secundarização do combate ao machismo só ajuda a reafirmar um estado baseado na opressão e desigualdade entre homens e mulheres, e assim pode ser dito também sobre o combate ao racismo e à homofobia. (FRANCA, Luka. A classe trabalhadora tem raça e gênero)

Vivemos em um mundo onde as mães são ovacionadas, mas quando aproximamos a nossa lupa vemos quanto o mínimo para o exercício da maternidade plena para todas as mulheres está longe de se efetivar, são mulheres que perdem suas moradias por causa de megaobras no Brasil todo, são atacadas dia após dia com os cortes anuais do governo em áreas sociais importantes como educação e saúde e nos afetam diretamente. São os nossos filhos que são mortos diariamente pela polícia militar brasileira, se durante a escravidão eram os sinhozinhos que tiravam a vida dos nossos filhos hoje o trabalho sujo foi institucionalizado, é o próprio estado que se livra de nós, seja por meio da política de genocídio da nossa juventude, seja pela crescente precarização dos serviços públicos aos quais estamos submetidas.

Somos nós e são os nossos filhos. Se avançamos um pouco mais na discussão nos deparamos com a situação das mães encarceradas. Realidade que já chegou aos cinemas seja como cinema “real” ou ficcional, só assistir Leite e Ferro ou Leonera para poder entrar um pouco na atmosfera do que é a maternidade encarcerada.

Cuidado pré-natal de rotina, incluindo-se acesso a exames de ultra-som e de sangue, não eram disponibilizados às mulheres grávidas em nenhuma das cadeias públicas visitadas. Algumas mulheres informaram receber algum tipo de cuidado pré-natal básico na unidade de saúde local, porém a frequência com que era examinadas variava consideravelmente entre as cadeias. As presas, normalmente, informaram que a visita feita pelo clínico geral não incluía cuidados pré-natais. Isso significa que elas dependiam dos funcionários para o agendamento de consultas e o seu posterior transporte para a unidade de saúde local. Algumas informaram ter descoberto sua condição de soropositivas na hora do parto, porque nenhum exame de sangue havia sido feito durante a sua gravidez. (HOWARD, Caroline (org.). Direitos humanos e mulheres encarceradas. págs 98 e 99)

O cotidiano nos mostra o quanto a maternidade, seja livre ou encarcerada é divinizada, mas na realidade o que vemos é a expropriação das mulheres mães, principalmente as negras e da classe trabalhadora, pois são estas que vêem seus filhos assassinados por uma política de higienização social nas periferias, sofremos com a falta de investimentos na saúde pública e temos postos de trabalho que não nos deixam ver nossos filhos crescer e em contrapartida não temos como mantê-los estudando visto o alto déficit de vagas na educação infantil.

Sofremos diretamente com o jogo contraditório do capital, como se a nossa carne e nosso sofrimento não já tivesse sido tão moído durante os anos de escravidão. Não, não basta termos sido arrancadas de nossas terras e estupradas por sinhozinhos, até hoje pagamos por nossa cor e se ontem éramos propriedade de outrem, hoje somos do setor mais expropriado e invisível da classe trabalhadora, as vezes invisível até aos olhos dos nossos pares.

Um dia das mães casado com o 13 de maio deixa apenas um recado para nós, recado que é preciso insistir para que se entranhe em nossos discursos e práxis revolucionária: construiremos uma revolução preta, feminista e socialista para não mais ver os nossos sofrerem.

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