Pílula sobre machismo, movimento negro e revolução

No movimento negro se fala tanto que quando pautamos a necessidade de pensar as questões que tangem a vida das mulheres e LGBT negrxs é dividir o movimento, setorializar e enfraquecer a unidade. Engraçado que se esquece, ou fingem esquecer, que o debate racial travado por nós no movimento feminista e LGBT apontando concretamente o que significa a nossa emancipação por completa também somos taxadxs de divisionistas, setorialistas e afins.

Porém é interessante ver o como diversos homens negros nos espaços da política geral acabam por se aliando com homens brancos quando a lógica é silenciar as pautas que podem atingir a “unidade” da política. O pautar que existe diversidade, especificidades e que elas precisam ser compreendida no construir político cotidiano é pensar o construir a emancipação de toda uma classe que é mulher cis e trans, que é indígena, que negra, que é lésbica e que é profundamente marginalizada e subjugada pelo Estado em que vivemos é profundamente revolucionário e não o contrário.

Na verdade, o criticar a existência de tais debates, o apontar da existência de machismo, homolesbobitransfobia, racismo em qualquer organização e movimento ou organização passa também por nós pensarmos como construir um processo político que desconstrua vícios históricos existentes na política. A manutenção da divisão sexual do trabalho nos espaços de militância é uma das coisas mais nefastas para a luta pela emancipação de todxs oprimidxs e exploradxs. Nada além disso.

Não há revolução no Brasil se não tiver mulher cis e trans, negras, indígenas, lésbicas pensando e falando de política em todos os espaços e não apenas para servir como token, mas para efetivamente apresentar a política construída para emancipação dxs que são marginalizadxs.

A classe é essa diversidade, o movimento negro é essa diversidade, o movimento feminista é essa diversidade, o movimento sindical é essa diversidade… Se não pensarmos política para a diversidade oprimida apenas faremos o mais do mesmo.

Sobre transfobia e racismo

Uma coisa que eu tenho certeza é a de que os setores sociais mais marginalizados nessa sociedade capitalista, patriarcal, racista e homolesbobitransfóbica são negrxs. Se formos ver a grande maioria das travestis são negras e pobres (e isso é um recorte fundamental para sabermos sobre quem sofre com a estruturação do Estado no qual vivemos e quem não).

Frases-contra-o-racismo-1Não se combate uma opressão com outra como resposta. Não podemos também achar que todxs estamos no mesmo patamar de consciência sobre a totalidade dos debates e da disputa árdua de poder que a nós é colocada cotidianamente. Estamos falando entre nós que morremos por causa do racismo, do machismo ou da homolesbobitransfobia, estamos falando entre nós que temos um acesso ao mercado de trabalho dificultoso, que apanhamos em nossas casas, que sofremos violência psicológica quando ousamos ocupar espaços que historicamente não são os nossos com o debate difícil do feminismo de forma interseccional. Esse é um grau de compreensão que precisamos ter, isso se a nossa perspectiva for a de mudança estrutural da sociedade e não apenas garantir um lugar entre a classe dominante para dominar aqueles nossos que “não tiveram oportunidade”.

Transfobia não se responde com racismo, racismo não se responde com transfobia. Assim como machismo não se responde com racismo e vice-versa esse é o mínimo de compreensão que precisamos ter para realmente avançar na luta para superar todas estas amarras que o Estado utiliza para nos culpabilizar, invisibilizar e marginalizar cotidianamente.

É importante lembrar também que nenhum de nós está livre de cometer alguma forma de opressão, justamente por que também fomos formados nessa sociedade de merda, mas é fundamental sabermos olhar e desconstruir em nós mesmxs quando cometemos alguma forma de deslegitimação de discurso, invisibilização ou preconceito em geral. Não custa em nada fazer a auto-crítica, ao contrário, isso nos ajuda a avançar no processo de sínteses, de discussões e de compreensão do outro que tanto negamos.

CARTEL-MANI-TRANSFOBIA-2011É preciso que tenhamos noção que as opressões vividas por nós cotidianamente possuem um motivo, e não apenas o de nos humilhar, mas o de nos marginalizar e explorar por que nós mulheres brancas e negras, cis e trans, lésbicas, bissexuais e homens trans mesmo tendo (em alguns casos, pq em outros ainda há esta luta) conquistado uma série de coisas que nos igualam formalmente aos homens cis brancos e heteros nós na prática ainda somos vistos como seres de menor valor para a sociedade. Unidade não se faz só no discurso, se faz na prática de revermos também cada lugar de privilégio que nós temos e os preconceitos que nós mesmxs reverberamos. É um processo dialético necessário para realmente podermos desconstruir este Estado que corrobora com a nossa humilhação e violência cotidiana.

Notas sobre a #RevoltaDaLâmpada e de como é bom lutar no fervo

Não é novidade a quantidade de casos de homolesbobitransfobia que existem no Brasil. Seja o caso dos rapazes agredidos no metrô há algumas semanas, seja o rapaz assassinado no Parque Ibirapuera ou a garota que foi estuprada para “aprender” ser mulher em plena Rebouças. O combate a violência homolesbobitransfóbica é uma agenda que vem ganhando força há anos e em conjunto com ela diversos outras reivindicações civis da população LGBT tem avançado junto a sociedade.

Tanto é fato isso que durante o período eleitoral que a agenda dos direitos civis LGBTs, mulheres e, de forma mais marginal, negrxs foram temas que ajudavam a diferenciar os projetos de país dentro de uma perspectiva progressista ou não, mesmo que em alguns momento fossem feitos de forma bem oportunista.

Ora, se o espaço vem sendo tomado paulatinamente e em momentos críticos do debate político brasileiro esta é uma questão que eclode por conta do recrudescimento conservador (oposicionista ou situacionista) isso deveria refletir em um apoio dos setores mais progressistas as manifestações que denunciam as violências sofridas pela comunidade LGBT, não?

No domingo (17/11) pude perceber que talvez a lógica não seja assim tão direta. A manifestação “A Revolta da Lâmpada“, lembrando os 4 anos em que um jovem foi atacado por homofóbicos com uma lâmpada na Av. Paulista 777, levou centenas de pessoas da comunidade LGBT para as ruas de São Paulo, além de contemplar as pautas LGBTs, ao ler o manifesto do ato podíamos notar a defesa da Legalização do Aborto, Legalização das Drogas, Direito ao Nome Social e uma série de outras questões que davam um tom político interseccional da manifestação. O fato era: podíamos contar nas mãos as organizações políticas que reivindicam o debate e que colocaram peso militante para ir ao ato.

Isso me deixou bastante intrigada, pois ir à Parada LGBT ou à caminhada lésbica é algo bem incorporado as diversas organizações progressistas que reivindicam as pautas de direitos humanos e combate as opressões. Porém, a sensação que fica, é que quando se sai do script do calendário base de manifestações, atos ou atividades em que devemos estar as organizações dão um tilt e o construir espaços de intervenção pública para além do script vira algo voluntarista.

Não sei se é por medo de fazer o debate sobre orientação sexual e identidade de gênero de forma mais cotidiana, ou por achar que o tema é secundário. O fato é que ontem eu senti falta de diversas organizações que cotidianamente reivindicam a lutar contra a homolesbobitransfobia e o que vi foi, no geral pois há boas exceções nisso, gente indo de forma mais voluntarista do que fruto de uma organização que encara o debate LGBT de forma estratégica.

Acho que há também um receio com o próprio formato destes atos, onde a política e o fervo se encaixam de forma perfeita. Para quem tem receio por conta disso só digo: se atualize minha filha, lutar no fervo é uma das coisas mais maravilhosas que podemos fazer.

PS: Durante o trajeto do ato houveram momento brilhantes: A mulheragem à Letícia Sabatella quando a manifestação toda deitou na Paulista; as palavras de ordem puxadas no carro de som sobre legalização do aborto e legalização das drogas, a reivindicação do feminismo e de pautas antirracistas. Fora o momento em que falaram da gloriosa Rosa no carro de som e ela ficou se achando toda ;D.

Eleições 2014, ou, o ovo da serpente

O NASCIMENTO DA FILOSOFIAPensei muito antes de sentar na cadeira e escrever o que eu penso sobre os rumos políticos que o Brasil vem tomando e que se refletiram no processo eleitoral deste ano. Confesso que há muita coisa que me assusta no cenário com que nos deparamos e o que mais me assusta é a profunda despolitização existente no Brasil, e não estou falando de uma burguesia tola que repete palavras de ordem que não tem sustentação alguma na realidade. Me assusta o fato da classe trabalhadora brasileira estar mais conservadora também, incluindo aí o fato de não se reconhecer mais como classe, mas apenas pensar dentro do seu próprio ganho individual e isso deveria ser alvo das maiores preocupações daqueles que se arvoram direção política de alguma coisa no Brasil.

Acho que no último período, com a redemocratização do país e com as poucas vitórias que conseguimos arrancar durante a Constituinte de 88, foi gestado um Ovo da Serpente por parte da esquerda brasileira. Óbvio que eu acredito que alguns setores possuem mais responsabilidades do que outros, porém uma coisa é fato: O superestruturalismo, o vanguardismo e a burocratização legaram para esquerda um pepino gigantesco.

A campanha deste segundo turno foi marcada por uma polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 – quando Lula falava em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais – agora não estavam em jogo projetos tão antagônicos. (BOULOS, Guilherme. O terceiro turno)

Não, Dilma e Aécio não são a mesma coisa, inclusive por que possuem trajetórias diferentes e isto pesa para a direita escolher em quem confia realmente para manter as coisas sob-controle no Brasil. Mas há um fato importante a ser levado em conta: nem toda direita estava ao lado de Aécio nestas eleições e nos últimos 12 anos parte dela esteve assegurando a governabilidade do governo petista, assim como assegurou a governabilidade no governo tucano. Constatar isso é importante inclusive para entendermos o por que os setores que ascenderam a classe média durante o governo petista apresentam muitas vezes discursos conservadores.

Ora, não é de agora que diversos movimentos sociais apontam que a sociedade estavaovoserpente vivendo sob um processo de recrudescimento conservador. O episódio dos recuos no PNDH3 por parte do governo em 2010, ano eleitoral, de temas relativos aos direitos das mulheres, LGBTs, indígenas, democratização da comunicação e reforma agrária já demonstrava que mesmo a direita entre ela ter discordâncias mil sobre diversos temas que cercam a política na hora de blocar para discussões que possam avançar de forma mais totalizante a consciência de classe eles não titubeiam.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país.

A questão é: A forma de disputar política da esquerda não tem como ser a mesma forma de fazer política da direita pelo simples fato de que para disputarmos consciência de classe contra uma hegemonia burguesa é preciso o cotidiano da organização, é preciso criar os espaços e os meios para isso. É preciso aprofundar a democracia de uma forma radical para que o fazer político esteja cada vez nas mãos do povo e criar condições para se avançar nos ditos temas polêmicos.

Congresso Nacional BrasiliaTalvez tenhamos que lembrar que não existe espaço vago na política, que ao não nos posicionarmos e criarmos condições de diálogo sobre temas que aumentam a igualdade em nossa sociedade e reparam distorções estruturais nós damos espaço para se perpetuar um senso comum conservador. Inclusive entre os nossos.

O carro-chefe das reformas era, sem dúvida, a reforma agrária que visava eliminar os conflitos pela posse da terra e garantir o acesso à propriedade de milhões de trabalhadores rurais. Em discurso por ocasião do encerramento do 1° Congresso Camponês realizado em Belo Horizonte em novembro de 1961, João Goulart, afirmou que não só era premente a realização da reforma agrária, como também declarou a impossibilidade de sua efetivação sem a mudança da Constituição brasileira que exigia indenização prévia em dinheiro para as terras desapropriadas. (FERREIRA, Marieta de Moraes. As reformas de base)

Estamos entrando no 4º mandato do governo petista e, infelizmente, reformas estruturais importantes que, inclusive, ajudariam a aprofundar as vitórias que os movimentos sociais alcançaram durante este último período não foram feitas: democratização da comunicação, reforma agrária, reforma urbana, tributação de grande fortunas, desmilitarização da polícia, demarcação de terras indígenas e quilombolas e tantas outras. Além obviamente das pautas civis, entre elas a legalização do aborto, casamento civil igualitário e a legalização das drogas.

Na disputa de posição entre organizações políticas na superestrutura talvez tenhamos perdido o que há de mais rico na formação da esquerda brasileira nos anos 80: a necessidade de não apenas disputar na superestrutura, mas também disputar a sociedade para o avanço da consciência de classes.

Podemos sentar horas em uma reunião para discutir uma vírgula de documento, mas documentos por si só não se refletem em avanço de consciência. Tanto que nós que viemos da tradição de estar nas ruas para pressionar quando junho de 2013 estourou ficamos maravilhados e ao mesmo tempo receosos com o grau de despolitização da massa e do como muitas vezes pautas conservadoras apareciam no meio das mobilizações.

junho20132014 e o segundo episódio de um processo em que as disputas políticas devem se acirrar e saber dialogar e disputar consciência é uma das tarefas do dia, primeiro por que a direita já dá sinais de que se por um acaso da vida o governo Dilma quiser apresentar qualquer projeto que ajude a avançar algo mais progressista no país eles blocaram para que isso não aconteça – só lembrarmos do quanto demorou para sair a votação do Marco Civil da Internet, né mesmo?-, segundo que para haver realmente mudanças profundas no Brasil é preciso que a esquerda esteja onde sabe pressionar e fazer política e este lugar são as ruas, mas não só, é preciso compreendermos o que significará solidariedade de classe e unidade da esquerda para o próximo período, pois a disputa com o conservadorismo já é dura e tende a ser pior.

Acho que precisamos lembrar que os limites de avanço em um estado burguês são os limites que a burguesia dá para qualquer governo mais progressista que se proponha a gerenciar o estado. O ovo da serpente no Brasil não cresceu fora do governo social-liberal do PT, cresceu dentro dele, ocupando ministérios e base de governo no Congresso Nacional e não levar isso em conta e apenas fazer uma agitação ufanista sobre o governo é irresponsabilidade.

Por fim: Não se faz disputa política contra o conservadorismo e luta social dentro de 4 paredes, seja ela qual for. Parlamentares, sindicatos, DCEs ou a forma de organização que for não devem ter um fim em si mesmos, mas sim ter como fim a emancipação de uma classe trabalhadora diversa e desigual entre si mesma. E pra isso o combate a burocratização e vanguardismo se faz essencial.

Mulheres no debate: Esquentando os tamborins para um programa sobre as eleições

Esse não é o post oficial da semana. Apesar de tratar de tema recorrente pelo blogo: política e feminismo.

Pois bem, a Ttouts e eu estamos produzindo um programa para web rádio  de análise política sobre 2º turno das eleições. Não apenas comentários sobre o cenário nacional, mas também sobre o cenário de 14 estados brasileiros que estão reencontrarão as urnas no dia 26 de outubro.

Vou te contar, tarefa nada fácil essa, viu? Pois não é apenas o fazer um espaço de debate político sobre as eleições de 2º turno, mas também colocar mulheres para comentar sobre o significado do cenário em seus estados e nacionalmente das disputas aí postas.

Até o dia 24 de outubro estaremos no ar com o programa, depois de ligar para diversos estados, pedir ajuda para diversos coletivos e organizações para montarmos um programa onde as mulheres protagonizam o debate político e não apenas para dar um ar cosmético de diversidade e pluralidade ao rolê.

A ideia do programa é não apenas colocar mulheres para comentar a conjuntura dos seus estados e analisar o que está em jogo nas disputas de governos e da presidência, mas também mostrar que não existe debate político apenas no eixo Rio-São Paulo-Minas. Estados que normalmente são alvo das análises políticas prioritárias na grande mídia e também na mídia alternativa.

O programa será a estréia das transmissões da embrionária Rádio Baderna e a nossa vontade é que dê tudo muito certo para que consigamos estabelecer um espaço na internet de mulheres no debate político mais geral também e somar com todos os espaços que tem criado trincheiras feministas, antirracistas e antihomolesbobitransfóbicas na internet e fora dela.

PS: Ainda estamos atrás de meninas do Acre e Roraima que possam comentar as eleições nestes estados numa perspectiva de esquerda, feminista e crítica.

Vange Leonel e Plinio de Arruda Sampaio faces da mesma lição

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando (MELLO, Thiago. Para os que virão)

Não sou dada as homenagens. Aprendi há quase 8 anos quando me despedi da pessoa que mais amei nessa vida antes da Rosa nascer. Porém ontem, ao pegar 3 ônibus para chegar ao velório da Vange – passando por pedir dinheiro no ponto de ônibus em Itapecerica da Serra para conseguir concretizar a minha necessidade de dizer mais um adeus doloroso na minha vida – percebi o quanto eu tinha a dizer sobre as minhas recentes perdas.

Essa última semana terminaram de ser escritos os livros de duas pessoas que me ensinaram a mesma lição. Para muitos parecerei herética em dizer que Vange Leonel e Plínio de Arruda Sampaio foram mestres em igual patamar, mas foda-se, o que importa é que pra mim foram e sempre serão.

Dividi e divido sonhos com estes dois camaradas, isso não quer dizer que tenha concordado sempre com as posições apresentadas por eles, mas essa foi a maior lição de vida que ambos me deram: O respeito a posição divergente. E essa forma de lidar com os diferentes pontos de vista, de aglutinar pessoas, da generosidade em se doar para as conversas políticas são características que vi se presentificar da maneira mais acolhedora possível na Vange e no Plinio.

Para alguns vai parecer um devaneio, mas com estas duas pessoas aprendi que sonhos sim são possíveis de virar realidade e que nada é impossível de mudar. E o mais importante, conseguiam olhar para as pessoas e as verem, não contar como mais um número desta ou daquela determinada posição política. Isso é algo tão raro, Vange e Plinio ao me encontrarem sempre faziam a mesma pergunta: E como vai a Rosa?

Durante a minha andança entre ônibus intermunicipais e mendicância na frente de uma loja de cervejas especiais (Vange adorava cervejas artesanais e minha primeira cerveja artesanla foi tomada junto com ela e a Cilmara no Tubaína Bar) fui resgatando as memórias sobre estes dois e cheguei a conclusão que um não existiria na minha vida sem o outro.

Conheci a Vange durante as eleições de 2010, foi no twitter que a minha arroba esbarrou na arroba dela. Ela fazia campanha para a Dilma e eu para o Plinio. Foi por conta do debate político e feminista que começamos a conversar mais e mais, foi por conta de ter aberto a conta de twitter do Plinio no finalzinho de 2009 que eu comecei a acompanhar de forma mais ávida o que acontecia nas redes sociais.

Mesmo conhecendo o Plinio há um tempo mais considerável do que conhecia a Vange, olhando toda essa minha trajetória um tanto nonsense pela internet, política e relações pessoais percebi que as conversas com a Vange também influenciaram em muito coisas que acabei apresentando para o programa de mulheres da campanha Plinio.

Além disso tudo, Vange e Plinio construiam relações com generosidade, não tinha dessas de um saber mais do que o outro. Não tinha dessas de carteirada geracional, tinha mais uma contação de histórias de tempos que não tive oportunidade de viver. Com detalhes diversos, ênfase em acontecimentos diversos e uma paciência gigantesca com as problematizações.

Lembro quando a Vange me contou que a sede do SOMOS era no mesmo lugar que hoje funciona o meu bar favorito e a minha empolgação de menina com a informação contando para todos os meus amigos.

Em São Paulo,  os julhos normalmente são cinzas, coisa da cidade. Mas este, em especial será marcado no meu livro como um julho mais cinza do que o normal. O julho onde perdi dois mestres.

Para mim estes dois estavam ligados. Tanto que ambos dialogavam com gerações diversas e agora na hora do capítulo final do livro destas duas pessoas incríveis era visível o quanto ambos tem qualidades muito parecidas.

A lição que eu tiro destes dois tchaus? É que viver uma vida plena,  sem fazer inimigos e defendendo aquilo que acreditamos vale a pena e eu pretendo levar essa lição linda dada por Vange e Plinio para o resto da história que estou escrevendo.

Eles morrem, e deixam vários os que virão e eu sou um deles.

Vange e Plinio, obrigada por tudo. Amo vocês, hoje é sempre: presente!

Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa

A existência de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público não é um debate de hoje no Brasil, desde que o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro a eficácia desta medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos transportes de massa é problematizada.

Esta semana foi aprovada pela ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo) a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de um setor do movimento feminista compreender isso como vitória eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da medida para o combate a violência machista como um todo, seja no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um dado importante desta votação é que apenas homens foram favoráveis a medida.

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

A primeira questão a ser considerada é o fato de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte público, ou seja, mais da metade da população que encaram as latas de sardinha diariamente. Aí está a primeira problemática: Como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema metroferroviário do estado já está em total colapso?

Como sabemos, lei parecida com a do vereador Alfredinho já está em vigor no Rio de Janeiro desde 2006. É a Lei 4.733/2006, que em nada resolveu no fato de que as mulheres são assediadas, abusadas e estupradas nesse espaço, como demonstra a matéria do Portal R7: “Linha do medo: homens invadem vagão exclusivo para mulheres“. Ao contrário, sem qualquer mecanismo de regulação e fiscalização da implementação da Lei, os homens passaram a ocupar os vagões destinados somente por mulheres. (MARQUES, Léa e RODRIGUES, Patrícia. Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público)

O processo de se segregar em vagões distintos homens e mulheres não avança no combate ao machismo estrutural existente no capitalismo, na verdade apenas avança no processo de culpabilização da vítima, ou seja, uma mulher que não consiga entrar no vagão destinado a ela e usar qualquer um dos outros vagões e sofrer algum tipo de abuso seria considerada culpada pela violência sofrida por não estar onde a lei manda: no vagão rosa.

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Defender o segregacionismo nunca foi uma máxima feminista, muito menos uma máxima socialista. Os setores que na sociedade normalmente defenderam formas segregacionistas para resolver os problemas que fossem, normalmente, flertavam com a extrema direita e isso não se pode perder do nosso horizonte.

Além do mais, devo frisar: os assediadores do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos homens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fazendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusive em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer uma parte do problema. (AVERBUCK, Clara. Vagão para mulheres: segregar não é proteger)

Em junho de 2013 jovens do Brasil todo se levantaram pedindo diminuição da tarifa dos transportes públicos e melhoria nestes serviços. Óbvio que estas melhorias passam necessariamente pela garanti de que mulheres cis e LGBTs possam usar o transporte público sem o medo de sofrer violência. Na proposta sancionada pelo governador Geraldo Alckmin não se pensa em nenhum momento em como será garantida a integridade física de mulheres e homens trans que forem vetados a entrar nos tais vagões rosa, relegar a outro setor marginalizado o lugar da violência cotidiana que sofremos é justo? Avança para a luta por uma sociedade de mais igualdade?

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

A criação do vagão rosa não enfrenta o problema da violência machista nos transportes públicos de forma contundente, apenas ajuda a colocar o problema para debaixo do tapete. Não coloca no centro do debate que a violência existente no metrô e trem são fruto da lotação enorme do transporte público que é garantida pela falta de investimentos nas ampliações das frotas e do pessoal com treinamento necessário para manter e fazer funcionar metrô e trem.

O sufoco sofrido por nós mulheres nos trens, metrôs e ônibus se resolveria se não tivesse casos de corrupção no transporte público como o revelado pelo Caso Alstom/Siemens no começo do ano. Se o dinheiro destinado ao transporte público de qualidade fosse realmente usado para garantir transporte público de qualidade e não ajudando a financiar cartéis empresariais como aconteceu no metrô.

Não, não precisamos de segregação que amplie o processo de culpabilização da violência que nós sofremos. Precisamos é que se encare o problema a fundo e se garanta que não existam transportes públicos superlotados facilitando a ocorrência de crimes de oportunidade. Precisamos da garantia do nosso direito a fruir o espaço público sem restrições e, sobretudo, não podemos nos valer de reformas que não avancem para a luta das mulheres e LGBTs em nosso país e o vagão rosa hoje só ajuda a aprofundar a culpa que a sociedade nos impõe pela violência que sofremos.

Sem mais publicações