O Prólogo

Minha mãe morreu em setembro de 2006, ela vivia me dizendo o quão boa mãe eu seria e que queria ver os netos e netas dela crescerem. Infelizmente ela não pode passar comigo os momentos que aqui estarão descritos, isso fisicamente, pois senti ela do meu lado em cada ocasião que se relacione a alguma das minhas gestações.

Após a morte da minha mãe sentia uma vontade ainda maior de ser mãe, provavelmente por querer substituir aquele sentimento de medo e solidão que abarcou a minha vida. Acabei engravidando quase um ano depois da morte dela, mas àquela época resolvi interromper a gravidez, lembro de quando fiz o teste de farmácia e deu positivo… Na hora liguei para Curitiba e contei pra minha melhor amiga, era uma mistura de desespero, felicidade e uma grande dúvida sobre o que fazer.

Decidi por tirar, ia fazer um ano que minha mãe tinha morrido, minhas fichas estavam caindo, o clima em casa não era nenhum pouco bom e mesmo querendo muito ter um bebê não me sentia capaz de gestar saudavelmente uma criança naquele momento. Avisei pra minha amiga que veio de Curitiba para ficar comigo e acompanhar todo procedimento, acordei após da anestesia e a única coisa que conseguia fazer era chorar, doeu muito e eu passei o resto daquele ano chorando por conta dessa decisão.

Agora tenho certeza de que era a melhor opção mesmo, a gravidez da Rosa me fez elaborar bastante o meu aborto e há apenas uma coisa da qual me arrependo: A de só ter contado que estava grávida para a pessoa com quem estava à época depois do procedimento ter sido feito, devíamos ter decidido juntos por respeito ao que vivemos e pelo fato deu amá-lo muito até hoje… Ele tinha todo o direito de saber e opinar.

Nessa minha viagem de 39 semanas e 4 dias descobri que há tons de cinza e escolher é só o príncipio de alguém que pretende ser mãe. Em um país que não é dado o direito de escolher ser mãe ou não e que a parturiente tem tirado de suas mãos o protagonismo que é parir, buscar informação e ter certeza de suas escolhas seja quais forem e lutar por elas.

Ih! Vai parir…

Estava em uma loja de tapetes orientais muito cara. Do nada senti um líqüido similar a água descendo pela minha perna, pensei: Ah vai! Eu não tenho incontinência urinária, tão de palhaçada comigo!. Era um líqüido bem clarinho e do nada caiu mais e eu bem em cima de um dos tapetes mais caros da loja.

Virei para a vendedora e falei: Então, mil desculpas, mas não posso ficar aqui para resolver o problema do tapete que acabei de molhar, não se preocupa é água… Eu preciso ir ao hospital, to entrando em trabalho de parto. A vendedora me olhou com uma cara de incredula e tentou me segurar na loja, mas aí eu comecei a gritar por conta das dores da contração e ela ficou com medo de eu ter a minha filha ali mesmo.

Gritava tanto que acabei me acordando de um dos sonhos mais nonsense sobre parto que eu já tive.

Quandos

Quando a Rosa nascer vou povoar a casa de cores, odores e sabores diferentes para ela conhecer de tudo, os natais serão roxos e laranjas, pois verde e vermelho é bem demodê, aprenderei a encontrar as constelações no céu estrelado das praias que visitarmos só para mostrar pra ela, haverá brinquedos de madeira e passeios no parque para podermos cheirar a natureza.

Quando a Rosa nascer o mundo vai ser muito melhor, a crise mundial vai ter sido solucionada por uma revolução intergalática evocada por este pequeno arauto da esperança, a polícia não mais invadirá as comunidades da periferia matando as pessoas sem mais nem por que, a indústria do tráfico será diluída e o proletariado terá tomado o poder.

Quando a Rosa nascer as borboletas amarelas, laranjas, azuis, roxas e com pintinhas vermelhas invadirão São Paulo e quebrarão as rabugices das pessoas, os mal entendidos e os relacionamentos mal-resolvidos. Haverá cachoeiras rompendo dos arranha-céus com pontos brilhantes acabando com as maletas Louis Viton da vida e transformando em papel machê todos aqueles contratos horríveis que são feitos país a fora.

Quando a Rosa nascer tudo vai nascer novamente e ela terá milhares de álbuns de fotografia, histórias fantásticas de uma super-vó e dezenas de livros com letrinhas para entretê-la.

Quando a Rosa nascer trará dentro de um pacotinho um desejo perdido chamado Ana Clara e quando entregar este pacotinho soltará uma risada gostosa dizendo que alguns erros não podem ser concertados, mas não precisam se tornar poços de amarguras e tristezas.

Sem mais publicações