Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

Vange Leonel e Plinio de Arruda Sampaio faces da mesma lição

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando (MELLO, Thiago. Para os que virão)

Não sou dada as homenagens. Aprendi há quase 8 anos quando me despedi da pessoa que mais amei nessa vida antes da Rosa nascer. Porém ontem, ao pegar 3 ônibus para chegar ao velório da Vange – passando por pedir dinheiro no ponto de ônibus em Itapecerica da Serra para conseguir concretizar a minha necessidade de dizer mais um adeus doloroso na minha vida – percebi o quanto eu tinha a dizer sobre as minhas recentes perdas.

Essa última semana terminaram de ser escritos os livros de duas pessoas que me ensinaram a mesma lição. Para muitos parecerei herética em dizer que Vange Leonel e Plínio de Arruda Sampaio foram mestres em igual patamar, mas foda-se, o que importa é que pra mim foram e sempre serão.

Dividi e divido sonhos com estes dois camaradas, isso não quer dizer que tenha concordado sempre com as posições apresentadas por eles, mas essa foi a maior lição de vida que ambos me deram: O respeito a posição divergente. E essa forma de lidar com os diferentes pontos de vista, de aglutinar pessoas, da generosidade em se doar para as conversas políticas são características que vi se presentificar da maneira mais acolhedora possível na Vange e no Plinio.

Para alguns vai parecer um devaneio, mas com estas duas pessoas aprendi que sonhos sim são possíveis de virar realidade e que nada é impossível de mudar. E o mais importante, conseguiam olhar para as pessoas e as verem, não contar como mais um número desta ou daquela determinada posição política. Isso é algo tão raro, Vange e Plinio ao me encontrarem sempre faziam a mesma pergunta: E como vai a Rosa?

Durante a minha andança entre ônibus intermunicipais e mendicância na frente de uma loja de cervejas especiais (Vange adorava cervejas artesanais e minha primeira cerveja artesanla foi tomada junto com ela e a Cilmara no Tubaína Bar) fui resgatando as memórias sobre estes dois e cheguei a conclusão que um não existiria na minha vida sem o outro.

Conheci a Vange durante as eleições de 2010, foi no twitter que a minha arroba esbarrou na arroba dela. Ela fazia campanha para a Dilma e eu para o Plinio. Foi por conta do debate político e feminista que começamos a conversar mais e mais, foi por conta de ter aberto a conta de twitter do Plinio no finalzinho de 2009 que eu comecei a acompanhar de forma mais ávida o que acontecia nas redes sociais.

Mesmo conhecendo o Plinio há um tempo mais considerável do que conhecia a Vange, olhando toda essa minha trajetória um tanto nonsense pela internet, política e relações pessoais percebi que as conversas com a Vange também influenciaram em muito coisas que acabei apresentando para o programa de mulheres da campanha Plinio.

Além disso tudo, Vange e Plinio construiam relações com generosidade, não tinha dessas de um saber mais do que o outro. Não tinha dessas de carteirada geracional, tinha mais uma contação de histórias de tempos que não tive oportunidade de viver. Com detalhes diversos, ênfase em acontecimentos diversos e uma paciência gigantesca com as problematizações.

Lembro quando a Vange me contou que a sede do SOMOS era no mesmo lugar que hoje funciona o meu bar favorito e a minha empolgação de menina com a informação contando para todos os meus amigos.

Em São Paulo,  os julhos normalmente são cinzas, coisa da cidade. Mas este, em especial será marcado no meu livro como um julho mais cinza do que o normal. O julho onde perdi dois mestres.

Para mim estes dois estavam ligados. Tanto que ambos dialogavam com gerações diversas e agora na hora do capítulo final do livro destas duas pessoas incríveis era visível o quanto ambos tem qualidades muito parecidas.

A lição que eu tiro destes dois tchaus? É que viver uma vida plena,  sem fazer inimigos e defendendo aquilo que acreditamos vale a pena e eu pretendo levar essa lição linda dada por Vange e Plinio para o resto da história que estou escrevendo.

Eles morrem, e deixam vários os que virão e eu sou um deles.

Vange e Plinio, obrigada por tudo. Amo vocês, hoje é sempre: presente!

É momento das feministas disputarem corações e mentes nas massas

A política voltou a ser debatida nos espaços para além das organizações políticas. Tem gente conversando sobre o país e seus problemas nos bares, nos almoços de família, nos locais de trabalho e até nas festinhas juninas das escolas infantis. O Brasil está discutindo o país e não se deve ter medo disso. A população foi para a rua, e o que esperar de uma população que já vinha demonstrando paulatinamente nestas últimas décadas o recrudescimento de um senso-comum conservador?

O susto de ver a população reverberar ações da direita conservadora como o ataque aos militantes partidários, cartazes pedindo a redução da maioridade penal e um discurso moralista sobre a corrupção é reflexo da desorganização do debate político na sociedade neste período de redemocratização do Brasil. Mas é bom lembrar que este recrudescimento conservador nunca foi motivo para os movimentos feminista, LGBT e negro baixarem suas cabeças e voltarem para casa. Quantas vezes fomos às ruas pela legalização do aborto e fomos chamadas de assassinas, mas ao mesmo tempo conseguíamos dialogar com outra parte da sociedade. Disputa de consciência é assim, e a omissão acaba dando espaço para quem está lá disputando o senso-comum dizendo que não tá disputando.

Outro tema: é um erro igualar hino nacional e bandeira nacional com direita. Outra coisa é que a direita pode se valer disso, mas o sentimento da massa é honesto, de resgate da nação contra quem ela considera que está usurpando e roubando o país, isto é e sempre foi a simbologia da massa em relação a bandeira e ao hino. Nos anos 80, com grande peso de massa da esquerda era muito comum os atos das diretas já e mesmo assembleias operárias de massa no ABC serem encerradas com o Hino Nacional. Nós temos que disputar essa consciência da massa para a esquerda, mas entendendo o valor do sentimento nacionalista anti-regime ou anti-corrupção no caso atual, no caso da minha geração era uma nacionalismo anti-ditadura do tipo dizer “o hino e a bandeira são nossos e não da ditadura”. Hoje tem isso de fundo “a bandeira, o hino, a nação são nossos e não dos corruptos”. Esquerda que não entender isso vai virar pó nesse movimento. (SILVA, Fernando. Uma rebelião popular progressiva e o início de uma crise institucional)

Esse processo de ascenso, ou seja, das pessoas saírem de seus trabalhos, das suas casas e locais de estudo para ocupar as ruas por temas diversos é positivo e devemos tomar este parâmetro como base. O povo na rua é bom. Agora, esperar que o povo na rua tenha o mesmo nível de consciência do que as pessoas que tem formulado política, ou organizado manifestações e atos sobre diversos motivos nos últimos anos.

Não se pode fetichizar, mas também não dá para entrar em uma de que: bora sumir de lá por que é só reaça e não dá para disputar. Ora, é o povo fora de sua rotina que abre espaço para podermos disputar sua consciência muito melhor do que quando estamos imbuídos em nosso cotidiano enfadonho.

As pautas que mais tem ecoado nestes espaços são pautas que se relacionam diretamente aos direitos das mulheres. As remoções feitas pelos governos federal e estaduais por conta da Copa e Olimpíadas, a mobilidade urbana, a permanência de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara são pautas nossas também.

Nossa responsabilidade política nesse exato momento é enorme. Até por que nunca vimos manifestações destas proporções em nossa vida política, só as vimos passar na TV ou em documentários e mesmo assim tinham características diferentes. É continuemos nas ruas até a tarifa baixar e durante esse processo que estejamos em unidade, por que disputar ideologicamente com o status quo conservador é tarefa hercúlea e todxs lutadorxs devem tomá-la para si. (FRANCA, Luka. Pílula sobre as mobilizações em São Paulo)

É preciso que as feministas estejam nos atos, em bloco ou não para combater a violência sexista que ali possa haver, para nesse processo de mobilização de massas possamos disputar homens e mulheres (cis ou trans) de que espaços de protesto social não é espaço para assédio contra as mulheres.

Há muitos depoimentos de mulheres agredidas ou violentadas nas manifestações ao redor do país. Testemunhas oculares, com direito a vídeos amadores postados no YouTube, não deixam mentir: as mulheres precisam temer não apenas a repressão policial, mas também a misoginia e a intolerância dos próprios manifestantes. São dezenas os relatos de abuso sexual, tanto por policiais armados quanto por manifestantes homens. Várias mulheres, por conta de qualquer suspeita de pertencer a algum partido político de esquerda, sofreram agressões físicas. Além da violência direta, os manifestantes portavam uma quantidade exorbitante de cartazes machistas, acompanhados de piadas e gritos hostilizando as mulheres. (ARRAES, Jarid. A misoginia marcha ao lado)

Para além de disputarmos que as mobilizações sociais não devem ser espaços da nossa opressão, é preciso que nós feministas estejamos lá para dizer: A Copa, a falta de mobilidade urbana e o conservadorismo de ter Marco Feliciano na CDH nos atingem frontalmente! A maioria das pessoas removidas pelas obras da Copa são mulheres, quem mais é atingida pela falta de mobilidade urbana nas cidades (seja por conta de violência sexual nos transportes públicos, seja por conta da questão econômica) são mulheres, a votação do Estatuto do Nascituro, o vilipendio dos direitos humanos no Brasil atingem primeiramente as mulheres negras.

Além destes temas norteadores, o espaço nos abre possibilidade de questionamento importante sobre a militarização da polícia no Brasil. Ora, qual o tratamento dado pela polícia militar às mulheres em situação de violência? Ou nos casos de estupro? O processo de militarização da nossa segurança pública também ajuda a manter o pilar do patriarcado no estado Capitalista, pois tem o poder de manter o status quo da culpabilização das vítimas de opressão e nossa tarefa como feministas é combater tudo que mantenha os pilares patriarcais.

Sim, nesse momento de grandes mobilizações sociais no país nós feministas temos tarefa importante, não é a hora de ficarmos com medo de gente na rua, esperamos por isso em diversos atos que já chamamos.

É hora de tirar do bolso as nossas camisetas lilás e dizer que nós vamos disputar ideologicamente as pessoas, por que apenas o anti-capitalismo sem a desconstrução do machismo, homofobia e racismo não nos contempla. É preciso nos organizarmos para chamar manifestações e disputar as já convocadas. É o momento que temos para ampliar a disputa ideológica que fazemos cotidianamente, e conseguir debater e pautar questões que em momentos de maré baixa são tabus gigantescos.

Não é hora de nos omitirmos, não existe espaço vago na política e não podemos deixar que a direita misógina ganhe uma batalha de disputa ideológica, é hora das feministas disputarem corações e mentes da forma aguerrida que sempre fizemos.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia!

O medo, a política e o momento de não se omitir

Os “partidos” podem se apresentar com os mais diversos nomes, incluindo o de anti-partido ou de ‘negação de partidos’. Na realidade, até os chamados ‘individualistas’ são homens de partido, apenas gostariam de ser ‘chefe de partido’ pela graça de Deus ou da imbelicidade de quem os segue. (GRAMSCI, Antônio)

Com tudo o que está acontecendo eu ainda estou confusa, acho que o momento é delicado, é inédito para a minha geração e carece de uma reflexão mais aprofundada. Porém apesar do momento ser confuso e necessitar reflexão profunda da esquerda como um todo é importante lembrar que não é momento de se omitir.

Qualquer caracterização apressada é equivocada. Porém uma coisa é real: O sentimento anti-partido que está disseminado na massa não é permeado nem de longe dialoga com o debate posto há anos entre socialistas e autônomos.  O debate que reverbera nas ruas contra partidos políticos é por conta da negação do que aí está e abre brecha para que a direita organizada se aproprie do discurso e legitime processos de linchamentos público como os que vimos ontem. É por isso que não podemos ser afobados.

Ontem eu estava na Av. Paulista. No bloco da esquerda unificada. Foi a primeira vez que fui as manifestações novamente como militante, até então ficava mais afastada cobrindo para o trabalho. Fui como militante por que na terça-feira eu me assustei, me assustei de como a massa assimilava com facilidade um discurso nacionalista, fascista e totalitário. Fui por que acredito na revolução e na destruição do estado, assim como muitos dos meus companheiros autônomos ou organizados em outros partidos políticos. Ontem eu temi perder um amigo, temi assim como temo perder meus companheiros nas mãos da PM.

Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente

Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos. (SAKAMOTO, Leonardo. E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente)

Acredito haver espaço de disputa nestas mobilizações. Tenho dúvidas se elas permanecem massivas se não convocadas pela esquerda. Por que sim os atos que se massificaram foram atos organizados pela esquerda, seja autônoma ou organizada em partidos, e como normalmente são chamados com pauta específica tenho sérias dúvidas se continua a massificar. Caso continue, creio que há espaço de disputa ideológica, mas é preciso saber dialogar. E mais pra além da disputa ideológica necessária a ser feita é preciso refletir o que nos fez chegar até aqui. Por que nestes mais de 20 anos de redemocratização vemos eclodir no senso-comum posições que dialogam mais com a direita do que com a esquerda.

Se abriu um processo que está em disputa sim, mas não uma disputa fácil, não uma disputa com a qual estamos acostumados normalmente, pelo menos a minha geração não está. Estamos disputando com a direita e precisamos nos diferenciar da burocracia, não é simples, pois estamos lidando com um sentimento de insatisfação com as instituições muito pesado. Porém é preciso apontar que a esquerda socialista e autônoma tem um projeto de destruição do estado e não um melhorismo como tem sido apontado pelos governos Lula e Dilma.

O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos. (Nota no. 11: sobre o ato dessa 5a feira)

Para a disputa que se abre é necessário unidade da esquerda anti-capitalista, é necessário que aqueles que lutam contra a redução da maioridade penal, pela demarcação de terras indígenas, contra o genocídio da juventude negra, pela legalização do aborto, contra a homofobia, por uma cidade sem catracas, pelo transporte público e tantas outras pautas que temos construído mês após mês se unam para debater e apresentar saídas programáticas reais, sem capitular a burguesia e a direita.

O momento é difícil, apavora e é um erro não falarmos com todas as letras que dá medo. Dá medo de perder um companheiro, dá medo de perder um amigo, dá medo de perder a si próprio. Mas o medo não pode nos imobilizar, é ombro a ombro, é olhar nos olhos de quem é do PSOL, PSTU, autônomos e encontrar ali a segurança de que estamos na mesma luta, na mesma disputa ideológica e no mesmo confronto social. Nos reconhecermos e disputarmos com a direita o senso-comum presente nas manifestações.

É importante notar que a revolta apresentada na quinta-feira não foi apenas com os partidos, mas também com organizações civis do movimento sindical, do movimento negro, do movimento feminista e afins. Foi uma demonstração de que há um setor na sociedade que preza pela despolitização dos espaços e se aproveita para dar respostas e apontamentos fascistas para a massa. É preciso refletir, ou ninguém notou que entre as principais matérias da grande mídia sempre se destaca matérias ressaltando o apartidarismo, por que isso interessa aos poderosos? Alguém se perguntou isso?

Eu quero mudar o mundo, eu quero a revolução, eu quero a morte do capital e eu milito em um partido e em movimentos sociais e não quero mais ter medo de colocar as minhas camisas e levantar as minhas bandeiras!

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Nota ao PSOL sobre as alianças no 2º turno em Macapá

Mais uma vez a base do PSOL se coloca contra política que tentam acabar com o DNA do nosso partido e jogá-lo na vala comum dos partidos da ordem no Brasil. Se você acha um absurdo um partido socialista, de esquerda se aliar com o que há de pior da direita no país compartilhe, divulgue e assine também!

Nas eleições de 7 de outubro, o PSOL conquistou uma vitória política indiscutível. Apresentando-se pela esquerda, o partido ampliou de forma muito significativa suas votações; elegeu um prefeito (no município de Itaocara, no estado do Rio de Janeiro), passou ao segundo turno em duas capitais – Belém e Macapá – e obteve grandes votações em outras capitais e nas maiores cidades (com destaque para Rio de Janeiro, Fortaleza, Florianópolis, Niterói) e vitórias políticas importantes como em Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Maceió e Natal; ampliou de forma expressiva sua bancada de vereadores. Tudo isto, apresentando-se pela esquerda, demarcando tanto com os partidos da direita tradicional como com o bloco dos apoiadores do governo federal.

É neste quadro que fomos surpreendidos pelas informações sobre as alianças que estão sendo articuladas para o segundo turno em Macapá. Diversos órgãos de imprensa do Amapá divulgaram, no dia 12/10, a realização de um ato político em que o candidato a prefeito pelo DEM e pela coligação “Macapá Melhor” (DEM-PTB-PSDB-PRP), o deputado federal Davi Alcolumbre, apoiou Clécio Luís (PSOL), selando uma aliança. O Candidato do DEM declarou que “nossas propostas foram incorporadas ao plano de governo de Clécio”. O senador Randolfe Rodrigues (PSOL) declarou que esta não é apenas “uma aliança política, e sim um caminho novo para a política no Amapá; é uma aliança para ganhar a Prefeitura no último domingo deste outubro, mas é também para governar em conjunto, unindo ideias e propostas de Clécio e demais lideres para Macapá dar a volta por cima”.

Estiveram presentes os principais representantes no Amapá do DEM, do PTB e do PSDB. Um dos representantes do PTB presentes foi o vereador eleito Lucas Barreto, candidato ao governo do Amapá em 2010, quando foi apoiado por Clécio e Randolfe, na contra-mão do PSOL nacional. Outro presente foi o prefeito eleito de Santana, Robson Rocha (PTB), candidato que recebeu o apoio público do senador Randolfe Rodrigues desde o primeiro turno. E também o presidente do PSDB, Jorge Amanajás, que já tinha dado apoio a Clécio desde o primeiro turno. Todas estas lideranças destes três partidos são ligadas a José Sarney.

Três dias depois da divulgação destas informações, o companheiro Clécio Luís enviou uma “Mensagem às companheiras e companheiros do Partido Socialismo e Liberdade” em que, no fundamental, confirma as informações divulgadas pela imprensa do Amapá.

Ora, o PSOL de todo o país, que acabou de brilhar com uma campanha eleitoral de esquerda, não merece uma agressão como esta que está sendo feita contra ele. É evidente que a candidatura a prefeito de um deputado federal do DEM, apoiada por DEM, PTB e PSDB, só pode ser uma candidatura de direita, da qual não devemos buscar o apoio, e com a qual, muito menos, podemos fazer qualquer aliança programática. Tampouco faz nenhum sentido fazer com estes partidos uma “aliança pela moralidade”. DEM, PTB e PSDB estão na lista de partidos com os quais o DN do PSOL proibiu qualquer aliança nas eleições de 2012. Se esta aliança se mantiver, representará uma mancha que envergonhará e indignará todo o PSOL; obviamente, não se trata de um assunto do PSOL do Amapá apenas.

Um partido cuja razão de ser é representar uma alternativa de esquerda à adaptação da maior parte da antiga esquerda brasileira ao social-liberalismo não pode tolerar esta aliança em Macapá, sob pena de se desmoralizar e de comprometer todo o seu discurso político. A desastrada política encaminhada em Macapá deve ser revertida, ou os responsáveis por ela deverão ser sancionados pelo partido. Se não adequarem sua atuação à linha do partido, não deverão ter lugar nas suas fileiras.

Por meio desta nota, nós, dirigentes nacionais do PSOL, manifestamos nosso total desacordo com o apoio do DEM, do PSDB e do PTB ao candidato de nosso partido à prefeitura de Macapá. O apoio destes partidos, mesmo no segundo turno nestas eleições municipais, não é bem vindo, já que representam forças de direita com as quais não queremos nenhum tipo de proximidade política.

Para que possamos oficializar esta posição como posição do partido, reivindicamos que o presidente nacional do PSOL, deputado Ivan Valente, não apenas se pronuncie sobre o assunto (afinal, cabe à Executiva Nacional e, em especial ao seu presidente, garantir o cumprimento das decisões do Congresso e do DN), como também convoque imediatamente a Executiva Nacional para deliberar. Caso isso não ocorra, os signatários desta nota utilizarão os meios estatutários para garantir a defesa do partido.

16 de outubro de 2012

André Ferrari

Antônio Neto

Brice Bragato

Camila Valadão

Carlos Gianazzi

Daniela Conte

Douglas Diniz

Eduardo D’ Albegaria

Fernanda Melchiona

Fernando Silva (Tostão)

Gelsimar Gonzaga (Prefeito eleito de Itaocara-RJ)

Israel Dutra

João Batista Babá

João Machado

João Alfredo

Jorge Almeida

José Campos

Juliana Fiuza

Leandro Recife

Luciana Genro

Mariana Riscali

Mario Agra

Michel Oliveira

Nancy Oliveira

Nonato Masson

Pedro Fuentes

Pedro Maia

Raul Marcelo

Roberto Robaina

Sandro Pimentel

Silvia Santos

Tárzia Medeiros

Veraci Alimandro

Zilmar Alverita

O meu sonho eu sonho junto com o Giva

Em São Paulo são 55 vagas para vereador. Que são eleitos desse jeito aqui. A minha primeira eleição votando foi a de 2002, depois de 1996, foi a eleição mais feliz da minha vida, por que votei em gente e em um projeto que eu acreditava e tinha sonhado a minha vida toda de ajudar a construir. Infelizmente o projeto se esvaiu.

Aí veio 2010, 2010 e eu com filha pequena, tentando me formar na PUCSP, atrás de trabalho, sendo atropelada pela vida e surgiu um senhorzinho, um senhorzinho chamado Plínio de Arruda Sampaio. E este seu Plínio reacendeu o meu sonho, a minha esperança e me fez ver que nada é impossível de mudar. Mesmo quando a gente é atropelado pela vida, mesmo quando a gente é atropelado pela sociedade, o sonho permanece, ele só fica escondido, se cala, se melindra. Mas o Plínio cavou o sonho e tirou para fora, escancarou o sonho, escancarou a esperança, mostrou que não precisa ter medo de sonhar para além do limite das bordas da piscina, por que a gente pode transbordar em sonho e transbordando em sonho a gente muda a vida. Ali eu vi o meu sonho e o sonho da minha mãe respirarem juntos.

A vida me atropelou novamente e fui viver, fui militar, fui cuidar da Rosa, trabalhar, amar… Fui ser eu e o sonho começou a ficar amuado embaixo de tanta responsabilidade, necessidade, tarefa, pragmatismo… O sonho se escondeu. Aí chegou 2012, e a tarefa, a responsabilidade, o pragmatismo se olharam e perceberam que eram nada sem o sonho e aí a campanha do Giva veio mostrar que uma coisa não se faz sem a outra. E liberou o sonho, liberou a vontade de conversar com as pessoas e pensar organização junto, e disputar política junto, por que é isso que faz o sonho, nos organiza para ir lutar e mudar a vida.

Aquela máxima de que sozinho ninguém faz nada, que a força para um vereador está nas lutas com as quais ele constrói para destruir o status quo e não mantê-lo. Eu vi o meu sonho que antes era sozinho se juntar com outros sonhos e com outras esperanças. A história recente mostra que um parlamentar do PSOL faz diferença dentro das casas legislativas, a minha história pessoal me mostra que além de fazer a diferença na Câmara de Vereadores o Giva vai resgatar os nossos sonhos e esperanças, como o Roseno faz em Fortaleza e o Freixo no Rio de Janeiro.

No dia 7 de outubro eu vou votar no Giva, vou apertar com felicidade o 50055 na urna eletrônica. Por que sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é REALIDADE.

Como se elegem os vereadores?

Sexta após o primeiro debate entre candidatxs estava de bate-papo com o Edu Amaral, do a propósito…, sobre a performance dxs candidatxs, textos antigos e comentei que adorava um texto feito por ele e por um outro amigo nosso sobre como funcionam as eleições proporcionais, a primeira versão do texto era sobre as eleições nacionais e estaduais e pode ser lida aqui.

Agora eles fizeram uma nova versão do texto para as eleições municipais e o Edu me repassou para postar aqui no blog, então se tu te interessas como funciona a máquina política brasileira e quer saber se sua/seu candidatx irá se eleger e como sente e leia com atenção o texto do Edu e do Matheus.

A eleição de vereadores, assim como a de deputados, é chamada de proporcional. Este texto pretende explicar como funciona a eleição proporcional.

O município de São Paulo tem direito a 55 vereadores. Não serão necessariamente os 55 mais bem votados que serão eleitos. A conta funciona do seguinte modo:

O total de votos válidos é dividido pelo total de vagas para se chegar ao quociente eleitoral. São considerados votos válidos os votos nominais – no número do candidato – e os votos de legenda – no número do partido. Brancos e nulos são inválidos e não contam. A votação para prefeito não interfere em nada na eleição para vereador: cada eleição é independente da outra.

Somos 8.619.170 eleitores na cidade de São Paulo. Hipoteticamente, se todos votarem e ninguém anular ou votar em branco para vereador – portanto, considerando os 100% dos votos como válidos, o quociente eleitoral será de 156.713 votos. Somente os partidos, ou coligações, que alcançarem esse quociente eleitoral, têm direito a eleger vereadores.

Os partidos podem se coligar. Na prática, isso significa que os partidos coligados formam um único partido para a eleição. A votação da coligação é a soma de todos os votos nominais e de legenda. O voto na legenda não é contado somente para os candidatos daquela legenda, mas para todos os candidatos da coligação. Os partidos podem ter diferentes coligações para os diferentes cargos. O PA pode se coligar com o PB para a eleição de vereadores e com o PC para a eleição majoritária, do prefeito.

Vejamos a seguinte situação. A coligação Azul fez 160 mil votos, superando assim o quociente eleitoral. João, o seu candidato mais bem votado, que teve 60 mil votos, será eleito. José, da coligação Amarela, obteve 150 mil votos, porém, o total de votos da coligação foi de 153 mil, não superando assim o quociente. José não será eleito, mesmo tendo mais votos do que o João.

Outra situação. A coligação Verde, formada pelo Partido X e o Partido Y, obteve 500 mil votos e pode eleger 3 vereadores. Os votos na legenda PX totalizaram 200 mil. Porém, os 3 candidatos mais bem votados da coligação são do PY. Deste modo, nenhum candidato do PX será eleito mesmo com a legenda PX tendo obtido mais votos do que o quociente eleitoral.

Nesta eleição, de 2012, o PT está coligado nas eleições proporcionais com o o PSB, de Luiza Erundina, mas também com o PP, de Paulo Maluf. Isso significa que todos os votos, nos candidatos do PT, PP e PSB – nominais e de legenda – vão para o total da coligação.

Por fim, quando você vota em um candidato a vereador, você está votando automaticamente em todos os candidatos da coligação. Numa eleição proporcional nunca se vota apenas em uma pessoa, o voto sempre conta para toda coligação do qual seu partido faz parte. O voto no honesto que está coligado ao desonesto ajuda também o desonesto. Pense nisso antes de votar.

O voto no PSOL, 50

Na cidade de São Paulo, o PSOL está coligado com o PCB. Nossos candidatos a vereador estão comprometidos com as tranformações sociais necessárias para avançarmos na democracia, com participação popular, sob uma perspectiva socialista.

A coligação não receberá nenhum dinheiro de empreiteiras, do setor imobiliário, de Bancos e que financiam as campanhas milionárias dos outros partidos e que não fazem isso de graça: depois cobram a fatura em ações (e licitações) que os beneficiem. Nossas campanhas funcionam em outras bases – com a contribuição generosa de nossos militantes e dos movimentos sociais críticos ao estado de coisas que assistimos em nossa cidade e no país e que exigem mudanças e inversão nas prioridades do poder público. Nossa futura bancada será de lutadores sociais, comprometidos com os movimentos sociais.

Contudo, a eleição na cidade de São Paulo é uma eleição difícil. Se nas eleições estaduais de 2010 o quociente eleitoral foi de 300 mil votos no Estado de São Paulo inteiro — e conseguimos ultrapassá-lo, elegendo no entanto apenas um deputado federal, Ivan Valente, e um estadual, Carlos Giannazi, e que têm demonstrado o quanto o PSOL é um partido necessário, para fazer o contraponto às bancadas governistas e de oposição à direita – o quociente eleitoral nas eleições municipais da capital é enorme, quase a metade dos votos necessários na última eleição, apenas na cidade de São Paulo. Também pense nisso antes de votar.

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