A eterna misoginia de Bolsonaro e estupro como manutenção de poder

Não é algo novo o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, apresentar em seus discursos sua concepção militarista, machista, homolesbobitransfóbica e racista de sociedade. Óbvio que no dia que antecederia a entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade à presidente Dilma ele reafirmaria sua faceta de representante do setor mais reacionário da sociedade e do Congresso Nacional.

Nesta terça, durante os pronunciamentos dos parlamentares na Câmara dos Deputados, Bolsonaro reafirmou que só não estupraria a deputada federal do PT-RS Maria do Rosário por que ela não merecia.

“Fica aí, Maria do Rosário. Fica aqui para ouvir. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei: ‘Não estupraria você porque você não merece'”, foi como Jair Bolsonaro iniciou sua intervenção no plenário sobre o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

O início da fala de Bolsonaro se remete a episódio acontecido em 2003 nos corredores da Câmara dos Deputados quando o deputado chamou Maria do Rosário de vagabunda, a empurrou e disse que só não a estuprava por que ela não merecia. Não é a primeira vez, nem a última que Jair Bolsonaro demonstra todo seu escárnio por aqueles que são mais marginalizados socialmente do que ele.

A primeira coisa importante a se lembrar é de que estupro no Brasil é crime hediondo, para além disso é bom lembrar que esta forma de violência contra mulheres, lésbicas, homens e mulheres trans também é uma foram de nos retirar a humanidade. Tanto que  estupro é usado amplamente como arma de guerra em diversos conflitos pelo mundo, justamente por ser uma forma de destabilizar comunidades inteiras. Estupro é sempre uma questão de poder e é isso que Bolsonaro acaba reivindicando ao reafirmar que esta ou aquela mulher não “merece” ser estuprada.

Porém usar violência sexual como arma de guerra não é especificidade da Líbia, tal tática é usada amplamente em diversos conflitos no mundo, como já vem alertando a Anistia Internacional há bastante tempo. Normalmente as mulheres são vistas como símbolos de honra nos povoados, assim os ataques às mulheres e meninas são formas de subjugar e desmoralizar os homens de determinada região, ajudando assim a espalhar o medo e afugentar as pessoas. As mulheres vítimas de violência sexual em territórios de conflitos não sofrem apens de traumas psicológicos e emocionais por conta dos abusos, mas também sofrem com o receio de serem negadas por suas famílias. (FRANCA, Luka. Estupro não questão de sexo, é questão de poder)

Bom lembrar da importância da campanha “Eu não mereço ser estuprada” deflagrada pelas redes sociais no começo deste ano após divulgação de pesquisa realizada pelo IPEA sobre o tema. A questão é que a reafirmação de Bolsonaro demonstra profundamente o quanto da desumanização das mulheres ainda existe e é perpetuada pela cultura do estupro em nossa sociedade. O quanto o se utilizar da coerção sexual é algo colocado como aceitável para ensinar a todxs que subvertem o local social atribuído a cada gênero o que devem fazer e quais lugares devem ocupar de forma submissa e inquestionável.

A misoginia manifesta de Jair Bolsonaro já teve como alvo não só Maria do Rosário, como Marta Suplicy e Marinor Brito em 2001 quando do debate sobre os direitos LGBTs no Senado. Em todas as vezes a postura do macho branco hetero que coloca as mulheres que ousam questionar e se posicionar politicamente se reforça. O “coloquei fulana no seu devido lugar” é o demonstrar com truculência de que a política não é o lugar das mulheres e que ao estarem nestes espaços elas devem apenas cumprir seu papel histórico: o de baixar a cabeça e se submeter aos homens do Congresso Nacional.

Infelizmente Bolsonaro não representa apenas sua opinião própria. Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro reforçando um cenário de Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Suas opiniões marcadas pelo desprezo as lutas por igualdade e pelo fim da exploração e genocídios diversos existentes na nossa história estão hoje mais uma vez no Congresso Nacional. Bolsonaro ao dizer que Maria do Rosário “não merece ser estuprada” ataca a todas as mulheres que já foram vítimas ou não de violência sexual, ignora que em 2013 o número de estupros em nosso país foi maior do que o de homicídios dolosos.

Inclusive dando vazão para a perpetuação desta forma de violência e de tortura. Cabe sempre a nós apontar e reivindicar que a violência sexual não é aceitável, a ameaça – seja velada ou não – de estupro a qualquer mulher demonstra o quanto precisamos realmente avançar na emancipação e empoderamento de todxs aquelxs que são marginalizdxs na nossa sociedade.

A violência nossa de cada dia

sexismomataViolência contra mulher não é um debate novo na sociedade em que vivemos. Não dá pra contar nos dedos a quantidade de casos de violência sexual, agressão física, assédio moral enfrentado pelas mulheres cotidianamente, seja de uma forma mais velada, seja de forma mais explícita.

A questão é de que se do ponto de vista moral se ganhou a lógica do “em mulher não se bate nem com uma flor” na prática é mais fácil escondermos nossos demônios cotidianos ao invés de encará-los da forma que são: fruto de uma sociedade patriarcal, capitalista e racista que se aproveita da violência individual cotidianamente vivida por nós para manter o status quo, manter quem é marginalizado e invisibilizado à margem e invisível.

Caso mais recente que podemos apontar é o que ocorreu na Medicina da USP, onde uma série de denúncias graves sobre violências sexuais e castigos físicos ocorridas durante décadas na gloriosa faculdade de Pinheiros vieram à tona e a resposta ao desvelar do preconceito naquela instituição foi a perseguição. Não será a primeira e, infelizmente, não será a última vez que iremos nos deparar com denúncias sobre trotes machistas, racistas, homolesbobitransfóbicos nas faculdades brasileiras, só lembrar do caso da Unesp e o “Rodeio das Gordas” há poucos anos.

charge-rodeio26x22Os invisíveis, aqueles que são alvo de opressões que não devem ser expostas, existem para servir os bem-sucedidos. São praticamente sua propriedade e não devem levantar a cabeça para questionar a opressão vivida. Até por que na lógica formal “não se bate em mulher nem como uma flor”, “existe uma democracia racial no Brasil” e “até tenho um amigo gay”, estamos resolvidos na questão da igualdade entre os invisíveis (mulheres cis e trans, homens trans, negras, negros, indígenas, gays, bissexuais, lésbicas, deficientes e tantas outras figuras consideradas menores na nossa sociedade), só que muito pelo contrário.

Acaba de sair mais uma pesquisa sobre violência contra mulher, dessa vez focando nas relações afetivas entre jovens e os dados assustam – sempre vão assustar, por que na hora que não assustarem mais é por que não somos mais pessoas e sim um bando de robô. Primeiro por que demonstram que há uma noção de que a sociedade é machista, de acordo com a pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, 96% das pessoas entrevistadas reconhecem que há machismo entre nós.

Violencia_machista_3Ao mesmo tempo que há essa identificação, há também a constatação de o quanto apenas termos noção que a sociedade é machista e patriarcal não significa imediata modificação nos valores morais das pessoas. O julgamento sobre se é certo ou não a mulher ir pra cama no primeiro encontro, se a mulher deve ou não ter diversos ficantes, se pode ou não sair sem o namorado só demonstra o quanto ainda precisamos avançar, e mais do que tudo, o quanto este debate é fundamental de ser feito com a juventude.

Além disso, a pesquisa demonstra um quadro preocupante de violência machista e assédio moral entre a juventude brasileira. O levantamento feito pelo Data Popular aponta que 75% das jovens entrevistadas já sofreram algum tipo de violência machista e que 66% dos jovens já cometeram alguma forma de violência contra a companheira.

MachismoO mais preocupante é que a perpetuação da violência machista junto a juventude se dá na reprodução de situações vividas na casa dos próprios jovens. A estrutura de opressão das mulheres se perpetua pela naturalização, pela banalização do que deveria ser considerado atroz. Empurrar, stalkear, passar a mão na bunda e tantas outras formas de violência contra mulheres na maioria das vezes é tomada de forma naturalizada, inclusive, por menorizada.

A pesquisa divulgada hoje, apenas constata o cotidiano que vemos nas escolas, universidades e locais de trabalho. Apenas demonstra o quanto as mulheres ainda são encaradas como propriedades e não como seres de desejos e vontades. Tenho certeza de que se fizéssemos um recorte racial sério na pesquisa veríamos o processo ainda maior de naturalização d mulher negra devido ao ideário de exotismo e o lugar mais aprofundado que ocupamos no processo de objetificação de nossos corpos e vidas.

É por vivermos nesta realidade que enfrentamentos como o que hoje ocorre na Medicina da USP ou o que já ocorreu na Unesp são fundamentais para mostrar que não está tudo bem, pois todos os dias o machismo agride e mata e a resposta a isso só pode ser dada com a organização das mulheres para desconstruir o patriarcado cotidianamente na vida privada e na vida pública e é por isso que o feminismo não mata e nem agride ninguém, mas é ferramenta fundamental para a nossa emancipação.

Em Minas, desembargador culpabiliza mulher vítima de slut shaming

O processo de culpabilização das mulheres cis e trans numa sociedade patriarcal é algo com que nos deparamos cotidianamente. Seja ao enfrentar a possibilidade de sermos violentadas ao andarmos pelas ruas, tomarmos um transporte público lotado ou, o que é mais frequente, enquanto estamos em nossas casas ou em casas de entes queridos. Nunca é o bastante relembrar que 77% dos casos de estupro as vítimas conhecem seus algozes.

Fonte: A Lofty Existence

Fonte: A Lofty Existence

Além da violência física que estamos propensas a sofrer cotidianamente nesta sociedade machista e que necessita de superação, também somos cotidianamente atacadas psicologicamente e talvez uma das coisas mais violentas que temos visto se proliferar é o slut shaming de adolescentes e jovens ao serem expostas pelos ex nas redes sociais.

A realidade imposta pelo slut shaming e a cultura do estupro é lamentável: a sexualidade feminina não pertence às próprias mulheres – quando existe, é para satisfazer os homens. Mulheres lésbicas são vistas como objetos fetichistas para a masturbação masculina, constantemente questionadas e pressionadas a aceitar homens em seus relacionamentos, resultado de uma imposição falocêntrica que não admite nenhum sexo sem a presença de um pênis. Mesmo que mulheres trans se relacionem com mulheres cis em um relacionamento lésbico, a validação física se dá de modo cissexista e a própria lesbianidade de ambas é posta em dúvida. (ARRAES, Jarid. Cultura do estupro e slut shaming)

Pois bem, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais julgou o caso de uma moça que teve imagens eróticas disponibilizadas publicamente por um ex-namorado. Segundo o revisor do caso, desembargador Francisco Batista Abreu, a vítima da exposição realizada pelo ex-namorado de momentos íntimos também era culpada pelo acontecido. “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida”, afirmou Abreu durante o julgamento da ação.

As demais afirmações feitas pelo desembargador mineiro durante o julgamento do caso em questão só demonstram a profundidade do machismo em nossa sociedade e, obviamente, na justiça brasileira que tende a ajudar a manter as estruturas de sociedade como elas estão, ou seja, mantemos o status quo, pois esse status quo beneficia aos homens cis brancos e héteros.

A negação e culpabilização da sexualidade feminina é uma das formas mais indeléveis de se manter as correntes do machismo em nossa sociedade, quando apontamos os valores de moralidade de manutenção de uma estrutura social que pretende manter a desigualdade entre homens e mulheres estamos apontando que a liberdade sexual só pode ser assegurada para os homens cis e qualquer outra pessoa que a quiser exercer será culpabilizada se sofrer alguma forma de coação por exercer sua sexualidade livre.

Nenhuma mulher cis ou trans em um relacionamento, seja ele qual for, espera que a ex-companheira ou ex-companheiro a exponha a tal forma de violência psicológica. Ao naturalizarmos tais condutas o próprio imaginário coletivo da sociedade em que vivemos consolida estes padrões machistas de como lidar com os términos de relacionamento de forma possessiva, inclusive, expropriando a sexualidade alheia.

Ao culpabilizarmos as vítimas de slut shaming, ao institucionalizarmos a lógica de que existe um padrão moral para seguirmos e o não seguir este padrão justificaria nossa exposição ao assédio generalizado e, muitas vezes, massificado simplesmente fechamos os olhos para a barbárie diária que aflinge as adolescentes e jovens no Brasil e restante do mundo.

O fato da justiça brasileira notoriamente mais ajudar a manter a desigualdade entre homens e mulheres do que trabalhar para eliminá-la é notória. Como já disse a justiça serve a esta sociedade na forma como ela está arquitetada, ou seja, nos marginalizando e culpabilizando. Este fato, no entanto, não isenta de responsabilidade quando um desembargador protagoniza um processo de culpabilização das vitimas de uma sociedade patriarcal.

Na verdade, seria muito bom o movimento feminista cobrar retratação da postura desse desembargador junto ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Até por que não é nossa culpa sofrermos as violências que sofremos.

 

Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa

A existência de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público não é um debate de hoje no Brasil, desde que o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro a eficácia desta medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos transportes de massa é problematizada.

Esta semana foi aprovada pela ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo) a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de um setor do movimento feminista compreender isso como vitória eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da medida para o combate a violência machista como um todo, seja no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um dado importante desta votação é que apenas homens foram favoráveis a medida.

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

A primeira questão a ser considerada é o fato de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte público, ou seja, mais da metade da população que encaram as latas de sardinha diariamente. Aí está a primeira problemática: Como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema metroferroviário do estado já está em total colapso?

Como sabemos, lei parecida com a do vereador Alfredinho já está em vigor no Rio de Janeiro desde 2006. É a Lei 4.733/2006, que em nada resolveu no fato de que as mulheres são assediadas, abusadas e estupradas nesse espaço, como demonstra a matéria do Portal R7: “Linha do medo: homens invadem vagão exclusivo para mulheres“. Ao contrário, sem qualquer mecanismo de regulação e fiscalização da implementação da Lei, os homens passaram a ocupar os vagões destinados somente por mulheres. (MARQUES, Léa e RODRIGUES, Patrícia. Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público)

O processo de se segregar em vagões distintos homens e mulheres não avança no combate ao machismo estrutural existente no capitalismo, na verdade apenas avança no processo de culpabilização da vítima, ou seja, uma mulher que não consiga entrar no vagão destinado a ela e usar qualquer um dos outros vagões e sofrer algum tipo de abuso seria considerada culpada pela violência sofrida por não estar onde a lei manda: no vagão rosa.

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Defender o segregacionismo nunca foi uma máxima feminista, muito menos uma máxima socialista. Os setores que na sociedade normalmente defenderam formas segregacionistas para resolver os problemas que fossem, normalmente, flertavam com a extrema direita e isso não se pode perder do nosso horizonte.

Além do mais, devo frisar: os assediadores do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos homens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fazendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusive em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer uma parte do problema. (AVERBUCK, Clara. Vagão para mulheres: segregar não é proteger)

Em junho de 2013 jovens do Brasil todo se levantaram pedindo diminuição da tarifa dos transportes públicos e melhoria nestes serviços. Óbvio que estas melhorias passam necessariamente pela garanti de que mulheres cis e LGBTs possam usar o transporte público sem o medo de sofrer violência. Na proposta sancionada pelo governador Geraldo Alckmin não se pensa em nenhum momento em como será garantida a integridade física de mulheres e homens trans que forem vetados a entrar nos tais vagões rosa, relegar a outro setor marginalizado o lugar da violência cotidiana que sofremos é justo? Avança para a luta por uma sociedade de mais igualdade?

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

A criação do vagão rosa não enfrenta o problema da violência machista nos transportes públicos de forma contundente, apenas ajuda a colocar o problema para debaixo do tapete. Não coloca no centro do debate que a violência existente no metrô e trem são fruto da lotação enorme do transporte público que é garantida pela falta de investimentos nas ampliações das frotas e do pessoal com treinamento necessário para manter e fazer funcionar metrô e trem.

O sufoco sofrido por nós mulheres nos trens, metrôs e ônibus se resolveria se não tivesse casos de corrupção no transporte público como o revelado pelo Caso Alstom/Siemens no começo do ano. Se o dinheiro destinado ao transporte público de qualidade fosse realmente usado para garantir transporte público de qualidade e não ajudando a financiar cartéis empresariais como aconteceu no metrô.

Não, não precisamos de segregação que amplie o processo de culpabilização da violência que nós sofremos. Precisamos é que se encare o problema a fundo e se garanta que não existam transportes públicos superlotados facilitando a ocorrência de crimes de oportunidade. Precisamos da garantia do nosso direito a fruir o espaço público sem restrições e, sobretudo, não podemos nos valer de reformas que não avancem para a luta das mulheres e LGBTs em nosso país e o vagão rosa hoje só ajuda a aprofundar a culpa que a sociedade nos impõe pela violência que sofremos.

Quando a violência é com prostituta e é invisibilizada. De que lado nós sambamos?

Demorei para conseguir organizar as ideias para este texto, achei que encontraria mais reflexões na blogosfera feminista sobre a truculência da PM-RJ junto as trabalhadoras do sexo do prédio da Caixa de Niterói. Bem se sabe que estamos em processo acelerado em diversas cidades brasileiras de reorganização, não necessariamente uma reorganização que vá incluir aqueles setores sociais mais marginalizados, na verdade o que temos visto com esse processo de reorganização – protagonizado pela Copa do Mundo e Olimpíadas – é justamente o aprofundamento da gentrificação e higienização social dos grandes centros urbanos.

Pois bem, na última semana centenas de mulheres que prestavam serviço sexual no prédio da Caixa Econômica Federal de Niterói foram brutalmente retiradas do local pela PM-RJ, ação que já nos coloca uma reflexão: No Brasil ser prostituta não é crime, então por que as mulheres que exercem são cotidianamente vítimas de criminalização e violência?

A minha questão neste texto não é debater qual a melhor linha de pensamento para se tratar do tema da prostituição: regulamentarismo, abolicionismo ou proibicionismo. Até por que minha posição em geral está melhor resumidas nestes dois textos do Bloqueiras Feministas: Prostituição: por que seguimos ignorando o que elas estão nos dizendo? e Nem toda prostituta é Gabriela Leite: prostituição, feminismo e leis. Meu objetivo com esse post é refletir o por que um setor tão marginalizado e invisibilizado pela sociedade patriarcal, racista, homolesbobitransfóbica e capitalista quando sofre uma violência brutal com a de ser desalojado de maneira truculenta pela PM-RJ isso não gera indignação de uma gama de lutadores e lutadoras sociais diversos?

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Inclusive por que este processo de gentrificação em cima das mulheres que trabalham na rua não é algo específico de Niterói. Em São Paulo, na região da Luz, as mulheres que lá prestam serviços sexuais são assediadas pela PM-SP para saírem do local antes do início da #CopaDasCopas pois ali será um espaço a ser ocupado por turistas. Pelo relato da Cleone do GMEL, elas tem resistido, mas a preocupação com qual será a resposta a esta resistência por parte dos governos estadual e municipal é grande. Provavelmente haverá mais tiro, porrada e bomba.

Ou seja, mulheres estão sendo retiradas violentamente dos locais onde trabalham – no caso de Niterói há denúncias de estupros por parte da PM-RJ durante a operação, inclusive com eles justificando que estuprar prostituta não era crime – e a movimentação de solidariedade a elas por conta destas violências é muito pouca. Independente se consideramos a prostituição como uma violência em si ou não, o processo de criminalização a estas mulheres está se recrudescendo e a tendência é ficar pior e nós iremos fingir que este problema não é conosco também?

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Neste processo de recrudescimento do higienismo social, da criminalização da pobreza e violência policial o lado das feministas deve ser o lado de quem vem sendo invisibilizada e massacrada por essa política de exclusão promovida pelos governos e megaeventos. Não denunciar as violências que vem sendo impetradas a estas mulheres cis e trans é coadunar com o higienismo social no Brasil. Nossa tarefa não é invisibilizar setores, nossa tarefa é nos aliar com xs indesejáveis para realmente mudar o mundo e acabar com o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e capitalismo.

É claro que não é todo homem que odeia mulher. Mas todo homem se beneficia com o sexismo

A Daniela Abade acabou de traduzir esse texto da Laurie Penny, publicado originalmente na New Statesman em agosto de 2013, e autorizou a replicação da tradução aqui no Bidê Brasil. Achei super interessante, pois cada vez é mais nescessário apontar o como a organização social na qual vivemos é diretamente responsável pela nossa opressão cotidiana.

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Isso vai machucar. Nos últimos meses foi quase imposível abrir um jornal ou ligar a TV sem encontrar uma história sobre alguma garota menor de idade que foi estuprada, alguma política que foi assediada ou outra mulher trans que foi assassinada. Mas enquanto mulheres, garotas e um número crescente de aliados masculinos começaram a se manifestar contra o sexismo e a injustiça uma coisa curiosa começou a acontecer: pessoas estão reclamando que falar de preconceito é uma forma própria de preconceito.

Hoje em dia, antes de falarmos de misoginia, as mulheres são cada vez mais questionadas a modificar sua linguagem para não machucar os sentimentos masculinos. Não diga “O homem oprime as mulheres – isso é sexismo, um sexismo tão ruim como o que qualquer outra mulher tem que lidar, talvez pior. Em vez disso, diga: “Alguns homens oprimem as mulheres”. O que quer que você faça, não generalize. Isso é coisa que homens fazem. Não todos os homens – só alguns.

Esse tipo de discussão semântica é uma maneira muito eficiente de fazer as mulheres se calarem. Afinal de contas, a maioria de nós aprendeu que ser uma boa menina é colocar o sentimento de todos os outros na frente do seu. Nós não devemos dizer o que sentimos se há alguma chance de chatear alguém ou, pior, fazer alguém ficar com raiva. Então suprima seu discurso com desculpas, advertências e sons tranquilizantes. Nós reafirmamos a nossos amigos e homens que amamos que “você não é um desses homens que odeia mulheres”.

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O que nós não dizemos é: é claro que não é todo homem que odeia mulheres. Mas a cultura odeia mulheres, então os homens que crescem em uma cultura sexista tem a tendência de fazer e falar coisas sexistas, mutas vezes sem a intenção. Nós não estamos julgando você por quem você é, mas isso não quer dizer que você tem que mudar seu comportamento. O que você sente pelas mulheres no seu coração é de menor importância imediata do que como você trata mulheres cotidianamente.

Você pode ser o homem mais gentil e doce do mundo e ainda assim se beneficiar do sexismo. É assim que a opressão funciona. Milhares de pessoas que por um lado são decentes aceitam um sistema injusto porque desse jeito o transtorno é menor. A resposta apropriada quando alguém exige uma mudança nesse sistema injusto é ouvir, em vez de virar as costas ou gritar, como uma criança faria, porque não é culpa dela. E não é sua falta. Eu tenho certeza que você é adorável. Mas isso não quer dizer que você não tem responsabilidade de fazer alguma coisa a respeito disso.

Sem evocar estereótipos bobinhos de gênero sobre capacidade de realizar multitarefas, nós todos podemos concordar que é relativamente fácil armazenar mais de uma ideia no cérebro humano. O cérebro é um órgão grande, complexo, mais ou menos do tamanho e do peso de uma couve-flor bem feia e podre – e ele tem espaço para muito lixo, tramas de TV e até o número de seu ex que você não deveria ligar depois de seis doses de vodka. Se ele não pudesse armazenar grandes ideias estruturais e, ao mesmo tempo, algumas pessoais, nós nunca teríamos descido das árvores e construídos coisas como cidades e kinoplexes.

Então não deveria ser tão difícil explicar para o homem médio que você, enquanto indíviduo, cuidando da sua vida, comendo cereais e jogando BioShock2, pode não odiar ou machucar as mulheres; mas você, incluído no grupo masculino, homens, como estrutura, vocês certamente o fazem. Eu não acredito que a maioria dos homens seja tão estúpida para não entender essa diferença, e se eles entendem – e se eles podem diferenciar, precisamos intensificar nossos esforços de impedir que eles comandem quase que a totalidade dos governos globais.

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De alguma forma ainda é difícil falar com homens sobre sexismo sem encontrar uma parede de resistência que faz sombra a uma indiscutível hostilidade, até violência. Raiva é uma resposta completamente apropriada ao entender que você está envolvido em uma sistema que oprime as mulheres – mas a solução não é dirigir essa raiva às mulheres. A solução não é calar o debate nos acusando de “sexismo às avessas”, como se de alguma maneira isso fosse equilibrar o problema e evitasse que você se sentisse tão desconfortável.

Sexismo deve ser desconfortável. É doloroso e enfurecedor está no lado receptor de ataque misóginos e também doloroso assistir eles acontecendo sabendo que você está implicado nisso, mesmo sem ter escolhido. Você deve mesmo reagir quando é avisado que um grupo do qual você faz parte está ativamente ferrando com a vida de outros seres hmanos, da mesma forma que você deve reagir quando um médico bate um martelo em seus joelhos. Se ele não se mexe, algo está terrivelmente errado.

Dizer que “todo homem está envolvido na cultura do sexismo” – todo homem, não somente alguns homens – pode parecer uma acusação. Na verdade é um desafio. Você, homem individual, com seus sonhos e desejos individuais, não pediu para nascer em um mundo onde ser um garoto lhe daria vantagens sociais e sexuais sobre as mulheres. Você não quer viver em um mundo onde garotinhas são estupradas e depois são acusadas de terem provocados seus estupradores em uma corte; onde o trabalho das mulheres é mal remunerado ou não remunerado; onde nós somos chamadas de putas ou vadias por exigir igualdade sexual. Você não escolheu isso. O que você vai escolher, agora, é que é o que muda tudo.

Você pode escolher, como homem, ajudar a criar um mundo mais justo para mulheres – e para homens também. Você pode escolher desafiara misoginia e a violência sexual onde quer que você a encontre. Você pode escolher se arriscar e gastar sua energia apoiando mulheres, promovendo mulheres, tratando as mulheres da sua vida como verdadeiramente iguais. Você pode escolher se levantar e dizer não e, todo dia, mais homens e garotos estão fazendo essa escolha. A pergunta é: você vai ser um deles?

Em Pernambuco, governo exonera secretário após declarações bizarras sobre estupro

Para quem não acompanhou as notícias de Pernambuco e as declarações lamentáveis do ex-secretário de defesa social daquele estado é só ler as matérias divulgadas nessa semana. Segundo a última informação que tive a é que Damázio foi exonerado, para além, segue a nota da setorial de mulheres do PSOL de Pernambuco sobre o caso.

Nota de repúdio do Setorial de Mulheres do PSOL-PE contra as declarações do Secretário de Defesa Social do Governo de Pernambuco Wilson Damázio

O setorial de Mulheres do PSOL-PE, através dessa nota, repudia as declarações de Wilson Damázio, o tratamento dados aos casos de abuso e violência sexual no Estado de Pernambuco e os crimes de violência sexual cometidos pela polícia, exigindo um outro modelo de segurança pública, baseado no respeito aos direitos de crianças, adolescentes, mulheres, LGBTs, em particular, das(os) que vivem nas comunidades pobres, que cotidianamente tem seus direitos violados pelo próprio Governo, através da perpetuação da violência.

As palavras do secretário, os atos dos policiais envolvidos em crimes contra as comunidades pobres e a naturalização e impunidade desses casos revelam toda discriminação direta e indireta contra determinados setores e o preconceito de gênero, raça, orientação sexual e classe arraigados em nossa sociedade e no sistema de segurança pública, que atua contra negras(os), pobres, prostitutas, homossexuais, trabalhadoras(es) e movimentos sociais.

Um paralelo importante feito pela Jornalista Fabiana Moraes, em alusão aos 80 anos de publicação da Obra Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre só revela que patriarcado brasileiro permanece e se atualiza. Longe de ter sido superado, arrasta-se desde o período colonial, quando a expansão numérica do povoamento brasileiro praticamente se deu pela dominação e arbitrariedade masculina no uso da violência sexual contra as negras e índias. 

O estupro colonial, violência perpetrada pelos senhores brancos contra índias e negras, permanece na violência sexual cometida por policiais a uma mulher de 28 anos que foi prestar queixas e buscar ajuda na delegacia e quando é aceita e naturalizada, por ser tratar provavelmente de uma prostituta. Permanece quando o secretário de Defesa Social diz “aqui tem muitos problemas, com mulheres, principalmente…Elas às vezes até se acham porque estão com policial. O policial exerce um fascínio no dito sexo frágil… Eu não sei por que é que mulher gosta tanto de farda”. Quando ele reproduz em seu discurso e a polícia em suas ações o machismo, o ódio de classe e o racismo ao empregar meninas na SDS para trabalharem na limpeza da secretaria, perpetuando a lógica da senzala. Damázio também reproduz toda a homofobia institucional ao comparar o desvio de conduta da polícia com a livre orientação sexual, senão vejamos: “desvio de conduta a gente tem em todo lugar. Tem na casa da gente, tem um irmão que é homossexual, tem outro que é ladrão, entendeu? …Então, em todo lugar tem alguma coisa errada, e a polícia… né? A linha em que a polícia anda, ela é muito tênue, não é?”

Diante da situação, nos somamos ao coro daquelas (es) que exigem medidas reais contra a postura do Secretário Wilson Damázio, contra o preconceito institucionalizado e contra o tratamento que vem sendo dado pela segurança pública aos casos de violência sexual e os crimes cometidos no interior da própria polícia contra meninas e mulheres.

Setorial de Mulheres do PSOL Pernambuco

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