Paulinho da Força e a defesa da reificação da mulher

Já faz algumas semanas que o conflito em Jirau tem aparecido pela mídia, abrindo um vasto debate sobre direitos trabalhistas, aliciamento e até mesmo sobre o PAC, visto que é em Rondônia o maior canteiro de obras do programa até agora.

A destruição de parte do canteiro de obras da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, causada por protestos de trabalhadores, tem sido pauta nos últimos dias. O quiprocó teria começado com uma briga entre operários e motoristas da obra, a maior em curso no país. Mas pavio aceso só explode se tiver pólvora por trás. E esta seriam as condições a que estariam submetidos os trabalhadores, o que inclui reclamações por falta de tratamento decente aos doentes, pagamento de hora extra e o não cumprimento das promessas dos recrutadores que trouxeram mão-de-obra para a usina. (SAKAMOTO, Leonardo)

O tema tem sido amplamente tratado por blogs e portais anti-capitalistas, porém a declaração do presidente da Força Sindical e deputado federal Paulo Pereira –  mais conhecido como Paulinho da Força – durante uma reunião com o governo para debater a situação de Jirau me fez querer dar pitaco na história. O deputado-sindicalista teria dito neste encontro entre diversas centrais sindicais e o governo federal:

Como é que bota na selva amazônica centenas de homens sem mulher? Era preciso ter bordéis nos canteiros de obras.

Nas últimas semanas tenho sido bem incisiva sobre qual é o lugar da mulher e do feminismo na política e como os movimentos sociais tratam o tema e tal afirmação do presidente de uma das maiores centrais sindicais do país demonstra quanto ainda precisamos avançar sobre o debate de qual é o lugar da mulher na sociedade, quando o Paulinho da Força resume o problema de Jirau como se casa de tolerância e violência contra a mulher resolveriam o impasse ele apenas ajuda a perpetuar a reificação da mulher e a diminuição de seu papel n mundo. Parece que somos apenas um punhado de objetos feitos para satisfazer os homens em momentos e situações críticas, pois sim os trabalhadores de Jirau não teriam quebrado o canteiro de obras se tivessem a cara de uma mulher para quebrar e sendo elas prostitutas muito melhor, pois quem se preocupa com prostitutas, não é?

O debate que ronda Jirau é o de falta de direitos trabalhistas, situação de trabalho insalubre, em resumo um barril de pólvora que estava prestes a explodir, porém ao que parece seria melhor ter explodido no lombo das mulheres do que no canteiro de obras, como pode, né? Empregar centenas de homens em Rondônia, não dar condições para trabalhar e muito menos uma casa de tolerância para os trabalhadores terem onde desovarem suas frustrações com abusos sexuais, violências física e o escambau, sem entrar no debate do quanto isso ajudaria ao tráfico de pessoas no país, principalmente de crianças.

Mesmo passando o necessário filtro nos rumores e boatos que correm de um lado para o outro nessas horas quentes, ainda assim o que sobra já dá para arrepiar o cabelo. Denúncias de maus tratos, condições degradantes, violência física. Coisas que acionistas de grandes empresas não gostam de ver exposto por aí e, por isso, são repetidas vezes negadas pelos serviços de relações públicas ao longo de anos.

O que aconteceu em Jirau tem um mérito: escancarou a caixa preta das grandes obras ligadas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), trazendo à tona o que vem sendo alardeado há tempos por movimentos sociais e organizações da sociedade civil: que esses canteiros se tornaram máquinas de moer gente – noves fora os impactos ambientais e nas populações locais. (SAKAMOTO, Leonardo)

A declaração do deputado-sindicalista só reforça a necessidade que temos de disputar também ideologicamente qual é o lugar da mulher na sociedade, não somos válvula de escape de panelas de pressão trabalhistas e políticas, somos parte desta bárbarie cada vez mais recrudescida no mundo e se o debate não for feito casado com as demandas da classe trabalhadora é isso que veremos os sindicalistas reafirmarem em situações limites as máximas: mulher divide o movimento com suas pautas, se tivesse bordel nos canteiros de obra não haveriam revoltas e a clássica afirmação da histeria coletiva feminista. Se aqueles que pretendem mudar as relações trabalhistas e econômicas do mundo não incluirem em suas discussões o feminismo não conseguirão realizar seus objetivos, pois – pelo menos pra mim – a luta feminista esta casada com a luta socialista e não há como falar em luta de classes sem falar da opressão de gênero que ajuda na base do sistema capitalista.

Fazer a dissociação entre a luta política e a luta contra o machismo é, no mínimo, cruel com as mulheres, pois não são lutas dissociadas. É preciso dizer com todas as letras, sempre que possível, que não haverá transformação real se isso não passar pela transformação social das relações entre homens e mulheres. (Barricadas Abrem Caminhos)

Não compreendo não cobrarem a Força Sindical sobre a declaração feita pelo seu principal dirigente, até por que a Força é uma das principais centrais do país e seus dirigentes deveriam ser os primeiros a combater o machismo e a opressão de classe, mas ao que parece isto foi abandonado ao largo da história desta central. A problemática na construção civil não está apenas em Jirau, já foram 40 mortes em 21 canteiros de obras do PAC e até agora nenhuma sinalização para solucionar realmente as demandas dos trabalhadores da construção civil, ao invés disso nos deparamos com esta declaração misógina e que ataca frontalmente toda a luta das mulheres neste país.

 

Convidado: Destruição dos rios: ameaça é crescente

Texto do jornalista Lúcio Flávio Pinto publicado no Blog do Estado. O debate sobre o impacto ambiental e social da exploração da natureza é sempre uma boa discussão.

Desde as primeiras letras aprendemos que a bacia do rio Amazonas é a maior do mundo. Ninguém nunca duvidou que ele era o mais caudaloso do planeta, mas se questionava essa primazia quanto ao seu comprimento. Hoje a controvérsia está esclarecida: com 6.937 quilômetros de extensão, o Amazonas supera em 140 quilômetros o Nilo, que perdeu essa liderança multissecular.

Qualquer número em relação ao “rio-mar” (ou o “mar doce” dos espanhóis, os primeiros europeus a navegá-lo) é grandioso. Ele lança, em média, 170 milhões de litros de água por segundo no Oceano Atlântico. Suas águas barrentas podem avançar 100 quilômetros além da barreira de águas salgadas e projetar seus sedimentos em suspensão no rumo norte, até o litoral da Flórida, nos Estados Unidos. São milhões de toneladas de nutrientes, arrastados desde a cordilheira dos Andes, onde nasce o grande rio, e engrossados por seus afluentes, que também se posicionam entre os maiores cursos d’água que existem.

Essas grandezas têm servido de inspiração para o ufanismo nacional, mas não para tratar melhor os nossos gigantes aquáticos. Nenhum brasileiro – ou mesmo o nativo – dá ao Amazonas a importância que os egípcios conferem ao Nilo. O Egito não existiria sem a faina incansável do seu grande rio, a fertilizar suas margens, cercadas por desertos hostis, e civilizar o país. Por isso, é considerado sagrado.

Os brasileiros parecem acreditar que, por ser monumental, abrangendo 7 milhões de quilômetros quadrados do continente sul-americano (quase dois terços em território brasileiro), a bacia amazônica foi blindada pela mãe natureza contra as hostilidades do homem. Já está na hora de se pôr fim a essa ilusão, acabando com a insensibilidade geral, que se alimenta do desconhecimento e da desinformação. O Amazonas está sob ameaça.

Não uma, mas várias. Um dos capítulos mais recentes está sendo travado diante da maior cidade da Amazônia, Manaus, a capital do Estado do Amazonas, com seus 1,7 milhão de habitantes (2 milhões com as duas cidades vizinhas). No dia 5, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) decretou o tombamento do encontro das águas do Amazonas com o Negro, um dos seus principais tributários da margem esquerda.

O desavisado pode até achar que o ato é de significado museológico, para efeito acadêmico. O processo do tombamento, porém, se arrastou durante dois anos. Deveria ser simples: a área de 30 quilômetros quadrados, o polígono de terra e água onde ocorre a junção dos dois enormes rios, é cenário para o maior de todos se encontrar com o maior rio de águas negras do mundo. Na margem direita, o barrento Solimões pressiona o rio ao lado, que ganhou seu nome pela inusitada cor das suas águas, num entrevero que pode se estender por 10 quilômetros lineares nas duas direções.

É um encontro ciclópico. A vazão do Solimões nesse ponto (onde justamente muda pela última vez de nome, passando a ser Amazonas) é de 135 milhões de litros de água por segundo. A do Negro, que chega ao fim do seu percurso de 1.700 quilômetros, a partir da Venezuela, é de 50 milhões de litros. Encorpado, o Amazonas segue em frente até a foz, dois mil quilômetros abaixo. Não sem antes oferecer o espetáculo das duas cores líquidas em paralelo ou em fusão tumultuada, para a admiração ou o espanto de uma crescente legião de turistas.

O problema é que no ponto de encontro dos rios está Manaus, com 60% da população e 90% da riqueza de todo Estado do Amazonas, o maior do Brasil, com 20% do território nacional. Desde quase meio século atrás, Manaus deixou de ser o produto do Amazonas para ser o efeito da Zona Franca, um entreposto comercial e um núcleo industrial que só se tornaram possíveis pela renúncia da União a recolher o imposto sobre a importação das empresas instaladas na remota paragem.

Hoje, Manaus é a origem do maior fluxo de contêineres do país. Motocicletas, computadores, geladeiras e muitos outros produtos são mandados para o sul do país, principalmente São Paulo, e espalhados para outros destinos. O velho porto flutuante, que os ingleses construíram no início do século XX para atender a exportação de borracha (que chegou a ser responsável por 40% do comércio exterior brasileiro), não serve para essa demanda nova.

A pressão é tão forte que alguns terminais privados, legais ou não, surgiram na orla da cidade. O maior deles, o Porto Chibatão, foi parcialmente arrastado, no mês passado, pelas águas do Negro, a apenas três quilômetros do seu encontro com o Amazonas, com mortes e a perda de diversos contêineres. Qualquer ribeirinho sabia que o local era contra-indicado para o fluxo de carga que o precário terminal movimentava.

Um novo, muito maior e mais adequado, está sendo projetado para uma área de 100 mil metros quadrados, na qual poderão ser estocados 250 mil contêineres. Antes desse mega-terminal, porém, uma subsidiária da mineradora Vale (o nome privatizado da Companhia Vale do Rio Doce, quando estatal) começou a construir seu próprio porto, com investimento de 220 milhões de reais.
Nele deverá operar seu novo navio cargueiro, com capacidade para 1.500 contêineres, e outros cinco já encomendados, por algo como meio bilhão de reais, multiplicando sua capacidade de transporte.

Esses números pareciam muito mais importantes do que a localização do porto, na província paleontológica das Lages, próximo de uma tomada de água para 300 mil habitantes da cidade e de um lago, o último do rio Negro, importante para milhares de moradores de um bairro que se formou em torno dele.

O processo que levou ao desmoronamento do Porto Chibatão seguiria sua lógica malsã se não tivesse surgido a iniciativa de tombar o encontro das águas. Ninguém se aventura a dizer-se contra o tombamento, mas ele provocou uma batalha judicial que chegou a Brasília, com vitórias e derrotas, protelações e pressões, até que, no dia 5, finalmente o Iphan assumiu a tutela sobre o encontro das águas.

Qualquer novo projeto que a partir de agora se fixe na área do polígono terá de ser submetido ao instituto, além de obter a licença ambiental. Certamente haverá quem se indigne com o fato: o raciocínio automático é de que a razão (ou anti-razão) econômica prevaleça sobre qualquer outro tipo de consideração – e sempre com vantagens para o investidor.

A decisão do Iphan, que ainda vai sofrer questionamento judicial, não bloqueia a evolução dos empreendimentos produtivos na região, mas talvez ajude o país a se dar conta de que destruindo os recursos naturais, em especial aqueles que representam uma grandeza única, é a Amazônia que estão destruindo. Substituem a galinha dos ovos de ouro por um cavalo de Tróia. Na mitologia ou na realidade, sabemos qual será o desfecho.

Assine a Carta aos Responsáveis pela Tragédia Ambiental no Xingu

Oi,

aqui é o Rodrigo e hoje o bidê vai fazer a linha utilidade pública:

Segue abaixo a Carta aos Responsáveis pela Tragédia Ambiental no Xingu, elaborada por ambientalistas e ativistas sociais em defesa de Belo Monte no Rio de Janeiro. O documento será protocolado no Ibama do RJ. Para assinar, basta enviar seu nome e documentação para o e-mail de Pedro Torres (pedrohtorres@yahoo.com.br), ambientalista que faz parte da organização do Ato Contra Belo Monte, que acontecerá nesta quarta-feira (24), às 10h, em frente à sede do Ibama, na capital carioca.

CARTA AOS RESPONSÁVEIS PELA TRAGÉDIA AMBIENTAL NO XINGU

No dia 1º de Fevereiro de 2010 o Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) concedeu a Licença Prévia (LP) para a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte no Rio Xingu no Pará. Este empreendimento é considerado pelo Governo Federal como a principal obra do Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – com investimentos divulgados e estimados superiores a R$ 30 bilhões e expectativa de geração de 11.000 kW de energia, o que a tornaria a terceira maior hidrelétrica do mundo.

Exatos 24 dias após a assinatura da LP pelo Diretor do IBAMA, Roberto Messias Franco, integrantes da sociedade civil e de movimentos sociais, representantes e lideranças indígenas, estudantes e trabalhadores vem à sede do IBAMA, na cidade do Rio de Janeiro, com o objetivo de mostrar ao Ministro Carlos Minc, ao Ministro Edson Lobão, a Ministra Dilma Rousseff e ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não queremos e não aceitaremos a construção da UHE Belo Monte.

Primeiramente questionamos a viabilidade desta obra, porque não respeita as Oitivas Indígenas, obrigatórias pela legislação brasileira, e pela Convenção 169 da OIT, que garante aos indígenas o direito de serem informados de forma objetiva sobre os impactos da obra e de terem sua opinião ouvida e respeitada.

Cabe ressaltar o grave desrespeito a Convenção 169 da OIT, assinada pelo Presidente Lula em 19 de Abril de 2004, que normatiza o respeito aos Povos Indígenas e ao debate público. A sociedade civil foi afastada das quatro audiências públicas da UHE Belo Monte realizadas entre os dias 9 e 15 de setembro de 2009, já que foram realizadas em localidades distantes e sem condições para a participação da maioria da população atingida.

Consideramos que os estudos e relatórios técnicos para a concessão da LP de Belo Monte estão incompletos e favorecem alguns interesses políticos e econômicos, já que negligenciam ou subdimensionam gravíssimos impactos ambientais e sociais negativos oriundos do projeto da UHE Belo Monte.

Repudiamos o fato de que técnicos do IBAMA, contrários a LP, foram afastados ou tiveram que se afastar o que evidencia de que o procedimento científico para avaliar os impactos ambientais não passa de mera formalidade – abrindo perigoso precedente, e que esta decisão é, portanto, vertical, vindo de cima para baixo, não respeitando a independência dos funcionários do Instituto.

Parece-nos inadmissível e autoritário o posicionamento da Advocacia Geral da União de ameaçar o Ministério Público por sua atuação e ação pública de questionar os procedimentos que permitiram a concessão da LP, levando assim a voz e a indignação da sociedade civil e dos povos indígenas do Xingu à esfera institucional.

Belo Monte já é, sem dúvida, um dos maiores crimes ambientais da história. No entanto, a história ainda pode absolver seus culpados, porque ainda é possível anular esta primeira LP concedida. Há mais de vinte anos os guerreiros povos do Xingu lutam contra essa usina, planejada na década de 70 como mais uma das grandes obras projetadas durante a ditadura militar. Até parece uma ironia um governo formado, em sua maioria, por aqueles que lutaram contra um governo autoritário quererem agora empurrar de qualquer forma este projeto.

Por outro lado, a história pode dar a estes a possibilidade de ficarem marcados como aqueles que enterraram de vez este empreendimento.

Sempre existe tempo para refletir, reconhecer o erro, voltar a atrás, e a partir daí, andar para frente! É por isso que clamamos para que anulem já esta LP e respeitem os povos da floresta, a democracia e a legislação brasileira!

Apoiamos os movimentos contrários a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e as ações públicas contra esta usina.

A sociedade civil está atenta e os povos indígenas em alerta!

Vamos reescrever essa história!

É por isso que lutamos por um Xingu Vivo para Sempre!

Assinado pelos ambientalistas:

Erika Berenguer

Guilherme Bessa

Luiz Philyppe Lima da Motta

Maíra Borges Fainguelernt

Marina Seixas

Pedro Henrique Torres

Representantes dos seguintes povos Indígenas do Xingu.

Representantes dos seguintes povos Indígenas do Acre.

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