Sabe qual a pior bunda do mundo? Sustentabilidade com grandes pitadas de machismo

Hoje é um daqueles dias em que tu chegas ao trabalho e a única coisa que se quer fazer é adiantar o trabalho e não se deparar com coisas execráveis. Pois bem, quando abri o Chrome a primeira coisa com a qual me deparei foi esta imagem aí.

Bunda

Fui atrás para saber do que se tratava e descobri a página de uma ONG chamada “Rio eu amo, eu cuido” e logo de início já tem uma chamada perguntando: Sabe qual a pior bunda do mundo?

A tal iniciativa é mais uma daquelas coisas do faça a sua parte que o mundo será melhor. No caso a máxima de que “pequenos gestos que estão ao alcance de todos e são capazes de transformar a cidade”.

Minhas questões com movimentos de sustentabilidade ambiental que acabam não questionando a estrutura da sociedade e como o debate ambiental anda de mãos dadas com o debate de superação sistêmica são grandes e acho que no blog “O que você faria se soubesse o que eu sei?” tem coisas melhores sistematizadas sobre as limitações do debate da sustentabilidade por si só.

A campanha foi organizada por Joaquim Monteiro de Carvalho, ele é um dos herdeiros de um dos maiores grupos empresariais do país, o Grupo Monteiro Aranha e também é funcionário da prefeitura do Rio de Janeiro. E por que eu fui atrás de todas essas informações? Por que eu não acho que machismo é algo que brota do nada nas pessoas, acredito que seja socialmente construído e, pra mim, localizar quem é a pessoa que desenvolveu esta campanha misógina é fundamental. Ou seja, trabalhar para o Eduardo Paes nesse momento e ainda ser herdeiro de um grande  grupo empresarial aponta qual o status quo que o rapaz e suas ações se baseiam.

Bem, acontece que o tal movimento sustentável lançou uma campanha para diminuir o número de bitucas de cigarros no chão, praia e afins. O meio em que encontrou para fazer este trabalho não foi o pensar quais ações de políticas públicas que ajudassem a coibir o jogar a bituca de cigarro na rua ou praia. Até por que, desde quando bituca, guimba de cigarro é chamada de bunda?

A estratégia usada por Monteiro de Carvalho e a “Rio eu amo, eu cuido” foi apenas se utilizar de maneira machista do corpo das mulheres para fazer uma piada ruim e que acaba reforçando uma série de paradigmas e esteriótipos que deveriam ser combatidos. Até por que para alguns sustentabilidade não é apenas o catar o cigarro na rua, mas também o lidar com as relações de opressão existentes na sociedade.

Fico pensando, quantas mulheres cis e trans fumam e não serão atingidas pela mensagem? A mensagem não chega, pois a depreciação aparece primeiro, e de qual corpo estamos falando? Qual o padrão? Ora, minha bunda não tem padrão e, acredito, a de nenhuma mulher tem.

No final das contas além de organizar uma campanha machista na “tentativa” de mostrar a necessidade de envolvimento dxs cariocas com a cidade a campanha não ajuda a dialogar. Fora o discursinho “cada um fa zo seu que tudo melhor” que só serve pra desresponsabilizar o poder público da sua tarefa de organizar e apresentar políticas públicas que beneficiem toda população e não apenas uma parcela.

Guest Post: Reflexão sobre os últimos atos em São Paulo, posições da Mídia e da Esquerda

O William Santana, estudante de Ciências Sociais da USP me permitiu publicar aqui no BiDê um texto escrito por ele sobre o momento que vivemos em SP. Reflexões e apontamentos com os quais concordo bastante e que precisam ser levados em conta quando falamos sobre criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

No ato do Passe Livre do dia 25/10 que contou com cerca de 4000 pessoas, a capa de todos grandes jornais no dia seguinte foi apenas noticiando que “os mascarados” atacaram um coronel da PM indefeso e que a população de SP rejeita a ação “violenta” dos Black Block.

Outro fato que aconteceu. foi que depois do assassinato de Douglas Rodrigues, 17 anos, pela Polícia Militar na Zona Norte de São Paulo. A mídia apenas deu foco para os protestos dos indignados com o caso, que fizeram ato que colocaram fogo em 6 ônibus, 3 caminhões, “saquearam lojas”, estavam armados, fecharam a Fernão Dias. E divulgou a posição do Geraldo Alckmin que disse que os “vândalos” não se pode utilizar da comoção da família para fazer tais atos.

Nada como ler a Folha de São Paulo de hoje (29 de outubro) para entender melhor qual a linha política da direita para os últimos acontecimentos de São Paulo.

Logo no Editorial eles escrevem:

Paulistanos desaprovam em peso violência nos protestos, que pode pôr a perder tudo que há legítimo e salutar nas manifestações de rua

Na coluna da Eliane Castañede:

Para a boa e a velha esquerda, o coletivo sempre se sobrepunha ao individual e ao setorial. Mas não se fazem mais esquerdas como antigamente. Hoje? sabe-se lá…

E no Tendências e Debates, Benedito Roberto Meira:

Mascarados são covardes cujo objetivo é o crime. Não são manifestantes. A lei deve considerar ataque a policial como agressão ao estado

Há uma tentativa clara de separar os protestos entre seus membros pacíficos e os “violentos”. Conclamam a “esquerda coerente” para ajudá-los nessa tarefa. Depois se utilizam da criminalização dos mascarados como campanha de aumento do recrudescimento do Estado Penal, encarcerando assim mais jovens negros.

É a primeira tarefa da esquerda, independente das caracterizações dos Black Block, não fazer coro ao discurso da mídia e da Direita. Sempre combatemos o discurso criminalizante em relação aos métodos de luta dos movimentos sociais, não podemos retroceder nesse momento.

Enquanto houver uma ofensiva da criminalização aos protestos como estamos vendo, não podemos temer em afirmar: Somos todos mascarados!

O medo, a política e o momento de não se omitir

Os “partidos” podem se apresentar com os mais diversos nomes, incluindo o de anti-partido ou de ‘negação de partidos’. Na realidade, até os chamados ‘individualistas’ são homens de partido, apenas gostariam de ser ‘chefe de partido’ pela graça de Deus ou da imbelicidade de quem os segue. (GRAMSCI, Antônio)

Com tudo o que está acontecendo eu ainda estou confusa, acho que o momento é delicado, é inédito para a minha geração e carece de uma reflexão mais aprofundada. Porém apesar do momento ser confuso e necessitar reflexão profunda da esquerda como um todo é importante lembrar que não é momento de se omitir.

Qualquer caracterização apressada é equivocada. Porém uma coisa é real: O sentimento anti-partido que está disseminado na massa não é permeado nem de longe dialoga com o debate posto há anos entre socialistas e autônomos.  O debate que reverbera nas ruas contra partidos políticos é por conta da negação do que aí está e abre brecha para que a direita organizada se aproprie do discurso e legitime processos de linchamentos público como os que vimos ontem. É por isso que não podemos ser afobados.

Ontem eu estava na Av. Paulista. No bloco da esquerda unificada. Foi a primeira vez que fui as manifestações novamente como militante, até então ficava mais afastada cobrindo para o trabalho. Fui como militante por que na terça-feira eu me assustei, me assustei de como a massa assimilava com facilidade um discurso nacionalista, fascista e totalitário. Fui por que acredito na revolução e na destruição do estado, assim como muitos dos meus companheiros autônomos ou organizados em outros partidos políticos. Ontem eu temi perder um amigo, temi assim como temo perder meus companheiros nas mãos da PM.

Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente

Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos. (SAKAMOTO, Leonardo. E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente)

Acredito haver espaço de disputa nestas mobilizações. Tenho dúvidas se elas permanecem massivas se não convocadas pela esquerda. Por que sim os atos que se massificaram foram atos organizados pela esquerda, seja autônoma ou organizada em partidos, e como normalmente são chamados com pauta específica tenho sérias dúvidas se continua a massificar. Caso continue, creio que há espaço de disputa ideológica, mas é preciso saber dialogar. E mais pra além da disputa ideológica necessária a ser feita é preciso refletir o que nos fez chegar até aqui. Por que nestes mais de 20 anos de redemocratização vemos eclodir no senso-comum posições que dialogam mais com a direita do que com a esquerda.

Se abriu um processo que está em disputa sim, mas não uma disputa fácil, não uma disputa com a qual estamos acostumados normalmente, pelo menos a minha geração não está. Estamos disputando com a direita e precisamos nos diferenciar da burocracia, não é simples, pois estamos lidando com um sentimento de insatisfação com as instituições muito pesado. Porém é preciso apontar que a esquerda socialista e autônoma tem um projeto de destruição do estado e não um melhorismo como tem sido apontado pelos governos Lula e Dilma.

O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos. (Nota no. 11: sobre o ato dessa 5a feira)

Para a disputa que se abre é necessário unidade da esquerda anti-capitalista, é necessário que aqueles que lutam contra a redução da maioridade penal, pela demarcação de terras indígenas, contra o genocídio da juventude negra, pela legalização do aborto, contra a homofobia, por uma cidade sem catracas, pelo transporte público e tantas outras pautas que temos construído mês após mês se unam para debater e apresentar saídas programáticas reais, sem capitular a burguesia e a direita.

O momento é difícil, apavora e é um erro não falarmos com todas as letras que dá medo. Dá medo de perder um companheiro, dá medo de perder um amigo, dá medo de perder a si próprio. Mas o medo não pode nos imobilizar, é ombro a ombro, é olhar nos olhos de quem é do PSOL, PSTU, autônomos e encontrar ali a segurança de que estamos na mesma luta, na mesma disputa ideológica e no mesmo confronto social. Nos reconhecermos e disputarmos com a direita o senso-comum presente nas manifestações.

É importante notar que a revolta apresentada na quinta-feira não foi apenas com os partidos, mas também com organizações civis do movimento sindical, do movimento negro, do movimento feminista e afins. Foi uma demonstração de que há um setor na sociedade que preza pela despolitização dos espaços e se aproveita para dar respostas e apontamentos fascistas para a massa. É preciso refletir, ou ninguém notou que entre as principais matérias da grande mídia sempre se destaca matérias ressaltando o apartidarismo, por que isso interessa aos poderosos? Alguém se perguntou isso?

Eu quero mudar o mundo, eu quero a revolução, eu quero a morte do capital e eu milito em um partido e em movimentos sociais e não quero mais ter medo de colocar as minhas camisas e levantar as minhas bandeiras!

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia!

Comunicação, gênero e violência: Mais um passo na construção da disputa de poder

Normalmente pensamos o debate de gênero e o debate de comunicação dentro da perspectiva da publicidade, e há inúmeros motivos para isso, seja as propagandas de cerveja, as de lingerie, as de brinquedos para crianças. A manutenção e reflexão do machismo e da sociedade patriarcal transborda na maioria das peças publicitárias.

Além da publicidade tem a nova-velha polêmica sobre o humor, sobre piadas machistas, racistas e homofóbicas que reaparece sempre no debate da comunicação também. Porém sinto as vezes que ficamos apenas na superfície do problema, criticamos uma piada machista, uma peça publicitária misógina, os esteriótipos das mulheres nas novelas e nunca localizamos o modelo de comunicação junto a sociedade em que vivemos e como isso ajuda manter um status quo que ajuda a oprimir mulheres, negrxs e LGBTs.

Violência é tema recorrente aqui no Blogueiras Feministas, além disso criticar piadas sobre o tema se tornou perseguição a liberdade de expressão. Ou seja, o Rafinha Bastos pode ridicularizar uma situação de estupro que tudo bem, a Prudence pode em sua campanha publicitária incluir como fantasia sexual estupro de mulheres e quem questionar isso corrobora para o atentado contra a liberdade de expressão.

Só lembrar do primeiro programa do Pedro Bial na Globo, tratando exatamente do tal politicamente correto. Ou seja, você reconhecer que há diferenças sociais entre negrxs e brancxs, homens e mulheres, heteros e LGBTs, ricos e pobres em nosso país e questionar piadas que reafirmam estas diferenças, ou que influem diretamente na perpetuação da violência é tolhir liberdade de expressão. (FRANCA, Luka. Prudence e a fetichização do estupro)

Há no Brasil, como no mundo, um monopólio das empresas de comunicação e este monopólio ajuda a estruturar, refletir e manter a ordem social vigente. É por isso que quando vemos a estruturação do segmento de comunicação para mulheres nós vemos algo que não debate política, economia geral, cotidiano e afins. Como se estes assuntos não estivessem presentes no nosso cotidiano, como se nos anos 80 não tive sido nós a ir para rua questionar o aumento do custo de vida. A estrutura de comunicação brasileira ajuda a manter os pilares de opressão racista, machista e homofóbica em um estado capitalista e quando faz isso ajuda a permear também uma forma de organização social e cultural de violência.

As ferramentas tem o poder que a política e as organizações sociais dão a ela, não fazem mágica por si só, não perpetuam ideologia espontaneamente de suas ligações elétricas. Se a mídia hoje também se estrutura de uma forma a manter o status quo social, repassar ideologicamente diversos valores na forma em que estrutura seus cadernos de notícias, suas peças publicitárias e novelas é por que se localiza em uma sociedade patriarcal, homofóbica, escravocrata e capitalista. Ela mantém este status quo por que faz parte de um modelo de negócio e para se manter esse negócio é preciso manter ideologicamente uma determinada organização social baseada na opressão.

Isso passa de quais critérios se tem para regulamentar a mídia, por que talvez as pessoas não saibam, mas o que chega por sinal aberto ou fechado naquela caixinha de cores é regulamentado, mal e porcamente, mas é regulamentado. Você pensar que questões ligadas aos direitos humanos são fundamentais entrarem como critério de regulamentação da mídia é pensar em como fazer uma disputa ideológica também com o modelo de negócio da comunicação que temos visto, pois pensar uma programação que não corrobore com a política do medo, com a espetacularização do crime e afins também é disputa ideológica de qual sociedade realmente queremos organizar e não ajudar a perpetuar este sistema que já deixa mostras claras de não conseguir ser reformado.

 É criar dentro da barbárie que vem se instaurando uma necessária disputa de poder e esta disputa de poder reverbera no que é produzido pelos meios de comunicação, pois notícias, peças publicitárias e afins são produto também da correlação de forças sociais que temos na sociedade e atualmente é o recrudescimento do estado penal e do reacionarismo que vem vencendo a batalha, nos colocando apenas numa perspectiva de reação as absurdices que veiculam.

Porém é leviano simplificar o debate sobre liberdade sexual e direitos reprodutivos da mulher como o professor Luiz Felipe Pondé fez no artigo Meninas Fáceis publicado na Folha de São Paulo do dia 03 de maio. Usar linguagem descolada para por no mesmo saco estupro e liberdade sexual é no mínimo maquiavélico, reforçar argumentos conservadores culpando as mulheres como era feito na década de 30 e 40 é perigoso e ajuda a reforçar uma construção social de que a mulher é propriedade do homem e deve se portar com parcimônia pois seu papel natural é o de mãe monogâmica, garantindo assim ao homem que os filhos gerados daquela relação sejam realmente dele. (FRANCA,Luka. Fácil pra quem?)

Pensar um projeto de comunicação ousado, que enfrente realmente as opressões estruturantes da nossa sociedade, consiga formular notícia de forma antisistêmica, quebrar os modelos pré-estabelecidos e entrar num ambiente de subversão é fundamental. Porém nós nos adaptamos, dizemos fazer novidades, mas perpetuamos o modelo de negócio do fazer comunicação, esquecemos lições de atuação em rede importantes como o telégrafo ou o radio amadorismo e acrescentar nestas experiências que retomamos hoje de redes, articulações e afins pitadas gigantescas de ousadia e não uma ferramenta de para ajudar a despolitizar os debates, minimizá-los e corroborar com uma lógica de mídia de massa que para nós não é interessante, pois só ajuda manter status quo.

Como falar das taxas de violência machista, homofóbica e do genocídio da juventude negra sem sermos gelados, pois naqueles números ditos pela TV, sites, rádio e jornais estão nossos parentes, amigos, namoradas… Quando falamos de comunicação, gênero e violência não é apenas de conteúdo que estamos falando, é de estrutura social, de disputa de poder e necessidade de nos organizarmos de formas a disputar ideologicamente a sociedade para um outro projeto realmente emancipador para todxs nós.

De mulher para mulher?

Mídia é sempre um tema recorrente na rodas dos movimentos de combate às opressões, ainda mais nesta semana que é a semana nacional de democratização da comunicação. Até por que publicidade, jornalismo, novelas e afins são reflexos da nossa sociedade, acompanham nichos de mercado. Acho que foi em uma aula da PUCSP em que ouvi a máxima de que o capital vai se apropriando e incluindo a todos pelo consumo e nisso podemos listar: LGBTs, feministas, militantes do movimento negro e tantas outras frentes de movimento no país e no mundo.

Propaganda é sempre o tema que mais dá pano para manga. Schincariol, Prudence, Axe e tantas outras milhões de propagandas que refletem o machismo na sociedade e ajudam a mantê-lo. Um círculo vicioso e é por isso que críticas, denuncias e mobilizações por retiradas e mudanças na mídia são importantes, por que é onde podemos avançar um pouquinho na quebra desse círculo vicioso.

O documentário Miss Representation deveria ser visto por todos, principalmente por pessoas jovens (tem aqui, e dá pra baixar as legendas em português aqui) . Ele explica muito bem como as mulheres ou não são representadas na mídia, ou são representadas de forma negativa, limitada ou claramente mentirosa. E que essa imagem que a mídia (e, óbvio, não só a mídia, mas este é o foco do filme) passa das mulheres não apenas influencia diretamente como as meninas se veem, como também é devastador para toda a sociedade. Já falei um pouco do doc aqui (e, como já escrevi montes de posts relacionados a nossa realidade, ponho alguns links nos lugares certos). (ARONOVICH, Lola. Estatísticas pra você guardar e usar)

A manutenção dos esteriótipos, dos padrões de beleza e afins é apenas uma das formas de manutenção do status quo em nossa sociedade, é um pilar e um pilar que precisa ser combatido. Até por que também é uma forma violenta de manter as coisas como estão, não precisa apenas bater para violentar, violência psicológica também é uma arma poderosa. Não é por acaso que agora há tanta preocupação com opressões perpetuadas nas escolas – sorry, chamo as coisas como elas são, opressão é opressão seja na idade adulta ou na escola, não há diferença.

Pois bem, a Marisa está com uma campanha publicitária nova, uma campanha bem ruim. Na peça a modelo fala de todas as dificuldades que passou durante o ano para poder estar “em forma” durante o verão. Ou seja, novamente reafirmando um padrão e beleza caucasiano e magro, refletindo uma definição de beleza que há na sociedade e ajudando a manter esta definição da forma mais cruel que poderia ser possível fazer na mídia: mostrando a mulher a necessidade de submeter a tortura para cumprir os moldes pré-estabelecidos.

Não só mulheres magras e heterossexuais usam lingerie. É preciso parar de fazer campanhas publicitárias direcionadas sempre ao prazer dos homens e à normatização do corpo/comportamento da mulher. Essa mudança deve ser feita, em primeiro lugar, nas campanhas publicitárias de produtos direcionados para mulheres.

Não devemos nos deformar nem nos punir com dietas loucas que visam apenas nos enquadrar e normatizar conforme os padrões gordofóbicos impostos pela sociedade. Temos corpos de variadas formas e pesos, e devemos nos atentar a gostar de nós mesmas do jeito que somos. (Nota da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista)

Porém não é a primeira vez que a Marisa corrobora com a tortura de mulheres, já o fez outras vezes e para além do ataque psicológico. A Marisa já esteve, em 2010, relacionada a denuncia de trabalho escravo de mulheres em sua linha de produção.

Pressionada por denúncias anteriores, a Marisa – assim como as outros magazines do setor – já tinha assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho (MPT) em 2007. No documento proposto pela Procuradoria Regional do Trabalho da 2a Região (PRT-2), a rede varejista se compromete a tomar providências (por meio de advertências no site, cláusulas em contratos comerciais e de visitas periódicas a fornecedores) no sentido de evitar ligações com oficinas com trabalho ilegal. (HASHIZUME, Maurício. Escravidão é flagrada em oficina de costura ligada à Marisa)

A loja havia se adequado as regras do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo em março deste ano. Porém a empresa foi suspensa este mês por questionar em ação judicial a constitucionalidade da lista suja do trabalho escravo, onde se relaciona empresas que tem em sua linha de produção relação com essa prática medieval.

De acordo com comunicado assinado pelos membros do Comitê (confira íntegra abaixo), o comportamento da Marisa, ao contestar o cadastro de empregadores envolvidos em casos de exploração de mão de obra escrava no âmbito da Justiça do Trabalho, “afronta” e “enseja a violação” dos princípios basilares e formadores do Pacto Nacional, articulação em atividade desde 2005. Ressalte-se que, mesmo após pedido prévio de esclarecimento feito pelo Comitê, a empresa informou que está convicta na manutenção de sua posição. (Marisa é suspensa de pacto contra escravidão)

A construção do machismo e do patriarcado não se dá apenas da forma midiática, ela é respaldada por como a sociedade se organiza e nisso entra também as relações de trabalho. No final das contas a Marisa não oprime mulheres apenas quando deixa ir ao ar uma propaganda machista, mas também quando questiona os critérios do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, pois quando vamos ver a maioria dos casos de trabalho escravo na industria têxtil a maioria são mulheres e muitas vezes são mulheres vítimas de tráfico de pessoas de diversas partes da América Latina.

É preciso questionar ao CONAR sobre a campanha publicitária? Obviamente, mas como no caso de outras propagandas machistas tenho minhas ponderações se será eficaz. Mas para denunciar é necessário ir aqui. Mas também é necessário cada vez mais percebermos que a pauta feminista precisa olhar para a sociedade como um todo, para que realmente a nossa luta emancipe as mulheres e não apenas algumas iluminadas.

Democratização da comunicação e o deter a técnica para democratizar a comunicação

Texto sobre comunicação que a Marilena Chauí apresentou no lançamento da campanha do FNDC “Para expressar a liberdade”, aqui em São paulo. A contribuição da professora é muito pertinente e coloca uma cunha sobre o que é realmente deter a técnica para a produção de comunicação, coisa que muito militante aí parou de refletir há tempos.

I. Democracia e autoritarismo social
Estamos acostumados a aceitar a definição liberal da democracia como regime da lei e da ordem para a garantia das liberdades individuais. Visto que o pensamento e a prática liberais identificam a liberdade com a ausência de obstáculos à competição, essa definição da democracia significa, em primeiro lugar, que a liberdade se reduz à competição econômica da chamada “livre iniciativa” e à competição política entre partidos que disputam eleições; em segundo, que embora a democracia apareça justificada como “valor” ou como “bem”, é encarada, de fato, pelo critério da eficácia, medida no plano do poder executivo pela atividade de uma elite de técnicos competentes aos quais cabe a direção do Estado. A democracia é, assim, reduzida a um regime político eficaz, baseado na idéia de cidadania organizada em partidos políticos, e se manifesta no processo eleitoral de escolha dos representantes, na rotatividade dos governantes e nas soluções técnicas para os problemas econômicos e sociais.

Ora, há, na prática democrática e nas idéias democráticas, uma profundidade e uma verdade muito maiores e superiores ao que liberalismo percebe e deixa perceber.

Podemos, em traços breves e gerais, caracterizar a democracia ultrapassando a simples idéia de um regime político identificado à forma do governo, tomando-a como forma geral de uma sociedade e, assim, considerá-la:

1. forma sócio-política definida pelo princípio da isonomia ( igualdade dos cidadãos perante a lei) e da isegoria (direito de todos para expor  em público suas opiniões, vê-las discutidas, aceitas ou recusadas em público), tendo como base a afirmação de que todos são iguais porque livres, isto é, ninguém está sob o poder de um outro porque todos obedecem às mesmas leis das quais todos são autores (autores diretamente, numa democracia participativa; indiretamente, numa democracia representativa). Donde o maior problema da democracia numa sociedade de classes ser o da manutenção de seus princípios – igualdade e liberdade – sob os efeitos da desigualdade real;

2. forma política na qual, ao contrário de todas as outras, o conflito é considerado legítimo e necessário, buscando mediações institucionais para que possa exprimir-se. A democracia não é o regime do consenso, mas do trabalho dos e sobre os conflitos. Donde uma outra dificuldade democrática nas sociedades de classes: como operar com os conflitos quando estes possuem a forma da contradição e não a da mera oposição?

3. forma sócio-política que busca enfrentar as dificuldades acima apontadas conciliando o princípio da igualdade e da liberdade e a existência real das desigualdades, bem como o princípio da legitimidade do conflito e a existência de contradições materiais introduzindo, para isso, a idéia dos direitos ( econômicos, sociais, políticos e culturais). Graças aos direitos, os desiguais conquistam a igualdade, entrando no espaço político para reivindicar a participação nos direitos existentes e sobretudo para criar novos direitos. Estes são novos não simplesmente porque não existiam anteriormente, mas porque são diferentes daqueles que existem, uma vez que fazem surgir, como cidadãos, novos sujeitos políticos que os afirmaram e os fizeram ser reconhecidos por toda a sociedade.

4. graças à idéia e à prática da criação de direitos, a democracia não define a liberdade apenas pela ausência de obstáculos externos à ação, mas a define pela autonomia, isto é, pela capacidade dos sujeitos sociais e políticos darem a si mesmos suas próprias normas e regras de ação. Passa-se, portanto, de uma definição negativa da liberdade – o não obstáculo ou o não-constrangimento externo – a uma definição positiva – dar a si mesmo suas regras e normas de ação. A liberdade possibilita aos cidadãos instituir contra-poderes sociais por meio dos quais interferem diretamente no poder por meio de reivindicações e controle das ações estatais.

5. pela criação dos direitos, a democracia surge como o único regime político realmente aberto às mudanças temporais, uma vez que faz surgir o novo como parte de sua existência e, conseqüentemente, a temporalidade é constitutiva de seu modo de ser, de maneira que a democracia é a sociedade verdadeiramente histórica, isto é, aberta ao tempo, ao possível, às transformações e ao novo. Com efeito, pela criação de novos direitos e pela existência dos contra-poderes sociais, a sociedade democrática não está fixada numa forma para sempre determinada, pois não cessa de trabalhar suas divisões e diferenças internas, de orientar-se pela possibilidade objetiva de alterar-se pela própria práxis;

6. única forma sócio-política na qual o caráter popular do poder e das lutas tende a evidenciar-se nas sociedades de classes, na medida em que os direitos só ampliam seu alcance ou só surgem como novos pela ação das classes populares contra a cristalização jurídico-política que favorece a classe dominante. Em outras palavras, a marca da democracia moderna, permitindo sua passagem de democracia liberal á democracia social, encontra-se no fato de que somente as classes populares e os excluídos (as “minorias”) reivindicam direitos e criam novos direitos;

7. forma política na qual a distinção entre o poder e o governante é garantida não só pela presença de leis e pela divisão de várias esferas de autoridade, mas também pela existência das eleições, pois estas ( contrariamente do que afirma a ciência política) não significam  mera “alternância no poder”, mas assinalam que o poder está sempre vazio, que seu detentor é a sociedade e que o governante apenas o ocupa por haver recebido um mandato temporário para isto. Em outras palavras, os sujeitos políticos não são simples votantes, mas eleitores. Eleger significa não só exercer o poder, mas manifestar a origem do poder, repondo o princípio afirmado pelos romanos quando inventaram a política: eleger é “dar a alguém aquilo que se possui, porque ninguém pode dar o que não tem”, isto é, eleger é afirmar-se soberano para escolher ocupantes temporários do governo.

Dizemos, então, que uma sociedade — e não um simples regime de governo — é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da república, respeito à vontade da maioria e da minoria, institui algo mais profundo, que é condição do próprio regime político, ou seja, quando institui direitos e que essa instituição é uma criação social, de tal maneira que a atividade democrática social realiza-se como uma contra-poder social que determina, dirige, controla e modifica a ação estatal e o poder dos governantes.

Se esses são os principais traços da sociedade democrática, podemos avaliar as enormes dificuldades para instituir a democracia no Brasil. De fato, a sociedade brasileira é estruturalmente violenta, hierárquica, vertical, autoritária e oligárquica e o Estado é patrimonialista e cartorial, organizado segundo a lógica clientelista e burocrática. O clientelismo bloqueia a prática democrática da representação  — o representante não é visto como portador de um mandato dos representados, mas como provedor de favores aos eleitores. A burocracia bloqueia a democratização do Estado porque não é uma organização do trabalho e sim uma forma de poder fundada em três princípios opostos aos democráticos: a hierarquia, oposta à igualdade; o segredo, oposto ao direito à informação; e a rotina de procedimentos, oposta à abertura temporal da ação política.

Além disso, social e economicamente nossa sociedade está polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e a consolidação da democracia. Um privilégio é, por definição, algo particular que não pode generalizar-se nem universalizar-se sem deixar de ser privilégio. Uma carência é uma falta também particular ou específica que se exprime numa demanda também particular ou específica, não conseguindo generalizar-se nem universalizar-se. Um direito, ao contrário de carências e privilégios, não é particular e específico, mas geral e universal,  seja porque é o mesmo e válido para todos os indivíduos, grupos e classes sociais, seja porque embora diferenciado é reconhecido por todos (como é caso dos chamados direitos das minorias). Assim, a polarização econômico-social entre a carência e o privilégio ergue-se como obstáculo à instituição de direitos, definidora da democracia.

A esses obstáculos, podemos acrescentar ainda aquele decorrente do neoliberalismo, qual seja o encolhimento do espaço público e o alargamento do espaço privado. Economicamente, trata-se da  eliminação de direitos econômicos, sociais e políticos garantidos pelo poder público, em proveito dos interesses privados da classe dominante, isto é, em proveito do  capital; a economia e a política neoliberais são a decisão de destinar os fundos públicos aos investimentos do capital e de cortar os investimentos públicos destinados aos direitos sociais, transformando-os em serviços definidos pela lógica do mercado, isto é, a privatização dos direitos transformados em serviços, privatização que aumenta a cisão social entre a carência e o privilégio, aumentando todas formas de exclusão. Politicamente o encolhimento do público e o alargamento do privado colocam em evidência o bloqueio a um direito democrático fundamental sem o qual a cidadania, entendida como participação social, política e cultural é impossível, qual seja, o direito à informação.

II. Os meios de comunicação como exercício de poder
Podemos focalizar o exercício do poder pelos meios de comunicação de massa sob dois aspectos principais: o econômico e o ideológico.

Do ponto de vista econômico, os meios de comunicação fazem parte da indústria cultural. Indústria porque são empresas privadas operando no mercado e que, hoje, sob a ação da chamada globalização, passa por profundas mudanças estruturais, “num processo nunca visto de fusões e aquisições, companhias globais ganharam posições de domínio na mídia.”, como diz o jornalista Caio Túlio Costa. Além da forte concentração (os oligopólios beiram o monopólio), também é significativa a presença, no setor das comunicações, de empresas que não tinham vínculos com ele nem tradição nessa área. O porte dos investimentos e a perspectiva de lucros jamais vistos levaram grupos proprietários de bancos, indústria metalúrgica, indústria elétrica e eletrônica, fabricantes de armamentos e aviões de combate, indústria de telecomunicações a adquirir, mundo afora, jornais, revistas, serviços de telefonia, rádios e televisões, portais de internet, satélites, etc..

No caso do Brasil, o poderio econômico dos meios é inseparável da forma oligárquica do poder do Estado, produzindo um dos fenômenos mais contrários à democracia, qual seja, o que Alberto Dines chamou de “coronelismo eletrônico”, isto é, a forma privatizada das concessões públicas de canais de rádio e televisão, concedidos a parlamentares e lobbies privados, de tal maneira que aqueles que deveriam fiscalizar as concessões públicas se tornam concessionários privados, apropriando-se de um bem público para manter privilégios, monopolizando a comunicação e a informação. Esse privilégio é um poder político que se ergue contra dois direitos democráticos essenciais: a isonomia (a igualdade perante a lei) e a isegoria (o direito à palavra ou o igual direito de todos de expressar-se em público e ter suas opiniões publicamente discutidas e avaliadas). Numa palavra, a cidadania democrática exige que os cidadãos estejam informados para que possam opinar e intervir politicamente e isso lhes é roubado pelo poder econômico dos meios de comunicação.

A isonomia e a isegoria são também ameaçadas e destruídas pelo poder ideológico dos meios de comunicação. De fato, do ponto de vista ideológico, a mídia exerce o poder sob a forma do denominamos a ideologia da competência, cuja peculiaridade está em seu modo de aparecer sob a forma anônima e impessoal do discurso do conhecimento, e cuja eficácia social, política e cultural está fundada na crença na racionalidade técnico-científica.

A ideologia da competência pode ser resumida da seguinte maneira: não é qualquer um que pode em qualquer lugar e em qualquer ocasião dizer qualquer coisa a qualquer outro. O discurso competente determina de antemão quem tem o direito de falar e quem deve ouvir, assim como pré-determina os lugares e as circunstâncias em que é permitido falar e ouvir, e define previamente a forma e o conteúdo do que deve ser dito e precisa ser ouvido. Essas distinções têm como fundamento uma distinção principal, aquela que divide socialmente os detentores de um saber ou de um conhecimento (científico, técnico, religioso, político, artístico), que podem falar e têm o direito de mandar e comandar, e os desprovidos de saber, que devem ouvir e obedecer. Numa palavra, a ideologia da competência institui a divisão social entre os competentes, que sabem e por isso mandam, e os incompetentes, que não sabem e por isso obedecem.

Enquanto discurso do conhecimento, essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas não cessam de institui-la como sujeito da comunicação. O especialista competente é aquele que, no rádio, na TV, na revista, no jornal ou no multimídia, divulga saberes, falando das últimas descobertas da ciência ou nos ensinando a agir, pensar, sentir e viver. O especialista competente nos ensina a bem fazer sexo, jardinagem, culinária, educação das crianças, decoração da casa, boas maneiras, uso de roupas apropriadas em horas e locais apropriados, como amar Jesus e ganhar o céu, meditação espiritual, como ter um corpo juvenil e saudável, como ganhar dinheiro e subir na vida.  O principal especialista, porém, não se confunde com nenhum dos anteriores, mas é uma espécie de síntese, construída a partir das figuras precedentes: é aquele que explica e interpreta as notícias e os acontecimentos econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos e esportivos, aquele que devassa, eleva e rebaixa entrevistados, zomba, premia e pune calouros  — em suma, o chamado “formador de opinião” e o “comunicador”.

Ideologicamente, o poder da comunicação de massa não é um simples inculcação de valores e idéias, pois, dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, o especialista, o formador de opinião e o comunicados nos dizem que nada sabemos e por isso seu poder se realiza como manipulação e intimidação social e cultural.

Um dos aspectos mais terríveis desse duplo poder dos meios de comunicação se manifesta nos procedimentos midiáticos de produção da culpa e condenação sumária dos indivíduos, por meio de um instrumento psicológico profundo: a suspeição, que pressupõe a presunção de culpa. Ao se referir ao período do Terror, durante a Revolução Francesa,  Hegel considerou que uma de suas marcas essenciais é afirmar que, por princípio, todos são suspeitos e que os suspeitos são culpados antes de qualquer prova. Ao praticar o terror, a mídia fere dois direitos constitucionais democráticos, instituídos pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789 (Revolução Francesa) e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, quais sejam: a presunção de inocência (ninguém pode ser considerado culpado antes da prova da culpa) e a retratação pública dos atingidos por danos físicos, psíquicos e morais, isto é, atingidos pela infâmia, pela injúria e pela calúnia. É para assegurar esses dois direitos que as sociedades democráticas exigem leis para regulação dos meios de comunicação, pois essa regulação é condição da liberdade e da igualdade que definem a sociedade democrática.

III.
Faz parte da vida da grande maioria da população brasileira ser espectadora de um tipo de programa de televisão no qual a intimidade das pessoas é o objeto central do espetáculo: programas de auditório, de entrevistas e de debates com adultos, jovens e crianças contando suas preferências pessoais desde o sexo até o brinquedo, da culinária ao vestuário, da leitura à religiosidade, do ato de escrever ou encenar uma peça teatral, de compor uma música ou um balé até os hábitos de lazer e cuidados corporais.

As ondas sonoras do rádio e as transmissões televisivas tornam-se cada vez mais consultórios sentimental, sexual, gastronômico, geriátrico, ginecológico, culinário, de cuidados com o corpo (ginástica, cosméticos, vestuário, medicamentos), de jardinagem, carpintaria, bastidores da criação artística, literária e da vida doméstica. Há programas de entrevista no rádio e na televisão que ou simulam uma cena doméstica – um almoço, um jantar – ou se realizam nas casas dos entrevistados durante o café da manhã, o almoço ou o jantar, nos quais a casa é exibida, os hábitos cotidianos são descritos e comentados, álbuns de família ou a própria são mostrados ao vivo e em cores. Os entrevistados e debatedores, os competidores dos torneios de auditório, os que aparecem nos noticiários, todos são convidados e mesmo instados com vigor a que falem de suas preferências, indo desde sabores de sorvete até partidos políticos, desde livros e filmes até hábitos sociais. Não é casual que os noticiários, no rádio e na televisão, ao promoverem entrevistas em que a notícia é intercalada com a fala dos direta ou indiretamente envolvidos no fato, tenham sempre repórteres indagando a alguém: “o que você sentiu/sente com isso?” ou “o que você achou/acha disso?” ou “você gosta? não gosta disso?”. Não se pergunta aos entrevistados o que pensam ou o que julgam dos acontecimentos, mas o que sentem, o que acham, se lhes agrada ou desagrada.

Também tornou-se um hábito nacional jornais e revistas especializarem-se cada vez mais em telefonemas a “personalidades” indagando-lhes sobre o que estão lendo no momento, que filme foram ver na última semana, que roupa usam para dormir, qual a lembrança infantil mais querida que guardam na memória, que música preferiam aos 15 anos de idade, o que sentiram diante de uma catástrofe nuclear ou ecológica, ou diante de um genocídio ou de um resultado eleitoral, qual o sabor do sorvete preferido, qual o restaurante predileto, qual o perfume desejado. Os assuntos se equivalem, todos são questão de gosto ou preferência, todos se reduzem à igual banalidade do “gosto” ou “não gosto”, do “achei ótimo” ou “achei horrível”.
Todos esses fatos nos conduzem a uma conclusão: a mídia está imersa na cultura do narcisismo.

Como observa Christopher Lash, em A Cultura do Narcisismo, os mass media tornaram irrelevantes as categorias da verdade e da falsidade substituindo-as pelas noções de credibilidade ou plausibilidade e confiabilidade – para que algo seja aceito como real basta que apareça como crível ou plausível, ou como oferecido por alguém confiável Os fatos cedem lugar a declarações de “personalidades autorizadas”, que não transmitem informações, mas preferências e estas se convertem imediatamente em propaganda. Como escreve Lash, “sabendo que um público cultivado é ávido por fatos e cultiva a ilusão de estar bem informado, o propagandista moderno evita slogans grandiloqüentes e se atém a ‘fatos’, dando a ilusão de que a propaganda é informação”.

Qual a base de apoio da credibilidade e da confiabilidade? A resposta encontra-se num outro ponto comum aos programas de auditório, às entrevistas, aos debates, às indagações telefônicas de rádios, revistas e jornais, aos comerciais de propaganda. Trata-se do apelo à intimidade, à personalidade, à vida privada como suporte e garantia da ordem pública. Em outras palavras, os códigos da vida pública passam a ser determinados e definidos pelos códigos da vida privada, abolindo-se a diferença entre espaço público e espaço privado. Assim, as relações interpessoais, as relações intersubjetivas e as relações grupais aparecem com a função de ocultar ou de dissimular as relações sociais enquanto sociais e as relações políticas enquanto políticas, uma vez que a marca das relações sociais e políticas é serem determinadas pelas instituições sociais e políticas, ou seja, são relações mediatas, diferentemente das relações pessoais, que são imediatas, isto é, definidas pelo relacionamento direto entre pessoas e por isso mesmo nelas os sentimentos, as emoções, as preferências e os gostos têm um papel decisivo. As relações sociais e políticas, que são mediações referentes a interesses e a direitos regulados pelas instituições, pela divisão social das classes e pela separação entre o social e o poder político, perdem sua especificidade e passam a operar sob a aparência da vida privada, portanto, referidas a preferências, sentimentos, emoções, gostos, agrado e aversão.

Não é casual, mas uma conseqüência necessária dessa privatização do social e do político, a destruição de uma categoria essencial das democracias, qual seja a da opinião pública. Esta, em seus inícios (desde a Revolução Francesa de 1789), era definida como a expressão, no espaço público, de uma reflexão individual ou coletiva sobre uma questão controvertida e concernente ao interesse ou ao direito de uma classe social, de um grupo ou mesmo da maioria. A opinião pública era um juízo emitido em público sobre uma questão relativa à vida política, era uma reflexão feita em público e por isso definia-se como uso público da razão e como direito à liberdade de pensamento e de expressão.

É sintomático que, hoje, se fale em “sondagem de opinião”. Com efeito, a palavra sondagem indica que não se procura a expressão pública racional de interesses ou direitos e sim que se vai buscar um fundo silencioso, um fundo não formulado e não refletido, isto é, que se procura fazer vir à tona o não-pensado, que existe sob a forma de sentimentos e emoções, de preferências, gostos, aversões e predileções, como se os fatos e os acontecimentos da vida social e política pudessem vir a se exprimir pelos sentimentos pessoais. Em lugar de opinião pública, tem-se a manifestação pública de sentimentos.

Nada mais constrangedor e, ao mesmo tempo, nada mais esclarecedor do que os instantes em que o noticiário coloca nas ondas sonoras ou na tela os participantes de um acontecimento falando de seus sentimentos, enquanto locutores explicam e interpretam o que se passa, como se os participantes fossem incapazes de pensar e de emitir juízo sobre aquilo de que foram testemunhas diretas e partes envolvidas. Constrangedor, porque o rádio e a televisão declaram tacitamente a incompetência dos participantes e envolvidos para compreender e explicar fatos e acontecimentos de que são protagonistas. Esclarecedor, porque esse procedimento permite, no instante mesmo em que se dão, criar a versão do fato e do acontecimento como se fossem o próprio fato e o próprio acontecimento. Assim, uma partilha é claramente estabelecida: os participantes “sentem”, portanto, não sabem nem compreendem (não pensam); em contrapartida, o locutor pensa, portanto, sabe e, graças ao seu saber, explica o acontecimento.
É possível perceber três deslocamentos sofridos pela idéia e prática da opinião pública: o primeiro, como salientamos, é a substituição da idéia de uso público da razão para exprimir interesses e direitos de um indivíduo, um grupo ou uma classe social pela idéia de expressão em público de sentimentos, emoções, gostos e preferências individuais; o segundo, como também observamos, é a substituição do direito de cada um e de todos de opinar em público pelo poder de alguns para exercer esse direito, surgindo, assim, a curiosa expressão “formador de opinião”, aplicada a intelectuais, artistas e jornalistas; o terceiro, que ainda não havíamos mencionado, decorre de uma mudança na relação entre s vários meios de comunicação sob os efeitos das tecnologias eletrônica e digital e da formação de oligopólios midiáticos globalizados (alguns autores afirmam que o século XXI começou com a existência de 10 ou 12 conglomerados de mass media de alcance global). Esse terceiro deslocamento se refere à forma de ocupação do espaço da opinião pública pelos profissionais dos meios de comunicação. Esses deslocamentos explicam algo curioso, ocorrido durante as sondagens de intenção de voto nas eleições presidenciais de 2006: diante dos resultados, uma jornalista do jornal O Globo  escreveu que o povo estava contra a opinião pública!

O caso mais interessante é, sem dúvida, o do jornalismo impresso. Em tempos passados, cabia aos jornais a tarefa noticiosa e um jornal era fundamentalmente um órgão de notícias. Sem dúvida, um jornal possuía opiniões e as exprimia: isso era feito, de um lado, pelos editorais e por artigos de não-jornalistas, e, de outro, pelo modo de apresentação da notícia (escolha das manchetes e do “olho”, determinação da página em que deveria aparecer e na vizinhança de quais outras, do tamanho do texto, da presença ou ausência de fotos, etc.). Ora, com os meios eletrônicos e digitais e a televisão, os fatos tendem a ser noticiados enquanto estão ocorrendo, de maneira que a função noticiosa do jornal é prejudicada, pois a notícia impressa é posterior à sua transmissão pelos meios eletrônicos e pela televisão. Ou na linguagem mais costumeira dos meios de comunicação: no mercado de notícias, o jornalismo impresso vem perdendo competitividade (alguns chamam a isso de progresso; outros, de racionalidade inexorável do mercado!).

O resultado dessa situação foi duplo: de um lado, a notícia é apresentada de forma mínima, rápida e, freqüentemente, inexata – o modelo conhecido como News Letter – e, de outro, deu-se a passagem gradual do jornal como órgão de notícias a órgão de opinião, ou seja, os jornalistas comentam e interpretam as notícias, opinando sobre elas. Gradualmente desaparece uma figura essencial do jornalismo: o jornalismo investigativo, que cede lugar ao jornalismo assertivo ou opinativo. Os jornalista passam, assim, o ocupar o lugar que, tradicionalmente, cabia a grupos e classes sociais e a partidos políticos e, além disso, sua opinião não fica restrita ao meio impresso, mas passa a servir como material para os noticiários de rádio e televisão, ou seja, nesses noticiários, a notícia é interpretada e avaliada graças à referência às colunas dos jornais.

Os deslocamentos mencionados e, particularmente, este último, têm conseqüências graves sob dois aspectos principais:

1) uma vez que o jornalista concentra poderes e forma a opinião pública, pode sentir-se tentado a ir além disso e criar a própria realidade, isto é, sua opinião passa a ter o valor de um fato e a ser tomada como um acontecimento real ;

2) os efeitos da concentração do poder econômico midiático. Os meios de comunicação tradicionais (jornal, rádio, cinema, televisão) sempre foram propriedade privada de indivíduos e grupos, não podendo deixar de exprimir seus interesses particulares ou privados, ainda que isso sempre tenha imposto problemas e limitações à liberdade de expressão, que fundamenta a idéia de opinião pública. Hoje, porém, os  conglomerados de alcance global controlam não só os meios tradicionais, mas também os novos meios eletrônicos e digitais, e avaliam em termos de custo-benefício as vantagens e desvantagens do jornalismo escrito ou da imprensa, podendo liquidá-la, se não acompanhar os ares do tempo.

Esses dois aspectos incidem diretamente sobre a transformação da verdade e da falsidade em questão de credibilidade e  plausibilidade.  Rápido, barato, inexato, partidarista, mescla de informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não investigativo, opinativo ou assertivo, detentor da credibilidade e da plausibilidade, o jornalismo se tornou protagonista da destruição da opinião pública.

De fato, a desinformação é o principal resultado da maioria dos noticiários nos jornais, no rádio e na televisão, pois, de modo geral, as notícias são apresentadas de maneira a impedir que se possa localizá-la no espaço e no tempo.

Ausência de referência espacial ou atopia: as diferenças próprias do espaço percebido (perto, longe, alto, baixo, grande, pequeno) são apagadas; o aparelho de rádio e a tela da televisão tornam-se o único espaço real. As distâncias e proximidades, as diferenças geográficas e territoriais são ignoradas, de tal modo que algo acontecido na China, na Índia, nos Estados Unidos ou em Campina Grande apareça igualmente próximo e igualmente distante.

Ausência de referência temporal ou acronia: os acontecimentos são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros; surgem como pontos puramente atuais ou presentes, sem continuidade no tempo, sem origem e sem conseqüências; existem enquanto forem objetos de transmissão e deixam de existir se não forem transmitidos. Têm a existência de um espetáculo e só permanecem na consciência dos ouvintes e espectadores enquanto permanecer o espetáculo de sua transmissão.

Como operam efetivamente os noticiários?

Em primeiro lugar, estabelecem diferenças no conteúdo e na forma das notícias de acordo com o horário da transmissão e o público, rumando para o sensacionalismo e o popularesco nos noticiários diurnos e do início da noite e buscando sofisticação e aumento de fatos nos noticiários de fim de noite. Em segundo, por seleção das notícias, omitindo aquelas que possam desagradar o patrocinador ou os poderes estabelecidos. Em terceiro, pela construção deliberada e sistemática de uma ordem apaziguadora: em seqüência, apresentam, no início, notícias locais, com ênfase nas ocorrências policiais, sinalizando o sentimento de perigo; a seguir, entram as notícias regionais, com ênfase em crises e conflitos políticos e sociais, sinalizando novamente o perigo; passam às notícias internacionais, com ênfase em guerras e cataclismos (maremoto, terremoto, enchentes, furacões), ainda uma vez sinalizando perigo; mas concluem com as notícias nacionais, enfatizando as idéias de ordem e segurança, encarregadas de desfazer o medo produzido pelas demais notícias. E, nos finais de semana, terminam com notícias de eventos artísticos ou sobre animais (nascimento de um ursinho, fuga e retorno de um animal em cativeiro, proteção a espécies ameaçadas de extinção), de maneira a produzir o sentimento de bem-estar no espectador pacificado, sabedor de que, apesar dos pesares, o mundo vai bem, obrigado.

Paradoxalmente, rádio e televisão podem oferecer-nos o mundo inteiro num instante, mas o fazem de tal maneira que o mundo real desaparece, restando apenas retalhos fragmentados de uma realidade desprovida de raiz no espaço e no  tempo. Como desconhecemos as determinações econômico-territoriais (geográficas, geopolíticas, etc.) e como ignoramos os antecedentes temporais e as conseqüências dos fatos noticiados,  não podemos compreender seu verdadeiro significado. Essa situação se agrava com a TV a cabo, com emissoras dedicadas exclusivamente a notícias, durante 24 horas, colocando num mesmo espaço e num mesmo tempo  (ou seja, na tela) informações de procedência, conteúdo e significado completamente diferentes, mas que se tornam homogêneas pelo modo de sua transmissão. O paradoxo está em que há uma verdadeira saturação de informação, mas, ao fim, nada sabemos, depois de termos tido a ilusão de que fomos informados sobre tudo.

Se não dispomos de recursos que nos permitam avaliar a realidade e a veracidade das imagens transmitidas, somos persuadidos de que efetivamente vemos o mundo quando vemos a TV ou quando navegamos pela internet. Entretanto, como o que vemos são as imagens escolhidas, selecionadas, editadas, comentadas e interpretadas pelo transmissor das notícias, então é preciso reconhecer que a TV é o mundo ou que a internet é o mundo.

A multimídia potencializa o fenômeno da indistinção entre as mensagens e  entre os conteúdos. Como todas as mensagens estão integradas num mesmo padrão cognitivo e sensorial, uma vez que educação, notícias e espetáculos são fornecidos pelo mesmo meio, os conteúdos se misturam e se tornam indiscerníveis. No sistema de comunicação multimídia  a própria realidade fica totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais num mundo irreal, no qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência, mas se transformam em experiência. Todas as mensagens de todos os tipos são incluídas no meio por que fica tão abrangente, tão diversificado, tão maleável, que absorve no mesmo texto ou no mesmo espaço/tempo toda a experiência humana, passada, presente e futura, como num ponto único do universo.

Se, portanto, levarmos em consideração o monopólio da informação pelas empresas de comunicação de massa, podemos considerar, do ponto de vista da ação política, as redes sociais como ação democratizadora tanto por quebrar esse monopólio, assegurando a produção e a circulação livres da informação, como também por promover acontecimentos políticos de afirmação do direito democrático à participação. No entanto, os usuários das redes sociais não possuem autonomia em sua ação e isto sob dois aspectos: em primeiro lugar, não possuem o domínio tecnológico da ferramenta que empregam e, em segundo, não detêm qualquer poder sobre a ferramenta empregada, pois este poder é uma estrutura altamente concentrada, a Internet Protocol, com dez servidores nos Estados Unidos e dois no Japão, nos quais estão alojados todos os endereços eletrônicos mundiais, de maneira que, se tais servidores decidirem se desligar, desaparece toda a internet; além disso, a gerência da internet é feita por uma empresa norte-americana em articulação com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, isto é, gere o cadastro da internet mundial. Assim, sob o aspecto maravilhosamente criativo e anárquico das redes sociais em ação política ocultam-se o controle e a vigilância sobre seus usuários em escala planetária, isto é, sobre toda a massa de informação do planeta.
Na perspectiva da democracia, a questão que se coloca, portanto, é saber quem detêm o controle dessa massa cósmica de informações.  Ou seja, o problema é saber quem tem a gestão de toda a massa de informações que controla a sociedade, quem utiliza essas informações, como e para que as utiliza, sobretudo quando se leva em consideração um fato técnico, que define a operação da informática, qual seja, a concentração e centralização da informação, pois  tecnicamente, os sistemas informáticos operam em rede, isto é, com a centralização dos dados e a produção de novos dados pela combinação dos já coletados.

Avenida Brasil e Carminha: é machista por que é punitivista

Eu gosto de assistir novela, aprendi com a minha mãe e as minhas tias, gosto de falar da estrutura da ficção, torcer pela personagem mais legal, me identificar com esta ou aquela personagem e afins. Atualmente com uma vida louca cabulosa não tenho conseguido acompanhar nenhuma novela. Mas to refletindo pra escrever este post já faz um tempo.

Bem, não dá para você falar de relação entre a mídia e a sociedade partindo do pressuposto apenas da sua experiência pessoal, A começar que o processo é dialético. Uma novela não apenas forma caldo ideológico como também reflete o senso-comum. É um processo dialético e nem um pouco simples. A novela não apenas reflete o que existe na sociedade, mas ela também ajuda a manter o status quo, o qual pode ser mais ou menos progressista dependendo do enredo, das reviravoltas da trama e, é claro, da própria organização do debate a sociedade. O processo se dá junto e combinado e compreender isso é chave para se criticar, pois aí você olha socialmente e não do alto do seu empoderamento pessoal diante de como analisar algumas questões.

Nessas novelas, homens apanhando não são vendidos como espetáculo, por pior que tenham se portado. Pode ter lá uma briga e uns sopapos, mas não há essa conotação moral. A surra na vilã é atração da semana, às vezes um dos pontos altos da trama. Dá capa em revista semanal e pico de audiência. Os pecados dessas mulheres variam muito: umas foram adúlteras, outras só foram sensuais; umas são estelionatárias, outras assassinas. Então não interessa se é um crime que pode ser apurado e punido por lei, se é uma fraqueza de caráter ou um simples desvio de conduta de acordo com a moral estabelecida. A pena prevista é uma só: surra.(PAIVA, Iara. Mas mulher apanhando dá audiência, né?)

Não vou começar a falar por que baterem na Carminha em “Avenida Brasil” é machista, como eu disse a novela ela reflete e mantém o status quo social. Acho que a reflexão é anterior, é como uma lógica social punitivista está intrísecamente ligada a uma lógica social patriarcal e é isso que me incomoda em “Avenida Brasil” desde o começo.

Um estado autoritário é também um estado que não respeita os direitos de suas minorias. São Pinheirinhos, Carajás, Sabra e Chatila, Guarani Kayowaá, incêndios criminosos em favelas e tantas outras coisas que limpam a cidade para que quem tem dinheiro possa usá-la. Não é esse partido ou aquele, mas sim o colocar em prática uma política de organização do estado que não beneficia a liberdade, mas sim a repressão e quem primeiro sofre com isso são as pessoas que tem menos direitos: os pobres, as mulheres, LGBTs, negrxs.

Ser feminista e se dizer apolítica, ou corroborar com políticas públicas que nos afetam e nos sucumbem ao status quo não deve ser o almejado. Não quero um mundo menos pior para as mulheres, mas isso não passa apenas por acertar um voto, isso passa por que espaços conseguimos organizar para discutir e pensar qual mundo queremos. Uma andorinha só não faz verão, mas ela pode acordar o bando inteiro. (FRANCA, Luka. Mulheres, fascismo e estado penal)

Pontuo isso por que no final das contas é sobre isso que “Avenida Brasil” trata: de todo mundo poder resolver por si mesmo seus problemas e usar  o método que for para fazê-lo. A começar pela Nina, que vai se vingar da Carminha, ou seja, julgamento sumário está valendo. A Nina pode torturar a Carminha, a Carminha pode torturar a Nina, o Tufão pode bater na Carminha, a Ivana pode ameaçar o Max e está tudo bem, por que o que vale é cada um resolver o problema da sua forma: julgar, condenar e punir da forma que bem achar plausível.

É por isso que a novela é machista e é punitivista, não é por um episódio pinçado e esperado arduamente, ou é normal as timelines de todo mundo, nas padarias você ouvir sempre que uma dessas cenas acontece algo do tipo: a mais mereciam mesmo, tinha que ser torturada, apanhar e afins. Isso é sadismo, isso reflete o quanto a sociedade está pouco ligando para como estruturamos o nosso estado e um estado punitivista no pior estilo Judge Dredd só corrobora para uma organização conservadora que atenta contra os direitos humanos (mulheres, LGBTs, negrxs, indígenas e afins).

Há um dado concreto de que as maiores surras exibidas nas novelas foram realizadas contra mulheres, e isso já dava um debate inteiro sobre como se estrutura ideologicamente o discurso. Mas não quero me ater a isso, quero me ater ao fato de que todas as personagens da trama tem total poder de realizar julgamentos e punições e isso é perigoso.

As pessoas envolvidas em casos de violência contra mulheres colocam em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: quem não se enquadra em um padrão moral que nos foi empurrado – e que não obedece à hegemonia masculina, heterossexual e cristã – é a corja da sociedade e age para corromper o nosso modo de vida e tornar a existência dos “cidadãos de bem” um inferno. Seres que nos ameaçam com sua liberdade, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos “homens de bem”.

Quando uma mulher tem uma relação extraconjugal, o coletivo não a agride por ter rompido unilateralmente um acordo interno do casal, mas por ter desrespeitado uma regra social que todas as outras pessoas estão obrigadas a obedecer. Quem é ela para achar que pode ser melhor do que os outros? (SAKAMOTO, Leonardo. Que tal processar Tufão pela Lei Maria da Penha?)

Carminha apanhou não pelos crimes que cometeu na trama, mas por que traiu Tufão, e isso no diálogo é deixado claro. Max apanhou também por que traiu, por que subverteu como as relações entre pessoas devem ser constituídas, deixaram de ser propriedade, foi por isso que apanharam. Assim como Suellen foi punida por exercer sua liberdade sexual e depois novamente punida na novela quando é encarcerada pelo homem que a traficou (engraçado que disso todo mundo esquece).

O julgamento sumário em “Avenida Brasil” acontece a torto e a direito, e é dado a todos o direito de punir, mas o principal alvo dessas punições sumárias são entre as mulheres, mesmo que seja da Nina punir a Carminha. E isso reflete e fomenta uma lógica social, que é a lógica social que vimos em 2006 e vemos novamente, onde as pessoas podem sim julgar, condenar e punir. Onde ex-maridos decidem se mantém ou não a vida das mulheres com quem se relacionaram, ou esquecemos de Maria Islaine, Mércia Nakashima, Eliza Samudio e Eloá?

A grande mídia nos bombardeia com os trágicos casos de Eliza Samudio e Mércia Nakashima, porém estes não são casos isolados, não ocorreram por que Bruno e Ismael são maçãs podres na cesta e se retiradas do convívio social o resto estará protegido de sua influência nefasta. Segundo o estudo Mapa da Violência no Brasil 2010 do Instituto Zangari dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil entre os anos de 1997 e 2007 em um total de 41.532 mortas, Eliza e Mércia engrossam a estatística que coloca o nosso país acima do padrão internacional e Bruno e Ismael nada mais são de uma parte das maçãs podres que enxergam nas mulheres um objeto a ser usado e jogado fora, que não tem direito a decidir o final de uma relação, são mais dois exemplos de como a mulher não tem autonomia alguma assegurada neste país. (FRANCA, Luka. Mais uma vítima do descaso com o problema da violência contra a mulher)

E essa lógica não se coloca apenas nas relações entre homens e mulheres. O processo de extermínio da juventude negra e de encarceramento em massa que vive o Brasil também chega na lógica punitivista refletida e perpetuada por “Avenida Brasil”. É a lógica do bandido bom é bandido morto, para uns a saída é apenas o julgamento sumário, a justiça pelas próprias mãos e o foda-se os direitos humanos por que precisamos de humanos direitos. É essa reflexão que “Avenida Brasil” traz desde o seu começo com todos os seus personagens, cada um pode resolver seus impasses com os outros pegando os métodos que quiserem: tortura, tapas, socos e escurraços.

Nós deixamos isso passar por que entramos no transe, é só uma novela, assim como é só uma piada. Ninguém fala sobre as porradas que Max sofreu, ou a tortura feita por Nina a Carminha, ou a tentativa de assassinato de Nina por Carminha e tantas outras soluções sumárias que a novela nos apresentou. É machista por que é punitivista, mostra uma forma de estruturar o poder que mantém patriarcado e as estruturas vigentes. Pelo menos para mim é esse o debate e não o debate de: eu sei fazer o distanciamento entre ficção e realidade.

Ou agora vão dizer que uma novela é menos pior que uma piada machista?

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