Guest post: Ontem, no bar, eu tive a impressão de ter visto o rapaz que me estuprou

Estou completamente sem tempo para postar aqui no BiDê. Aí a Martina* me pediu para publicar este relato sobre a experiência que ela viveu há algum tempo quando teve que lidar com o próprio estupro. Normalmente não abro este espaço para relatos pessoais, porém a Martina* é amiga querida e o post traz algumas reflexões importantes sobre a sociedade e violência sexista.

*Martina foi usado pra preservar a identidade desta minha amiga.

Eu não tenho certeza pois, como na noite em que ele me seguiu até minha casa, eu estava bebendo cerveja e pode ser que meu estado de percepção estivesse um tanto alterado. Enfim, eu não estou afirmando que vi o rapaz que me estuprou no bar, mas afirmo sim – e com toda convicção – que tive a sensação de tê-lo visto.

Eu senti medo, vergonha e vontade de ir embora. Vontade de sair de fininho como se nunca tivesse aparecido no lugar, como se naquela noite não tivesse decidido ir dar uma volta com meus amigos e amigas, beber cerveja para relaxar, fumar cigarros e caminhar pelas ruas noturnas como se meu corpo não fosse um alvo para o açoite machista.

Claro que falar para as pessoas que estavam comigo na mesa que eu me sentia mal por ter visto uma pessoa que me fez mal não foi uma possibilidade. Como eu poderia explicar que estava mirando meu possível algoz se nem contei que fui um dia vítima de sua “necessidade de macho” de fazer sexo com a primeira pessoa que passasse? Eu passei. Estava voltando para casa sozinha, alcoolizada, e ele me abordou e me violentou.

(A escrivã falou assim para mim na delegacia onde fui fazer o B.O: “mas se você estava alcoolizada, não podemos afirmar que foi um estupro, você estava em uma situação permissiva… Não temos um crime aí”. Graças a um contato com amigas mais esclarecidas que eu e que a escrivã, descobrimos que meu caso se encaixava no que se chama de “estupro de vulnerável” – quando a vítima não tem condições físicas ou psicológicas de decidir sobre o ato sexual).

Consegui fazer o boletim de ocorrência e portanto realizar todo o tratamento contra doenças sexualmente transmissíveis e contra a possibilidade de uma gravidez indesejada. No Hospital Pérola Byigton, em São Paulo, existe todo um programa que dá suporte à mulher em situações como a que eu vivi. Não sei se foi apenas no meu caso, uma sorte que tive, ou se é sempre assim, mas eles me trataram com muito cuidado, desde o momento em que eu dei entrada no hospital até os últimos dias quando eu precisei retirar o último kit de medicamentos usados para prevenção do vírus HIV.

Esse coquetel que eu tomei foi uma bomba no meu corpo, eu tinha que tomar meia hora antes de cada dose (uma combinação de dois ou três remédios anti-HIV, já não lembro mais) dois remédios para o estômago. Se eu não tomasse (como muitas vezes acabei tendo que fazer pois o remédio para o estômago dá um puta sono e eu ficava incapacitada de trabalhar) sentia dores terríveis, uma gastrite aguda, enjoo, náuseas, vontade de vomitar (ainda bem que eu não vomitei nenhuma vez, porque se o fizesse, teria que repetir a dose do coquetel). O tratamento durou um mês. Nesse tempo eu escondi das pessoas o porquê de estar deprimida, de não estar bebendo, sem fome, de estar indo dormir cedo, sempre abatida, sempre cansada e com uma tristeza amarga nos olhos e no corpo que ninguém entendia – é que eu sempre fui uma garota muito bem humorada, muito da risada. Eu gosto de rir alto, gosto de ir para o bar falar das bobagens, falar da política, falar da arte… Não vou parar de fazer isso. Tentaram me fazer parar, enfiaram o dedo na minha cara, enfiaram um pau em mim, e disseram: LUGAR DE MULHER NÃO É NA RUA! NÃO É NO BAR! NÃO É NA NOITE! E SÓ É NO DIA PORQUE A GENTE PERMITE!

E me machucaram. Eu falo no plural porque esse cara que me violentou não é só um, ele é muitos, ele é toda a nossa cultura machista que delimita os territórios onde as mulheres podem e devem atuar como seres sociais. E eu sou muitas também, e sou muitxs (com x mesmo, nessa estranheza linguística, pra rasurar bastante essa dicotomia burra de gêneros que não abarca as pessoas que pulam fora das regras heteropatriarcais). Eu fiquei em casa muito tempo, com medo que violassem novamente o meu corpo, meu campo de luta, com medo que acontecesse em mim, no que eu sou, mais uma tragédia, mais um símbolo de que eu não devo ter sexualidade, não devo exibir quem eu sou na Medina.

Enfim, eu voltei pras ruas. Mas a força não saiu só do meu coração… Meu regresso ao mundo público não se deu por uma força espontânea e individual: eu voltei depois de ter falado com pessoas que entenderam o que eu estava vivendo, que decidiram lutar junto comigo contra o machismo, contra essas doenças que botam no corpo da gente pra gente se achar feia e infértil de prazer. Eu voltei quando encontrei meus pares, quando me organizei com pessoas que todos os dias enfrentam as guerras que a sociedade insiste em ocultar com suas bandeiras estatísticas de bem-estar social e seus índices de desenvolvimento humano.

É triste eu não ter tido coragem de falar para as pessoas que eu estava angustiada e queria ir embora. Eu lamento ainda ter, dentro de mim, essas sombras contra as quais preciso lutar.

Como eu estava alcoolizada, não consegui lembrar o rosto dele na hora da denúncia. Durante semanas eu andei pelo meu bairro achando que todos poderiam ser ele. E pensava assim: se naquela noite ele não tiver bebido, então mais uma vez ele tem sobre mim uma vantagem, ele me conhece, sabe onde eu transito e eu só tenho um rascunho na minha cabeça, cheio de lacunas originadas por um processo deletério que eu nunca tinha vivido antes. Depois eu tive de me desvencilhar dessa ideia fixa, posto que enlouqueceria se não o fizesse.

Eu posso ter cometido um erro. O cara que eu vi pode não ser o meu estuprador. Mas o bar, esse não tem engano, é um espaço heternormativo, a noite é a casa dos homens. Sinto que não estava totalmente paranoica ao achar que todos a minha volta poderiam ser o cara que me estuprou, todos poderiam tê-lo feito, todos os homens têm o poder avalizado por nossa cultura para fazê-lo. Mas isso vai mudar. Isso vai mudar e eu não vou mais ficar com vergonha de ter passado o que passei. Não me sentirei exposta e moralmente equivocada. Não me sentirei um lixo. Não terei que usar pseudônimos ao compartilhar minha história de violência de gênero.

Amanhã haverá de ser outro dia.

Blogueiras Feministas: Auxílio financeiro durante a gravidez, aborto e o pulular da misogínia

Segue o vigésimo sexto texto publicado no Blogueiras Feministas.

Semana passada a Defensoria Pública do Estado de São Paulo divulgou que o número de mulheres grávidas que tem ciência do direito de auxílio antes do nascimento é ínfima. A lei que institui o auxílio financeiro as mulheres grávidas é de 2008. Muito bem, a questão é que semana passada o debate voltou à tona e me assustou, como de costume, a baixa noção de comentários sobre os direitos das mulheres.

A lógica de que mulher engravidando é sinônimo de golpe da barriga foi a maior das premissas que ouvi durante a última semana, outra pérola foi o um comentário falando sobre como as feministas e o governo modificam sua posição sobre vida intrauterina quando há dinheiro envolvido. Para quem tem estômago os comentários podem ser lidos aqui.

O texto pode ser lido completo aqui.

Comprovação de virgindade, exames ginecológicos e de próstata para ser policial civil

Não é raro nos depararmos com vagas de emprego onde uma lista de requisitos baseados em preconceitos são apresentadas. Porém em janeiro deste ano o Governo baiano lançou edital de abertura de concurso público para a polícia civil no qual uma das exigências para as candidatas mulheres era a apresentação de avaliação ginecológica detalhada.

O item polêmico do edital pede “avaliação ginecológica detalhada, contendo os exames de colposcopia, citologia e microflora” às candidatas. Mas, esses exames são dispensados para as mulheres “com hímen integro”. No entanto, nessa situação a candidata terá que comprovar que é virgem, através de atestado médico, com assinatura, carimbo e CRM do médico que o emitiu. (Concurso da Polícia na Bahia pede exames ginecológicos e comprovação de virgindade)

A primeira pergunta que me veio a cabeça quando li sobre o caso foi: Como é que uma DST impediria a mulher de escrever, investigar ou lidar com policiais?

Ora, modificação na flora vaginal de uma mulher não atingiria em nada a produtividade nas funções ali descritas no edital. Fora que é uma boa forma também de excluir do processo mulheres e homens trans.

Essa exigência nos dias atuais é, extremamente, abusiva e desarrazoada em virtude da grave violação ao inciso III do art. 1º da Constituição Federal de 1988, que consagra o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, bem como ao art. 5º do citado Diploma Legal, que dispõe sobre o Princípio da Igualdade e o Direito a Intimidade, Vida Privada, Honra e Imagem.

E foi justamente o Estado, responsável em promover esta dignidade, que atuou desrespeitando o mínimo existencial para as candidatas inscritas no Concurso Público da Polícia Civil do Estado da Bahia.

A imposição legal de critérios de admissão baseados em gênero, idade, cor ou estado civil configura uma forma gravosa de intervenção no âmbito da proteção à igualdade jurídica (CF, art. 5º, caput) e da regra que proíbe quaisquer desses requisitos como critério de admissão (art. 7º, XXX,CF), além das violações à Lei 9.029/95. (OAB-BA. Manifestação de Repúdio)

Há de se destacar uma outra questão, estamos falando de um estado governado por um dito setor progressista da sociedade brasileira. A Bahia não é governada pelo DEM, PSDB ou PMDB, a Bahia é governada pelo PT e tem entre seu corpo executivo uma Secretaria de Políticas para Mulheres. Ou seja, numa primeira análise um concurso público estadual com este tipo de exigência médica e discriminação não teria espaço.

Os itens ali exigidos no edital não constrangiam apenas as mulheres cis, mas também pessoas trans em geral, pois além dos exames ginecológicos era exigido para homens com mais de 45 anos apresentar PSA (vulgo exame de próstata) e numa sociedade completamente conservadora como a nossa isso abre sim processo de constrangimento a todos os envolvidos, além de ajudar também na discriminação contra pessoas trans.

Não acho que mulheres (cis ou trans) ou homens (cis ou trans) devam se submeter ao constrangimento de apresentar exames ginecológicos e urológicos quando disputam uma vaga de emprego, principalmente quando é fruto de concurso público. Ainda mais se formos levar em conta a sociedade conservadora submersa em tabus idiotas como o lidar com a sexualidade. O governo baiano foi completamente infeliz e demorou para poder modificar

O mínimo foi feito pelo governador Jaques Wagner, veio a público dizendo que iria suspender os itens do edital que provocam constrangimento as mulheres, porém não falou nada sobre possíveis constrangimentos a pessoas trans. Porém é de se pensar, como um edital com requerendo exames ginecológicos ou comprovação de virgindade passa pelo corpo administrativo de um governo “progressista”?

Acho importante localizarmos também que a questão não é apenas a mudança no edital, mas também a perspectiva que vem se consolidando junto a sociedade sobre a equidade de gênero. Primeiro por que o governo da Bahia eve desculpas não apenas a nós mulheres cis, mas também a mulheres e homens trans que também seriam constrangidos por estes itens no edital baiano. Segundo por que mostra o quanto a velha concepção política de que os debates não são transversais ainda é muito arraigado, mesmo quando falamos de setores políticos que historicamente eram referência nas lutas feministas, LGBTs e antirracistas.

O edital era de janeiro, a retificação aparece agora em março. Após vir a público via mídia e posicionamentos da OAB-BA. Mas quantos editais públicos passam despercebidos? Quantos reverberam o cissexismo e o machismo?

O caso baiano apenas vem para alertar, suscitar debates e apontar que as vezes as velhas concepções políticas apenas nos legam derrotas e guetização dos debates.

Blogueiras Feministas: É hora de perder a paciência!

Segue o vigésimo quarto texto publicado no Blogueiras Feministas.

Esta é uma semana muito importante, uma semana importante para o movimento negro, o movimento feminista e, depois demais uma morte de militante LGBT no final de semana, para o movimento LGBT. O tema que vem norteando esta semana e a maioria das outras semanas do ano, continua a ser, para nós, a violência cotidiana, o processo de nos tornarem seres alheios as decisões políticas e de ocupação dos espaços de poder. É o recrudescimento da nossa própria opressão.

A discriminação racial é um dos pilares das desigualdades do país e ainda persiste a divisão da sociedade entre a “Casa Grande” e a “Senzala”, o “sinhôzinho” e a “mucama”, a falsa democracia racial que estrutura privilégios de uma pequena parcela em detrimento da maioria absoluta da população. O racismo é estruturante na sociedade capitalista e patriarcal e, no processo de histórico de construção da nação brasileira, o povo negro sempre esteve às margens da sociedade, colocado no centro de teorias higienistas que ainda prevalecem, a exemplo das ações de criminalização da pobreza e genocídio da juventude negra. (OLIVEIRA, Liliane. Por que o feminismo tem que ser antirracista)

O texto pode ser lido completo aqui.

Blogueiras Feministas: Os jovens negros morrem e as mulheres negras também morrem

Segue o vigésimo segundo texto publicado no Blogueiras Feministas.

Já faz um tempo que o movimento negro vem colocando na pauta a discussão sobre o genocídio da juventude negra, criminalização da pobreza e a política de encarceramento em massa promovida em nosso país. Debate duro, difícil, mas que é preciso ser encarado, pois é a realidade de milhares de pessoas no Brasil, incluindo mulheres, sejam as mães daqueles que foram assassinados ou as jovens negras que sofrem com abortos ilegais e inseguros.

Os mais recentes índices de violência demonstram o perfil racial dos assassinatos no país. O número de mortes de jovens negros, entre 15 e 24 anos, é 139% maior do que de brancos. Segundo o Mapa da Violência 2012, entre 2001 e 2010 o número de vítimas brancas, de 15 a 24 anos, caiu 27,5% (de 18.852 para 13.668), enquanto que de vítimas negras aumentou 23,4% (de 26.952 para 33.264).  (ROCHA, Raiza. Ato denuncia o extermínio da população negra em São Paulo)

O texto pode ser lido completo aqui.

A necessidade da esquerda socialista compreender o direito ao corpo

Cada vez o domínio sobre o corpo das pessoas tem aumentado e isso tem reverberado diretamente em políticas para a classe trabalhadora, ou seja, o direito ao nosso corpo precisa ser encarado como um patamar importante da luta das mulheres da classe trabalhadora também, não na lógica da liberação sexual pela liberação sexual, isso é limitador, mas como a necessidade da busca de uma sociedade plenamente igualitária e emancipadora. Perder este pé e a noção de que hoje no mundo se reorganiza um pedaço do movimento feminista que precisa ser disputado é um tanto cego, pois a maioria das mulheres que mais precisa destas políticas são trabalhadoras e negras.

A legalização do aborto tem sido um dos temas mais nefrálgicos do programa feminista há muito tempo, ainda mais em países em que a laicidade do estado é uma lenda urbana muito mal contada. Semana passada mais um capítulo da luta pela legalização da prática no país foi escrita, o Ministério da Saúde acabou por divulgar que iria estudar medidas para reduzir os danos do aborto ilegal em nosso país. A notícia obviamente causou furor entre os conservadores de plantão que dizem esta política ser ilegal, confirmando que em nada se preocupam com a vida das mulheres. Pois mesmo uma política recuada do governo que primeiramente só pensa em estudar a possibilidade de uma política de redução de danos (ou só eu acho que a possibilidade da possibilidade é algo recuado?).

Segundo a proposta em discussão, os médicos passariam a orientar as mulheres decididas a tomar o remédio. Explicariam como usá-lo e qual é a dose ideal, de forma a reduzir o risco de complicações. É possível que o governo crie uma cartilha para orientar os profissionais sobre o que fazer quando atendem uma paciente antes ou depois do aborto clandestino. (SEGATTO, Cristiane. O Estado e a mulher que aborta)

Porém esta política necessita de um olhar sobre o que é a saúde pública brasileira hoje. Um país onde parte considerável do serviço público é vendido para OSs e OSCIPs, das quais a maioria é administrada por entidades religiosas e impõe dentro da sua administração seus dogmas. Muitas vezes se negando a atender mulheres em situação de abortamento. Lembrando que no caso das mulheres negras a situaçãod e sangramentos e risco de vida acaba sendo 6 vezes mais do que as mulheres brancas, pois normalmente somos nós que recorremos ao SUS privatizado e desmantelado.

O debate está aberto há tempos, é um embuste dizer que este movimento do Ministério da Saúde reabre o a discussão junto a sociedade, até por que foi este o debate que pautou as eleições de 2010, onde a atual presidenta capitulou de todas as formas aos tucanos e aos verdes, assim como tirou do papel a MP 557 (cadastro de gravidez) para viabilizar o seu Rede Cegonha e escanteou de vez o PNAISM (Plano Nacional de Atendimento Integral à Saúde da Mulher) e o PNHP (Plano Nacional de Humanização do Parto). Ambos de formulação da época do governo Lula  e que atendiam a diversidade de mulheres (negras, lésbicas…) existentes na classe trabalhadora hoje.

A política sobre direitos sexuais e reprodutivos acaba sendo tão controversa no país que é preciso sentar e observar atentamente as movimentações do poder público na área. Como já disse a política de privatização da saúde por parte do governo petista é uma realidade no país. São leitos do SUS terceirizados para planos de saúde, postos de saúde administrados por empresas privadas e não pelo poder público e tudo isso interfere diretamente na aplicação de uma política que leve em conta os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, ou seja, o direito sobre o corpo das mulheres tem relação direta com as políticas existentes hoje em nossa sociedade sobre saúde pública. E debate saúde pública e direitos sexuais e reprodutivos deve ser muito pequeno burguês mesmo para parte da esquerda brasileira não fazer esta ligação e não disputar nos espaços do movimento de saúde, feminista, sindical, estudantil e o escambau uma concepção de saúde que contemple a maioria da classe trabalhadora.

A política de privatização da saúde acaba por interferir diretamente no próprio debate de humanização do parto, pois a industria da cesárea no país e a desumanização do atendimento obstétrico, pois a maioria das cesarianas feitas em nosso país é no setor privado, que em alguns lugares chega a quase 80% das taxas de parto.

O Brasil é o país com maior índice de partos por cesariana no mundo.

Isso é uma grande preocupação para os governantes e para as famílias.

Para cada 1% que se cresce no índice de partos por cesariana, o custo operacional para o país e para a sociedade é aumentado em US$ 9,5 milhões. (*)

Uma em cada 1000 mulheres morre em partos por cesariana (**)

Na América Latina estima-se um número de 850.000 partos por cesariana desnecessários e o Brasil tem o índice de 32% bem acima dos Estados Unidos e todos os outros países latino americanos.(***). O Organização Mundial de Saúde desde 1985 recomenda que este número não ultrapasse 15%. (OLIVAS, Walter. Partos Normais x Partos por Cesariana)

Ora, se há um processo de privatização da saúde pública brasileira e os números mais alarmantes da industria da cesárea é na rede privada de saúde é só somar os dois dados para saber o que vai aprofundar nesta seara da saúde da mulher, ou não? Casas de Parto públicas com gerência direta ao governo são raríssimas, mesmo que saiam nos planos votados nas conferências de mulheres e de saúde. O que há na verdade é um descaso geral com os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, mas não apenas aquelas que nasceram com vagina e útero. Porém fomos acostumadas a não compreendê-las como parte também do mundo do gênero feminino.

Sim, as mulheres trans e travestis também sofrem diretamente com essa política aí colocada e que interfere na discussão do direito ao corpo.  Na última Parada Gay de São Paulo o governo tucano soltou nota pedindo para que as travestis e transsexuais se vestissem de maneira “comportada”, além disso a organização da para tirou estas mulheres do carro oficial da parada, onde o querido governador paulistano Chuchu estaria presente.

As travestis e transexuais iriam vestidas de professora, enfermeiras, advogadas. “Eles [os organizadores] pediram que nós não fossemos peladas ou de vestido curto. Mesmo a gente achando que no fundo tinha algum preconceito porque boy de sunga branca sem camisa iria ter aos montes, nós concordamos porque era uma maneira de dar visibilidade aos transgêneros.”

Toda esta situação escancara um certo desdém, mesmo que implícito, pelas vítimas mais visíveis da homofobia. “Com esta gestão não conseguimos diálogo algum, existe uma invisibilidade para as travestis e transgênros. A Parada Gay hoje é uma parada machista e misógina”, desabafa Janaína. (ANGELO, Vitor. Travestis e transexuais protestam contra Parada Gay: “É machista e misógina”)

Compreender o momento histórico onde o qeu há de mais conservador na sociedade acaba nos marginalizando, tirando direitos e justificando isso pela moral e bons costumes é fundamental. Pois o direito ao aborto legal e seguro, ao parto humanizado e a não marginalização dos LGBTs, em especial as TTs é importante. Pois as mulheres marginalizadas por realizarem abortos, por não serem biologicamente mulheres e que sofrem com cesáreas desnecessárias estão de um lado importante da classe trabalhadora, pois na maioria destes casos quem sofre a opressão é quem está na base da sociedade e por estar na base da sociedade é quem mais sofre com as retiradas de direitos e o descaso existente seja pelo governo, seja pela não compreensão de suas lutas por parte da esquerda sectária.

Mães pretas, mães encarceradas, mães trabalhadoras, mães sem direitos

Faz tempo que não consigo sentar e organizar um texto para publicar aqui pelo BiDê Brasil, mas como hoje é dia das mães e também 124 da abolição da escravatura achei por bem juntar os temas e sair do ostracismo aqui do blog.

Hoje é o dia em que a maternidade é celebrada, este instinto divino natural das mulheres que fica anos latentes até elas serem fecundadas e darem a luz aos minúsculos rebentos que formaram novos homens e mulheres da sociedade. Dádiva preciosa, é o significado que foi socialmente construído em nossa sociedade, bem antes da revolução industrial, mais ou menos na época em que surgiu a propriedade privada e a necessidade de se assegurar que os herdeiros de uma determinada linhagem eram seguramente herdeiros legítimos.

O instinto materno, como tantas outras coisas, é socialmente criado. Pior a maternidade da forma como a conhecemos é imposta as mulheres cotidianamente, muitas vezes sem que o estado e os governos garantam o mínimo acesso a direitos para que as mulheres mães tenham condição de criar seus filhos e fazer o mínimo planejamento familiar.

É no mundo do trabalho que vemos mais desnudada a diferença construída por um estado capitalista e patriarcal. Pois é neste espaço em que a diferenciação entre o trabalho reprodutivo e o trabalho produtivo se denudam e podemos perceber o quanto um é menos valorizado que o outro, e o quanto as mulheres acabam por assumir duplas ou triplas jornadas de trabalho. A secundarização do combate ao machismo só ajuda a reafirmar um estado baseado na opressão e desigualdade entre homens e mulheres, e assim pode ser dito também sobre o combate ao racismo e à homofobia. (FRANCA, Luka. A classe trabalhadora tem raça e gênero)

Vivemos em um mundo onde as mães são ovacionadas, mas quando aproximamos a nossa lupa vemos quanto o mínimo para o exercício da maternidade plena para todas as mulheres está longe de se efetivar, são mulheres que perdem suas moradias por causa de megaobras no Brasil todo, são atacadas dia após dia com os cortes anuais do governo em áreas sociais importantes como educação e saúde e nos afetam diretamente. São os nossos filhos que são mortos diariamente pela polícia militar brasileira, se durante a escravidão eram os sinhozinhos que tiravam a vida dos nossos filhos hoje o trabalho sujo foi institucionalizado, é o próprio estado que se livra de nós, seja por meio da política de genocídio da nossa juventude, seja pela crescente precarização dos serviços públicos aos quais estamos submetidas.

Somos nós e são os nossos filhos. Se avançamos um pouco mais na discussão nos deparamos com a situação das mães encarceradas. Realidade que já chegou aos cinemas seja como cinema “real” ou ficcional, só assistir Leite e Ferro ou Leonera para poder entrar um pouco na atmosfera do que é a maternidade encarcerada.

Cuidado pré-natal de rotina, incluindo-se acesso a exames de ultra-som e de sangue, não eram disponibilizados às mulheres grávidas em nenhuma das cadeias públicas visitadas. Algumas mulheres informaram receber algum tipo de cuidado pré-natal básico na unidade de saúde local, porém a frequência com que era examinadas variava consideravelmente entre as cadeias. As presas, normalmente, informaram que a visita feita pelo clínico geral não incluía cuidados pré-natais. Isso significa que elas dependiam dos funcionários para o agendamento de consultas e o seu posterior transporte para a unidade de saúde local. Algumas informaram ter descoberto sua condição de soropositivas na hora do parto, porque nenhum exame de sangue havia sido feito durante a sua gravidez. (HOWARD, Caroline (org.). Direitos humanos e mulheres encarceradas. págs 98 e 99)

O cotidiano nos mostra o quanto a maternidade, seja livre ou encarcerada é divinizada, mas na realidade o que vemos é a expropriação das mulheres mães, principalmente as negras e da classe trabalhadora, pois são estas que vêem seus filhos assassinados por uma política de higienização social nas periferias, sofremos com a falta de investimentos na saúde pública e temos postos de trabalho que não nos deixam ver nossos filhos crescer e em contrapartida não temos como mantê-los estudando visto o alto déficit de vagas na educação infantil.

Sofremos diretamente com o jogo contraditório do capital, como se a nossa carne e nosso sofrimento não já tivesse sido tão moído durante os anos de escravidão. Não, não basta termos sido arrancadas de nossas terras e estupradas por sinhozinhos, até hoje pagamos por nossa cor e se ontem éramos propriedade de outrem, hoje somos do setor mais expropriado e invisível da classe trabalhadora, as vezes invisível até aos olhos dos nossos pares.

Um dia das mães casado com o 13 de maio deixa apenas um recado para nós, recado que é preciso insistir para que se entranhe em nossos discursos e práxis revolucionária: construiremos uma revolução preta, feminista e socialista para não mais ver os nossos sofrerem.

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