Pílula sobre machismo, movimento negro e revolução

No movimento negro se fala tanto que quando pautamos a necessidade de pensar as questões que tangem a vida das mulheres e LGBT negrxs é dividir o movimento, setorializar e enfraquecer a unidade. Engraçado que se esquece, ou fingem esquecer, que o debate racial travado por nós no movimento feminista e LGBT apontando concretamente o que significa a nossa emancipação por completa também somos taxadxs de divisionistas, setorialistas e afins.

Porém é interessante ver o como diversos homens negros nos espaços da política geral acabam por se aliando com homens brancos quando a lógica é silenciar as pautas que podem atingir a “unidade” da política. O pautar que existe diversidade, especificidades e que elas precisam ser compreendida no construir político cotidiano é pensar o construir a emancipação de toda uma classe que é mulher cis e trans, que é indígena, que negra, que é lésbica e que é profundamente marginalizada e subjugada pelo Estado em que vivemos é profundamente revolucionário e não o contrário.

Na verdade, o criticar a existência de tais debates, o apontar da existência de machismo, homolesbobitransfobia, racismo em qualquer organização e movimento ou organização passa também por nós pensarmos como construir um processo político que desconstrua vícios históricos existentes na política. A manutenção da divisão sexual do trabalho nos espaços de militância é uma das coisas mais nefastas para a luta pela emancipação de todxs oprimidxs e exploradxs. Nada além disso.

Não há revolução no Brasil se não tiver mulher cis e trans, negras, indígenas, lésbicas pensando e falando de política em todos os espaços e não apenas para servir como token, mas para efetivamente apresentar a política construída para emancipação dxs que são marginalizadxs.

A classe é essa diversidade, o movimento negro é essa diversidade, o movimento feminista é essa diversidade, o movimento sindical é essa diversidade… Se não pensarmos política para a diversidade oprimida apenas faremos o mais do mesmo.

A eterna misoginia de Bolsonaro e estupro como manutenção de poder

Não é algo novo o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, apresentar em seus discursos sua concepção militarista, machista, homolesbobitransfóbica e racista de sociedade. Óbvio que no dia que antecederia a entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade à presidente Dilma ele reafirmaria sua faceta de representante do setor mais reacionário da sociedade e do Congresso Nacional.

Nesta terça, durante os pronunciamentos dos parlamentares na Câmara dos Deputados, Bolsonaro reafirmou que só não estupraria a deputada federal do PT-RS Maria do Rosário por que ela não merecia.

“Fica aí, Maria do Rosário. Fica aqui para ouvir. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei: ‘Não estupraria você porque você não merece'”, foi como Jair Bolsonaro iniciou sua intervenção no plenário sobre o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

O início da fala de Bolsonaro se remete a episódio acontecido em 2003 nos corredores da Câmara dos Deputados quando o deputado chamou Maria do Rosário de vagabunda, a empurrou e disse que só não a estuprava por que ela não merecia. Não é a primeira vez, nem a última que Jair Bolsonaro demonstra todo seu escárnio por aqueles que são mais marginalizados socialmente do que ele.

A primeira coisa importante a se lembrar é de que estupro no Brasil é crime hediondo, para além disso é bom lembrar que esta forma de violência contra mulheres, lésbicas, homens e mulheres trans também é uma foram de nos retirar a humanidade. Tanto que  estupro é usado amplamente como arma de guerra em diversos conflitos pelo mundo, justamente por ser uma forma de destabilizar comunidades inteiras. Estupro é sempre uma questão de poder e é isso que Bolsonaro acaba reivindicando ao reafirmar que esta ou aquela mulher não “merece” ser estuprada.

Porém usar violência sexual como arma de guerra não é especificidade da Líbia, tal tática é usada amplamente em diversos conflitos no mundo, como já vem alertando a Anistia Internacional há bastante tempo. Normalmente as mulheres são vistas como símbolos de honra nos povoados, assim os ataques às mulheres e meninas são formas de subjugar e desmoralizar os homens de determinada região, ajudando assim a espalhar o medo e afugentar as pessoas. As mulheres vítimas de violência sexual em territórios de conflitos não sofrem apens de traumas psicológicos e emocionais por conta dos abusos, mas também sofrem com o receio de serem negadas por suas famílias. (FRANCA, Luka. Estupro não questão de sexo, é questão de poder)

Bom lembrar da importância da campanha “Eu não mereço ser estuprada” deflagrada pelas redes sociais no começo deste ano após divulgação de pesquisa realizada pelo IPEA sobre o tema. A questão é que a reafirmação de Bolsonaro demonstra profundamente o quanto da desumanização das mulheres ainda existe e é perpetuada pela cultura do estupro em nossa sociedade. O quanto o se utilizar da coerção sexual é algo colocado como aceitável para ensinar a todxs que subvertem o local social atribuído a cada gênero o que devem fazer e quais lugares devem ocupar de forma submissa e inquestionável.

A misoginia manifesta de Jair Bolsonaro já teve como alvo não só Maria do Rosário, como Marta Suplicy e Marinor Brito em 2001 quando do debate sobre os direitos LGBTs no Senado. Em todas as vezes a postura do macho branco hetero que coloca as mulheres que ousam questionar e se posicionar politicamente se reforça. O “coloquei fulana no seu devido lugar” é o demonstrar com truculência de que a política não é o lugar das mulheres e que ao estarem nestes espaços elas devem apenas cumprir seu papel histórico: o de baixar a cabeça e se submeter aos homens do Congresso Nacional.

Infelizmente Bolsonaro não representa apenas sua opinião própria. Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro reforçando um cenário de Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Suas opiniões marcadas pelo desprezo as lutas por igualdade e pelo fim da exploração e genocídios diversos existentes na nossa história estão hoje mais uma vez no Congresso Nacional. Bolsonaro ao dizer que Maria do Rosário “não merece ser estuprada” ataca a todas as mulheres que já foram vítimas ou não de violência sexual, ignora que em 2013 o número de estupros em nosso país foi maior do que o de homicídios dolosos.

Inclusive dando vazão para a perpetuação desta forma de violência e de tortura. Cabe sempre a nós apontar e reivindicar que a violência sexual não é aceitável, a ameaça – seja velada ou não – de estupro a qualquer mulher demonstra o quanto precisamos realmente avançar na emancipação e empoderamento de todxs aquelxs que são marginalizdxs na nossa sociedade.

Sobre transfobia e racismo

Uma coisa que eu tenho certeza é a de que os setores sociais mais marginalizados nessa sociedade capitalista, patriarcal, racista e homolesbobitransfóbica são negrxs. Se formos ver a grande maioria das travestis são negras e pobres (e isso é um recorte fundamental para sabermos sobre quem sofre com a estruturação do Estado no qual vivemos e quem não).

Frases-contra-o-racismo-1Não se combate uma opressão com outra como resposta. Não podemos também achar que todxs estamos no mesmo patamar de consciência sobre a totalidade dos debates e da disputa árdua de poder que a nós é colocada cotidianamente. Estamos falando entre nós que morremos por causa do racismo, do machismo ou da homolesbobitransfobia, estamos falando entre nós que temos um acesso ao mercado de trabalho dificultoso, que apanhamos em nossas casas, que sofremos violência psicológica quando ousamos ocupar espaços que historicamente não são os nossos com o debate difícil do feminismo de forma interseccional. Esse é um grau de compreensão que precisamos ter, isso se a nossa perspectiva for a de mudança estrutural da sociedade e não apenas garantir um lugar entre a classe dominante para dominar aqueles nossos que “não tiveram oportunidade”.

Transfobia não se responde com racismo, racismo não se responde com transfobia. Assim como machismo não se responde com racismo e vice-versa esse é o mínimo de compreensão que precisamos ter para realmente avançar na luta para superar todas estas amarras que o Estado utiliza para nos culpabilizar, invisibilizar e marginalizar cotidianamente.

É importante lembrar também que nenhum de nós está livre de cometer alguma forma de opressão, justamente por que também fomos formados nessa sociedade de merda, mas é fundamental sabermos olhar e desconstruir em nós mesmxs quando cometemos alguma forma de deslegitimação de discurso, invisibilização ou preconceito em geral. Não custa em nada fazer a auto-crítica, ao contrário, isso nos ajuda a avançar no processo de sínteses, de discussões e de compreensão do outro que tanto negamos.

CARTEL-MANI-TRANSFOBIA-2011É preciso que tenhamos noção que as opressões vividas por nós cotidianamente possuem um motivo, e não apenas o de nos humilhar, mas o de nos marginalizar e explorar por que nós mulheres brancas e negras, cis e trans, lésbicas, bissexuais e homens trans mesmo tendo (em alguns casos, pq em outros ainda há esta luta) conquistado uma série de coisas que nos igualam formalmente aos homens cis brancos e heteros nós na prática ainda somos vistos como seres de menor valor para a sociedade. Unidade não se faz só no discurso, se faz na prática de revermos também cada lugar de privilégio que nós temos e os preconceitos que nós mesmxs reverberamos. É um processo dialético necessário para realmente podermos desconstruir este Estado que corrobora com a nossa humilhação e violência cotidiana.

Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

Notas sobre a #RevoltaDaLâmpada e de como é bom lutar no fervo

Não é novidade a quantidade de casos de homolesbobitransfobia que existem no Brasil. Seja o caso dos rapazes agredidos no metrô há algumas semanas, seja o rapaz assassinado no Parque Ibirapuera ou a garota que foi estuprada para “aprender” ser mulher em plena Rebouças. O combate a violência homolesbobitransfóbica é uma agenda que vem ganhando força há anos e em conjunto com ela diversos outras reivindicações civis da população LGBT tem avançado junto a sociedade.

Tanto é fato isso que durante o período eleitoral que a agenda dos direitos civis LGBTs, mulheres e, de forma mais marginal, negrxs foram temas que ajudavam a diferenciar os projetos de país dentro de uma perspectiva progressista ou não, mesmo que em alguns momento fossem feitos de forma bem oportunista.

Ora, se o espaço vem sendo tomado paulatinamente e em momentos críticos do debate político brasileiro esta é uma questão que eclode por conta do recrudescimento conservador (oposicionista ou situacionista) isso deveria refletir em um apoio dos setores mais progressistas as manifestações que denunciam as violências sofridas pela comunidade LGBT, não?

No domingo (17/11) pude perceber que talvez a lógica não seja assim tão direta. A manifestação “A Revolta da Lâmpada“, lembrando os 4 anos em que um jovem foi atacado por homofóbicos com uma lâmpada na Av. Paulista 777, levou centenas de pessoas da comunidade LGBT para as ruas de São Paulo, além de contemplar as pautas LGBTs, ao ler o manifesto do ato podíamos notar a defesa da Legalização do Aborto, Legalização das Drogas, Direito ao Nome Social e uma série de outras questões que davam um tom político interseccional da manifestação. O fato era: podíamos contar nas mãos as organizações políticas que reivindicam o debate e que colocaram peso militante para ir ao ato.

Isso me deixou bastante intrigada, pois ir à Parada LGBT ou à caminhada lésbica é algo bem incorporado as diversas organizações progressistas que reivindicam as pautas de direitos humanos e combate as opressões. Porém, a sensação que fica, é que quando se sai do script do calendário base de manifestações, atos ou atividades em que devemos estar as organizações dão um tilt e o construir espaços de intervenção pública para além do script vira algo voluntarista.

Não sei se é por medo de fazer o debate sobre orientação sexual e identidade de gênero de forma mais cotidiana, ou por achar que o tema é secundário. O fato é que ontem eu senti falta de diversas organizações que cotidianamente reivindicam a lutar contra a homolesbobitransfobia e o que vi foi, no geral pois há boas exceções nisso, gente indo de forma mais voluntarista do que fruto de uma organização que encara o debate LGBT de forma estratégica.

Acho que há também um receio com o próprio formato destes atos, onde a política e o fervo se encaixam de forma perfeita. Para quem tem receio por conta disso só digo: se atualize minha filha, lutar no fervo é uma das coisas mais maravilhosas que podemos fazer.

PS: Durante o trajeto do ato houveram momento brilhantes: A mulheragem à Letícia Sabatella quando a manifestação toda deitou na Paulista; as palavras de ordem puxadas no carro de som sobre legalização do aborto e legalização das drogas, a reivindicação do feminismo e de pautas antirracistas. Fora o momento em que falaram da gloriosa Rosa no carro de som e ela ficou se achando toda ;D.

novembro de 2014 em Belém, maio de 2006 em São Paulo

5 de novembro de 2014, entro no computador para ler as notícias da manhã. O coração fica apertado como há tempos não ficava. Durante aquela madrugada diversos bairros de Belém haviam ficado sitiados após a morte do Cabo Antônio Marcos da Silva Figueiredo, também conhecido como Pet. Pet estava afastado da ROTAM (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana) por ser alvo de inquérito na Polícia Civil investigando o envolvimento dele e de outros policiais em um assassinato. Além deste inquérito, há outras denuncias recebidas pela ouvidoria do Sistema de Segurança Pública do Pará e pelo Comitê Estadual de Combate e Prevenção à Tortura sobre envolvimento de Pet com milícia organizada na cidade, porém, assim como o inquérito da Polícia Civil, as denúncias e os encaminhamentos relativos a elas seguem sigilosos.

ConvocatóriadarotamUma página da Rotam no Facebook, mas que não é um instrumento oficial de comunicação mantido pelo governo paraense, assim que a notícia de que o cabo Pet estava morto publicou uma mensagem dizendo que a “caça havia começado”. Não apenas esta página da Rotam afirmou que a caça havia começado pelas periferias paraenses como em alguns perfis de PMs afirmavam coisas semelhantes.

Na quarta mesmo a Segup (Secretaria Estadual de Segurança Pública) confirmou que 9 pessoas teriam morrido na Mangueirosa durante a madrugada, este número até a última sexta-feira subiu para 11. Porém, moradores afirmam que o número é maior, ainda há pessoas desaparecidas na cidade e não se tem notícia sobre entrada de feridos nos Prontos Socorros da cidade, mesmo que os óbitos informados depois de quarta tenham sido de pessoas que estavam internadas em PS da cidade. Na mesma página da Rotam quecontagemrotam informou o início da “caça” em retalhação por conta da execução do cabo Pet era possível ver uma postagem com a contabilização de quantas pessoas poderiam ter morrido durante a ação.

A narrativa contada pelas redes sociais, nas conversas ao telefone era algo muito comparável ao que ouvíamos em 2006 em São Paulo. Comércio fechando, escolas avisando que não dariam aula naquele dia, uma falta de informações oficiais grande e quando estas saiam o desencontro com informações coletadas na rua era brutal. Segundo H.L., morador da Terra Firme, havia uma diferença grande entre o pânico nos bairros periféricos e nos bairros centrais “Na TF o nosso pânico é de quem viveu e constantemente vive situações como essa, enquanto em bairros mais nobres o medo é que a violencia que nos assola chegue até eles”.

Acompanhando de longe, parecia que o dia não teria fim, olhando hoje parece que a semana ainda não terminou. “Os suspeitos [dos assassinatos ocorridos naquela madrugada eram sempre descritos como] dirigindo uma moto, encapuzados [seguidos] por um carro preto”, afirma Francisco Batista da Comissão de Justiça e Paz do Pará.

Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.(MANSO, Bruno Paes. Esquadrão da Morte 2.0. e a epidemia de violência no Pará)

RossicleyDurante uma coletiva de imprensa realizada por na própria quarta-feira o presidente da Associação de Cabos e Praças da PM do Pará, sargento Rossicley Silva, apareceu dizendo que os fatos ocorridos eram por conta de uma guerra de facções em Belém e que não envolvia a PM. Porém, o sargento no mesmo espaço foi confrontado, pois havia sido um dos PMs que postaram mensagem afirmando que a PM daria resposta à morte do Cabo Figueiredo. Dois dias após o acontecido o sargento apagou a publicação, postandoRepórter70 outra dizendo que a posição dele havia sido mal-interpretada. Ao que parece desenha-se um processo de encontrar um bode expiatório para a #ChacinaEmBelém, digo isso pelo fato de que no Repórter70 – coluna tradicional de um dos jornais de maior circulação do estado – foi publicado uma nota apontando que Rossicley foi o grande incitador de pânico pelas redes sociais.

“Os policiais mesmos fazem questão de explicitar [que] “isso ainda não acabou”. Esses milicianos estão dizendo que após o enterro do policial haverá toque de recolher e que eles vão atrás de quem estiver devendo”, diz H.L.

Durante a tarde Eder Mauro, deputado federal eleito pelo PSD e delegado de polícia, publicou um vídeo dizendo que estava voltando para Belém para colocar ordem na casa e não deixaria “bandidos fazerem em Belém o que fazem no Rio de Janeiro”.

Ao final do dia a cidade ficou deserta. Relatos de moradores do Marco diziam que havia pelo menos 3 helicópteros sobrevoando a região com holofotes ligados apontados para as ruas do bairro, o mesmo relato foi feito por moradores da Terra Firme na sexta. Porém, a partir desse momento a comoção nacional sobre o que vinha acontecendo em Belém abaixou, a invisibilização que acompanha o norte cotidianamente voltou.

De sexta para cá mais não se divulgou mais nenhuma morte em decorrência do massacre da madrugada de terça para quarta. Mas ao ouvir moradores e gente próxima a moradores é possível constatar que ainda há pessoas desaparecidas desde aquele dia.

A desconfiança de se falar sobre o que ocorre em Belém publicamente é um fato, o medo que toma qualquer quebrada sudestina quando se depara com violência desse calibre é se fechar com medo dos algozes. Houve famílias que saíram da zona mais afetada para outros bairros para fugir de uma possível “Operação Pente Fino” na região.

Infelizmente este não será o primeiro ou último episódio da violência contra a periferia que veremos em Belém, ou em qualquer outra capital brasileira. A Mangueirosa é uma as capitais mais violentas do país, tendo aumentado o número de homicídios na região nos últimos 10 anos.

Dados da Ouvidoria de Segurança Pública do Pará mostram que, em 2013, foram identificados 135 homicídios cometidos por agentes de segurança pública, sendo 122 realizados por PMs, 12 por policiais civis e um por Bombeiro Militar. No mesmo período, os casos de lesão corporal chegaram a 118, e outras 13 pessoas denunciaram tortura. No entanto, a própria Ouvidoria acredita que este quantitativo é bem maior, haja vista que muitas denúncias nem chegam às delegacias.

[+] Trecho de texto anônimo falando sobre a Chacina em Belém

Sexismo e eleições: Estupro é sempre uma questão de poder

questãodepoderQuando li a notícia do caso da menina no Rio de Janeiro que foi estuprada por conta de divergências políticas eu congelei. Ela foi violentada por três homens que estavam identificados como eleitores de Aécio Neves. A primeira questão que me passou pela cabeça foi a eterna palavra de ordem: Estupro não é sobre sexo, é sobre poder.

Apesar de acreditar que tremenda violência está associada sim ao cenário animoso que se acirrou ainda mais durante o 2º turno, não tive como relembrar de diversos casos na política que envolviam da violência sexual a violência psicológica. Rememorei cada uma das histórias que já ouvi, passei ou acompanhei no tempo em que sou militante política.

Infelizmente, esta não foi a primeira mulher abusada por conta de divergência política, também não será a última. A política é espaço de poder e o poder por fazer parte do mundo público não é legado as mulheres, mas aos homens e a forma mais brutal de se lembrar qual lugar da mulher nesta sociedade patriarcal e capitalista: o de ficar quieta sem opinar sobre nada que faça parte da disputa de poder.

latuffviolênciamachistaA violência sexual em um cenário de acirramento do debate político só é movida por uma intenção: Mostrar para a mulher que aquele lugar é do homem cis e não dela e quando não há mais argumentos se ganha pela violência, se ganha utilizando a arma de guerra mais deplorável que existe.

Quando adentramos a política, ainda mais se ousamos disputar espaços com os homens, estamos afrontando o status quo da organização social que diz que o nosso lugar é organizando a vida privada e não atuando na vida pública e talvez essa seja uma lição que precisamos levar não apenas estas eleições 2014, mas de diversos processos políticos pelo mundo.

Durante as manifestações na praça Tahrir, no Egito, mulheres tiveram sua virgindade verificada pelo exército. O processo de acirramento político também se vale também de subjugar os outros, para manter o patriarcado, a detenção do poder vale tudo: de um olhar altivo de um homem de bem até o estupro de uma mulher que defende o direito democrático de outra fazer campanha para quem quiser.

sexismomataDeixo aqui toda a minha solidariedade a esta mulher, ela poderia ser qualquer uma de nós que ousa lutar, ousa subverter o status quo para mudar o mundo, para defender o que pensa e ser solidária a quem está sofrendo algum tipo de intimidação ou opressão.

A marca mais profunda está nela, mas sua história marca a todas nós mulheres. Feministas ou não, de esquerda ou não. Pois qualquer mulher que ouse levantar sua cabeça, disputar um poder que, segundo o patriarcado, não é da sua alçada disputar e modificar está a mercê de violência.

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