Pílula sobre machismo, movimento negro e revolução

No movimento negro se fala tanto que quando pautamos a necessidade de pensar as questões que tangem a vida das mulheres e LGBT negrxs é dividir o movimento, setorializar e enfraquecer a unidade. Engraçado que se esquece, ou fingem esquecer, que o debate racial travado por nós no movimento feminista e LGBT apontando concretamente o que significa a nossa emancipação por completa também somos taxadxs de divisionistas, setorialistas e afins.

Porém é interessante ver o como diversos homens negros nos espaços da política geral acabam por se aliando com homens brancos quando a lógica é silenciar as pautas que podem atingir a “unidade” da política. O pautar que existe diversidade, especificidades e que elas precisam ser compreendida no construir político cotidiano é pensar o construir a emancipação de toda uma classe que é mulher cis e trans, que é indígena, que negra, que é lésbica e que é profundamente marginalizada e subjugada pelo Estado em que vivemos é profundamente revolucionário e não o contrário.

Na verdade, o criticar a existência de tais debates, o apontar da existência de machismo, homolesbobitransfobia, racismo em qualquer organização e movimento ou organização passa também por nós pensarmos como construir um processo político que desconstrua vícios históricos existentes na política. A manutenção da divisão sexual do trabalho nos espaços de militância é uma das coisas mais nefastas para a luta pela emancipação de todxs oprimidxs e exploradxs. Nada além disso.

Não há revolução no Brasil se não tiver mulher cis e trans, negras, indígenas, lésbicas pensando e falando de política em todos os espaços e não apenas para servir como token, mas para efetivamente apresentar a política construída para emancipação dxs que são marginalizadxs.

A classe é essa diversidade, o movimento negro é essa diversidade, o movimento feminista é essa diversidade, o movimento sindical é essa diversidade… Se não pensarmos política para a diversidade oprimida apenas faremos o mais do mesmo.

Sobre transfobia e racismo

Uma coisa que eu tenho certeza é a de que os setores sociais mais marginalizados nessa sociedade capitalista, patriarcal, racista e homolesbobitransfóbica são negrxs. Se formos ver a grande maioria das travestis são negras e pobres (e isso é um recorte fundamental para sabermos sobre quem sofre com a estruturação do Estado no qual vivemos e quem não).

Frases-contra-o-racismo-1Não se combate uma opressão com outra como resposta. Não podemos também achar que todxs estamos no mesmo patamar de consciência sobre a totalidade dos debates e da disputa árdua de poder que a nós é colocada cotidianamente. Estamos falando entre nós que morremos por causa do racismo, do machismo ou da homolesbobitransfobia, estamos falando entre nós que temos um acesso ao mercado de trabalho dificultoso, que apanhamos em nossas casas, que sofremos violência psicológica quando ousamos ocupar espaços que historicamente não são os nossos com o debate difícil do feminismo de forma interseccional. Esse é um grau de compreensão que precisamos ter, isso se a nossa perspectiva for a de mudança estrutural da sociedade e não apenas garantir um lugar entre a classe dominante para dominar aqueles nossos que “não tiveram oportunidade”.

Transfobia não se responde com racismo, racismo não se responde com transfobia. Assim como machismo não se responde com racismo e vice-versa esse é o mínimo de compreensão que precisamos ter para realmente avançar na luta para superar todas estas amarras que o Estado utiliza para nos culpabilizar, invisibilizar e marginalizar cotidianamente.

É importante lembrar também que nenhum de nós está livre de cometer alguma forma de opressão, justamente por que também fomos formados nessa sociedade de merda, mas é fundamental sabermos olhar e desconstruir em nós mesmxs quando cometemos alguma forma de deslegitimação de discurso, invisibilização ou preconceito em geral. Não custa em nada fazer a auto-crítica, ao contrário, isso nos ajuda a avançar no processo de sínteses, de discussões e de compreensão do outro que tanto negamos.

CARTEL-MANI-TRANSFOBIA-2011É preciso que tenhamos noção que as opressões vividas por nós cotidianamente possuem um motivo, e não apenas o de nos humilhar, mas o de nos marginalizar e explorar por que nós mulheres brancas e negras, cis e trans, lésbicas, bissexuais e homens trans mesmo tendo (em alguns casos, pq em outros ainda há esta luta) conquistado uma série de coisas que nos igualam formalmente aos homens cis brancos e heteros nós na prática ainda somos vistos como seres de menor valor para a sociedade. Unidade não se faz só no discurso, se faz na prática de revermos também cada lugar de privilégio que nós temos e os preconceitos que nós mesmxs reverberamos. É um processo dialético necessário para realmente podermos desconstruir este Estado que corrobora com a nossa humilhação e violência cotidiana.

A capa de Kim Kardashian tem uma questão racial da qual ninguém está falando

Ontem postei uma reflexão sobre um comentário da Tina Fey sobre a capa da Paper com a Kim Kardashian.

Hoje posto um texto da Hannah Ongley, publicado originalmente no Styleite, que faz uma reflexão interessante e importante sobre o fotógrafo que assina o ensaio de Kardeshian para a Paper e sobre o fato de seu trabalho historicamente utilizar as figuras femininas negras para exotizá-las e estigmatizá-las. O texto foi traduzido por mim.

champagne1

O bumbum de Kim Kardashian é a estrela da capa da edição de inverno da revista Paper que trás na manchete “Quebre a Internet”. A capa chegou a causar um rebuliço no Twitter e entre descoladinhos modernosos , mas todo mundo que não escolheu ignorar que tem algo a dizer sobre isso. É muito sexual (irrelevante), que é uma má escolha de modelo para capa (depende de quem você é,) e é muito photoshopada (verdade). Mas a maioria das críticas está sendo destinada a Kim, e ela claramente não é a pessoa que construiu o conceito ou assumiu o controle da edição de fotos . (Bem, até onde sabemos.)

O fotógrafo responsável pela imagem é Jean-Paul Goude, e não há mais nada para saber sobre ele do que ele ser “francês” e “lendário”. As duas coisas também são verdadeiras, mas não há isso também : A história artística de Goude é repleta de acusações de objetivação e exotização dos corpos das mulheres negras. Esta não é uma tangente de seu trabalho – é a base de toda a sua obra . Não é uma coincidência que sua autobiografia pictórica de 1983 se entitula: Jungle Fever. “Os negros são a premissa do meu trabalho”, o artista disse à revista People em 1979, “eu tenho a febre da selva.”

grace3Para criar suas imagens exotizadas, Goude iria fotografar mulheres negras em poses que variaram do atlético ao primitivo. Ele, então, literalmente cortava as _ imagens em pedaços e as remontava para criar algo ainda mais formidável. Você pode ver como ele fez a manipulação pré-photoshop na a foto infame que ele criou de Grace Jones, com quem teve um relacionamento turbulento nos anos 80, na icônica capa do álbum Island Life.

Criticar capa com Kim, porque “ela é photoshopada”_ é ignorar o significado da arte do fotógrafo. Como disse Goude sobre a capa de Jones, “… a menos que você seja extraordinariamente flexível, não poderia fazer esse arabesco. O ponto principal é que Grace não poderia fazê-lo, e essa é a base de todo o meu trabalho: a criação de uma ilusão credível “.

Paper atribui erroneamente a inspiração para capa com Kim Kardashian a uma foto vintage de Goude chamada “Champagne Incident”. A foto é na verdade de 1976 da modelo Carolina Beaumont, e isso é sobre mais do que habilidades de equilíbrio. Um erro inocente, talvez, mas o fato é que Beaumont vem sendo obscurecida pelo que parece.

Jean-Paul-Goude-9

Em Venus in the Dark: Blackness and Beauty in Popular Culture, a autora Janell Hobson discute como as “melhorias” de Goude são muitas vezes feitas para tornar o corpo das mulheres negras altamente exagerado, cômico e grotesco.

O sujeito usa um penteado ‘exótico’ e ‘sorri’ para a câmera posando como um ‘selvagem feliz e satisfeito em servir servir'”, ela diz, “o que sugere sua cumplicidade em ter seu corpo, literalmente, retratado como um objeto , uma visão ‘primitiva’ que proporciona prazer pornográfico e intoxicação para um, presumível, espectador masculino branco.

Kim, por outro lado, usa um vestido de lantejoulas e jóias caras. Ela não está aqui para servir.

Isso é o que eu acho preocupante sobre a capa da Paper: não é a obra de Goude, não é o photoshop, e não é nem mesmo a própria Kardeshian . É que a Paper tomou uma imagem carregada de uma tensão racial artística nos tornamos cada vez mais conscientes de como a sociedade se afastou da (ou , pelo menos, tentou se afastar) da idéia de que as mulheres negras não são selvagens. E é recriada essa imagem usando uma mulher armênia-americana famosa por ter uma vídeo de sexo vazado. A razão – para “quebrar a internet” – é quase comicamente frívola.

Veja todas as capas de Kardeshian abaixo:

Kim_cover_web_2_1024x1024

Kim_cover_web_1_1024x1024-1

[+] Kim Kardashian doesn’t realize she’s the butt of an old racial joke

Isso não é sobre a Kim Kardashian, mas sobre a invisibilização das mulheres não brancas

Às vezes tenho a sensação de que perdemos os parâmetros dos debates pela blogosfera. É preciso sempre recalibrarmos o nosso discurso e formulações para realmente dialogarmos para além dos nossos umbigos e essa tarefa nunca é tarefa simples.

Tenho a leve impressão de que o debate sobre “padrão de beleza” no feminismo sempre precisa passar por este processo de recalibrarmos para não cairmos em um formalismo barato do feminismo liberal, mas também não sermos enredadas pela cantilena de que a diferença racial neste debate não conta efetivamente.

image

Entro neste debate pelo fato de ter me deparado com uma aspas da Tina Fey pelas TLs que frequento e apesar de haver coisas que ela aponta com contundência e eu concordo, justamente por não achar que o formalismo do feminismo liberal realmente ajude a emancipar as mulheres sejam cis ou trans, achei uma afirmação com uma dificuldade de diálogo com a categoria raça. Simplesmente porque o questionar o padrão de beleza vigente em nossa sociedade hoje sendo caucasiana é muito diferente do significado deste debate para as mulheres não brancas.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo. (LAIZO, Denise. A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal)

Aponto isso por que entender o contexto social dos continentes e países é fundamental para localizarmos qualquer debate feminista. Ou seja, a declaração da Tina Fey não estabelece empatia mínima com qualquer mulher não branca, incluindo as feministas. Ora, por que?

Mesmo que a sociedade capitalista e patriarcal se aproprie da representação formal da diversidade feminina e as incorpore em um grande supermercado de partes de corpo que são desejáveis para ser perfeita frente a sociedade, é importante lembrar que o símbolo cumpre um papel importante na disputa de consciência cotidiana – é um papel limitado, mas é um papel que ajuda a nos dar perspectiva.

RacismoUSPRibeirãoOu seja, a mulher negra é tão estigmatizada pelo padrão de beleza caucasiano que não raro nos deparamos com acefalias como o livro de hinos da bateria da Medicina USP-Ribeirão revelado pelas redes sociais. O tal livro de hinos só revela o que está por demais arraigado na sociedade brasileira: a mulher negra é o pária mór no Brasil.

Se queremos ser lembradas como mulatas? Claro que não! Até porque essa designação relembra o fato das mulheres negras poderem ser violentadas pois se acreditava que não poderiam reproduziam, assim como a mula, e essa era a justificativa inclusive de não reconhecimento de paternidade e violência sexual por parte de diversos sinhozinhos.

Mas precisamos ter espaço para desenvolver nossa auto-estima, e muitas vezes o debate sobre padrão de beleza organizado por nossas companheiras brancas não leva em conta o fato de nós negras estarmos na base da pirâmide social e do padrão mercantilizador.

O fato de haver uma sub-representação de mulheres não brancas no aceitável como padrão de beleza social fala muito sobre o quanto o patriarcado é profundamente racista. Haverá incorporação de mulheres não brancas como parte do padrão de beleza? Sim haverá, e em um primeiro momento isso será bom para as meninas não brancas verem que elas são bonitas também, que há perspectiva de ocupação de espaços sociais que antes nos eram negados.

Por fim, é fundamental sabermos como acolher nossos interlocutores. Nesse exato momento as mulheres não brancas precisam de um espaço para se olhar e perceber: Minha beleza não tem padrão, meu espaço existe e que bom que pude ter símbolos que me demonstraram que é possível ser do jeito que somos.

PS: O debate sobre a relação do feminismo liberal com a xenofobia e o racismo na Europa tem sido feito de forma bem profunda, não apenas o debate sobre feminismo liberal, mas também o desenvolvimento de uma direita LGBT altamente xenófoba. Mas isso é tema para outra hora.

novembro de 2014 em Belém, maio de 2006 em São Paulo

5 de novembro de 2014, entro no computador para ler as notícias da manhã. O coração fica apertado como há tempos não ficava. Durante aquela madrugada diversos bairros de Belém haviam ficado sitiados após a morte do Cabo Antônio Marcos da Silva Figueiredo, também conhecido como Pet. Pet estava afastado da ROTAM (Ronda Ostensiva Tática Metropolitana) por ser alvo de inquérito na Polícia Civil investigando o envolvimento dele e de outros policiais em um assassinato. Além deste inquérito, há outras denuncias recebidas pela ouvidoria do Sistema de Segurança Pública do Pará e pelo Comitê Estadual de Combate e Prevenção à Tortura sobre envolvimento de Pet com milícia organizada na cidade, porém, assim como o inquérito da Polícia Civil, as denúncias e os encaminhamentos relativos a elas seguem sigilosos.

ConvocatóriadarotamUma página da Rotam no Facebook, mas que não é um instrumento oficial de comunicação mantido pelo governo paraense, assim que a notícia de que o cabo Pet estava morto publicou uma mensagem dizendo que a “caça havia começado”. Não apenas esta página da Rotam afirmou que a caça havia começado pelas periferias paraenses como em alguns perfis de PMs afirmavam coisas semelhantes.

Na quarta mesmo a Segup (Secretaria Estadual de Segurança Pública) confirmou que 9 pessoas teriam morrido na Mangueirosa durante a madrugada, este número até a última sexta-feira subiu para 11. Porém, moradores afirmam que o número é maior, ainda há pessoas desaparecidas na cidade e não se tem notícia sobre entrada de feridos nos Prontos Socorros da cidade, mesmo que os óbitos informados depois de quarta tenham sido de pessoas que estavam internadas em PS da cidade. Na mesma página da Rotam quecontagemrotam informou o início da “caça” em retalhação por conta da execução do cabo Pet era possível ver uma postagem com a contabilização de quantas pessoas poderiam ter morrido durante a ação.

A narrativa contada pelas redes sociais, nas conversas ao telefone era algo muito comparável ao que ouvíamos em 2006 em São Paulo. Comércio fechando, escolas avisando que não dariam aula naquele dia, uma falta de informações oficiais grande e quando estas saiam o desencontro com informações coletadas na rua era brutal. Segundo H.L., morador da Terra Firme, havia uma diferença grande entre o pânico nos bairros periféricos e nos bairros centrais “Na TF o nosso pânico é de quem viveu e constantemente vive situações como essa, enquanto em bairros mais nobres o medo é que a violencia que nos assola chegue até eles”.

Acompanhando de longe, parecia que o dia não teria fim, olhando hoje parece que a semana ainda não terminou. “Os suspeitos [dos assassinatos ocorridos naquela madrugada eram sempre descritos como] dirigindo uma moto, encapuzados [seguidos] por um carro preto”, afirma Francisco Batista da Comissão de Justiça e Paz do Pará.

Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.(MANSO, Bruno Paes. Esquadrão da Morte 2.0. e a epidemia de violência no Pará)

RossicleyDurante uma coletiva de imprensa realizada por na própria quarta-feira o presidente da Associação de Cabos e Praças da PM do Pará, sargento Rossicley Silva, apareceu dizendo que os fatos ocorridos eram por conta de uma guerra de facções em Belém e que não envolvia a PM. Porém, o sargento no mesmo espaço foi confrontado, pois havia sido um dos PMs que postaram mensagem afirmando que a PM daria resposta à morte do Cabo Figueiredo. Dois dias após o acontecido o sargento apagou a publicação, postandoRepórter70 outra dizendo que a posição dele havia sido mal-interpretada. Ao que parece desenha-se um processo de encontrar um bode expiatório para a #ChacinaEmBelém, digo isso pelo fato de que no Repórter70 – coluna tradicional de um dos jornais de maior circulação do estado – foi publicado uma nota apontando que Rossicley foi o grande incitador de pânico pelas redes sociais.

“Os policiais mesmos fazem questão de explicitar [que] “isso ainda não acabou”. Esses milicianos estão dizendo que após o enterro do policial haverá toque de recolher e que eles vão atrás de quem estiver devendo”, diz H.L.

Durante a tarde Eder Mauro, deputado federal eleito pelo PSD e delegado de polícia, publicou um vídeo dizendo que estava voltando para Belém para colocar ordem na casa e não deixaria “bandidos fazerem em Belém o que fazem no Rio de Janeiro”.

Ao final do dia a cidade ficou deserta. Relatos de moradores do Marco diziam que havia pelo menos 3 helicópteros sobrevoando a região com holofotes ligados apontados para as ruas do bairro, o mesmo relato foi feito por moradores da Terra Firme na sexta. Porém, a partir desse momento a comoção nacional sobre o que vinha acontecendo em Belém abaixou, a invisibilização que acompanha o norte cotidianamente voltou.

De sexta para cá mais não se divulgou mais nenhuma morte em decorrência do massacre da madrugada de terça para quarta. Mas ao ouvir moradores e gente próxima a moradores é possível constatar que ainda há pessoas desaparecidas desde aquele dia.

A desconfiança de se falar sobre o que ocorre em Belém publicamente é um fato, o medo que toma qualquer quebrada sudestina quando se depara com violência desse calibre é se fechar com medo dos algozes. Houve famílias que saíram da zona mais afetada para outros bairros para fugir de uma possível “Operação Pente Fino” na região.

Infelizmente este não será o primeiro ou último episódio da violência contra a periferia que veremos em Belém, ou em qualquer outra capital brasileira. A Mangueirosa é uma as capitais mais violentas do país, tendo aumentado o número de homicídios na região nos últimos 10 anos.

Dados da Ouvidoria de Segurança Pública do Pará mostram que, em 2013, foram identificados 135 homicídios cometidos por agentes de segurança pública, sendo 122 realizados por PMs, 12 por policiais civis e um por Bombeiro Militar. No mesmo período, os casos de lesão corporal chegaram a 118, e outras 13 pessoas denunciaram tortura. No entanto, a própria Ouvidoria acredita que este quantitativo é bem maior, haja vista que muitas denúncias nem chegam às delegacias.

[+] Trecho de texto anônimo falando sobre a Chacina em Belém

A equivocada noção de igualdade de gênero de Aécio Neves

Essa semana apareceu pelas redes sociais uma das propostas de Aécio Neves para segurança pública e também para garantir a igualdade de gênero. A proposta é promover a entrada de mais mulheres nas forças armadas brasileiras, antes que venha fulaninho questionar que “as feministas querem igualdade mas não pautam o alistamento obrigatório para as mulheres” devo lembrar que boa parte do movimento feminista é contra o alistamento obrigatório dos meninos e, ainda mais, caracteriza que a militarização da vida não avança com os direitos das mulheres.

Aécio+MulheresEm 2012 a CNN veiculou reportagem apontando a dificuldade de se apurar casos de estupro junto a tropas estado unidense. A matéria da CNN, o documentário “The Invisible War” e um artigo da Naomi Woolf sobre o tema apontaram que na sociedade estado unidense há uma sub-notificação de casos de estupro dentro do exército dos EUA.

A perspectiva apresentada na campanha de Aécio Neves para aproximar as forças armadas brasileiras da sociedade civil explorando as “características naturais” das mulheres de mediar e pacificar situações de conflito não é nova. Tanto que a primeira vez que as mulheres entraram no serviço militar brasileiro foi em 1980, ainda no governo do general Figueiredo, na Marinha.

A decisão levou anos para ser tomada e a foi feita para aprofundar uma imagem mais humanizada do Exército, visto o período político que vivíamos e o próprio avanço do debate feminista pelo mundo, ou seja, a entrada das primeiras mulheres nas Forças Armadas foi uma resposta da direita e do capital de que era possível ampliar direitos dentro do próprio sistema e do seu braço armado.

A ênfase na distinção entre homens e mulheres, representa uma cilada ao pretender legitimar com explicações biológicas e naturais culturalmente forjadas, comportamentos inscritos no âmbito sócio-cultural. (…) o interesse em tal distinção surgiu historicamente quando estas diferenças se tornaram politicamente importantes, representadas pela clivagem da política de poder do gênero, sendo invocadas a cada episódio envolvendo lutas pelo poder. Desde então este tem sido o eixo analítico privilegiado na construção cultural da cilada da diferença sexual, o qual vem informando e justificando o lugar das mulheres na sociedade segundo as características pretensamente biológicas do seu corpo. Deste modo, às mulheres militares foi negado o lugar e a formação em funções de combate a despeito de suas competências e desejos, justificando-se o seu lugar em funções auxiliares sob o enfoque analítico da construção cultural da diferença sexual e da interpretação biológica socialmente construída do seu corpo. (D’ÁVILA, Mariza Ribas. Batalhas culturais de gênero: A dinâmica das relações de poder no campo militar naval)

Apesar do fato de que incluir mulheres nas Forças Armadas ou nas Polícias Militares estaduais ser visto como uma medida humanizadora destes instrumentos de segurança pública, acredito que esta incorporação acaba não avançando na perspectiva dos direitos humanos.

Exército revista crianças no Santa Marta. Imagem: Marcia Foletto

Exército revista crianças no Santa Marta. Imagem: Marcia Foletto

Ou seja, a dogmática militarista e a forma de organização hierárquica destas instituições já nos revelam a dureza e a necessidade de manutenção de um status quo onde a divisão sexual do trabalho é reverberada de forma mais brutal, além do fato de que é na tarefa coercitiva do Estado que as instituições militares encontram sua atividade fim. Coerção esta que vemos ser aplicada seja nas ações dos exércitos (seja de qual país for) em missões pelo mundo – onde podemos observar o aumento de violências sexuais nas populações alvo destas missões  -, seja na atuação das polícias militares estaduais e no grau de racismo e machismo institucional com que é tratada a juventude brasileira.

O fato é que quando Aécio Neves apresenta uma proposta que visa dialogar com a igualdade de gênero dentro de instituições organizadas para manter a vida como ela é. As Forças Armadas ajudam a manter o mundo sob o tacão do medo e mantendo uma sociedade que seja racista, machista, homolesbobitransfóbica e capitalista. E de que adianta mulheres subjugadas a uma hierarquia e disciplina comandadas principalmente por homens brancos heteros e cisgêneros?

Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. Alguns direitos reservados

Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. Alguns direitos reservados

Acredito que estamos em um patamar hoje onde o questionamento se basta apenas o fato de ser mulher ocupando lugar em uma instituição que tem por ideologia e organização concreta manter a opressão de outras mulheres sejam brancas, negras ou indígenas é algo que precisa ser profundamente refletido não apenas pelo movimento feminista, mas pelo conjunto dos movimentos que combatem diversas formas de opressão e exploração como o movimento LGBT e movimento negro.

Inclusão em espaços que ajudam na nossa coerção não é política que garanta nossa emancipação, viu Aécio? É apenas política para diversificar nossos algozes e não nos emancipar.

A militarização da vida nas eleições presidenciais

Durante o debate político entre as candidaturas a presidência da república que aconteceu no SBT, exatamente no 2º bloco, deu para perceber bem o quanto a questão de segurança pública – que é fundamental para garantir a estruturação de qualquer projeto de sociedade seja ele qual for – de Dilma e Aécio compartilham profundamente da perspectiva de guerra às drogas e de militarização da vida para assegurar segurança pública. Jogam novamente com a lógica de que segurança é apenas polícia e não apresentam propostas de mudanças estruturais profundas na forma que nossa segurança pública se apresenta hoje.

genocidio_negro_by_latuff2

O primeiro ponto que impressiona é o fato de nenhum dos dois apontar que o alto índice de mortes junto a juventude no Brasil tem um recorte claro. Segundo o Mapa da Violência 2014 os homicídios de jovens no Brasil ultrapassam de 50% do número total de assassinatos ocorridos no país. Em pesquisa feita pelo IPEA em 2013 o instituto apontava que 70% dos assassinatos no Brasil eram de negros, ou seja, quando o debate sobre segurança pública apareceu ontem na peleja entre Aécio e Dilma também se escondeu que o Estado em que vivemos organiza sua segurança pública para manter os negros e indígenas no cabresto.

Se corrida presidencial trouxe para a ordem do dia o debate sobre a redução da maioridade penal, pouco se tem falado sobre a exposição dos jovens à violência e sobre as execuções praticadas contra adolescentes em São Paulo e no Brasil. O “mito do adolescente violento” transforma o jovem, negro e morador de periferia em uma espécie de bode expiatório da sociedade. Poucos estigmas no mundo são tão mortais. (MANSO, Bruno Paes. Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso São Remo)

A continuidade de uma política de segurança pública baseada no tolerância zero em nosso país ficou explicita durante o 2º bloco do debate presidencial no SBT. A omissão de Aécio e Dilma de que há um processo de genocídio da juventude negra e indígena, promovido prioritariamente por braços ligados aos governos federal e estaduais foi gritante.

E só pegar os documentos de programa de governo dos dois candidatos para ver como a estrutura de segurança pública que temos visto se recrudescer com UPPs, Forças Armadas prendendo gente em favelas, guerra às drogas e militarização da vida. No programa de governo da Dilma (não sei onde Aécio procurou, por que eu achei o  dito, mesmo levando algum tempo) ela aponta que a Força Nacional continuará a dar suporte a operações nos estados. Bom lembrar que tanto na Copa das Confederações e do Mundo a Força Nacional foi responsável em diversos estados por reprimir manifestações diversas, além de ser usada nas áreas de conflitos indígenas.

unidade-de-policia-pacificadora

No programa de Aécio sobre o tema ele é enfático ao ressaltar a necessidade de se continuar ocupações militares em áreas periféricas. Além do apoio claro a Proposta de Emenda Constitucional proposta pelo seu candidato a vice, Aloysio Nunes, que reduz a maioridade penal no país. Afrontando claramente o direito de crianças e adolescentes e não dando uma saída civil para a marginalização sofrida nas periferias pelas crianças e jovens negros e indígenas.

Ambos apontam para necessidade de guerra às drogas. Sem levar em conta em nenhum momento que esta política no mundo foi organizada para garantir uma guerra aos pobres.

A “guerra às drogas” tem servido de pretexto para criminalizar a pobreza e militarizar a vida, especialmente nas periferias e favelas, proporcionando lucros astronômicos para o mercado financeiro (que “lava” o dinheiro do tráfico) e para a indústria de armas. Hoje, existem mais de 140 mil presos por tráfico nas cadeias brasileiras. A maioria jovens, negros e pobres, réus primários presos sozinhos com pequenas quantidades de maconha. A “guerra às drogas” é na verdade uma guerra aos pobres! (CINCO, Renato. Basta de guerra aos pobres! Por outra política de drogas. Legalização da maconha, já!)

O processo já em curso no Brasil de privatização dos presídios também é contemplado nos programas de governo e já há anos vem sendo criticado pela Pastoral Carcerária. Lembrando que em todas as recomendações colocadas sempre se aponta que o fortalecimento de uma gestão pública dos presídios, com garantia dos direitos dos presos e de direitos humanos ajudaria na recuperação e reinserção na sociedade.

A manutenção de políticas militarizantes e punitivas em conjunto com a existência de um Congresso Nacional mais conservador e militarizado deveria acender uma luz vermelha a todos que defendem direitos humanos em geral para a dureza que viveremos após o dia 26 de outubro, independente de quem venha ganhar.

Iniciaremos mais uma etapa no Brasil onde resistência pouca será bobagem, o militarismo e o punitivismo vem ganhando espaço na política brasileira há anos e não poderemos titubear pra enfrentar o cenário recrudescido que se coloca para nós.

Estas questões não são minoritárias, a forma como se organiza a segurança pública de um país é o método para garantir a implementação de qualquer projeto de sociedade e uma segurança pública que no último período só vem crescendo em arsenal militar e em perspectiva punitiva não deve ser encarado por quem defende liberdade democráticas e direitos humanos como uma vitória.

Sem mais publicações