A capa de Kim Kardashian tem uma questão racial da qual ninguém está falando

Ontem postei uma reflexão sobre um comentário da Tina Fey sobre a capa da Paper com a Kim Kardashian.

Hoje posto um texto da Hannah Ongley, publicado originalmente no Styleite, que faz uma reflexão interessante e importante sobre o fotógrafo que assina o ensaio de Kardeshian para a Paper e sobre o fato de seu trabalho historicamente utilizar as figuras femininas negras para exotizá-las e estigmatizá-las. O texto foi traduzido por mim.

champagne1

O bumbum de Kim Kardashian é a estrela da capa da edição de inverno da revista Paper que trás na manchete “Quebre a Internet”. A capa chegou a causar um rebuliço no Twitter e entre descoladinhos modernosos , mas todo mundo que não escolheu ignorar que tem algo a dizer sobre isso. É muito sexual (irrelevante), que é uma má escolha de modelo para capa (depende de quem você é,) e é muito photoshopada (verdade). Mas a maioria das críticas está sendo destinada a Kim, e ela claramente não é a pessoa que construiu o conceito ou assumiu o controle da edição de fotos . (Bem, até onde sabemos.)

O fotógrafo responsável pela imagem é Jean-Paul Goude, e não há mais nada para saber sobre ele do que ele ser “francês” e “lendário”. As duas coisas também são verdadeiras, mas não há isso também : A história artística de Goude é repleta de acusações de objetivação e exotização dos corpos das mulheres negras. Esta não é uma tangente de seu trabalho – é a base de toda a sua obra . Não é uma coincidência que sua autobiografia pictórica de 1983 se entitula: Jungle Fever. “Os negros são a premissa do meu trabalho”, o artista disse à revista People em 1979, “eu tenho a febre da selva.”

grace3Para criar suas imagens exotizadas, Goude iria fotografar mulheres negras em poses que variaram do atlético ao primitivo. Ele, então, literalmente cortava as _ imagens em pedaços e as remontava para criar algo ainda mais formidável. Você pode ver como ele fez a manipulação pré-photoshop na a foto infame que ele criou de Grace Jones, com quem teve um relacionamento turbulento nos anos 80, na icônica capa do álbum Island Life.

Criticar capa com Kim, porque “ela é photoshopada”_ é ignorar o significado da arte do fotógrafo. Como disse Goude sobre a capa de Jones, “… a menos que você seja extraordinariamente flexível, não poderia fazer esse arabesco. O ponto principal é que Grace não poderia fazê-lo, e essa é a base de todo o meu trabalho: a criação de uma ilusão credível “.

Paper atribui erroneamente a inspiração para capa com Kim Kardashian a uma foto vintage de Goude chamada “Champagne Incident”. A foto é na verdade de 1976 da modelo Carolina Beaumont, e isso é sobre mais do que habilidades de equilíbrio. Um erro inocente, talvez, mas o fato é que Beaumont vem sendo obscurecida pelo que parece.

Jean-Paul-Goude-9

Em Venus in the Dark: Blackness and Beauty in Popular Culture, a autora Janell Hobson discute como as “melhorias” de Goude são muitas vezes feitas para tornar o corpo das mulheres negras altamente exagerado, cômico e grotesco.

O sujeito usa um penteado ‘exótico’ e ‘sorri’ para a câmera posando como um ‘selvagem feliz e satisfeito em servir servir'”, ela diz, “o que sugere sua cumplicidade em ter seu corpo, literalmente, retratado como um objeto , uma visão ‘primitiva’ que proporciona prazer pornográfico e intoxicação para um, presumível, espectador masculino branco.

Kim, por outro lado, usa um vestido de lantejoulas e jóias caras. Ela não está aqui para servir.

Isso é o que eu acho preocupante sobre a capa da Paper: não é a obra de Goude, não é o photoshop, e não é nem mesmo a própria Kardeshian . É que a Paper tomou uma imagem carregada de uma tensão racial artística nos tornamos cada vez mais conscientes de como a sociedade se afastou da (ou , pelo menos, tentou se afastar) da idéia de que as mulheres negras não são selvagens. E é recriada essa imagem usando uma mulher armênia-americana famosa por ter uma vídeo de sexo vazado. A razão – para “quebrar a internet” – é quase comicamente frívola.

Veja todas as capas de Kardeshian abaixo:

Kim_cover_web_2_1024x1024

Kim_cover_web_1_1024x1024-1

[+] Kim Kardashian doesn’t realize she’s the butt of an old racial joke

Isso não é sobre a Kim Kardashian, mas sobre a invisibilização das mulheres não brancas

Às vezes tenho a sensação de que perdemos os parâmetros dos debates pela blogosfera. É preciso sempre recalibrarmos o nosso discurso e formulações para realmente dialogarmos para além dos nossos umbigos e essa tarefa nunca é tarefa simples.

Tenho a leve impressão de que o debate sobre “padrão de beleza” no feminismo sempre precisa passar por este processo de recalibrarmos para não cairmos em um formalismo barato do feminismo liberal, mas também não sermos enredadas pela cantilena de que a diferença racial neste debate não conta efetivamente.

image

Entro neste debate pelo fato de ter me deparado com uma aspas da Tina Fey pelas TLs que frequento e apesar de haver coisas que ela aponta com contundência e eu concordo, justamente por não achar que o formalismo do feminismo liberal realmente ajude a emancipar as mulheres sejam cis ou trans, achei uma afirmação com uma dificuldade de diálogo com a categoria raça. Simplesmente porque o questionar o padrão de beleza vigente em nossa sociedade hoje sendo caucasiana é muito diferente do significado deste debate para as mulheres não brancas.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo. (LAIZO, Denise. A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal)

Aponto isso por que entender o contexto social dos continentes e países é fundamental para localizarmos qualquer debate feminista. Ou seja, a declaração da Tina Fey não estabelece empatia mínima com qualquer mulher não branca, incluindo as feministas. Ora, por que?

Mesmo que a sociedade capitalista e patriarcal se aproprie da representação formal da diversidade feminina e as incorpore em um grande supermercado de partes de corpo que são desejáveis para ser perfeita frente a sociedade, é importante lembrar que o símbolo cumpre um papel importante na disputa de consciência cotidiana – é um papel limitado, mas é um papel que ajuda a nos dar perspectiva.

RacismoUSPRibeirãoOu seja, a mulher negra é tão estigmatizada pelo padrão de beleza caucasiano que não raro nos deparamos com acefalias como o livro de hinos da bateria da Medicina USP-Ribeirão revelado pelas redes sociais. O tal livro de hinos só revela o que está por demais arraigado na sociedade brasileira: a mulher negra é o pária mór no Brasil.

Se queremos ser lembradas como mulatas? Claro que não! Até porque essa designação relembra o fato das mulheres negras poderem ser violentadas pois se acreditava que não poderiam reproduziam, assim como a mula, e essa era a justificativa inclusive de não reconhecimento de paternidade e violência sexual por parte de diversos sinhozinhos.

Mas precisamos ter espaço para desenvolver nossa auto-estima, e muitas vezes o debate sobre padrão de beleza organizado por nossas companheiras brancas não leva em conta o fato de nós negras estarmos na base da pirâmide social e do padrão mercantilizador.

O fato de haver uma sub-representação de mulheres não brancas no aceitável como padrão de beleza social fala muito sobre o quanto o patriarcado é profundamente racista. Haverá incorporação de mulheres não brancas como parte do padrão de beleza? Sim haverá, e em um primeiro momento isso será bom para as meninas não brancas verem que elas são bonitas também, que há perspectiva de ocupação de espaços sociais que antes nos eram negados.

Por fim, é fundamental sabermos como acolher nossos interlocutores. Nesse exato momento as mulheres não brancas precisam de um espaço para se olhar e perceber: Minha beleza não tem padrão, meu espaço existe e que bom que pude ter símbolos que me demonstraram que é possível ser do jeito que somos.

PS: O debate sobre a relação do feminismo liberal com a xenofobia e o racismo na Europa tem sido feito de forma bem profunda, não apenas o debate sobre feminismo liberal, mas também o desenvolvimento de uma direita LGBT altamente xenófoba. Mas isso é tema para outra hora.

Sem mais publicações