Amor, revolução, ditadura militar e histórias reais

Não consegui tempo para participar da 3ª edição da blogagem coletiva #desarquivandoBR e muito menos escrever sobre Amor e Revolução, então lembrei das histórias contida no livro da Secretaria Especial de Direitos Humanos: Luta, substantivo feminino e o reli, abaixo segue uma das histórias contadas no livro sobre a militante estudantil e depois guerrilheira no Araguaia Helenira Resende, não creio que seja mera coincidência com  perfil de Maria Paixão.

Nascida na pequena cidade de Cerqueira César, próxima a Avaré, no interior paulista, Helenira mudou-se aos 4 anos para Assis, onde cresceu . Concluiu ali o curso clássico no Instituto de Educação Prof. Clibas Pinto Ferraz, onde foi uma das fundadoras do grêmio de representação dos alunos.

Mudou-se então para São Paulo e cursou Letras na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), localizada, naquele tempo , na rua Maria Antônia. Na época, foi eleita presidente do Centro Acadêmico.

Tornou-se importante liderança no movimento estudantil, sendo conhecida também pelo apelido de “Preta”. A primeira prisão de Helenira aconteceu em junho de 1967, quando escrevia nos muros da Universidade Mackenzie, na própria rua Maria Antônia, a frase: “Abaixo as leis da ditadura”. Voltou a ser presa em maio de 1968, quando convocava colegas para uma passeata na capital paulista.

Naquele mesmo ano de fortes mobilizações estudantis, foi presa pela terceira vez em Ibiúna (SP), agora como delegada no 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade da qual era vice-presidente.

Na ocasião, quando o ônibus que transportava estudantes presos passou pela avenida Tiradentes, Helenira conseguiu entregar, a um traseunte, um bilhete para ser levado à sua residência, no Cambuci, avisando sua família sobre a prisão.

Apontada como liderança do movimento estudantil, foi transferida do Presídio Tiradentes para o Dops. Depois, a estudante seria levada para o presídio feminino do Carandiru, onde ficou detida por dois meses. A família conseguiu libertá-la mediante habeas corpus na véspera da edição do AI5. A partir de então, Helenira, que já era militante do PCdoB, passou a viver e a atuar na clandestinidade, morando em vários pontos da cidade e do país antes de se mudar para o Araguaia.

Conhecida como Fátima naquela região, integrou o Destacamento A da guerrilha, unidade que recebeu seu nome depois que ela foi morta, em 28 ou 29 de setembro de 1972. Teria matado um militar e atingido outro, antes de ser ferida e morta. Metralhada nas pernas e torturada até a morte, segundo depoimento da ex-presa política Elza de Lima Monnerat na Justiça Militar, foi enterrada na localidade de Oito Barracas.

O jornal A Voz da Terra, de Assis, publicou na edição de 8 de fevereiro de 1979, extensa reportagem sob o título “A comovente história de Helenira”. A matéria descreve sua juventude na cidade, filha de um médico negro, conhecido e respeitado por suas tendências humanistas. Informa também que a jovem se destacou como atleta, com desempenho especial na equipe de basquete da cidade, uma das melhores na região sorocabana. De acordo com esse jornal, o lugar onde Helenira tombou ferida se tornou uma poça de sangue, segundo soldados do Pelotão de Investigações Criminais, confirmando que a coragem da moça irritou a tropa.

No “Livro Negro”do Exército, divulgado pela imprensa em abril de 2007, consta, a respeito dela, na pág 724:

No dia 28(de setembro de 1972), um grupo que realizava um patrulhamento quase caiu numa emboscada fatal. No entanto, falhou a arma ou fraquejou um dos terroristas e o grupo foi alertado. Como se tratasse de uma passagem perigosa, o grupo tinha exploradores evoluindo pela mata, os quais reagiram a tempo. O terrorista cuja arma falhara logrou fugir. O outro, que abriu fogo com uma espingarda calibre 16, caiu morto no tiroteio que se seguiu. Trata-se de Helenira Resende de Souza Nazareth (Fátima), do destacamento A.

No livro A lei da selva, o jornalista relata sua morte como ocorrendo na localidade chamada Remanso dos Botos, em choque com uma patrulha de fuzileiros navais, não do Exército, sem confirmar a ocorrência de baixas entre os militares da Marinha, que teriam sido retirados da região em seguida, por falta de condições psicológicas para permanecerem na selva. Studart transcreve o seguinte trecho do diário de Maurício Grabois, de autenticidade ainda não comprovada, cuja narração tem pontos comuns e pontos divergentes em relação ao Relatório Arroyo, transcrito anteriormente:

Novas informações foram trazidas sobre o incidente em que o co Flávio tombou sem vida. Os combatentes do DA estavam preparando uma emboscada. Dividiram-se em 2 grupos que deveriam atuar em conjunto. Um sob o comando do Pe (da CM) e outro sob a direção de Nu. Este último, que vinha na frente, deixou no caminho da corrutela de S.José dois observadores, Lauro e Fátima, e fez alto a uma certa distância. Precisamente nesse momento surgiu na estrada uma força inimiga de 16 homens que acompanhava 4 burros tropeados pelo Edith. À frente da unidade do Exército vinham três batedores (o que levou Isauro a pensar que a tropa era constituída apenas de 3 soldados). Um deles, o sargento, veio para o lado do barranco onde estavam nossos combatentes. Lauro, que portava arma longa semi-automática de 9 tiros, atrapalhou-secom a arma, não atirou e fugiu. O milico pressentiu a Fátima e disparou o FAL em sua direção. Esta, com sua arma de caça 16, o fuzilou. Em seguida, correu e se entrincheirou mais adiante. Um soldado, que pesquisava o local à sua procura, foi por ela abatido mortalmente com tiros de revólver 38. Ferida nas pernas, foi presa. Perguntaram-lhe onde estavam seus co. Respondeu que poderiam matá-la, pois nada diria. Então os milicos a assassinaram friamente. Seu corpo foi enterrado nas Oito Barracas, para onde foi transportado em burro.

O relatório do Ministério Público Federal de São Paulo, assinado pelos procuradores Marlon Alberto Weichert, Guilherme Schelb, Ubiratan Cazetta e Felício Pontes Jr, de 28/01/2002, também registra a partir de depoimentos tomados de moradores da área, quase 30 anos depois:

Helenira Rezende (Fátima) foi vista por um depoente, baleada na coxa e na perna, sendo carregada em cima de um burro de um morador da região, próximo à localidade de Bom Jesus. Outro depoente ouviu referências de que Fátima foi vista na base de Oito Barracas. E um terceiro conta que ‘ouviu falar’ ter Fátima chegado já morta em Oito Barracas, em função de ferimentos.

Os procuradores também registram como possível local de sepultamento as proximidades do igarapé Tauarizinho, na base de Oito Barracas.

Em sua homenagem, o sindicalista Chico Mendes, conhecido mundialmente pela luta em defesa da floresta Amazônica, assassinado por fazendeiros em 22 de dezembro de 1988, deu o nome de Helenira a sua primeira filha.

“Pau de arara nunca mais!”

Sinceramente, não vou saber dizer quem falou isso. Sei que foi uma mulher e ela esteve nos porões da ditadura militar, sofrendo com abusos e torturas. Também sei que ela estava na PUC/SP quando foi lançado o livro “Luta, susbtantivo feminino – Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura” pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos e a Secretaria Especial de Política para as Mulheres. Mesmo não sabendo o nome desta mulher a imagem dela levantando ao final do lançamento do livro, com punho erguido e dizendo “Pau de arara nunca mais!” sendo acompanhada por outras mulheres que sobreviveram aos torturadores e ao regime militar que também estavam presentes ali foi talvez um dos momentos mais marcantes da minha memória.

Foi a segunda vez que tomei contato com histórias de mulheres militantes que haviam sido torturadas durante a ditadura militar. A primeira foi em uma aula de literatura brasileira no Colégio Moderno quando minha professora contou das torturas sofridas por sua tia, foi com 16 anos que eu realmente me dei conta do quão cruel havia sido o regime militar no Brasil, sabia de histórias sobre o Araguaia e dos assassinatos de João Batista e Paulo Fonteles, mas nunca havia escutado sobre as mulheres que lutaram e morreram durante aquela época até os meus 16 anos.

São anos e mais anos de luta pela abertura dos arquivos da ditadura militar, agora o tema volta novamente em foco pelo fato de termos uma ex-guerrilheira e torturada como presidenta do Brasil. Também já tivemos o principal ícone do sindicalismo brasileiro daquela época nesta mesma posição, a de presidente, e mesmo com tantos símbolos ocupando a presidência do nosso país ainda somos o país da América do Sul que não revelou às mães, filhos e amigas o paradeiro das pessoas desaparecidas durante período tão duro da nossa história. Tanto que  só 42 anos depois do primeiro desaparecimento ocorrido na ditadura milita é que temos notícia da possibilidade de  o encontrarem, enquanto isso nada de abertura dos arquivos ou uma revisão séria da Lei de Anistia.

Óbvio que ações como o projeto Direito à Memória e à Verdade são importantes, documentar a história violenta que temos e dar acesso a este conhecimento a todos é importantíssimo, até para não termos que engolir no congresso nacional facistas pró-ditadura militar como o Bolsonaro e sua prole. Mas só isso não basta, é preciso realmente ter política para podermos realmente ter justiça pelos acontecidos de 64 a 85 e tendo compreensão real do significado de figuras como Sarney, Maluf, Gerson Peres e tantos outros que compactuaram e contruíram o regime militar em nosso país e continuam na política sem que sejam denunciados e achincalhados publicamente, e pior, sendo base de um governo com história na luta contra a ditadura militar.

Infelizmente o governo Lula não deu um passo em direção a abertura dos arquivos da ditadura militar, assim como durante estes primeiro meses de governo Dilma nada foi falado sobre o tema, na pose da presidenta muito se comentou de como a turma do pijama deveria estar se revirando de raiva ao ver uma ex-guerrilheira passar em revista o exército brasileiro, mas durante todos os discursos apresentados na solenidade nenhuma linha sobre o compromisso histórico deste governo em desvelar onde estão nossos desaparecidos políticos e acabar de uma vez com a tortura imposta aos familiares e amigos durante todos estes anos.

Dilma, em sua posse, falou em honrar as mulheres, acredito piamente que uma das formas de nos honrar, sejam aquelas homenageadas por ela ao falar de seus tombamentos em seu discurso, ou aquelas que até hoje esperam notícias de seus filhos, maridos, amigas, mulheres e afins. Ao invés da presidenta colocar o pé na porta e falar sobre justiça e verdade apenas referendou o discurso do não seremos revanchistas.

O fato de termos uma ex-guerrilheira presidenta deveria significar muitos “Pau de arara nunca mais!”. Não dá para este debate ser levado pela grande mídia como foi quando a Folha pediu a abertura dos arquivos de Dilma, é preciso que todos os arquivos sejam abertos, que a comissão da verdade seja instaurada tendo maioria da sociedade civil e as investigações sobre os acontecidos durante o regime militar não estejam na mão dos militares, como acontece há bastante tempo. Abrir os arquivos da ditadura militar não é apenas honrar aqueles que tombaram naquela época, mas também mostrar que não aceitaremos mais ficar anos sem notícias de desaparecidos neste país.

Pau de arara nunca mais.

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