Não restos, mas inteiras e ávidas por mudanças

As reivindicações pelos direitos das mulheres normalmente são vistas como anexos do movimento social, seja pela direita ou pela esquerda, mas mesmo assim não nos furtamos de continuar tão pedregosa luta. Fomos à luta com os revolucionários franceses por Liberdade, Igualdade e Fraternidade e ao invés de termos nossa reivindicação de igualdade de direitos entre homens e mulheres atendida levamos uma decapitação de Olympe de Gouges como paga a nossa aliança com os burgueses na Revolução Francesa.

Enfrentamos a não compreensão dos nossos companheiros trabalhadores quando fomos incorporadas ao mercado de trabalho e éramos mais exploradas do que eles, mas não desistimos de nos organizar, pois sabíamos que só conseguiríamos avançar nossos direitos se fizéssemos esta luta em consonância com os oprimidos que se organizavam contra a burguesia no final do século XIX e começo do século XX. Vimos nossos direitos serem conquistados com muita luta junto ao processo revolucionário de 1917 na Rússia, lavanderias e restaurantes públicos, creches, legalização do aborto e depois nos vimos traídas assim como os ideais revolucionários por Stálin.

Lutamos para conquistar o direito ao voto, à educação e ao ventre livre e nenhuma dessas conquistas nos foi dada de bom grado, conquistamos espaço importante junto a sociedade compondo diversos postos de trabalho iguais aos dos homens, mas recebendo até hoje menos do que eles recebem. Não é por bom mocismo que hoje a violência doméstica é um caso levado a sério, foi resultado de muita luta, derrotas e vitórias, retrocessos e avanços e nós mulheres temos a noção que ainda há muito pelo que lutar, principalmente no Brasil.

Sabendo que nada foi nos dado de bom grado, é ultrajante que um meio de comunicação como a Folha de São Paulo publique artigos do senhor Luiz Felipe Pondé no mínimo misógino, artigos que levam pro lado frívolo temas tão caros a nós como violência sexual, direitos trabalhistas, liberdade sexual e tantos outros. Não queremos homens frívolos, misóginos ou eunucos em nossa sociedade, mas homens que estejam ao nosso lado dia a dia na luta contra o feminicídio, pela equidade salarial e direito de ter a orientação sexual que for.

Nós mulheres que lutamos por mais direitos, pois ainda sofremos com a falta de vaga em creches públicas, com a diferença salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função, dupla ou tripla jornada de trabalho, licença maternidade de 6 meses sem remuneração, licença amamentação de 1 hora diária, nenhuma garantia ao exercício da maternidade plena ou acesso a serviços de saúde públicos que atendam nossa especificidades médicas.

Não queremos que os homens parem de sentir prazer, desejo ou afins, mas que não se nos vejam como produtos a serem escolhidos em algum supermercado e que possam usar quando quiserem, não queremos que parem de gozar, trepar ou qualquer outra coisa que desejem, mas queremos que nossas escolhas sejam respeitadas e que não se sitam no direito de nos espacarem, estuprarem ou o que for quando dizemos não. Também gostamos de gozar, trepar, realizar fantasias, mas sem que essas atentem contra a vida do outro.

Quem diminui a luta por direito das mulheres acaba contribuindo para a reificação da mulher, para os dados absurdos que temos sobre violência doméstica, violência sexual e feminicídios e é com isso que corrobora novamente o texto “Resto à janela” de Luiz Felipe Pondé desta segunda. Enquanto tivermos quem veicule artigos com alto teor de preconceito, misoginia e ideologia machista continuaremos a nos deparar com Eloás, Mércias e Elizas.

Fácil para quem?

Eu fico espantada ao ver alguns temas que deveriam ser parte de discussões naturais na nossa sociedade virarem um tabu sem tamanho. Até por que quem é que não gosta de fazer sexo? Estou falando de sexo e não de estupro ou pedofilia, pois estes em nada tem relação com discussões sobre liberdade sexual, autonomia e afins. São crimes, violências e assim devem ser tratados sem ser condescendente com maridos, padres, pais, irmãos, bispos e outros que praticam tais atrocidades.

Porém é leviano simplificar o debate sobre liberdade sexual e direitos reprodutivos da mulher como o professor Luiz Felipe Pondé fez no artigo Meninas Fáceis publicado na Folha de São Paulo do dia 03 de maio. Usar linguagem descolada para por no mesmo saco estupro e liberdade sexual é no mínimo maquiavélico, reforçar argumentos conservadores culpando as mulheres como era feito na década de 30 e 40 é perigoso e ajuda a reforçar uma construção social de que a mulher é propriedade do homem e deve se portar com parcimônia pois seu papel natural é o de mãe monogâmica, garantindo assim ao homem que os filhos gerados daquela relação sejam realmente dele.

Agora me pergunto e os homens? Por que a eles é permitido trepar antes do casamento, pegar meninas nas baladas, ser chamado de garanhão e ovacionado por isso? Qual é a diferença tão profunda entre homens e mulheres que justifica um homem se sentir tão poderoso a ponto de matar uma mulher só por que ela não quer mais ficar junto com ele -como foi o caso de Eloá que denunciou o ex-marido 8 vezes à polícia, avisou que ele ia matá-la, instalou uma câmera no trabalho e a câmera filmou o cara atirando nela – ? Quem foi que deu o direito a este e outros tantos homens de matar e estuprar se não a própria sociedade?

A diferença entre homens e mulheres não se dá nas diferenças biológicas e físicas, por que um tem pênis e a outra uma vagina, pois os dois desejam, se molham e tem vontades. A diferença se dá na atribuição de papéis sociais a cada um deles e é por isso que é um ultraje uma mulher decidir que dará fim em um relacionamento, ficar com quem quer que seja, ter instrução de como funciona seu próprio corpo e acesso a métodos contraceptivos de graça.

Conversar, debater sobre direitos reprodutivos e sexualidade é um crime atualmente, no Rio de Janeiro as aulas sobre educação sexual foram substituídas por aulas optativas de religião na rede municipal de ensino. A mulher ter noção do que é o seu corpo e poder para decidir o que fazer com ele é heresia, sacrilégio e sendo tratado assim impõe a mais de 1 milhão de mulheres por ano locais insalubres e inseguros para realização de abortos e ajudando a incrementar a taxa de mortalidade materna no Brasil, pois só em Salvador a realização de abortos cladestinos e inseguros é a primeira causa de morte materna.

É muito mais fácil usar argumentos capiciosos e frágeis para culpar a mulher por ser violentada, espancada e morta por realizar abortos inseguros e ilegais. Assim jogamos para de baixo do tapete tudo que nos incomoda discutir e encontramos saídas fáceis para os debates e comparações absurdas como a de liberdade sexual, estupro e pedofilia construída por Pondé no artigo já citado e fortalecer projetos absurdos como o Estatuto do Nascituro que prevê a criminalização do aborto em casos de estupro que coloca uma venda sobre casos como a garota de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto e engravidou de gêmeos e mesmo com o parecer médico de que ela corria risco de vida caso mantivesse a gravidez a Igreja excomungou a menina, mãe e médicos.

Temos um problema real de saúde pública que não será resolvido com vendas e discursos capiciosos, mas sim com garantia real de distribuição de contraceptivos nos postos de saúde, que não raro não estão disponíveis. Educação sexual levada a sério e não como recreio, até por que sexo é bom, mas sem informação adolescentes acabam reafirmando mitos como da primeira vez não se engravida, se lavar a vagina com vinagre ou coca-cola mata espermatozóide. Garantir que isso seja discutido sem tabus é importante não só para as meninas terem noção do que é seu corpo e informação do que fazer ou não como para os meninos também de saber que não podem obrigar uma garota a trepar só por que ela usa uma pulserinha de cor preta ou uma roupa X, Y ou Z. Encarar debates árduos como a questão dos direitos reprodutivos é essencial para que possamos fazer valer até mesmo o direito constitucional a vida, pois ninguém tem o direito de tirar a vida de uma mulher por que ela decidiu terminar uma relação, abusar sexualmente de uma criança e relegar a morte mulheres que por diversos motivos decidiram abortar.

Por Luka Franca, estudante de jornalismo da PUC/SP e militante do setorial de mulheres do PSOL

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