Eleições 2014, ou, o ovo da serpente

O NASCIMENTO DA FILOSOFIAPensei muito antes de sentar na cadeira e escrever o que eu penso sobre os rumos políticos que o Brasil vem tomando e que se refletiram no processo eleitoral deste ano. Confesso que há muita coisa que me assusta no cenário com que nos deparamos e o que mais me assusta é a profunda despolitização existente no Brasil, e não estou falando de uma burguesia tola que repete palavras de ordem que não tem sustentação alguma na realidade. Me assusta o fato da classe trabalhadora brasileira estar mais conservadora também, incluindo aí o fato de não se reconhecer mais como classe, mas apenas pensar dentro do seu próprio ganho individual e isso deveria ser alvo das maiores preocupações daqueles que se arvoram direção política de alguma coisa no Brasil.

Acho que no último período, com a redemocratização do país e com as poucas vitórias que conseguimos arrancar durante a Constituinte de 88, foi gestado um Ovo da Serpente por parte da esquerda brasileira. Óbvio que eu acredito que alguns setores possuem mais responsabilidades do que outros, porém uma coisa é fato: O superestruturalismo, o vanguardismo e a burocratização legaram para esquerda um pepino gigantesco.

A campanha deste segundo turno foi marcada por uma polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 – quando Lula falava em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais – agora não estavam em jogo projetos tão antagônicos. (BOULOS, Guilherme. O terceiro turno)

Não, Dilma e Aécio não são a mesma coisa, inclusive por que possuem trajetórias diferentes e isto pesa para a direita escolher em quem confia realmente para manter as coisas sob-controle no Brasil. Mas há um fato importante a ser levado em conta: nem toda direita estava ao lado de Aécio nestas eleições e nos últimos 12 anos parte dela esteve assegurando a governabilidade do governo petista, assim como assegurou a governabilidade no governo tucano. Constatar isso é importante inclusive para entendermos o por que os setores que ascenderam a classe média durante o governo petista apresentam muitas vezes discursos conservadores.

Ora, não é de agora que diversos movimentos sociais apontam que a sociedade estavaovoserpente vivendo sob um processo de recrudescimento conservador. O episódio dos recuos no PNDH3 por parte do governo em 2010, ano eleitoral, de temas relativos aos direitos das mulheres, LGBTs, indígenas, democratização da comunicação e reforma agrária já demonstrava que mesmo a direita entre ela ter discordâncias mil sobre diversos temas que cercam a política na hora de blocar para discussões que possam avançar de forma mais totalizante a consciência de classe eles não titubeiam.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país.

A questão é: A forma de disputar política da esquerda não tem como ser a mesma forma de fazer política da direita pelo simples fato de que para disputarmos consciência de classe contra uma hegemonia burguesa é preciso o cotidiano da organização, é preciso criar os espaços e os meios para isso. É preciso aprofundar a democracia de uma forma radical para que o fazer político esteja cada vez nas mãos do povo e criar condições para se avançar nos ditos temas polêmicos.

Congresso Nacional BrasiliaTalvez tenhamos que lembrar que não existe espaço vago na política, que ao não nos posicionarmos e criarmos condições de diálogo sobre temas que aumentam a igualdade em nossa sociedade e reparam distorções estruturais nós damos espaço para se perpetuar um senso comum conservador. Inclusive entre os nossos.

O carro-chefe das reformas era, sem dúvida, a reforma agrária que visava eliminar os conflitos pela posse da terra e garantir o acesso à propriedade de milhões de trabalhadores rurais. Em discurso por ocasião do encerramento do 1° Congresso Camponês realizado em Belo Horizonte em novembro de 1961, João Goulart, afirmou que não só era premente a realização da reforma agrária, como também declarou a impossibilidade de sua efetivação sem a mudança da Constituição brasileira que exigia indenização prévia em dinheiro para as terras desapropriadas. (FERREIRA, Marieta de Moraes. As reformas de base)

Estamos entrando no 4º mandato do governo petista e, infelizmente, reformas estruturais importantes que, inclusive, ajudariam a aprofundar as vitórias que os movimentos sociais alcançaram durante este último período não foram feitas: democratização da comunicação, reforma agrária, reforma urbana, tributação de grande fortunas, desmilitarização da polícia, demarcação de terras indígenas e quilombolas e tantas outras. Além obviamente das pautas civis, entre elas a legalização do aborto, casamento civil igualitário e a legalização das drogas.

Na disputa de posição entre organizações políticas na superestrutura talvez tenhamos perdido o que há de mais rico na formação da esquerda brasileira nos anos 80: a necessidade de não apenas disputar na superestrutura, mas também disputar a sociedade para o avanço da consciência de classes.

Podemos sentar horas em uma reunião para discutir uma vírgula de documento, mas documentos por si só não se refletem em avanço de consciência. Tanto que nós que viemos da tradição de estar nas ruas para pressionar quando junho de 2013 estourou ficamos maravilhados e ao mesmo tempo receosos com o grau de despolitização da massa e do como muitas vezes pautas conservadoras apareciam no meio das mobilizações.

junho20132014 e o segundo episódio de um processo em que as disputas políticas devem se acirrar e saber dialogar e disputar consciência é uma das tarefas do dia, primeiro por que a direita já dá sinais de que se por um acaso da vida o governo Dilma quiser apresentar qualquer projeto que ajude a avançar algo mais progressista no país eles blocaram para que isso não aconteça – só lembrarmos do quanto demorou para sair a votação do Marco Civil da Internet, né mesmo?-, segundo que para haver realmente mudanças profundas no Brasil é preciso que a esquerda esteja onde sabe pressionar e fazer política e este lugar são as ruas, mas não só, é preciso compreendermos o que significará solidariedade de classe e unidade da esquerda para o próximo período, pois a disputa com o conservadorismo já é dura e tende a ser pior.

Acho que precisamos lembrar que os limites de avanço em um estado burguês são os limites que a burguesia dá para qualquer governo mais progressista que se proponha a gerenciar o estado. O ovo da serpente no Brasil não cresceu fora do governo social-liberal do PT, cresceu dentro dele, ocupando ministérios e base de governo no Congresso Nacional e não levar isso em conta e apenas fazer uma agitação ufanista sobre o governo é irresponsabilidade.

Por fim: Não se faz disputa política contra o conservadorismo e luta social dentro de 4 paredes, seja ela qual for. Parlamentares, sindicatos, DCEs ou a forma de organização que for não devem ter um fim em si mesmos, mas sim ter como fim a emancipação de uma classe trabalhadora diversa e desigual entre si mesma. E pra isso o combate a burocratização e vanguardismo se faz essencial.

Vange Leonel e Plinio de Arruda Sampaio faces da mesma lição

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando (MELLO, Thiago. Para os que virão)

Não sou dada as homenagens. Aprendi há quase 8 anos quando me despedi da pessoa que mais amei nessa vida antes da Rosa nascer. Porém ontem, ao pegar 3 ônibus para chegar ao velório da Vange – passando por pedir dinheiro no ponto de ônibus em Itapecerica da Serra para conseguir concretizar a minha necessidade de dizer mais um adeus doloroso na minha vida – percebi o quanto eu tinha a dizer sobre as minhas recentes perdas.

Essa última semana terminaram de ser escritos os livros de duas pessoas que me ensinaram a mesma lição. Para muitos parecerei herética em dizer que Vange Leonel e Plínio de Arruda Sampaio foram mestres em igual patamar, mas foda-se, o que importa é que pra mim foram e sempre serão.

Dividi e divido sonhos com estes dois camaradas, isso não quer dizer que tenha concordado sempre com as posições apresentadas por eles, mas essa foi a maior lição de vida que ambos me deram: O respeito a posição divergente. E essa forma de lidar com os diferentes pontos de vista, de aglutinar pessoas, da generosidade em se doar para as conversas políticas são características que vi se presentificar da maneira mais acolhedora possível na Vange e no Plinio.

Para alguns vai parecer um devaneio, mas com estas duas pessoas aprendi que sonhos sim são possíveis de virar realidade e que nada é impossível de mudar. E o mais importante, conseguiam olhar para as pessoas e as verem, não contar como mais um número desta ou daquela determinada posição política. Isso é algo tão raro, Vange e Plinio ao me encontrarem sempre faziam a mesma pergunta: E como vai a Rosa?

Durante a minha andança entre ônibus intermunicipais e mendicância na frente de uma loja de cervejas especiais (Vange adorava cervejas artesanais e minha primeira cerveja artesanla foi tomada junto com ela e a Cilmara no Tubaína Bar) fui resgatando as memórias sobre estes dois e cheguei a conclusão que um não existiria na minha vida sem o outro.

Conheci a Vange durante as eleições de 2010, foi no twitter que a minha arroba esbarrou na arroba dela. Ela fazia campanha para a Dilma e eu para o Plinio. Foi por conta do debate político e feminista que começamos a conversar mais e mais, foi por conta de ter aberto a conta de twitter do Plinio no finalzinho de 2009 que eu comecei a acompanhar de forma mais ávida o que acontecia nas redes sociais.

Mesmo conhecendo o Plinio há um tempo mais considerável do que conhecia a Vange, olhando toda essa minha trajetória um tanto nonsense pela internet, política e relações pessoais percebi que as conversas com a Vange também influenciaram em muito coisas que acabei apresentando para o programa de mulheres da campanha Plinio.

Além disso tudo, Vange e Plinio construiam relações com generosidade, não tinha dessas de um saber mais do que o outro. Não tinha dessas de carteirada geracional, tinha mais uma contação de histórias de tempos que não tive oportunidade de viver. Com detalhes diversos, ênfase em acontecimentos diversos e uma paciência gigantesca com as problematizações.

Lembro quando a Vange me contou que a sede do SOMOS era no mesmo lugar que hoje funciona o meu bar favorito e a minha empolgação de menina com a informação contando para todos os meus amigos.

Em São Paulo,  os julhos normalmente são cinzas, coisa da cidade. Mas este, em especial será marcado no meu livro como um julho mais cinza do que o normal. O julho onde perdi dois mestres.

Para mim estes dois estavam ligados. Tanto que ambos dialogavam com gerações diversas e agora na hora do capítulo final do livro destas duas pessoas incríveis era visível o quanto ambos tem qualidades muito parecidas.

A lição que eu tiro destes dois tchaus? É que viver uma vida plena,  sem fazer inimigos e defendendo aquilo que acreditamos vale a pena e eu pretendo levar essa lição linda dada por Vange e Plinio para o resto da história que estou escrevendo.

Eles morrem, e deixam vários os que virão e eu sou um deles.

Vange e Plinio, obrigada por tudo. Amo vocês, hoje é sempre: presente!

Segregar é preciso? Uma reflexão sobre o vagão rosa

A existência de um vagão exclusivo para mulheres no transporte público não é um debate de hoje no Brasil, desde que o primeiro foi implementado no Rio de Janeiro a eficácia desta medida ao combate e prevenção a violência machista dentro dos transportes de massa é problematizada.

Esta semana foi aprovada pela ALESP (Assembleia Legislativa de São Paulo) a Lei que reserva vagões específicos para mulheres. Apesar de um setor do movimento feminista compreender isso como vitória eu tenho lá meus questionamentos sobre a real eficácia da medida para o combate a violência machista como um todo, seja no estado de São Paulo, seja em outros estados brasileiros. Um dado importante desta votação é que apenas homens foram favoráveis a medida.

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

Vagão rosa existente no metrô do Rio de Janeiro

A primeira questão a ser considerada é o fato de que em São Paulo somos 58% das usuárias de transporte público, ou seja, mais da metade da população que encaram as latas de sardinha diariamente. Aí está a primeira problemática: Como garantir uma política de cotas de vagão quando o sistema metroferroviário do estado já está em total colapso?

Como sabemos, lei parecida com a do vereador Alfredinho já está em vigor no Rio de Janeiro desde 2006. É a Lei 4.733/2006, que em nada resolveu no fato de que as mulheres são assediadas, abusadas e estupradas nesse espaço, como demonstra a matéria do Portal R7: “Linha do medo: homens invadem vagão exclusivo para mulheres“. Ao contrário, sem qualquer mecanismo de regulação e fiscalização da implementação da Lei, os homens passaram a ocupar os vagões destinados somente por mulheres. (MARQUES, Léa e RODRIGUES, Patrícia. Contra os vagões femininos, pelo direito ao espaço público)

O processo de se segregar em vagões distintos homens e mulheres não avança no combate ao machismo estrutural existente no capitalismo, na verdade apenas avança no processo de culpabilização da vítima, ou seja, uma mulher que não consiga entrar no vagão destinado a ela e usar qualquer um dos outros vagões e sofrer algum tipo de abuso seria considerada culpada pela violência sofrida por não estar onde a lei manda: no vagão rosa.

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Horário de pico em uma das estações do metrô de São Paulo

Defender o segregacionismo nunca foi uma máxima feminista, muito menos uma máxima socialista. Os setores que na sociedade normalmente defenderam formas segregacionistas para resolver os problemas que fossem, normalmente, flertavam com a extrema direita e isso não se pode perder do nosso horizonte.

Além do mais, devo frisar: os assediadores do transporte público não são doentes. Eles fazem parte dos homens que aprenderam, ao longo de sua vida, que podem tocar o corpo de uma mulher sem consentimento, e que continuarão fazendo isso fora dos vagões, na rua, em todos os lugares, inclusive em lugares considerados seguros – 77% dos estupros são cometidos por conhecidos da vítima. O vagão não resolve sequer uma parte do problema. (AVERBUCK, Clara. Vagão para mulheres: segregar não é proteger)

Em junho de 2013 jovens do Brasil todo se levantaram pedindo diminuição da tarifa dos transportes públicos e melhoria nestes serviços. Óbvio que estas melhorias passam necessariamente pela garanti de que mulheres cis e LGBTs possam usar o transporte público sem o medo de sofrer violência. Na proposta sancionada pelo governador Geraldo Alckmin não se pensa em nenhum momento em como será garantida a integridade física de mulheres e homens trans que forem vetados a entrar nos tais vagões rosa, relegar a outro setor marginalizado o lugar da violência cotidiana que sofremos é justo? Avança para a luta por uma sociedade de mais igualdade?

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

Vagão rosa do DF lotado em horário de pico

A criação do vagão rosa não enfrenta o problema da violência machista nos transportes públicos de forma contundente, apenas ajuda a colocar o problema para debaixo do tapete. Não coloca no centro do debate que a violência existente no metrô e trem são fruto da lotação enorme do transporte público que é garantida pela falta de investimentos nas ampliações das frotas e do pessoal com treinamento necessário para manter e fazer funcionar metrô e trem.

O sufoco sofrido por nós mulheres nos trens, metrôs e ônibus se resolveria se não tivesse casos de corrupção no transporte público como o revelado pelo Caso Alstom/Siemens no começo do ano. Se o dinheiro destinado ao transporte público de qualidade fosse realmente usado para garantir transporte público de qualidade e não ajudando a financiar cartéis empresariais como aconteceu no metrô.

Não, não precisamos de segregação que amplie o processo de culpabilização da violência que nós sofremos. Precisamos é que se encare o problema a fundo e se garanta que não existam transportes públicos superlotados facilitando a ocorrência de crimes de oportunidade. Precisamos da garantia do nosso direito a fruir o espaço público sem restrições e, sobretudo, não podemos nos valer de reformas que não avancem para a luta das mulheres e LGBTs em nosso país e o vagão rosa hoje só ajuda a aprofundar a culpa que a sociedade nos impõe pela violência que sofremos.

Sim, eu apoio a greve dos metroviários!

Ontem estive na assembleia dos metroviários de São Paulo, depois fui ajudar no piquete lá no Pátio Jabaquara. O governador Alckmin e seus asseclas dizem que é uma greve motivada por diferença política, o mesmo argumento usado quando começou a estourar os casos de cartéis no Metrô e na CPTM.

greve_metroviarios_spMe parece que o governador esquece dos diversos casos de estupro e assédio sexual que ocorrem no metrô todos os dias por conta do sufoco que são as linhas nos horários de pico, assim como parece esquecer o fato da insatisfação da maioria da população com a qualidade do transporte em São Paulo.

A greve dos metroviários afeta a toda população? Sim, afeta. Mas não afeta menos do que os problemas cotidianos que enfrentamos ao embarcarmos nos trens lotados, com uma das tarifas mais caras do Brasil, com trens superfaturados e que muitas vezes podem nos colocar em risco, como o caso do descarrilamento acontecido no começo do ano. Esses problemas nos afetam mais, estes problemas que nos afetam são os problemas que os metroviários combatem e que o governo tucano finge que não existem.

propinoduto-do-metro-de-spA culpa dessa greve ter paralisado 3 linhas das 4 linhas do metrô (sim, são só 4 linhas do metrô que são representadas pelo Sindicato dos Metroviários, a linha-4 amarela não faz parte da Companhia do Metropolitano e não entra dentro do processo de campanha salarial da categoria dos metroviários por conta da licitação feita pelos psdbistas vendendo, praticamente, a linha para a iniciativa privada) não é dos trabalhadores e trabalhadoras metroviários que todos os dias estão junto conosco enfrentando o sufoco das estações superlotadas, tentando reformar trens que muitas vezes não tem mais como serem reformados, conduzindo os trens pelas vias abarrotados de gente, tendo que ouvir e dar tratamento aos assédios sexuais e estupros que as mulheres vivem ali dentro cotidianamente.

A Justiça concedeu liminar para que os metroviários garantissem o funcionamento de 100% da frota em horário de pico e 70% nos outros horários. Ora, isso é o funcionamento normal do metrô, isso é passar por cima do direito de greve e também é fazer todo mundo, metroviários e população, de palhaços. Somado a isso, vem agora a ameaça do Secretário de Transportes do estado de São Paulo de demissão dos trabalhadores em greve, do jeitinho que o tucanato fez em 2007 com vários metroviários que lutam até hoje por sua reintegração a categoria.

metroviarios-sp-catraca-livre-geraldo-alckminEu queria que o metrô estivesse funcionando hoje, adiantaria muito a minha vida. Porém Geraldo Alckmin negou a proposta feita pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo de liberação das catracas para que a população pudesse utilizar o serviço. Ora, os metroviários  apresentam uma saída para as linhas funcionarem e o governador de São Paulo ignora essa proposta, então não me resta dúvida que ele não está interessado no transtorno e sufoco nosso de cada dia, se tivesse tinha acordado em liberar as catracas para a a população de São Paulo usasse o metrô durante a greve. Este senhor não tem consideração nenhuma pelo povo de São Paulo e hoje é a prova cabal disso.

No mais, São Paulo é um sufoco cotidiano, um sufoco atordoador com ou sem greve e eu apoio quando as pessoas demonstram o quanto essa cidade está em completo colapso e que algo precisa ser feito de forma efetiva para mudar esse cenário. A certeza que eu tenho é que Geraldo Alckmin já demonstrou sua incapacidade de resolver a parte do colapso dessa cidade que cabe ao latifúndio dele.

Padrões: Sorrisos, medo e estagnação

Tem aqueles momentos que o mundo para, estagna e mesmo as coisas simples da vida que cotidianamente achávamos o máximo apreciar se tornam cinza. Estou em um desses momentos, onde acho tudo uma grande caganeira eterna e que a vida não irá seguir.  Se há um tempo eu achava a minha rotina a coisa mais maravilhosa do mundo, não é que a vida está uma merda, ela simplesmente está parada.

Dia desses assistia algum episódio antigo de “Sex and The City”, sim sou uma dessas pré-balzacas que assistem “Sex and The City” e fica tentando se identificar em algum padrão comportamental. Em resumo, sou completamente maluca mesmo. Pois bem, lá estava eu prostrada em cima do sofá assistindo um episódio que falava justamente sobre padrões e lá fui eu cair em uma eterna discussão de relacionamento comigo mesma.

É óbvio que pelo fato de estar há duas semanas em uma discussão de relacionamento eterna comigo mesma eu cai na cilada maior de ir chafurdar qual seria o meu padrão de relacionamento. Aqui cabe uma explicação, sou uma daquelas mulheres que gosta da vida provinciana tradicional, gosto de chegar em casa encontrar com a minha filha, receber uma ligação e saber que o/a namorado/a está indo pra casa jantar. Pois bem, o meu padrão de relacionamento é o de ter medo de relacionamentos. Se eu já sabia disso? Sim, sabia.

Tenho uma teoria de que nasci afetivamente quebrada e todas as vezes que há a remota possibilidade de viver algo muito bacana com alguém eu prontamente saboto a história. Isso muitas vezes é visto como não se importar com as pessoas, mas na verdade é só a minha fobia gigante de me relacionar com as pessoas e ter que lidar com possíveis entreveros que existem em uma relação.

Amei 3 pessoas na minha vida toda, o fato deu ter amado 3 pessoas em toda minha vida não quer dizer que não existiram rolos, casinhos e afins. Porém, amor, amor mesmo, de contar as horas para se encontrar, de ficar cantarolando musiquinhas tema, de acordar do lado e ser feliz por tudo que é importante está ali contigo na cama foram só 3 vezes.

A primeira vez que eu amei encontrei a pessoa no lançamento de uma lei de incentivo a produção cultural, era o sorriso mais lindo que eu já tinha visto. Era a primeira vez que percebia alguém se interessar por mim – então, além de ser uma medrosa de marca maior também tenho uma síndrome de patinho feio gigante, não disse que eu era toda quebrada?

Foi a primeira vez que eu me caguei de medo também, lembro o momento em que travei tudo, foi entre uma ligação ou outra e ele virou pra mim e disse: É mais pro namorado a gente conta às coisas. Pronto, naquela hora eu comecei a agir de uma forma a afastar qualquer possibilidade de encontro, apontar indisponibilidades bobas de horário.

A segunda vez que eu amei também começou com um sorriso, era um churrasco e ele veio elogiar o meu sorriso e era um sorriso tão lindo, tão acolhedor. Acordava de manhã e ficava olhando aquele corpo do meu lado, até o dia em que estávamos andando pela Augusta e eu olhei para o céu, a lua estava gigante. Falei para ele olhar e o pequeno virou e disse: Pera, olha pra lá. Tá mais bonito olhar a lua daqui. E quando percebi ele estava observando a lua refletida nos meus olhos, congelei de medo e dali para frente eu comecei a fazer uma série de coisas que ajudaram a história terminar.

Meu terceiro amor, meu Último Romance, também começou com um sorriso, um sorriso em banheiro público, daqueles sorrisos que tu nunca acha que pode dar em alguma coisa, mas surpreendem a cada minuto. Foram tantas coisas ditas e não ditas. Se eu não fosse um lixo, eu casava contigo. O quanto essa sentença ainda pesa, o quanto depois disso comecei a me afastar até culminar no último beijo. Tudo fruto do medo, da insegurança, da dificuldade de entender que dá para confiar e entregar o coração para as pessoas.

E por que isso pra mim é tão importante? Pelo fato de ser algo que ainda não consegui resolver comigo mesma, é o meu padrão de relacionamentos. Dar presentes, ter músicas temas, se sentir plena, mas ao mesmo tempo criar uma couraça onde qualquer manifestação do outro lado de algum carinho maior é necessariamente sinal para ser refratária. Faz um bom tempo que eu não noto mais sorrisos, que não tenho vontade de olhar a lua, ou então ir ao supermercado para preparar alguma coisa diferente para jantar.

Cada um dos meus amores me trouxe algo fundamental para compreender a vida, e inclusive avançar nesse meu combate diuturno do medo que sinto quando percebo as coisas caminharem. Sei que preciso reencontrar o meu eixo e essa é uma das minhas tarefas para o próximo período, preciso reaprender a ser feliz sozinha.

O negro fujão, os “justiceiros” e a perigosa água que vem batendo na nossa bunda

A cada dia mais eu fico barbarizada com o quanto o imaginário coletivo brasileiro é cada vez mais reacionário. Tem circulado por aí uma matéria do Extra sobre um adolescente vítima de “justiceiros” no Rio de Janeiro. O rapaz, negro e pobre, foi atacado por três caras no Flamengo e teve a orelha rasgada por uma faca. Além disso os tais “justiceiros” o prenderam com uma trava mul t lock a um poste pelo pescoço. Uma cena que remonta os escravos no século XIX.

Grupo de extermínio não é uma novidade no Brasil. Nos anos 80 haviam vários por São Paulo e continuam a existir de formas distintas. Talvez seja a face mais dura do estado penalista, militarista, burguês, racista em todas as suas nuances amis nefastas. É a possibilidade de se organizar grupos de extermínio, seja para dar coça nos marginalizados por praticar furtos, seja por ter uma orientação sexual diferente do convencionado pelo patriarcado, ou uma outra identidade de gênero que não é suportada por conta da transfobia.

Ainda no começo dos anos 90, a polícia prendeu na Paraíba o “justiceiro” João Baiano, acusado de 140 homicídios na região de Santo Amaro, São Paulo. Na mesma ocasião, a lista dos “justiceiros” foi engrossada com a captura de José Ferreira Campos, o Zé Prego, acusado de ter matado mais de 30 pessoas nos bairros de Parque Santo Antônio, Jardim Taboão e Capão Redondo; e Gildaci Santos Silva e José Wilson Alves, que faziam parte de um grupo da Zona Sul responsável por pelo menos 70 por cento dos homicídios na região desde 1983, segundo a polícia. (FERNANDES, Ademir. Mais de mil já morreram em mãos de justiceiros)

Mata-se, espanca-se, cria-se tribunais de exceção por todo Brasil e boa parte da população brasileira aplaude, aplaude por que a lógica do “bandido bom é bandido morto” nunca foi combatidade realmente, fosse com medidas efetivas de política pública, fosse ideologicamente.

Continuamos tapando o sol com a peneira, continuamos dando pano pra manga pruma sociedade penalista e racista, continuamos financiando uma mentalidade de segurança pública que só pensa no “olhor por olho, dente por dente”. Na morte dos indesejáveis, dos párias, pois incomoda perceber que eles se fazem existir.

A preocupação sobre a criação de mais grupos de extermínio pelo Brasil não é algo banal. No começo do ano foi divulgado que o número de mortes realizadas por PMs durante as folgas aumentou nos últimos anos em São Paulo, foi um aumneto de 50% e isso por si só já é um indício preocupante, ao meu ver.

O “não somos racistas” do Ali Kamel cai por água abaixo a cada dia, hora e minuto. Somos um país racista, somos um país onde se prefere jogar para baixo do tapete os problemas nefrálgicos da sociedade como se fossem a cereja do bolo. Talvez estejamos presenciando a volta de musculatura para o aparato paraestatal dos mais perigosos e no fim, a sanha punitiva e racista só tem um alvo: Nós mesmos.

Um quebra cabeça chamado Denarc na Cracolândia

Essa semana fez dois anos que desocuparam o Pinheirinho a mando do governo Alckmin, só este fato já deveria ser o suficiente para refletir e cobrar o tucanato sobre essa política de gentrificação e higienismo que assola o estado. Além disso estamos em pleno e fervoroso debate sobre os rolezinhos e a segregação que vem se revelando em diversos centros comerciais da cidade.

Pois bem, faltava a cereja do bolo e ela foi colocada nesta quinta-feira através de uma ação “surpresa” do Denarc na Cracolândia, onde mais de 30 pessoas foram detidas.

Houve confronto, bomba de gás e uso de bala de borracha. O Denarc nega e a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirmam que não foi usado bala de borracha na operação.

A Secretaria da Segurança Pública esclarece que foi legítima a ação realizada nesta quinta-feira na Cracolândia. Houve resistência, três policiais foram feridos e três viaturas danificadas. Os policiais buscaram reforço e realizaram quatro flagrantes por tráfico de drogas. O Denarc não possui e não usou bala de borracha na ação. (Nota oficial da SSP sobre o caso)

A Prefeitura de São Paulo, por outro lado, afirma que na operação o Denarc fez uso do armamento que oficialmente não possuiria.

A Prefeitura repudia esse tipo de intervenção, que fez uso de balas de borracha e bombas de efeito moral contra uma multidão formada por trabalhadores, agentes públicos de saúde e assistência e pessoas em situação de rua, miséria, exclusão social e grave dependência química. (Nota oficial da Prefeitura sobre o caso)

Ao ir para a Cracolândia e conversar com alguns moradores ouvi muitas vezes que as pessoas ouviram barulho de tiro e de bomba na região, além de ter ferido algumas pessoas.

Neste vídeo aqui, feito pelas câmeras que a Prefeitura de São Paulo, há imagens da hora que o reforço do Denarc chegou à Cracolândia. No minuto 3 do vídeo sai de uma das viaturas um homem vestido de vermelho e carregando uma arma e no minuto 3:40 aparece um cara de vermelho apontando o mesmo objeto para as pessoas que estavam no “fluxo” da Cracolândia e depois passa a arma para um outro policial que estava de colete.

Polícial Civil desfila pela Cracolândia portando arma. JF Diório/Estadão

Polícial Civil desfila pela Cracolândia portando arma. JF Diório/Estadão

Em reportagem publicada no Estadão há uma foto em que aparece um dos policiais que estavam na ação andando com uma arma por onde estava o “fluxo”.

Segundo a delegada, as espingardas calibre 12, usadas para disparar balas de borracha, vistas no local estavam descarregadas: “Nós estamos sem bala de borracha. Nós fizemos o pedido, mas elas ainda não chegaram. [A espingarda] Era só para intimidar”. (Policiais civis de SP são suspeitos de comandar tráfico na cracolândia)

Houve gente que saiu ferida, segundo relatado na reportagem do Estadão, por bala de borracha.

Conversando com gente lá na região tive a confirmação de que pelo menos uma moça de 23 anos ficou ferida, foi atingida na cabeça. O morador com quem conversei também afirmou que uma criança havia ficado ferida, porém ele não sabia precisar de quem ela era filha e onde morava exatamente.

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia em jovem de 23 anos

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia

Ferimento que seria resultado da ação do Denarc na Cracolândia em jovem de 23 anos que estava no local

Não é a primeira vez que a Cracolândia é alvo de ação violenta por parte do poder público, em 2012 com a Operação Integrada Legal os usuários, moradores e afins tiveram que lidar de forma mais ostensiva do que o normal, inclusive dificultando o trabalho de diversas iniciativas não punitivistas que existiam e existem naquela região.

A ação “surpresa” do Denarc na Cracolândia nesta quinta-feira, cheia de abusos, com uso de armas não letais para acuar os que frequentam a região só demonstra cada vez mais o quanto o Estado não consegue lidar com a situação sem se valer da repressão, gentrificação, do higienismo social e da profunda criminalização da pobreza para poder lidar com a questão das drogas.

No fundo o que recrudescer naquela região é pelo fato de que boa parte da população paulistana encara os frequentadores da Cracolândia como não humanos, então ser mais violento ou menos violento, respeitar as leis ou não é o de menos quando se trata de não humanos.

Moradores da região entrevistados pelo GLOBO há duas semanas, antes do início do programa da prefeitura e da retirada de barracas de madeira das calçadas da Alameda Dino Bueno, relataram diversos abusos cometidos por policiais civis na região, entre eles agressões e prisões arbitrárias por tráfico. (GUANDELINE, Leonardo. Denarc nega uso de bala de borracha e diz que ação na cracolândia foi ‘certíssima’)

Eu pelo menos tenho duas perguntas que ainda não foram respondidas:

– Se era uma operação cotidiana do Denarc, por que parte do poder público não tinha ciência dela?

– Se o Denarc não possui balas de borracha, como teve gente ferida por bala de borracha durante a operação (segundo os moradores)?

A ação do Denarc nesta quinta na Cracolândia só demonstra que o debate sobre segurança pública, truculência policial, militarismo e criminalização da pobreza não tange apenas a Polícia Militar, mas sim a toda uma estrutura de segurança pública que visa punir e manter o status quo de uma sociedade capitalista, machista e racista.

O desenrolar dessa história espero que seja para ser favorável aos que frequentam a Cracolândia e precisam realmente de auxílio e não criminalização, truculência estatal e racismo até o talo.

 

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