Eleições 2014, ou, o ovo da serpente

O NASCIMENTO DA FILOSOFIAPensei muito antes de sentar na cadeira e escrever o que eu penso sobre os rumos políticos que o Brasil vem tomando e que se refletiram no processo eleitoral deste ano. Confesso que há muita coisa que me assusta no cenário com que nos deparamos e o que mais me assusta é a profunda despolitização existente no Brasil, e não estou falando de uma burguesia tola que repete palavras de ordem que não tem sustentação alguma na realidade. Me assusta o fato da classe trabalhadora brasileira estar mais conservadora também, incluindo aí o fato de não se reconhecer mais como classe, mas apenas pensar dentro do seu próprio ganho individual e isso deveria ser alvo das maiores preocupações daqueles que se arvoram direção política de alguma coisa no Brasil.

Acho que no último período, com a redemocratização do país e com as poucas vitórias que conseguimos arrancar durante a Constituinte de 88, foi gestado um Ovo da Serpente por parte da esquerda brasileira. Óbvio que eu acredito que alguns setores possuem mais responsabilidades do que outros, porém uma coisa é fato: O superestruturalismo, o vanguardismo e a burocratização legaram para esquerda um pepino gigantesco.

A campanha deste segundo turno foi marcada por uma polarização que não víamos desde 1989. Mas diferente de 1989 – quando Lula falava em suspender o pagamento da dívida pública e em fazer reformas estruturais – agora não estavam em jogo projetos tão antagônicos. (BOULOS, Guilherme. O terceiro turno)

Não, Dilma e Aécio não são a mesma coisa, inclusive por que possuem trajetórias diferentes e isto pesa para a direita escolher em quem confia realmente para manter as coisas sob-controle no Brasil. Mas há um fato importante a ser levado em conta: nem toda direita estava ao lado de Aécio nestas eleições e nos últimos 12 anos parte dela esteve assegurando a governabilidade do governo petista, assim como assegurou a governabilidade no governo tucano. Constatar isso é importante inclusive para entendermos o por que os setores que ascenderam a classe média durante o governo petista apresentam muitas vezes discursos conservadores.

Ora, não é de agora que diversos movimentos sociais apontam que a sociedade estavaovoserpente vivendo sob um processo de recrudescimento conservador. O episódio dos recuos no PNDH3 por parte do governo em 2010, ano eleitoral, de temas relativos aos direitos das mulheres, LGBTs, indígenas, democratização da comunicação e reforma agrária já demonstrava que mesmo a direita entre ela ter discordâncias mil sobre diversos temas que cercam a política na hora de blocar para discussões que possam avançar de forma mais totalizante a consciência de classe eles não titubeiam.

Acabamos reféns no Congresso Nacional da governabilidade, a qual tinha na sua base partidos conservadores – incluindo aí o PSC que neste pleito foi compor o projeto que melhor representa o conservadorismo brasileiro: Aécio Neves. Vimos aí cair por pressão da base do governo no Congresso Nacional o kit anti-homofobia e a queda da portaria do Ministério da Saúde sobre casos de aborto legal já existentes no Brasil. De mãos atadas, é isso que podemos constatar. De mãos atadas por conta da tática adotada para conseguir chegar a presidência do país.

A questão é: A forma de disputar política da esquerda não tem como ser a mesma forma de fazer política da direita pelo simples fato de que para disputarmos consciência de classe contra uma hegemonia burguesa é preciso o cotidiano da organização, é preciso criar os espaços e os meios para isso. É preciso aprofundar a democracia de uma forma radical para que o fazer político esteja cada vez nas mãos do povo e criar condições para se avançar nos ditos temas polêmicos.

Congresso Nacional BrasiliaTalvez tenhamos que lembrar que não existe espaço vago na política, que ao não nos posicionarmos e criarmos condições de diálogo sobre temas que aumentam a igualdade em nossa sociedade e reparam distorções estruturais nós damos espaço para se perpetuar um senso comum conservador. Inclusive entre os nossos.

O carro-chefe das reformas era, sem dúvida, a reforma agrária que visava eliminar os conflitos pela posse da terra e garantir o acesso à propriedade de milhões de trabalhadores rurais. Em discurso por ocasião do encerramento do 1° Congresso Camponês realizado em Belo Horizonte em novembro de 1961, João Goulart, afirmou que não só era premente a realização da reforma agrária, como também declarou a impossibilidade de sua efetivação sem a mudança da Constituição brasileira que exigia indenização prévia em dinheiro para as terras desapropriadas. (FERREIRA, Marieta de Moraes. As reformas de base)

Estamos entrando no 4º mandato do governo petista e, infelizmente, reformas estruturais importantes que, inclusive, ajudariam a aprofundar as vitórias que os movimentos sociais alcançaram durante este último período não foram feitas: democratização da comunicação, reforma agrária, reforma urbana, tributação de grande fortunas, desmilitarização da polícia, demarcação de terras indígenas e quilombolas e tantas outras. Além obviamente das pautas civis, entre elas a legalização do aborto, casamento civil igualitário e a legalização das drogas.

Na disputa de posição entre organizações políticas na superestrutura talvez tenhamos perdido o que há de mais rico na formação da esquerda brasileira nos anos 80: a necessidade de não apenas disputar na superestrutura, mas também disputar a sociedade para o avanço da consciência de classes.

Podemos sentar horas em uma reunião para discutir uma vírgula de documento, mas documentos por si só não se refletem em avanço de consciência. Tanto que nós que viemos da tradição de estar nas ruas para pressionar quando junho de 2013 estourou ficamos maravilhados e ao mesmo tempo receosos com o grau de despolitização da massa e do como muitas vezes pautas conservadoras apareciam no meio das mobilizações.

junho20132014 e o segundo episódio de um processo em que as disputas políticas devem se acirrar e saber dialogar e disputar consciência é uma das tarefas do dia, primeiro por que a direita já dá sinais de que se por um acaso da vida o governo Dilma quiser apresentar qualquer projeto que ajude a avançar algo mais progressista no país eles blocaram para que isso não aconteça – só lembrarmos do quanto demorou para sair a votação do Marco Civil da Internet, né mesmo?-, segundo que para haver realmente mudanças profundas no Brasil é preciso que a esquerda esteja onde sabe pressionar e fazer política e este lugar são as ruas, mas não só, é preciso compreendermos o que significará solidariedade de classe e unidade da esquerda para o próximo período, pois a disputa com o conservadorismo já é dura e tende a ser pior.

Acho que precisamos lembrar que os limites de avanço em um estado burguês são os limites que a burguesia dá para qualquer governo mais progressista que se proponha a gerenciar o estado. O ovo da serpente no Brasil não cresceu fora do governo social-liberal do PT, cresceu dentro dele, ocupando ministérios e base de governo no Congresso Nacional e não levar isso em conta e apenas fazer uma agitação ufanista sobre o governo é irresponsabilidade.

Por fim: Não se faz disputa política contra o conservadorismo e luta social dentro de 4 paredes, seja ela qual for. Parlamentares, sindicatos, DCEs ou a forma de organização que for não devem ter um fim em si mesmos, mas sim ter como fim a emancipação de uma classe trabalhadora diversa e desigual entre si mesma. E pra isso o combate a burocratização e vanguardismo se faz essencial.

A equivocada noção de igualdade de gênero de Aécio Neves

Essa semana apareceu pelas redes sociais uma das propostas de Aécio Neves para segurança pública e também para garantir a igualdade de gênero. A proposta é promover a entrada de mais mulheres nas forças armadas brasileiras, antes que venha fulaninho questionar que “as feministas querem igualdade mas não pautam o alistamento obrigatório para as mulheres” devo lembrar que boa parte do movimento feminista é contra o alistamento obrigatório dos meninos e, ainda mais, caracteriza que a militarização da vida não avança com os direitos das mulheres.

Aécio+MulheresEm 2012 a CNN veiculou reportagem apontando a dificuldade de se apurar casos de estupro junto a tropas estado unidense. A matéria da CNN, o documentário “The Invisible War” e um artigo da Naomi Woolf sobre o tema apontaram que na sociedade estado unidense há uma sub-notificação de casos de estupro dentro do exército dos EUA.

A perspectiva apresentada na campanha de Aécio Neves para aproximar as forças armadas brasileiras da sociedade civil explorando as “características naturais” das mulheres de mediar e pacificar situações de conflito não é nova. Tanto que a primeira vez que as mulheres entraram no serviço militar brasileiro foi em 1980, ainda no governo do general Figueiredo, na Marinha.

A decisão levou anos para ser tomada e a foi feita para aprofundar uma imagem mais humanizada do Exército, visto o período político que vivíamos e o próprio avanço do debate feminista pelo mundo, ou seja, a entrada das primeiras mulheres nas Forças Armadas foi uma resposta da direita e do capital de que era possível ampliar direitos dentro do próprio sistema e do seu braço armado.

A ênfase na distinção entre homens e mulheres, representa uma cilada ao pretender legitimar com explicações biológicas e naturais culturalmente forjadas, comportamentos inscritos no âmbito sócio-cultural. (…) o interesse em tal distinção surgiu historicamente quando estas diferenças se tornaram politicamente importantes, representadas pela clivagem da política de poder do gênero, sendo invocadas a cada episódio envolvendo lutas pelo poder. Desde então este tem sido o eixo analítico privilegiado na construção cultural da cilada da diferença sexual, o qual vem informando e justificando o lugar das mulheres na sociedade segundo as características pretensamente biológicas do seu corpo. Deste modo, às mulheres militares foi negado o lugar e a formação em funções de combate a despeito de suas competências e desejos, justificando-se o seu lugar em funções auxiliares sob o enfoque analítico da construção cultural da diferença sexual e da interpretação biológica socialmente construída do seu corpo. (D’ÁVILA, Mariza Ribas. Batalhas culturais de gênero: A dinâmica das relações de poder no campo militar naval)

Apesar do fato de que incluir mulheres nas Forças Armadas ou nas Polícias Militares estaduais ser visto como uma medida humanizadora destes instrumentos de segurança pública, acredito que esta incorporação acaba não avançando na perspectiva dos direitos humanos.

Exército revista crianças no Santa Marta. Imagem: Marcia Foletto

Exército revista crianças no Santa Marta. Imagem: Marcia Foletto

Ou seja, a dogmática militarista e a forma de organização hierárquica destas instituições já nos revelam a dureza e a necessidade de manutenção de um status quo onde a divisão sexual do trabalho é reverberada de forma mais brutal, além do fato de que é na tarefa coercitiva do Estado que as instituições militares encontram sua atividade fim. Coerção esta que vemos ser aplicada seja nas ações dos exércitos (seja de qual país for) em missões pelo mundo – onde podemos observar o aumento de violências sexuais nas populações alvo destas missões  -, seja na atuação das polícias militares estaduais e no grau de racismo e machismo institucional com que é tratada a juventude brasileira.

O fato é que quando Aécio Neves apresenta uma proposta que visa dialogar com a igualdade de gênero dentro de instituições organizadas para manter a vida como ela é. As Forças Armadas ajudam a manter o mundo sob o tacão do medo e mantendo uma sociedade que seja racista, machista, homolesbobitransfóbica e capitalista. E de que adianta mulheres subjugadas a uma hierarquia e disciplina comandadas principalmente por homens brancos heteros e cisgêneros?

Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. Alguns direitos reservados

Imagem: Roberto Stuckert Filho/PR. Alguns direitos reservados

Acredito que estamos em um patamar hoje onde o questionamento se basta apenas o fato de ser mulher ocupando lugar em uma instituição que tem por ideologia e organização concreta manter a opressão de outras mulheres sejam brancas, negras ou indígenas é algo que precisa ser profundamente refletido não apenas pelo movimento feminista, mas pelo conjunto dos movimentos que combatem diversas formas de opressão e exploração como o movimento LGBT e movimento negro.

Inclusão em espaços que ajudam na nossa coerção não é política que garanta nossa emancipação, viu Aécio? É apenas política para diversificar nossos algozes e não nos emancipar.

A militarização da vida nas eleições presidenciais

Durante o debate político entre as candidaturas a presidência da república que aconteceu no SBT, exatamente no 2º bloco, deu para perceber bem o quanto a questão de segurança pública – que é fundamental para garantir a estruturação de qualquer projeto de sociedade seja ele qual for – de Dilma e Aécio compartilham profundamente da perspectiva de guerra às drogas e de militarização da vida para assegurar segurança pública. Jogam novamente com a lógica de que segurança é apenas polícia e não apresentam propostas de mudanças estruturais profundas na forma que nossa segurança pública se apresenta hoje.

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O primeiro ponto que impressiona é o fato de nenhum dos dois apontar que o alto índice de mortes junto a juventude no Brasil tem um recorte claro. Segundo o Mapa da Violência 2014 os homicídios de jovens no Brasil ultrapassam de 50% do número total de assassinatos ocorridos no país. Em pesquisa feita pelo IPEA em 2013 o instituto apontava que 70% dos assassinatos no Brasil eram de negros, ou seja, quando o debate sobre segurança pública apareceu ontem na peleja entre Aécio e Dilma também se escondeu que o Estado em que vivemos organiza sua segurança pública para manter os negros e indígenas no cabresto.

Se corrida presidencial trouxe para a ordem do dia o debate sobre a redução da maioridade penal, pouco se tem falado sobre a exposição dos jovens à violência e sobre as execuções praticadas contra adolescentes em São Paulo e no Brasil. O “mito do adolescente violento” transforma o jovem, negro e morador de periferia em uma espécie de bode expiatório da sociedade. Poucos estigmas no mundo são tão mortais. (MANSO, Bruno Paes. Pelo fim da pena de morte aos adolescentes. O caso São Remo)

A continuidade de uma política de segurança pública baseada no tolerância zero em nosso país ficou explicita durante o 2º bloco do debate presidencial no SBT. A omissão de Aécio e Dilma de que há um processo de genocídio da juventude negra e indígena, promovido prioritariamente por braços ligados aos governos federal e estaduais foi gritante.

E só pegar os documentos de programa de governo dos dois candidatos para ver como a estrutura de segurança pública que temos visto se recrudescer com UPPs, Forças Armadas prendendo gente em favelas, guerra às drogas e militarização da vida. No programa de governo da Dilma (não sei onde Aécio procurou, por que eu achei o  dito, mesmo levando algum tempo) ela aponta que a Força Nacional continuará a dar suporte a operações nos estados. Bom lembrar que tanto na Copa das Confederações e do Mundo a Força Nacional foi responsável em diversos estados por reprimir manifestações diversas, além de ser usada nas áreas de conflitos indígenas.

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No programa de Aécio sobre o tema ele é enfático ao ressaltar a necessidade de se continuar ocupações militares em áreas periféricas. Além do apoio claro a Proposta de Emenda Constitucional proposta pelo seu candidato a vice, Aloysio Nunes, que reduz a maioridade penal no país. Afrontando claramente o direito de crianças e adolescentes e não dando uma saída civil para a marginalização sofrida nas periferias pelas crianças e jovens negros e indígenas.

Ambos apontam para necessidade de guerra às drogas. Sem levar em conta em nenhum momento que esta política no mundo foi organizada para garantir uma guerra aos pobres.

A “guerra às drogas” tem servido de pretexto para criminalizar a pobreza e militarizar a vida, especialmente nas periferias e favelas, proporcionando lucros astronômicos para o mercado financeiro (que “lava” o dinheiro do tráfico) e para a indústria de armas. Hoje, existem mais de 140 mil presos por tráfico nas cadeias brasileiras. A maioria jovens, negros e pobres, réus primários presos sozinhos com pequenas quantidades de maconha. A “guerra às drogas” é na verdade uma guerra aos pobres! (CINCO, Renato. Basta de guerra aos pobres! Por outra política de drogas. Legalização da maconha, já!)

O processo já em curso no Brasil de privatização dos presídios também é contemplado nos programas de governo e já há anos vem sendo criticado pela Pastoral Carcerária. Lembrando que em todas as recomendações colocadas sempre se aponta que o fortalecimento de uma gestão pública dos presídios, com garantia dos direitos dos presos e de direitos humanos ajudaria na recuperação e reinserção na sociedade.

A manutenção de políticas militarizantes e punitivas em conjunto com a existência de um Congresso Nacional mais conservador e militarizado deveria acender uma luz vermelha a todos que defendem direitos humanos em geral para a dureza que viveremos após o dia 26 de outubro, independente de quem venha ganhar.

Iniciaremos mais uma etapa no Brasil onde resistência pouca será bobagem, o militarismo e o punitivismo vem ganhando espaço na política brasileira há anos e não poderemos titubear pra enfrentar o cenário recrudescido que se coloca para nós.

Estas questões não são minoritárias, a forma como se organiza a segurança pública de um país é o método para garantir a implementação de qualquer projeto de sociedade e uma segurança pública que no último período só vem crescendo em arsenal militar e em perspectiva punitiva não deve ser encarado por quem defende liberdade democráticas e direitos humanos como uma vitória.

Mulheres no debate: Esquentando os tamborins para um programa sobre as eleições

Esse não é o post oficial da semana. Apesar de tratar de tema recorrente pelo blogo: política e feminismo.

Pois bem, a Ttouts e eu estamos produzindo um programa para web rádio  de análise política sobre 2º turno das eleições. Não apenas comentários sobre o cenário nacional, mas também sobre o cenário de 14 estados brasileiros que estão reencontrarão as urnas no dia 26 de outubro.

Vou te contar, tarefa nada fácil essa, viu? Pois não é apenas o fazer um espaço de debate político sobre as eleições de 2º turno, mas também colocar mulheres para comentar sobre o significado do cenário em seus estados e nacionalmente das disputas aí postas.

Até o dia 24 de outubro estaremos no ar com o programa, depois de ligar para diversos estados, pedir ajuda para diversos coletivos e organizações para montarmos um programa onde as mulheres protagonizam o debate político e não apenas para dar um ar cosmético de diversidade e pluralidade ao rolê.

A ideia do programa é não apenas colocar mulheres para comentar a conjuntura dos seus estados e analisar o que está em jogo nas disputas de governos e da presidência, mas também mostrar que não existe debate político apenas no eixo Rio-São Paulo-Minas. Estados que normalmente são alvo das análises políticas prioritárias na grande mídia e também na mídia alternativa.

O programa será a estréia das transmissões da embrionária Rádio Baderna e a nossa vontade é que dê tudo muito certo para que consigamos estabelecer um espaço na internet de mulheres no debate político mais geral também e somar com todos os espaços que tem criado trincheiras feministas, antirracistas e antihomolesbobitransfóbicas na internet e fora dela.

PS: Ainda estamos atrás de meninas do Acre e Roraima que possam comentar as eleições nestes estados numa perspectiva de esquerda, feminista e crítica.

Sim, eu apoio a greve dos metroviários!

Ontem estive na assembleia dos metroviários de São Paulo, depois fui ajudar no piquete lá no Pátio Jabaquara. O governador Alckmin e seus asseclas dizem que é uma greve motivada por diferença política, o mesmo argumento usado quando começou a estourar os casos de cartéis no Metrô e na CPTM.

greve_metroviarios_spMe parece que o governador esquece dos diversos casos de estupro e assédio sexual que ocorrem no metrô todos os dias por conta do sufoco que são as linhas nos horários de pico, assim como parece esquecer o fato da insatisfação da maioria da população com a qualidade do transporte em São Paulo.

A greve dos metroviários afeta a toda população? Sim, afeta. Mas não afeta menos do que os problemas cotidianos que enfrentamos ao embarcarmos nos trens lotados, com uma das tarifas mais caras do Brasil, com trens superfaturados e que muitas vezes podem nos colocar em risco, como o caso do descarrilamento acontecido no começo do ano. Esses problemas nos afetam mais, estes problemas que nos afetam são os problemas que os metroviários combatem e que o governo tucano finge que não existem.

propinoduto-do-metro-de-spA culpa dessa greve ter paralisado 3 linhas das 4 linhas do metrô (sim, são só 4 linhas do metrô que são representadas pelo Sindicato dos Metroviários, a linha-4 amarela não faz parte da Companhia do Metropolitano e não entra dentro do processo de campanha salarial da categoria dos metroviários por conta da licitação feita pelos psdbistas vendendo, praticamente, a linha para a iniciativa privada) não é dos trabalhadores e trabalhadoras metroviários que todos os dias estão junto conosco enfrentando o sufoco das estações superlotadas, tentando reformar trens que muitas vezes não tem mais como serem reformados, conduzindo os trens pelas vias abarrotados de gente, tendo que ouvir e dar tratamento aos assédios sexuais e estupros que as mulheres vivem ali dentro cotidianamente.

A Justiça concedeu liminar para que os metroviários garantissem o funcionamento de 100% da frota em horário de pico e 70% nos outros horários. Ora, isso é o funcionamento normal do metrô, isso é passar por cima do direito de greve e também é fazer todo mundo, metroviários e população, de palhaços. Somado a isso, vem agora a ameaça do Secretário de Transportes do estado de São Paulo de demissão dos trabalhadores em greve, do jeitinho que o tucanato fez em 2007 com vários metroviários que lutam até hoje por sua reintegração a categoria.

metroviarios-sp-catraca-livre-geraldo-alckminEu queria que o metrô estivesse funcionando hoje, adiantaria muito a minha vida. Porém Geraldo Alckmin negou a proposta feita pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo de liberação das catracas para que a população pudesse utilizar o serviço. Ora, os metroviários  apresentam uma saída para as linhas funcionarem e o governador de São Paulo ignora essa proposta, então não me resta dúvida que ele não está interessado no transtorno e sufoco nosso de cada dia, se tivesse tinha acordado em liberar as catracas para a a população de São Paulo usasse o metrô durante a greve. Este senhor não tem consideração nenhuma pelo povo de São Paulo e hoje é a prova cabal disso.

No mais, São Paulo é um sufoco cotidiano, um sufoco atordoador com ou sem greve e eu apoio quando as pessoas demonstram o quanto essa cidade está em completo colapso e que algo precisa ser feito de forma efetiva para mudar esse cenário. A certeza que eu tenho é que Geraldo Alckmin já demonstrou sua incapacidade de resolver a parte do colapso dessa cidade que cabe ao latifúndio dele.

Em Belém morreu Almir Gabriel: o ex-governador privatista e mandante do massacre de Eldorado do Carajás

Cheguei hoje em Maringá, liguei o computador para subir um texto no Blogueiras Feministas e ver emails e me deparo com uma notícia: Almir Gabriel morreu. Bem, muitos não conhecem o Dr Almir Gabriel, eu nunca o vi cara a cara, mas o conheço. Ele foi o símbolo da minha primeira noção da contradição de votar no menos pior e do voto útil. Mas não é por causa da minha história pessoal que faz este senhor ser importante na política paraense.
Almir Gabriel foi governador do Pará de 1994 até 2002, mesma época do queridão FHC na presidência do país. Porém não é só por ser tucano que Almir Gabriel foi uma figura importante no estado, e também não foi apenas por ser governador.

O tucano foi eleito em 1994 como sendo alternativa ao menos pior ao Jarbas Passarinho (esse mesmo, o da ditadura). E seu governo culminou em nada mais ou nada menos com o Massacre de Eldorado de Carajás, pois Almir Gabriel foi o principal mandante deste banho de sangue.

Os 19 mortos eram integrantes da “Caminhada pela Reforma Agrária”, iniciada no dia 10 de abril por 1.500 famílias de trabalhadores rurais sem terra. Um dia antes do massacre, por volta das 15h, essas famílias montaram um acampamento no Km 96 da PA-150, na deno­minada “Curva do S”, próxima à cidade de Eldorado dos Carajás. Os trabalhadores interditaram a estrada e exigiam alimentos e transporte, em negociação com a Polícia Militar, que acompanhava a marcha.

Naquele momento, a tropa do 4º Batalhão de Polícia Militar, em Marabá, estava pronta para realizar a desobstrução da rodovia. Por volta das 20h, a operação foi cancelada em um acordo entre integrantes do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Polícia Militar. O major José Maria Pereira de Olivera, comandante da 10ª CIPM/1ª CIPOMA, que negociava com o MST, garantiu que as reivindicações dos trabalhadores seriam levadas às autoridades competentes nos âmbitos federal e estadual. No dia seguinte, data do massacre, às 11h, o tenente da PM Jorge Nazaré Araújo dos Santos informou que as negociações estavam encerradas e que nenhuma das reivindicações seriam atendidas, nem mesmo a doação de alimentos.

Enquanto isso, na capital, o governador do Estado, Almir Gabriel, ordenou ao secretário de Segurança, Paulo Sette Câmara, ao superin­tendente estadual do Incra, Walter Cardoso, e ao presidente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), Ronaldo Barata, a desobstrução do Km 96 da PA-150. (CARVALHO, Sandra. O Massacre de Eldorado dos Carajás)

Além do sua forma peculiar de dialogar com os movimentos sociais parenses, o ex-governador também protagonizou processos de privatização brutal das empresas públicas paraenses. O caso mais conhecido é o da venda da CELPA (Centrais Elétricas do Pará) em 1998, quando a empresa foi comprada pelo Grupo Rede por um valor muito abaixo do que valeria e que agora protagoniza um processo de falência brutal.
Na época do leilão da CELPA outro coronel da região, senhor Jader Barbalho que também merecerá post por aqui quando morrer, denunciou que o dinheiro do leilão havia servido para pagar a campanha de reeleição de Almir Gabriel ao governo paraense. Como tudo que é denuncia eleitoral o caso não foi investigado.

Depois da Celpa vendida justamente para o Grupo Rede, voltamos a carga para denunciar que a Empresa compradora estava usando a Celpa para arrancar dinheiro do BNDES, juntar com os lucros obtidos aqui para capitalizar outras empresas do Grupo, aumentando o endividamento da empresa paraense que passou a correr o risco de ficar insolvente. Mais uma vez fomos ignorados pela imprensa paga e pelos políticos vendidos que apóiam sempre quem está no poder, independente de cor e de bandeira. São os mesmos que passaram de tucanos a petistas como se tudo fosse a mesma coisa. (LIMA, José Carlos. Blog do Zé Carlos do PV)

Acho que os dois casos são emblemáticos sobre qual foi a real transformação que este senhor fez no Pará. Não comemoro mortes, não faz parte da minha formação política, mas quando políticos morrem só vemos obituários bonitos, sem lembrar das entregas que fizeram, dos desmontes, das mortes e do entreguismo dos políticos. É como se morrer desse para eles uma habeas corpus eterno ao qual eles não tem direito.

Almir Gabriel desmantelou o serviço público paraense, se refestelou com a privataria tucana, matou trabalhadores sem terra.
Além do mais é bom lembrar que em 2010, quando Almir Gabriel rompe com o PSDB e seu filhote Simão Jatene, seu apoio foi recebido com entusiasmo pela candidatura petista a reeleição ao governo do Pará de Ana Júlia Carepa – com direito a chamadinha misteriosa no horário eleitoral e suspense animado por parte dos petistas. Este fato para mim foi de uma incongruência petista tremenda, pois o PT durante todo o governo Almir Gabriel se colocou contra
suas políticas, enfrentou bravamente o boicote que o governo estadual tentava fazer a prefeitura de Edmilson Rodrigues iniciada em 1996.
Não, eu não comemoro mortes da direita, mas também não choro a morte de quem oprimiu e matou gente trabalhadora

Para movimentos, proposta de Alckmin traz discriminação negativa e é ilegal

Após a unânime posição do STF favorável à política de Cotas Raciais em universidades e a aprovação da Lei Federal 12.711/2012, que instituiu cotas raciais nas universidades federais a partir de 2013 e à permanente pressão dos movimentos negros e sociais, o Governo de São Paulo, acuado, resolveu apresentar uma proposta de Cotas para as Universidades Estaduais Paulistas.

Tal proposta, tornada oficial em 20 de Dezembro de 2012, surpreendeu negativamente as organizações da sociedade civil que há anos dedicam-se a debater formas de democratização do acesso à universidade, primeiro, pelo seu conteúdo que, além de instituir o inusitado – e inconstitucional – “college” para estudantes cotistas, repete o erro da lei federal que é reservar um percentual de vagas para negros e indígenas incidente sobre 50% das vagas, e não sobre o total das vagas oferecidas; Segundo, pelo prazo injustificadamente longo para implantação (2016!); E terceiro, pela falta de legitimidade democrática, vez que a proposta jamais foi apresentada nos diversos fóruns internos ou externos às universidades, tampouco junto aos movimentos negros e sociais que a reivindicam.

Diante disso, a Frente Pró Cotas do Estado de SP, que reúne dezenas de organizações do movimento negro e social elaborou um Manifesto a Favor das Cotas Raciais em SP, subscrito por mais de uma centena de organizações sociais, além de ativistas, intelectuais e professores de diversas universidades, inclusive da USP, UNESP e UNICAMP.

Esse Manifesto em sua conclusão, colocou 4 pedidos dirigidos ao Governador, Reitorias e Deputados Estaduais de SP:

· Suspensão da proposta apresentada pelo governo de São Paulo e reitorias;
· Promoção políticas de estado que efetivem cotas raciais nas universidades públicas paulistas, diretas, sem etapas intermediárias e que incida sobre 100% das vagas disponíveis;
· Pela promoção do diálogo entre governo, reitorias, movimentos negros e movimentos sociais que realmente representam a sociedade civil organizada. A construção das políticas de cotas devem se dar em conjunto com a sociedade civil e os grupos diretamente interessados!
· Pela aprovação de do PL 530/04, em trâmite na ALESP há mais de 8 anos.

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