Pílula sobre machismo, movimento negro e revolução

No movimento negro se fala tanto que quando pautamos a necessidade de pensar as questões que tangem a vida das mulheres e LGBT negrxs é dividir o movimento, setorializar e enfraquecer a unidade. Engraçado que se esquece, ou fingem esquecer, que o debate racial travado por nós no movimento feminista e LGBT apontando concretamente o que significa a nossa emancipação por completa também somos taxadxs de divisionistas, setorialistas e afins.

Porém é interessante ver o como diversos homens negros nos espaços da política geral acabam por se aliando com homens brancos quando a lógica é silenciar as pautas que podem atingir a “unidade” da política. O pautar que existe diversidade, especificidades e que elas precisam ser compreendida no construir político cotidiano é pensar o construir a emancipação de toda uma classe que é mulher cis e trans, que é indígena, que negra, que é lésbica e que é profundamente marginalizada e subjugada pelo Estado em que vivemos é profundamente revolucionário e não o contrário.

Na verdade, o criticar a existência de tais debates, o apontar da existência de machismo, homolesbobitransfobia, racismo em qualquer organização e movimento ou organização passa também por nós pensarmos como construir um processo político que desconstrua vícios históricos existentes na política. A manutenção da divisão sexual do trabalho nos espaços de militância é uma das coisas mais nefastas para a luta pela emancipação de todxs oprimidxs e exploradxs. Nada além disso.

Não há revolução no Brasil se não tiver mulher cis e trans, negras, indígenas, lésbicas pensando e falando de política em todos os espaços e não apenas para servir como token, mas para efetivamente apresentar a política construída para emancipação dxs que são marginalizadxs.

A classe é essa diversidade, o movimento negro é essa diversidade, o movimento feminista é essa diversidade, o movimento sindical é essa diversidade… Se não pensarmos política para a diversidade oprimida apenas faremos o mais do mesmo.

A eterna misoginia de Bolsonaro e estupro como manutenção de poder

Não é algo novo o deputado federal do PP-RJ, Jair Bolsonaro, apresentar em seus discursos sua concepção militarista, machista, homolesbobitransfóbica e racista de sociedade. Óbvio que no dia que antecederia a entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade à presidente Dilma ele reafirmaria sua faceta de representante do setor mais reacionário da sociedade e do Congresso Nacional.

Nesta terça, durante os pronunciamentos dos parlamentares na Câmara dos Deputados, Bolsonaro reafirmou que só não estupraria a deputada federal do PT-RS Maria do Rosário por que ela não merecia.

“Fica aí, Maria do Rosário. Fica aqui para ouvir. Há poucos dias você me chamou de estuprador no Salão Verde e eu falei: ‘Não estupraria você porque você não merece'”, foi como Jair Bolsonaro iniciou sua intervenção no plenário sobre o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

O início da fala de Bolsonaro se remete a episódio acontecido em 2003 nos corredores da Câmara dos Deputados quando o deputado chamou Maria do Rosário de vagabunda, a empurrou e disse que só não a estuprava por que ela não merecia. Não é a primeira vez, nem a última que Jair Bolsonaro demonstra todo seu escárnio por aqueles que são mais marginalizados socialmente do que ele.

A primeira coisa importante a se lembrar é de que estupro no Brasil é crime hediondo, para além disso é bom lembrar que esta forma de violência contra mulheres, lésbicas, homens e mulheres trans também é uma foram de nos retirar a humanidade. Tanto que  estupro é usado amplamente como arma de guerra em diversos conflitos pelo mundo, justamente por ser uma forma de destabilizar comunidades inteiras. Estupro é sempre uma questão de poder e é isso que Bolsonaro acaba reivindicando ao reafirmar que esta ou aquela mulher não “merece” ser estuprada.

Porém usar violência sexual como arma de guerra não é especificidade da Líbia, tal tática é usada amplamente em diversos conflitos no mundo, como já vem alertando a Anistia Internacional há bastante tempo. Normalmente as mulheres são vistas como símbolos de honra nos povoados, assim os ataques às mulheres e meninas são formas de subjugar e desmoralizar os homens de determinada região, ajudando assim a espalhar o medo e afugentar as pessoas. As mulheres vítimas de violência sexual em territórios de conflitos não sofrem apens de traumas psicológicos e emocionais por conta dos abusos, mas também sofrem com o receio de serem negadas por suas famílias. (FRANCA, Luka. Estupro não questão de sexo, é questão de poder)

Bom lembrar da importância da campanha “Eu não mereço ser estuprada” deflagrada pelas redes sociais no começo deste ano após divulgação de pesquisa realizada pelo IPEA sobre o tema. A questão é que a reafirmação de Bolsonaro demonstra profundamente o quanto da desumanização das mulheres ainda existe e é perpetuada pela cultura do estupro em nossa sociedade. O quanto o se utilizar da coerção sexual é algo colocado como aceitável para ensinar a todxs que subvertem o local social atribuído a cada gênero o que devem fazer e quais lugares devem ocupar de forma submissa e inquestionável.

A misoginia manifesta de Jair Bolsonaro já teve como alvo não só Maria do Rosário, como Marta Suplicy e Marinor Brito em 2001 quando do debate sobre os direitos LGBTs no Senado. Em todas as vezes a postura do macho branco hetero que coloca as mulheres que ousam questionar e se posicionar politicamente se reforça. O “coloquei fulana no seu devido lugar” é o demonstrar com truculência de que a política não é o lugar das mulheres e que ao estarem nestes espaços elas devem apenas cumprir seu papel histórico: o de baixar a cabeça e se submeter aos homens do Congresso Nacional.

Infelizmente Bolsonaro não representa apenas sua opinião própria. Foi o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro reforçando um cenário de Congresso Nacional mais conservador desde 1964. Suas opiniões marcadas pelo desprezo as lutas por igualdade e pelo fim da exploração e genocídios diversos existentes na nossa história estão hoje mais uma vez no Congresso Nacional. Bolsonaro ao dizer que Maria do Rosário “não merece ser estuprada” ataca a todas as mulheres que já foram vítimas ou não de violência sexual, ignora que em 2013 o número de estupros em nosso país foi maior do que o de homicídios dolosos.

Inclusive dando vazão para a perpetuação desta forma de violência e de tortura. Cabe sempre a nós apontar e reivindicar que a violência sexual não é aceitável, a ameaça – seja velada ou não – de estupro a qualquer mulher demonstra o quanto precisamos realmente avançar na emancipação e empoderamento de todxs aquelxs que são marginalizdxs na nossa sociedade.

Sobre transfobia e racismo

Uma coisa que eu tenho certeza é a de que os setores sociais mais marginalizados nessa sociedade capitalista, patriarcal, racista e homolesbobitransfóbica são negrxs. Se formos ver a grande maioria das travestis são negras e pobres (e isso é um recorte fundamental para sabermos sobre quem sofre com a estruturação do Estado no qual vivemos e quem não).

Frases-contra-o-racismo-1Não se combate uma opressão com outra como resposta. Não podemos também achar que todxs estamos no mesmo patamar de consciência sobre a totalidade dos debates e da disputa árdua de poder que a nós é colocada cotidianamente. Estamos falando entre nós que morremos por causa do racismo, do machismo ou da homolesbobitransfobia, estamos falando entre nós que temos um acesso ao mercado de trabalho dificultoso, que apanhamos em nossas casas, que sofremos violência psicológica quando ousamos ocupar espaços que historicamente não são os nossos com o debate difícil do feminismo de forma interseccional. Esse é um grau de compreensão que precisamos ter, isso se a nossa perspectiva for a de mudança estrutural da sociedade e não apenas garantir um lugar entre a classe dominante para dominar aqueles nossos que “não tiveram oportunidade”.

Transfobia não se responde com racismo, racismo não se responde com transfobia. Assim como machismo não se responde com racismo e vice-versa esse é o mínimo de compreensão que precisamos ter para realmente avançar na luta para superar todas estas amarras que o Estado utiliza para nos culpabilizar, invisibilizar e marginalizar cotidianamente.

É importante lembrar também que nenhum de nós está livre de cometer alguma forma de opressão, justamente por que também fomos formados nessa sociedade de merda, mas é fundamental sabermos olhar e desconstruir em nós mesmxs quando cometemos alguma forma de deslegitimação de discurso, invisibilização ou preconceito em geral. Não custa em nada fazer a auto-crítica, ao contrário, isso nos ajuda a avançar no processo de sínteses, de discussões e de compreensão do outro que tanto negamos.

CARTEL-MANI-TRANSFOBIA-2011É preciso que tenhamos noção que as opressões vividas por nós cotidianamente possuem um motivo, e não apenas o de nos humilhar, mas o de nos marginalizar e explorar por que nós mulheres brancas e negras, cis e trans, lésbicas, bissexuais e homens trans mesmo tendo (em alguns casos, pq em outros ainda há esta luta) conquistado uma série de coisas que nos igualam formalmente aos homens cis brancos e heteros nós na prática ainda somos vistos como seres de menor valor para a sociedade. Unidade não se faz só no discurso, se faz na prática de revermos também cada lugar de privilégio que nós temos e os preconceitos que nós mesmxs reverberamos. É um processo dialético necessário para realmente podermos desconstruir este Estado que corrobora com a nossa humilhação e violência cotidiana.

A violência nossa de cada dia

sexismomataViolência contra mulher não é um debate novo na sociedade em que vivemos. Não dá pra contar nos dedos a quantidade de casos de violência sexual, agressão física, assédio moral enfrentado pelas mulheres cotidianamente, seja de uma forma mais velada, seja de forma mais explícita.

A questão é de que se do ponto de vista moral se ganhou a lógica do “em mulher não se bate nem com uma flor” na prática é mais fácil escondermos nossos demônios cotidianos ao invés de encará-los da forma que são: fruto de uma sociedade patriarcal, capitalista e racista que se aproveita da violência individual cotidianamente vivida por nós para manter o status quo, manter quem é marginalizado e invisibilizado à margem e invisível.

Caso mais recente que podemos apontar é o que ocorreu na Medicina da USP, onde uma série de denúncias graves sobre violências sexuais e castigos físicos ocorridas durante décadas na gloriosa faculdade de Pinheiros vieram à tona e a resposta ao desvelar do preconceito naquela instituição foi a perseguição. Não será a primeira e, infelizmente, não será a última vez que iremos nos deparar com denúncias sobre trotes machistas, racistas, homolesbobitransfóbicos nas faculdades brasileiras, só lembrar do caso da Unesp e o “Rodeio das Gordas” há poucos anos.

charge-rodeio26x22Os invisíveis, aqueles que são alvo de opressões que não devem ser expostas, existem para servir os bem-sucedidos. São praticamente sua propriedade e não devem levantar a cabeça para questionar a opressão vivida. Até por que na lógica formal “não se bate em mulher nem como uma flor”, “existe uma democracia racial no Brasil” e “até tenho um amigo gay”, estamos resolvidos na questão da igualdade entre os invisíveis (mulheres cis e trans, homens trans, negras, negros, indígenas, gays, bissexuais, lésbicas, deficientes e tantas outras figuras consideradas menores na nossa sociedade), só que muito pelo contrário.

Acaba de sair mais uma pesquisa sobre violência contra mulher, dessa vez focando nas relações afetivas entre jovens e os dados assustam – sempre vão assustar, por que na hora que não assustarem mais é por que não somos mais pessoas e sim um bando de robô. Primeiro por que demonstram que há uma noção de que a sociedade é machista, de acordo com a pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, 96% das pessoas entrevistadas reconhecem que há machismo entre nós.

Violencia_machista_3Ao mesmo tempo que há essa identificação, há também a constatação de o quanto apenas termos noção que a sociedade é machista e patriarcal não significa imediata modificação nos valores morais das pessoas. O julgamento sobre se é certo ou não a mulher ir pra cama no primeiro encontro, se a mulher deve ou não ter diversos ficantes, se pode ou não sair sem o namorado só demonstra o quanto ainda precisamos avançar, e mais do que tudo, o quanto este debate é fundamental de ser feito com a juventude.

Além disso, a pesquisa demonstra um quadro preocupante de violência machista e assédio moral entre a juventude brasileira. O levantamento feito pelo Data Popular aponta que 75% das jovens entrevistadas já sofreram algum tipo de violência machista e que 66% dos jovens já cometeram alguma forma de violência contra a companheira.

MachismoO mais preocupante é que a perpetuação da violência machista junto a juventude se dá na reprodução de situações vividas na casa dos próprios jovens. A estrutura de opressão das mulheres se perpetua pela naturalização, pela banalização do que deveria ser considerado atroz. Empurrar, stalkear, passar a mão na bunda e tantas outras formas de violência contra mulheres na maioria das vezes é tomada de forma naturalizada, inclusive, por menorizada.

A pesquisa divulgada hoje, apenas constata o cotidiano que vemos nas escolas, universidades e locais de trabalho. Apenas demonstra o quanto as mulheres ainda são encaradas como propriedades e não como seres de desejos e vontades. Tenho certeza de que se fizéssemos um recorte racial sério na pesquisa veríamos o processo ainda maior de naturalização d mulher negra devido ao ideário de exotismo e o lugar mais aprofundado que ocupamos no processo de objetificação de nossos corpos e vidas.

É por vivermos nesta realidade que enfrentamentos como o que hoje ocorre na Medicina da USP ou o que já ocorreu na Unesp são fundamentais para mostrar que não está tudo bem, pois todos os dias o machismo agride e mata e a resposta a isso só pode ser dada com a organização das mulheres para desconstruir o patriarcado cotidianamente na vida privada e na vida pública e é por isso que o feminismo não mata e nem agride ninguém, mas é ferramenta fundamental para a nossa emancipação.

Carta dos setoriais de negros e negras e de mulheres do PSOL sobre a manifestação de Jean Wyllys sobre o seriado “Sexo e as Negas”

A veiculação do programa “O sexo e as nega” tem alimentado diversos debates junto ao movimento de mulheres negras brasileiro desde o início de sua produção. O debate sobre a representação da mulher negra na grande mídia não é um debate novo para nós. A imagem historicamente construída e midiaticamente naturalizada, é baseada no papel social atribuído às mulheres negras, em que a subalternidade e precariedade de trabalho caminha ao lado da sensualidade erótica, sempre reforçando e naturalizando o papel de todas essas formas de exploração – de raça, gênero e classe.

E é durante o novembro negro, justamente na semana da Consciência Negra, que nos deparamos com a campanha #EuAmoSexoEAsNegaorganizada por alguns atores da TV Globo para defender o programa de autoria de Miguel Falabella. Uma das justificativas apresentadas para a defesa do programa seria o fato dxs negrxs terem muito pouco espaço de trabalho na teledramaturgia brasileira, que incorpora e reproduz um preceito liberal para o qual as mudanças podem ser fruto de paulatinas inserções e incorporações nos ambientes de poder, o que mudaria, por si só, um lugar socialmente e historicamente construído.

Ora, o que o próprio debate acerca do programa indica é que não.
Se de fato há essa inserção, ela tem se caracterizado por um reforço do estereotipo e do racismo institucional, erotizando e realimentando a subalternidade mascarada por uma “conquista”. A defesa do diretor do programa desvirtua o debate e reforça ainda mais essa visão individualista e meritocrática, visto que oculta a discussão de fundo e a coloca em seu lugar um falso reino de “oportunidades”.

É por compreender que a luta pela libertação das negras no Brasil passa também pela luta de libertação da mulher e contra a exploração do trabalho, que a Setorial de Negrxs e a Setorial de Mulheres do PSOL vem a público reafirmar a posição de que o programa #SexoEAsNega não é uma forma de “empoderar” e emancipar a imagem construída da mulher negra na teledramaturgia brasileira, na verdade apenas reproduz o imaginário coletivo de que nós somos o supra-sumo de um produto sexual a ser consumido, e trabalhadoras para as quais oportunidades são “concedidas”.

O povo negro e especialmente as mulheres negras nunca receberam concessões, mas conquistas. Conquistas de uma resistência histórica e brava, na qual raça, gênero e classe nunca estiveram dissociadas, pois todo o tipo de exploração sempre recaiu sobre nós.

Assim, aproveitamos para colocar que a defesa do programa feita pelo deputado Jean Wyllys não representa o debate desenvolvido por nossas companheiras feministas negras junto ao espaço do movimento negro e feminista. O parlamentar tem sido um aliado importante em diversas lutas de direitos humanos no árido cenário da Câmara de Deputados, porém neste episódio acabou contrariando a construção de um debate coletivo realizado não apenas por nossas companheiras feministas negras, mas também por todo um movimento social que desde o início vem travando uma disputa de consciência ferrenha sobre o que significa “O sexo e as nega” na construção da figura da mulher negra no imaginário coletivo do brasileiro.

Aproveitamos para deixar registrado que o debate entre todas as formas de opressão e identidade não devem ser compreendidos sem um recorte comum, o que fará deles um debate exclusivista e corporativo. É preciso avançar nessa interlocução de maneira urgente.

Sabemos o quão difícil é negrxs terem espaço na teledramaturgia brasileira, mas acreditamos que uma luta para ampliação e diversificação das personagens negras na produção brasileira seria muito mais frutífera do que a defesa de um formato que em sua origem já apresenta diversos vícios. É preciso lembrar que essa transformação da mulher negra no arauto da exotização brasileira é o que tem trazido o movimento de mulheres negras até hoje a questionar a nossa representação midática junto a sociedade brasileira, não somos um objeto que deva ser disponibilizado para o deleite dos homens, mas sim mulheres que exercem diversas funções desvalorizadas socialmente.

Por fim, nós da setorial de negros e negras do PSOL temos ciência de que a TV Globo utiliza uma concessão pública para veicular seus programas que reforçam o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e tantas outras formas de opressão e exclusão social. Sabemos que não nascerá da benevolência de Miguel Falabella a modificação de como as mulheres negras são retratadas na teledramaturgia brasileira, mas sim de uma real democratização da comunicação em nosso país que é urgente!

É por conta dessas questões que o PSOL não ama “Sexo e as Negas”, o PSOL ama e defende toda forma de luta por emancipação das mulheres negras no país e não a manutenção de um programa que aprofunda a nossa objetificação.

O PSOL sabe que essa conquista passa pela luta das negras e de toda a sociedade contra o racismo, além da necessária e urgente democratização da comunicação no Brasil!

Setorial de negros e negras do PSOL.
Setorial de Mulheres do PSOL.

A capa de Kim Kardashian tem uma questão racial da qual ninguém está falando

Ontem postei uma reflexão sobre um comentário da Tina Fey sobre a capa da Paper com a Kim Kardashian.

Hoje posto um texto da Hannah Ongley, publicado originalmente no Styleite, que faz uma reflexão interessante e importante sobre o fotógrafo que assina o ensaio de Kardeshian para a Paper e sobre o fato de seu trabalho historicamente utilizar as figuras femininas negras para exotizá-las e estigmatizá-las. O texto foi traduzido por mim.

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O bumbum de Kim Kardashian é a estrela da capa da edição de inverno da revista Paper que trás na manchete “Quebre a Internet”. A capa chegou a causar um rebuliço no Twitter e entre descoladinhos modernosos , mas todo mundo que não escolheu ignorar que tem algo a dizer sobre isso. É muito sexual (irrelevante), que é uma má escolha de modelo para capa (depende de quem você é,) e é muito photoshopada (verdade). Mas a maioria das críticas está sendo destinada a Kim, e ela claramente não é a pessoa que construiu o conceito ou assumiu o controle da edição de fotos . (Bem, até onde sabemos.)

O fotógrafo responsável pela imagem é Jean-Paul Goude, e não há mais nada para saber sobre ele do que ele ser “francês” e “lendário”. As duas coisas também são verdadeiras, mas não há isso também : A história artística de Goude é repleta de acusações de objetivação e exotização dos corpos das mulheres negras. Esta não é uma tangente de seu trabalho – é a base de toda a sua obra . Não é uma coincidência que sua autobiografia pictórica de 1983 se entitula: Jungle Fever. “Os negros são a premissa do meu trabalho”, o artista disse à revista People em 1979, “eu tenho a febre da selva.”

grace3Para criar suas imagens exotizadas, Goude iria fotografar mulheres negras em poses que variaram do atlético ao primitivo. Ele, então, literalmente cortava as _ imagens em pedaços e as remontava para criar algo ainda mais formidável. Você pode ver como ele fez a manipulação pré-photoshop na a foto infame que ele criou de Grace Jones, com quem teve um relacionamento turbulento nos anos 80, na icônica capa do álbum Island Life.

Criticar capa com Kim, porque “ela é photoshopada”_ é ignorar o significado da arte do fotógrafo. Como disse Goude sobre a capa de Jones, “… a menos que você seja extraordinariamente flexível, não poderia fazer esse arabesco. O ponto principal é que Grace não poderia fazê-lo, e essa é a base de todo o meu trabalho: a criação de uma ilusão credível “.

Paper atribui erroneamente a inspiração para capa com Kim Kardashian a uma foto vintage de Goude chamada “Champagne Incident”. A foto é na verdade de 1976 da modelo Carolina Beaumont, e isso é sobre mais do que habilidades de equilíbrio. Um erro inocente, talvez, mas o fato é que Beaumont vem sendo obscurecida pelo que parece.

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Em Venus in the Dark: Blackness and Beauty in Popular Culture, a autora Janell Hobson discute como as “melhorias” de Goude são muitas vezes feitas para tornar o corpo das mulheres negras altamente exagerado, cômico e grotesco.

O sujeito usa um penteado ‘exótico’ e ‘sorri’ para a câmera posando como um ‘selvagem feliz e satisfeito em servir servir'”, ela diz, “o que sugere sua cumplicidade em ter seu corpo, literalmente, retratado como um objeto , uma visão ‘primitiva’ que proporciona prazer pornográfico e intoxicação para um, presumível, espectador masculino branco.

Kim, por outro lado, usa um vestido de lantejoulas e jóias caras. Ela não está aqui para servir.

Isso é o que eu acho preocupante sobre a capa da Paper: não é a obra de Goude, não é o photoshop, e não é nem mesmo a própria Kardeshian . É que a Paper tomou uma imagem carregada de uma tensão racial artística nos tornamos cada vez mais conscientes de como a sociedade se afastou da (ou , pelo menos, tentou se afastar) da idéia de que as mulheres negras não são selvagens. E é recriada essa imagem usando uma mulher armênia-americana famosa por ter uma vídeo de sexo vazado. A razão – para “quebrar a internet” – é quase comicamente frívola.

Veja todas as capas de Kardeshian abaixo:

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[+] Kim Kardashian doesn’t realize she’s the butt of an old racial joke

Isso não é sobre a Kim Kardashian, mas sobre a invisibilização das mulheres não brancas

Às vezes tenho a sensação de que perdemos os parâmetros dos debates pela blogosfera. É preciso sempre recalibrarmos o nosso discurso e formulações para realmente dialogarmos para além dos nossos umbigos e essa tarefa nunca é tarefa simples.

Tenho a leve impressão de que o debate sobre “padrão de beleza” no feminismo sempre precisa passar por este processo de recalibrarmos para não cairmos em um formalismo barato do feminismo liberal, mas também não sermos enredadas pela cantilena de que a diferença racial neste debate não conta efetivamente.

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Entro neste debate pelo fato de ter me deparado com uma aspas da Tina Fey pelas TLs que frequento e apesar de haver coisas que ela aponta com contundência e eu concordo, justamente por não achar que o formalismo do feminismo liberal realmente ajude a emancipar as mulheres sejam cis ou trans, achei uma afirmação com uma dificuldade de diálogo com a categoria raça. Simplesmente porque o questionar o padrão de beleza vigente em nossa sociedade hoje sendo caucasiana é muito diferente do significado deste debate para as mulheres não brancas.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo. (LAIZO, Denise. A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal)

Aponto isso por que entender o contexto social dos continentes e países é fundamental para localizarmos qualquer debate feminista. Ou seja, a declaração da Tina Fey não estabelece empatia mínima com qualquer mulher não branca, incluindo as feministas. Ora, por que?

Mesmo que a sociedade capitalista e patriarcal se aproprie da representação formal da diversidade feminina e as incorpore em um grande supermercado de partes de corpo que são desejáveis para ser perfeita frente a sociedade, é importante lembrar que o símbolo cumpre um papel importante na disputa de consciência cotidiana – é um papel limitado, mas é um papel que ajuda a nos dar perspectiva.

RacismoUSPRibeirãoOu seja, a mulher negra é tão estigmatizada pelo padrão de beleza caucasiano que não raro nos deparamos com acefalias como o livro de hinos da bateria da Medicina USP-Ribeirão revelado pelas redes sociais. O tal livro de hinos só revela o que está por demais arraigado na sociedade brasileira: a mulher negra é o pária mór no Brasil.

Se queremos ser lembradas como mulatas? Claro que não! Até porque essa designação relembra o fato das mulheres negras poderem ser violentadas pois se acreditava que não poderiam reproduziam, assim como a mula, e essa era a justificativa inclusive de não reconhecimento de paternidade e violência sexual por parte de diversos sinhozinhos.

Mas precisamos ter espaço para desenvolver nossa auto-estima, e muitas vezes o debate sobre padrão de beleza organizado por nossas companheiras brancas não leva em conta o fato de nós negras estarmos na base da pirâmide social e do padrão mercantilizador.

O fato de haver uma sub-representação de mulheres não brancas no aceitável como padrão de beleza social fala muito sobre o quanto o patriarcado é profundamente racista. Haverá incorporação de mulheres não brancas como parte do padrão de beleza? Sim haverá, e em um primeiro momento isso será bom para as meninas não brancas verem que elas são bonitas também, que há perspectiva de ocupação de espaços sociais que antes nos eram negados.

Por fim, é fundamental sabermos como acolher nossos interlocutores. Nesse exato momento as mulheres não brancas precisam de um espaço para se olhar e perceber: Minha beleza não tem padrão, meu espaço existe e que bom que pude ter símbolos que me demonstraram que é possível ser do jeito que somos.

PS: O debate sobre a relação do feminismo liberal com a xenofobia e o racismo na Europa tem sido feito de forma bem profunda, não apenas o debate sobre feminismo liberal, mas também o desenvolvimento de uma direita LGBT altamente xenófoba. Mas isso é tema para outra hora.

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