Sobre transfobia e racismo

Uma coisa que eu tenho certeza é a de que os setores sociais mais marginalizados nessa sociedade capitalista, patriarcal, racista e homolesbobitransfóbica são negrxs. Se formos ver a grande maioria das travestis são negras e pobres (e isso é um recorte fundamental para sabermos sobre quem sofre com a estruturação do Estado no qual vivemos e quem não).

Frases-contra-o-racismo-1Não se combate uma opressão com outra como resposta. Não podemos também achar que todxs estamos no mesmo patamar de consciência sobre a totalidade dos debates e da disputa árdua de poder que a nós é colocada cotidianamente. Estamos falando entre nós que morremos por causa do racismo, do machismo ou da homolesbobitransfobia, estamos falando entre nós que temos um acesso ao mercado de trabalho dificultoso, que apanhamos em nossas casas, que sofremos violência psicológica quando ousamos ocupar espaços que historicamente não são os nossos com o debate difícil do feminismo de forma interseccional. Esse é um grau de compreensão que precisamos ter, isso se a nossa perspectiva for a de mudança estrutural da sociedade e não apenas garantir um lugar entre a classe dominante para dominar aqueles nossos que “não tiveram oportunidade”.

Transfobia não se responde com racismo, racismo não se responde com transfobia. Assim como machismo não se responde com racismo e vice-versa esse é o mínimo de compreensão que precisamos ter para realmente avançar na luta para superar todas estas amarras que o Estado utiliza para nos culpabilizar, invisibilizar e marginalizar cotidianamente.

É importante lembrar também que nenhum de nós está livre de cometer alguma forma de opressão, justamente por que também fomos formados nessa sociedade de merda, mas é fundamental sabermos olhar e desconstruir em nós mesmxs quando cometemos alguma forma de deslegitimação de discurso, invisibilização ou preconceito em geral. Não custa em nada fazer a auto-crítica, ao contrário, isso nos ajuda a avançar no processo de sínteses, de discussões e de compreensão do outro que tanto negamos.

CARTEL-MANI-TRANSFOBIA-2011É preciso que tenhamos noção que as opressões vividas por nós cotidianamente possuem um motivo, e não apenas o de nos humilhar, mas o de nos marginalizar e explorar por que nós mulheres brancas e negras, cis e trans, lésbicas, bissexuais e homens trans mesmo tendo (em alguns casos, pq em outros ainda há esta luta) conquistado uma série de coisas que nos igualam formalmente aos homens cis brancos e heteros nós na prática ainda somos vistos como seres de menor valor para a sociedade. Unidade não se faz só no discurso, se faz na prática de revermos também cada lugar de privilégio que nós temos e os preconceitos que nós mesmxs reverberamos. É um processo dialético necessário para realmente podermos desconstruir este Estado que corrobora com a nossa humilhação e violência cotidiana.

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