A violência nossa de cada dia

sexismomataViolência contra mulher não é um debate novo na sociedade em que vivemos. Não dá pra contar nos dedos a quantidade de casos de violência sexual, agressão física, assédio moral enfrentado pelas mulheres cotidianamente, seja de uma forma mais velada, seja de forma mais explícita.

A questão é de que se do ponto de vista moral se ganhou a lógica do “em mulher não se bate nem com uma flor” na prática é mais fácil escondermos nossos demônios cotidianos ao invés de encará-los da forma que são: fruto de uma sociedade patriarcal, capitalista e racista que se aproveita da violência individual cotidianamente vivida por nós para manter o status quo, manter quem é marginalizado e invisibilizado à margem e invisível.

Caso mais recente que podemos apontar é o que ocorreu na Medicina da USP, onde uma série de denúncias graves sobre violências sexuais e castigos físicos ocorridas durante décadas na gloriosa faculdade de Pinheiros vieram à tona e a resposta ao desvelar do preconceito naquela instituição foi a perseguição. Não será a primeira e, infelizmente, não será a última vez que iremos nos deparar com denúncias sobre trotes machistas, racistas, homolesbobitransfóbicos nas faculdades brasileiras, só lembrar do caso da Unesp e o “Rodeio das Gordas” há poucos anos.

charge-rodeio26x22Os invisíveis, aqueles que são alvo de opressões que não devem ser expostas, existem para servir os bem-sucedidos. São praticamente sua propriedade e não devem levantar a cabeça para questionar a opressão vivida. Até por que na lógica formal “não se bate em mulher nem como uma flor”, “existe uma democracia racial no Brasil” e “até tenho um amigo gay”, estamos resolvidos na questão da igualdade entre os invisíveis (mulheres cis e trans, homens trans, negras, negros, indígenas, gays, bissexuais, lésbicas, deficientes e tantas outras figuras consideradas menores na nossa sociedade), só que muito pelo contrário.

Acaba de sair mais uma pesquisa sobre violência contra mulher, dessa vez focando nas relações afetivas entre jovens e os dados assustam – sempre vão assustar, por que na hora que não assustarem mais é por que não somos mais pessoas e sim um bando de robô. Primeiro por que demonstram que há uma noção de que a sociedade é machista, de acordo com a pesquisa feita pelo Instituto Data Popular, 96% das pessoas entrevistadas reconhecem que há machismo entre nós.

Violencia_machista_3Ao mesmo tempo que há essa identificação, há também a constatação de o quanto apenas termos noção que a sociedade é machista e patriarcal não significa imediata modificação nos valores morais das pessoas. O julgamento sobre se é certo ou não a mulher ir pra cama no primeiro encontro, se a mulher deve ou não ter diversos ficantes, se pode ou não sair sem o namorado só demonstra o quanto ainda precisamos avançar, e mais do que tudo, o quanto este debate é fundamental de ser feito com a juventude.

Além disso, a pesquisa demonstra um quadro preocupante de violência machista e assédio moral entre a juventude brasileira. O levantamento feito pelo Data Popular aponta que 75% das jovens entrevistadas já sofreram algum tipo de violência machista e que 66% dos jovens já cometeram alguma forma de violência contra a companheira.

MachismoO mais preocupante é que a perpetuação da violência machista junto a juventude se dá na reprodução de situações vividas na casa dos próprios jovens. A estrutura de opressão das mulheres se perpetua pela naturalização, pela banalização do que deveria ser considerado atroz. Empurrar, stalkear, passar a mão na bunda e tantas outras formas de violência contra mulheres na maioria das vezes é tomada de forma naturalizada, inclusive, por menorizada.

A pesquisa divulgada hoje, apenas constata o cotidiano que vemos nas escolas, universidades e locais de trabalho. Apenas demonstra o quanto as mulheres ainda são encaradas como propriedades e não como seres de desejos e vontades. Tenho certeza de que se fizéssemos um recorte racial sério na pesquisa veríamos o processo ainda maior de naturalização d mulher negra devido ao ideário de exotismo e o lugar mais aprofundado que ocupamos no processo de objetificação de nossos corpos e vidas.

É por vivermos nesta realidade que enfrentamentos como o que hoje ocorre na Medicina da USP ou o que já ocorreu na Unesp são fundamentais para mostrar que não está tudo bem, pois todos os dias o machismo agride e mata e a resposta a isso só pode ser dada com a organização das mulheres para desconstruir o patriarcado cotidianamente na vida privada e na vida pública e é por isso que o feminismo não mata e nem agride ninguém, mas é ferramenta fundamental para a nossa emancipação.

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