Isso não é sobre a Kim Kardashian, mas sobre a invisibilização das mulheres não brancas

Às vezes tenho a sensação de que perdemos os parâmetros dos debates pela blogosfera. É preciso sempre recalibrarmos o nosso discurso e formulações para realmente dialogarmos para além dos nossos umbigos e essa tarefa nunca é tarefa simples.

Tenho a leve impressão de que o debate sobre “padrão de beleza” no feminismo sempre precisa passar por este processo de recalibrarmos para não cairmos em um formalismo barato do feminismo liberal, mas também não sermos enredadas pela cantilena de que a diferença racial neste debate não conta efetivamente.

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Entro neste debate pelo fato de ter me deparado com uma aspas da Tina Fey pelas TLs que frequento e apesar de haver coisas que ela aponta com contundência e eu concordo, justamente por não achar que o formalismo do feminismo liberal realmente ajude a emancipar as mulheres sejam cis ou trans, achei uma afirmação com uma dificuldade de diálogo com a categoria raça. Simplesmente porque o questionar o padrão de beleza vigente em nossa sociedade hoje sendo caucasiana é muito diferente do significado deste debate para as mulheres não brancas.

Sabemos que em todas as sociedades anteriores existiram padrões de beleza, todos contendo algum grau de preconceito e exclusão. Mas o que temos hoje está mais próximo da completa insanidade, o que reflete uma sociedade ainda mais louca. Isto porque se trata de padrões de beleza inatingíveis, irreais. O virtual, a capacidade de controlar imagens através de um computador, produziu mulheres que simplesmente não existem. E o mais esquizofrênico é que muitos homens acreditam ser possível encontrar a mulher do tipo “capa de revista”, e a mulher quer a todo custo tornar-se este tipo. (LAIZO, Denise. A beleza: o terror da “nova mulher” – A ditadura da beleza irreal)

Aponto isso por que entender o contexto social dos continentes e países é fundamental para localizarmos qualquer debate feminista. Ou seja, a declaração da Tina Fey não estabelece empatia mínima com qualquer mulher não branca, incluindo as feministas. Ora, por que?

Mesmo que a sociedade capitalista e patriarcal se aproprie da representação formal da diversidade feminina e as incorpore em um grande supermercado de partes de corpo que são desejáveis para ser perfeita frente a sociedade, é importante lembrar que o símbolo cumpre um papel importante na disputa de consciência cotidiana – é um papel limitado, mas é um papel que ajuda a nos dar perspectiva.

RacismoUSPRibeirãoOu seja, a mulher negra é tão estigmatizada pelo padrão de beleza caucasiano que não raro nos deparamos com acefalias como o livro de hinos da bateria da Medicina USP-Ribeirão revelado pelas redes sociais. O tal livro de hinos só revela o que está por demais arraigado na sociedade brasileira: a mulher negra é o pária mór no Brasil.

Se queremos ser lembradas como mulatas? Claro que não! Até porque essa designação relembra o fato das mulheres negras poderem ser violentadas pois se acreditava que não poderiam reproduziam, assim como a mula, e essa era a justificativa inclusive de não reconhecimento de paternidade e violência sexual por parte de diversos sinhozinhos.

Mas precisamos ter espaço para desenvolver nossa auto-estima, e muitas vezes o debate sobre padrão de beleza organizado por nossas companheiras brancas não leva em conta o fato de nós negras estarmos na base da pirâmide social e do padrão mercantilizador.

O fato de haver uma sub-representação de mulheres não brancas no aceitável como padrão de beleza social fala muito sobre o quanto o patriarcado é profundamente racista. Haverá incorporação de mulheres não brancas como parte do padrão de beleza? Sim haverá, e em um primeiro momento isso será bom para as meninas não brancas verem que elas são bonitas também, que há perspectiva de ocupação de espaços sociais que antes nos eram negados.

Por fim, é fundamental sabermos como acolher nossos interlocutores. Nesse exato momento as mulheres não brancas precisam de um espaço para se olhar e perceber: Minha beleza não tem padrão, meu espaço existe e que bom que pude ter símbolos que me demonstraram que é possível ser do jeito que somos.

PS: O debate sobre a relação do feminismo liberal com a xenofobia e o racismo na Europa tem sido feito de forma bem profunda, não apenas o debate sobre feminismo liberal, mas também o desenvolvimento de uma direita LGBT altamente xenófoba. Mas isso é tema para outra hora.

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