Sobre aquelas que não são Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga

Suzane von Richthofen voltou para as manchetes dos sites de notícia mais uma vez. Agora pelo fato de ter casado com uma outra detenta da Penitenciária de Tremembé. O enredo todo da história poderia muito bem ser um episódio de Orange Is The New Black. Há algumas questões na forma como isso virou assunto nas redes sociais que me fazem refletir.

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A primeira delas é pelo fato de envolver pelo menos duas detentas envolvidas em crimes com repercussão nacional na grande mídia: Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, a última era a antiga parceira da atual mulher de Suzane. Este primeiro fato para mim explica bastante o interesse da mídia em noticiar o casamento de Suzane com outra mulher, Suzane foi condenada por um crime que é lembrado até hoje e isso gera cliques, audiência, ajuda a movimentar o negócio comunicação.

Entre as mulheres com até um ano de cadeia, 80% declaram que, se pudessem escolher, só fariam amor com homens. O índice cai para 48% entre aquelas que estão há mais de quatro anos atrás das grades. A média fica em 58%. (O comportamento sexual das presidiárias)

Ora, em nenhuma matéria se levantou o fato das mulheres terem dificuldades de manter relacionamentos quando são encarceradas, diferente dos homens quando são encarcerados que recebem visitas de suas mulheres, amantes e namoradas. Esse é um primeiro dado importante, não me importa se Suzane vai casar com a ex- de Elize, mas me importa o por que normalmente quando mulheres são presas suas famílias desmoronam e quando são os homens não. Uma resposta possível seria o fato de que na sociedade a tarefa de organizar o lar e cuidar dos filhos é da mulher e não do homem, sendo assim ao serem presas o pilar familiar acaba não tendo substituição.

Reprodução originalmente publicada no G1 Pará

Reprodução originalmente publicada no G1 Pará

Acho que o fato poderia abrir a porteira para se debater diversas questões que rondam o sistema carcerário brasileiro, principalmente no que tange as mulheres, a primeira delas é a questão sobre homossexualidade e bissexualidade entre as detentas.

Na opinião de todos os sujeitos desta pesquisa, relações homossexuais na cadeia têm como base principal à carência, que algumas denominam “carência de cadeia”. Em situações de reclusão, uma mulher ao encontrar atenção amizade e carinho de uma colega na cadeia, entrega-se facilmente a uma situação de cumplicidade que acaba levando ao desejo sexual e a intimidade física. Uma situação normalmente não fica somente nas carícias preliminares ao ato. Esta entrega de mulheres é explicada por alguns sujeitos, pela falta de atenção que vivenciam na cadeia, por se sentirem desprezadas e, em muitos casos, sofrerem espancamentos nas ruas e em casa. (GIORDANI, Annecy e BUENO, Sônia. A prática da homossexualidade entre mulheres detentas e a vulnerabilidade as DST/AIDS)*

Posso estar enganada, mas talvez o fato da impossibilidade por algum tempo de ter relacionamentos heterossexuais reabra o viver uma sexualidade nas carceragens de forma diferente, mas nem tão diferente assim, até por que muitas vezes os relacionamentos reproduzem os relacionamentos heteronormativos e se mergulham em possessividade. Porém é um dado importante, por que a relação amorosa entre detentas é deixada no limbo, como se as mulheres presas fossem privadas também de seus desejos, carências e afetividades. Acredito que essa invisibilização seja o conjunto de gênero e a construção que a sociedade faz do que é estar de trás das grades.

Os cortes e hematomas são, em geral, justificados por quedas fictícias da cama ou de alguma escada. Condenada há cinco anos e quatro meses por assalto, T.R.M., 27 anos, já lançou mão do recurso para justificar um olho roxo. “O amor entre mulheres é mais possessivo”, explica. “O que lá fora seria uma simples cena de ciúme, aqui vira um show de violência.” (O comportamento sexual das presidiárias)

Infelizmente a notícia sobre o casamento de Suzane na Penitenciária de Tremembé não suscitou um debate mais geral sobre o que significa ser mulher e presidiaria no Brasil, lembrando que boa parte das encarceradas são condenadas por tráfico de drogas e não crimes contra a vida. Se perdeu um bom gancho para lembrar que boa parte das detentas brasileiras não tem acesso as mesmas coisas que as mulheres presas no Tremembé. Se a população carcerária em geral é esquecida pelos governos e sociedade, as presas mulheres são ainda mais invisibilizadas.

Apesar da notícia ser curiosa, e só é curiosa por envolver duas condenadas por crimes que tiveram acompanhamento cotidiano da grande mídia e “abalaram o Brasil”. As outras sem nome que servem apenas para estatística, que não tem direito a visita íntima, que sofrem com violência machista das namoradas dentro das penitenciárias, que acabam parindo algemadas e não sabem quanto tempo ficarão com os filhos. Ah! Estas não tem glamour, estas não são notícias, mesmo que a situação em que vivam seja degradante. Estas mulheres invisíveis são mais pária do que as outras e, por conta disso, não merecem nossa atenção.

Ledo engano nosso.

*Alterei o título da publicação por que não é utilizado mais o termo homossexualismo.

6 respostas para Sobre aquelas que não são Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga

  1. Bom texto. Quanto ao termo homossexualismo sempre havera um chato de plantao para dizer que eh incorreto. Isso ocorreu comigo ao usar o termo. Peguei o dicionario atualizado e mostrei ao interlocutor que o termo ainda consta. Nao caiamos nesse modismo vocabular. Usar homossexualismo ou homossexualidade vai ao gosto de quem usa.

    • Luka – Autor

      Não é uma questão de modismo e nem de modismo vocabular. Faz parte do que foi a construção do significado para relacionar com adoecimento mental e ser transformado em CID, o que foi revisto pela OMS e afins, por isso a não utilização do termo, pois não estamos tratando de doença mais.

      • Esta no dicionario ainda, o que posso fazer? O que vale eh a lingua portuguesa. A palavra homossexualismo quando foi usada pela primeira vez nao tinha essa conotaçao de doença que querem dar hoje.

      • Como disse eh mais modismo, pois tambem sempre se usou heterossexualismo e nunca teve conotaçao com doença. Por esse modismo diriamos que ao usar heterossexualismo estamos chamando o heterossexual de doente. Nada a ver. Sejamos mais inteligentes e nao Maria vai com as outras.

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