Qualquer uma de nós pode ser a próxima Jandira ou Elizangela

As duas notícias sobre desaparecimento e morte de mulheres no Rio de Janeiro e que haviam decidido por abortarem tem tirado meu sono. Jandira e Elizangela são dois nomes que poderiam ser Ana, Marcela, Joana, Lívia, Isadora, Luana, Carol e tantos outros por aí, são dois nomes que hoje tem rosto, mas e todos aqueles que não tem rosto.

Normalmente a legalização do aborto em época de eleição é tema colocado pra debaixo do tapete, é feio defender a vida das mulheres e encarar o debate reacionário posto aí pela direita brasileira. A questão é quando usamos as questões ligadas ao combate às opressões para barganhar governabilidade, como Dilma fez, ou ficamos em cima do muro, como Marina faz, jogamos fora milhares de vidas de mulheres.

Segundo o Conselho Federal de Medicina mortes por causa de abortos ilegais e inseguros são a quinta causa de morte materna no Brasil, porém até agora tivemos pouquíssimas políticas públicas que realmente enfrentariam a dura realidade das mulheres brasileiras que decidem por diversos motivos não serem mães.

O debate não é novo, as estatísticas alarmantes de que o aborto inseguro e ilegal é uma das principais causas de mortalidade materna no Brasil são ignorados há anos. Inclusive havendo retrocessos como a revogação da portaria do Ministério da Saúde que modificava a forma de como registrar o procedimento na rede credenciada ao SUS. Bom lembrar que tal recuo do Ministério da Saúde aconteceu após pressão da bancada da fé no congresso, com destaque especial para o PSC.

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Segundo a OMS haveria no mundo cerca de 20 milhões de abortos ilegais e inseguros sendo praticados e destes há 70 mil mortes relacionadas ao aborto por ano, a imensa maioria delas em países que possuem leis restritivas ao procedimento, sujeitando as mulheres e suas famílias ao aborto ilegal e inseguro. Já nos países em que a prática foi legalizada o que é observado são quedas nos índices de mortalidade materna por causa de aborto tem caído de forma brutal.

Um estudo realizado pela AADS (Ações Afirmativas em Direitos e Saúde) apresenta que no Brasil são realizados 1 milhão de abortos provocados, sendo que destas 250 mil mulheres por ano precisam ser internadas para tratar complicações dos procedimentos realizados de forma insegura e ilegal. Fora que complicações em decorrência de abortos ilegais e inseguros são a segunda causa de internamento em ginecologia no Brasil.

Além disso, uma série de estudos realizados pelo país também localizam que as mulheres negras acabam sendo mais vítimas do aborto ilegal e inseguro do que as mulheres brancas. Isso revela inclusive o dado levantado pela Alessandra de que as mulheres mais pobres – precisamos lembrar sempre que no Brasil a maioria dos pobres é mulher, negra e indígena – não possuem condição financeira para acessar clínicas clandestinas que não funcionam como açougues.

As que não morrem podem ser presas, graças a uma lei que quase nos remete à Idade Média. Já os homens que as engravidaram estão livres de qualquer pena.

De outro lado, as mulheres das classes mais abastadas têm acesso ao aborto seguro, pagando pequenas fortunas em clínicas que são tão clandestinas quanto as que mataram Jandira e Elizângela. E há pessoas que insistem em fechar os olhos para essa situação. (TERRIBILI, Alessandra. Legalizar o aborto urgentemente!)

Os caso de Elizêngela e Jandira revelam o quanto a legalização do aborto urge em nosso país e não pode ser mais alvo de negociatas para garantir apoios políticos e manutenção de governabilidade deste ou daquele partido. Além disso mostram o com todas nós somos parte de estatísticas perversas e, pelo fato de termo o aborto criminalizado no Brasil, estamos cotidianamente lutando contra uma pssível morte caso decidamos não ser mães.

Fechar os olhos para as mortes dessas mulheres é corroborar para a permanência de uma sociedade machista e racista no Brasil.

 

 

Uma resposta para Qualquer uma de nós pode ser a próxima Jandira ou Elizangela

  1. Fico pensando até quando o Estado será conivente com a morte dessas mulheres e de tantas outras que não temos notícia. E o pior, tendo como cúmplices a bancada evangélica que se acha no direito de legislar nossos corpos com suas religiões, alegando que aborto é assassinato. Bem, mal feito é mesmo, vide as duas mulheres que, mesmo depois de mortas, ainda sofrem com todo o tipo de julgamentos e ofensas. :(

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