Quando a violência é com prostituta e é invisibilizada. De que lado nós sambamos?

Demorei para conseguir organizar as ideias para este texto, achei que encontraria mais reflexões na blogosfera feminista sobre a truculência da PM-RJ junto as trabalhadoras do sexo do prédio da Caixa de Niterói. Bem se sabe que estamos em processo acelerado em diversas cidades brasileiras de reorganização, não necessariamente uma reorganização que vá incluir aqueles setores sociais mais marginalizados, na verdade o que temos visto com esse processo de reorganização – protagonizado pela Copa do Mundo e Olimpíadas – é justamente o aprofundamento da gentrificação e higienização social dos grandes centros urbanos.

Pois bem, na última semana centenas de mulheres que prestavam serviço sexual no prédio da Caixa Econômica Federal de Niterói foram brutalmente retiradas do local pela PM-RJ, ação que já nos coloca uma reflexão: No Brasil ser prostituta não é crime, então por que as mulheres que exercem são cotidianamente vítimas de criminalização e violência?

A minha questão neste texto não é debater qual a melhor linha de pensamento para se tratar do tema da prostituição: regulamentarismo, abolicionismo ou proibicionismo. Até por que minha posição em geral está melhor resumidas nestes dois textos do Bloqueiras Feministas: Prostituição: por que seguimos ignorando o que elas estão nos dizendo? e Nem toda prostituta é Gabriela Leite: prostituição, feminismo e leis. Meu objetivo com esse post é refletir o por que um setor tão marginalizado e invisibilizado pela sociedade patriarcal, racista, homolesbobitransfóbica e capitalista quando sofre uma violência brutal com a de ser desalojado de maneira truculenta pela PM-RJ isso não gera indignação de uma gama de lutadores e lutadoras sociais diversos?

mafalda3

Inclusive por que este processo de gentrificação em cima das mulheres que trabalham na rua não é algo específico de Niterói. Em São Paulo, na região da Luz, as mulheres que lá prestam serviços sexuais são assediadas pela PM-SP para saírem do local antes do início da #CopaDasCopas pois ali será um espaço a ser ocupado por turistas. Pelo relato da Cleone do GMEL, elas tem resistido, mas a preocupação com qual será a resposta a esta resistência por parte dos governos estadual e municipal é grande. Provavelmente haverá mais tiro, porrada e bomba.

Ou seja, mulheres estão sendo retiradas violentamente dos locais onde trabalham – no caso de Niterói há denúncias de estupros por parte da PM-RJ durante a operação, inclusive com eles justificando que estuprar prostituta não era crime – e a movimentação de solidariedade a elas por conta destas violências é muito pouca. Independente se consideramos a prostituição como uma violência em si ou não, o processo de criminalização a estas mulheres está se recrudescendo e a tendência é ficar pior e nós iremos fingir que este problema não é conosco também?

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Puta Dei realizado no dia 31 de maio de 2014 em Niterói. Foto: Evelyn Silva.

Neste processo de recrudescimento do higienismo social, da criminalização da pobreza e violência policial o lado das feministas deve ser o lado de quem vem sendo invisibilizada e massacrada por essa política de exclusão promovida pelos governos e megaeventos. Não denunciar as violências que vem sendo impetradas a estas mulheres cis e trans é coadunar com o higienismo social no Brasil. Nossa tarefa não é invisibilizar setores, nossa tarefa é nos aliar com xs indesejáveis para realmente mudar o mundo e acabar com o machismo, racismo, homolesbobitransfobia e capitalismo.

2 respostas para Quando a violência é com prostituta e é invisibilizada. De que lado nós sambamos?

  1. Em alguns países da Europa a prostituição se agregou à sociedade, como na Holanda. Mas a atuação do Poder Público não impedirá a prestação de serviço pelas trabalhadoras, diante do fluxo de interessados em decorrência de jogos em cidade próxima.

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