É claro que não é todo homem que odeia mulher. Mas todo homem se beneficia com o sexismo

A Daniela Abade acabou de traduzir esse texto da Laurie Penny, publicado originalmente na New Statesman em agosto de 2013, e autorizou a replicação da tradução aqui no Bidê Brasil. Achei super interessante, pois cada vez é mais nescessário apontar o como a organização social na qual vivemos é diretamente responsável pela nossa opressão cotidiana.

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Isso vai machucar. Nos últimos meses foi quase imposível abrir um jornal ou ligar a TV sem encontrar uma história sobre alguma garota menor de idade que foi estuprada, alguma política que foi assediada ou outra mulher trans que foi assassinada. Mas enquanto mulheres, garotas e um número crescente de aliados masculinos começaram a se manifestar contra o sexismo e a injustiça uma coisa curiosa começou a acontecer: pessoas estão reclamando que falar de preconceito é uma forma própria de preconceito.

Hoje em dia, antes de falarmos de misoginia, as mulheres são cada vez mais questionadas a modificar sua linguagem para não machucar os sentimentos masculinos. Não diga “O homem oprime as mulheres – isso é sexismo, um sexismo tão ruim como o que qualquer outra mulher tem que lidar, talvez pior. Em vez disso, diga: “Alguns homens oprimem as mulheres”. O que quer que você faça, não generalize. Isso é coisa que homens fazem. Não todos os homens – só alguns.

Esse tipo de discussão semântica é uma maneira muito eficiente de fazer as mulheres se calarem. Afinal de contas, a maioria de nós aprendeu que ser uma boa menina é colocar o sentimento de todos os outros na frente do seu. Nós não devemos dizer o que sentimos se há alguma chance de chatear alguém ou, pior, fazer alguém ficar com raiva. Então suprima seu discurso com desculpas, advertências e sons tranquilizantes. Nós reafirmamos a nossos amigos e homens que amamos que “você não é um desses homens que odeia mulheres”.

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O que nós não dizemos é: é claro que não é todo homem que odeia mulheres. Mas a cultura odeia mulheres, então os homens que crescem em uma cultura sexista tem a tendência de fazer e falar coisas sexistas, mutas vezes sem a intenção. Nós não estamos julgando você por quem você é, mas isso não quer dizer que você tem que mudar seu comportamento. O que você sente pelas mulheres no seu coração é de menor importância imediata do que como você trata mulheres cotidianamente.

Você pode ser o homem mais gentil e doce do mundo e ainda assim se beneficiar do sexismo. É assim que a opressão funciona. Milhares de pessoas que por um lado são decentes aceitam um sistema injusto porque desse jeito o transtorno é menor. A resposta apropriada quando alguém exige uma mudança nesse sistema injusto é ouvir, em vez de virar as costas ou gritar, como uma criança faria, porque não é culpa dela. E não é sua falta. Eu tenho certeza que você é adorável. Mas isso não quer dizer que você não tem responsabilidade de fazer alguma coisa a respeito disso.

Sem evocar estereótipos bobinhos de gênero sobre capacidade de realizar multitarefas, nós todos podemos concordar que é relativamente fácil armazenar mais de uma ideia no cérebro humano. O cérebro é um órgão grande, complexo, mais ou menos do tamanho e do peso de uma couve-flor bem feia e podre – e ele tem espaço para muito lixo, tramas de TV e até o número de seu ex que você não deveria ligar depois de seis doses de vodka. Se ele não pudesse armazenar grandes ideias estruturais e, ao mesmo tempo, algumas pessoais, nós nunca teríamos descido das árvores e construídos coisas como cidades e kinoplexes.

Então não deveria ser tão difícil explicar para o homem médio que você, enquanto indíviduo, cuidando da sua vida, comendo cereais e jogando BioShock2, pode não odiar ou machucar as mulheres; mas você, incluído no grupo masculino, homens, como estrutura, vocês certamente o fazem. Eu não acredito que a maioria dos homens seja tão estúpida para não entender essa diferença, e se eles entendem – e se eles podem diferenciar, precisamos intensificar nossos esforços de impedir que eles comandem quase que a totalidade dos governos globais.

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De alguma forma ainda é difícil falar com homens sobre sexismo sem encontrar uma parede de resistência que faz sombra a uma indiscutível hostilidade, até violência. Raiva é uma resposta completamente apropriada ao entender que você está envolvido em uma sistema que oprime as mulheres – mas a solução não é dirigir essa raiva às mulheres. A solução não é calar o debate nos acusando de “sexismo às avessas”, como se de alguma maneira isso fosse equilibrar o problema e evitasse que você se sentisse tão desconfortável.

Sexismo deve ser desconfortável. É doloroso e enfurecedor está no lado receptor de ataque misóginos e também doloroso assistir eles acontecendo sabendo que você está implicado nisso, mesmo sem ter escolhido. Você deve mesmo reagir quando é avisado que um grupo do qual você faz parte está ativamente ferrando com a vida de outros seres hmanos, da mesma forma que você deve reagir quando um médico bate um martelo em seus joelhos. Se ele não se mexe, algo está terrivelmente errado.

Dizer que “todo homem está envolvido na cultura do sexismo” – todo homem, não somente alguns homens – pode parecer uma acusação. Na verdade é um desafio. Você, homem individual, com seus sonhos e desejos individuais, não pediu para nascer em um mundo onde ser um garoto lhe daria vantagens sociais e sexuais sobre as mulheres. Você não quer viver em um mundo onde garotinhas são estupradas e depois são acusadas de terem provocados seus estupradores em uma corte; onde o trabalho das mulheres é mal remunerado ou não remunerado; onde nós somos chamadas de putas ou vadias por exigir igualdade sexual. Você não escolheu isso. O que você vai escolher, agora, é que é o que muda tudo.

Você pode escolher, como homem, ajudar a criar um mundo mais justo para mulheres – e para homens também. Você pode escolher desafiara misoginia e a violência sexual onde quer que você a encontre. Você pode escolher se arriscar e gastar sua energia apoiando mulheres, promovendo mulheres, tratando as mulheres da sua vida como verdadeiramente iguais. Você pode escolher se levantar e dizer não e, todo dia, mais homens e garotos estão fazendo essa escolha. A pergunta é: você vai ser um deles?

10 respostas para É claro que não é todo homem que odeia mulher. Mas todo homem se beneficia com o sexismo

  1. Pedro Ferrari

    Gostei do texto. Muito bom.
    Mas uma coisa, ao final, levantou uma questão.
    Foi dito que “Você pode escolher, como homem, ajudar a criar um mundo mais justo para mulheres – e para homens também. Você pode escolher desafiara misoginia e a violência sexual onde quer que você a encontre”. E concordo plenamente. Mas isso foi dito pouco depois da afirmação categórica de que “todo homem está envolvido na cultura do sexismo”.
    Então o levantar-se, o agir (como na primeira citação), ainda assim não seria capaz de vencer a afirmação categórica da segunda citação? Se há a pressuposição de uma escolha, o que se infere do texto é que ela é limitada exatamente pela afirmativa do envolvimento sexista.

  2. Vamos colocar então em outra perspectiva para facilitar: você tem 18 anos e é filho de um general nazista em 1938, Berlim. Você é um privilegiado, porque qualquer pessoa que nascesse em berço nazista nessa época, é privilegiado – você não é o causador do mal, mas é parte do mal, porque está inserido no sistema. Você começa então a perceber o que é o nazismo. Óbvio, que mesmo inserido dentro da cultura, você pode reagir. Não é uma pressuposição: você, filho de um general nazista não tem o pressuposto de estar inserido dentro da cultura nazista. VOCÊ ESTÁ INSERIDO NESSA CULTURA. É FATO. A reação ou a não reação ao que você sabe dessa cultura é escolha. Não tem nada limitado não. O nazismo foi derrubado, coisa e tal (apesar do renascimento da extrema direita e do nacionalismo nesse século), então não é um panorama nem de perto parecido com o machismo, mas é sempre bom fazer essas substituições para coisa ficar didática.

    Voltando ao fato do texto, você é homem dentro de uma cultura machista. Você está inserido nessa cultura. Então está completamente certa a frase “todo homem está inserido na cultura do machismo”. Você não escolheu isso, mas a cultura dentro da qual você nasceu faz de você um opressor. O que você faz com essa informação é que é a escolha. E nunca, nunca é limitada. Você pode até dizer: “Eu nasci opressor, mas resovi reagir”. É esse entendimento que o homem precisa ter.

  3. Pedro Ferrari

    Eu entendo.
    Minha ressalva é com o uso indiscriminado de opressor. Parece partir de uma pressuposição determinística da cultura machista. E, se assim for, todo homem o é necessariamente e, dessa forma, nunca deixaria de sê-lo (o que torna toda a cruzada inútil).
    O sujeito, enfim, nascido dentro do nazismo, não é o nazismo em si. Nem tampouco o regime nivela a todos como uma rasoura. O discurso aponta uma limitação das estratégias possíveis de ação, não um comportamento ideal e homogêneo a abarcar a todos.
    Gosto muito da aproximação lingüística da Judith Butler sobre o uso da língua como arma de luta. Nesse sentido, partir da pressuposição de um contrário “homem” parece abarcar a mesma limitação de definir “mulher” como, necessariamente, engajada e anti-machista. Em outras palavras, o discurso machista chega a todxs – cabe ao indivíduo encontrar uma fresta em meio às limitações de ação. Quer dizer, nesse sentido, mesmo mulheres são opressoras em potencial (uma vez que estão inseridas no mesmo contexto cultural). O que acontece, felizmente, é que muitxs de nós encontramos papéis outros, construções diferentes nas quais nos posicionarmos.
    Voltando à Butler, essas diferenciações parecem culminar exatamente no que as define: criações de diferenças. E, ao polarizar, termina-se por fortalecer aquilo contra o qual se luta.

    • Acho, que independente de teorias acadêmicas ou não, deu para entender o que o texto está dizendo. É prático, é cotidiano, é real… isso que importa. Aplicar uma lógica argumentativa só o deixa mais bonitinho.
      Aproveitando, queria pontuar, como você mesmo percebeu, o papel do homem é extremamente importante e muito difícil. Assim como um filho nazista que não faz mal a judeus, o homem precisa ir contra o que lhe beneficia para libertar a mulher. Difícil demais, mais até do que para uma mulher. Afinal, é compreensível uma mulher não querer viver nesse mundo/nessa dinâmica, mas um homem… “porque um homem iria querer mudar qualquer coisa em relação a isso? o que importa? mulheres são apenas histéricas mesmo!”… mas confortável é o homem que fica na inércia.
      E sobre a questão da contradição… mesmo agindo de forma feminista o homem estará sempre inserido dentro do contexto machista como o privilegiado. (foda a vida né?) Sim! Mas isso só até o sistema ruir, nesse momento nem o feminismo mais irá existir #evolução.

  4. Só queria apontar um erro de tradução que deixa uma parte do texto sem sentido… onde diz “Nós estamos julgando você por quem você é, mas isso não quer dizer que você tem que mudar seu comportamento.” na verdade deveria ser “Nós NÃO estamos julgando você (…) mas isso não quer dizer que você NÃO tenha que mudar seu comportamento.” =)

  5. Eu concordo que enquanto homem todos nós estamos contribuindo para a cultura machista, mas como o companheiro ali colocou, as mulheres, uma vez vivendo também nessa cultura não estariam também colaborando para sua manutenção? Obviamente que são as mulheres as vitimas desse sistema, mas em que nível suas atitudes diárias e cotidianas também não colaboram para a existência desse sistema? Acredito que essas dúvidas vem de uma noção da qual compartilho de que os homens também são afetados pelo machismo. Logicamente não há simetria alguma, nunca eu afirmaria que homens são mais ou tanto quanto afetados pelo machismo como as mulheres, mas obviamente temos algumas questões de gênero que dizem respeito a nós.
    A dualidade opressor/oprimido, na minha concepção não se aplica sumariamente em todos os casos, mesmo que haja a forte tendência de que o opressor seja o homem e a oprimida a mulher. Nesse sentido que me questiono se a luta feminista se coloca como alternativa a superação de todas as opressões de gênero, ou somente as que são sofridas pelas mulheres? E se for esse o caso qual o papel do homem no feminismo, colocar suas pautas e questões dentro do movimento ou criar uma luta separada, com vistas a tratar das questões inerentes ao sexo masculino?

  6. Lih

    Olá, notei uma frase estranha na tradução e ao ler o texto original achei o erro, a frase original é: We aren’t judging you for who you are but that doesn’t mean we’re not asking you to change your behaviour.
    A tradução correta é: Nós não estamos julgando você por quem você é, mas isso não quer dizer que não estejamos pedindo para você mudar seu comportamento.
    E não: “mas isso não quer dizer que você tem que mudar seu comportamento.”

    Espero ter ajudado,
    Att.

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