Macaco não é elogio

A polêmica instaurada sobre a “campanha” #SomosTodosMacacos necessita uma boa localização. Primeiro por que tenho visto gente problematizando com isso resignificações com termos como queer, vadia e afins que foram resignificações fruto de movimento contestatórios importantes.

Essa diferenciação é importante pelo fato de que a utilização e apropriação do termo macaco para se referir a população negra é feita justamente para estabelecer que há uma diferença evolutiva entre negrxs e brancxs. Essa dita diferença foi usada em diversos momentos da história mundial para o desencadeamento de processos de genocídio profundos, e até hoje estes processos existem.

Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do quê os cientistas daquela época provlamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história do jovem Ota srviu para inflamar as crenças sobre a suprmacia ariana defendida por Adolf Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo” (O Zoológico Humano). (Por que comparar negros a macacos não é motivo de piada)

Foi se baseando nessa falsa ideia de evolucionismo que enfrentamos processos de colonização por todo globo terrestre que massacraram populações que não se enquadravam em um padrão europeu de civilização e de estética. É disso que advém o processo de genocídio indígena e negro no Brasil. Essa base de que alguns são mais humanos do que outros, mais evoluídos do outros ajuda a sustentar um tipo de Estado excludente, que marginaliza e mata a maior parte da nossa população.

Os horrores do nazismo acabaram com o namorico da ciência mainstream com o racismo biológico. O genocídio de Adolf Hitler, apoiado de bom grado por cientistas e médicos alemães, mostrou que a má aplicação da ciência pode acabar.

Isso deixou o racismo científico nas mãos de grupos de extrema direita que estavam muito dispostos a ignorar as descobertas da biologia evolutiva do pós-guerra em favor de suas variantes pré-guerra. (BRADLEY, James. O insulto macaco: uma breve história de uma ideia racista)

O rechaço a violência sofrida por Daniel Alves ontem durante a final do Campeonato Espanhol revela o quanto há um espaço para se debater seriamente o racismo no país, porém ao mesmo tempo revela o quanto não olhamos para como o racismo se estruturou na sociedade ao longo dos séculos. Não #SomosTodosMacacos pelo simples fato que isso reverbera uma lógica ancestral de que há um setor na nossa sociedade mais evoluído do que o outro.

O acontecido com Alves no final de semana em nada se difere com os xingamentos e exclusão racista existente em nosso país ou quem não lembra do comediante Danilo Gentili oferencendo bananas para terminar uma discussão sobre racismo no twitter?

Além do mais é preciso compreender que em toda essa discussão também há um forte recorte de classe. Primeiro por que em nenhum dos outros casos veiculados neste ano sobre racismo no futebol vimos tanta solidariedade das figuras que se solidarizaram com Alves. Assim como não vemos estas mesmas pessoas localizarem o quanto a estrutura em que se baseia xingar o outro de macaco ajuda no processo de genocídio da nossa população no Brasil, hoje tendo como maior exemplo a intervenção militar no Rio de Janeiro.

10 respostas para Macaco não é elogio

  1. bahalus

    Sinto muito, mas discordo veementemente dessa interpretação. Ao se dizer que somos todos macacos está se dizendo o oposto do que interpretaste. Está se dizendo que todos os seres humanos são macacos e que a quantidade menor de melanina na pele não faz de ninguém menos macaco e que usar macaco como xingamento é duplamente ignorante.

    • Darlam do Nascimento

      A comparação entre negros e macacos é racista em sua essência. No entanto muitos não compreendem a gravidade da utilização da figura do macaco como uma ofensa, um insulto aos negros.
      Encontrei essa forte história num artigo sensacional que li dia desses, e que também trazia reflexões de James Bradley, professor de História da Medicina na Universidade de Melbourne, na Austrália. Ele escreveu um texto com o título “O macaco como insulto: uma curta história de uma ideia racista”. Termina o artigo dizendo que “O sistema educacional não faz o suficiente para nos educar sobre a ciência ou a história do ser humano, porque se o fizesse, nós viveríamos o desaparecimento do uso do macaco como insulto.”
      Não, querido Neymar. Não somos todos macacos. Ao menos não para efeito de fazer uso dessa expressão ou ideia como ferramenta de combate ao racismo.
      Mas é bom separar: Uma coisa é a reação de Daniel Alves ao comer a banana jogada ao campo, num evidente e corriqueiro ato racista por parte da torcida; outra coisa é a campanha de apoio a Daniel e de denúncia ao racismo, promovida por Neymar.
      No Brasil, a maioria dos jogadores de futebol advém de camadas mais pobres. Embora isso esteja mudando – porque o futebol mudou, ainda é assim. Dentre esses, a maioria dos que atingem grande sucesso são negros. Por buscarem o sonho de vencer na carreira desde cedo, pouco estudam. Os “fora de série” são descobertos cada vez mais cedo e depois de alçados à condição de estrelas vivem um mundo à parte, numa bolha. Poucos foram ou são aqueles que conseguem combinar genialidade esportiva e alguma coisa na cabeça. E quando o assunto é racismo, a tendência é piorar.
      E Daniel comeu a banana! Ironia? Forma de protesto? Inteligência? Ora, ele mesmo respondeu na entrevista seguida ao jogo:
      “Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.”
      É uma postura. Não há o que interpretar. Ele elaborou uma reação objetiva ao racismo: Vamos ignorar e rir!
      Há um provérbio africano que diz: “Cada um vê o sol do meio dia a partir da janela de sua casa”. Do lugar de onde Daniel fala, do estrelato esportivo, dos ganhos milionários, da vida feita na Europa, da titularidade na seleção brasileira de futebol, para ele, isso é o melhor – e mais confortável, a se fazer: ignorar e rir. Vamos fazer piada! Vamos olhar para esses idiotas racistas e dizer: sou rico, seu babaca! Sou famoso! Tenho 5 Ferraris, idiota! Pode jogar bananas à vontade!
      O racismo os incomoda. E os atinge. Mas de que maneira? Afinal, são ricos! E há quem diga que “enriqueceu, tá resolvido” ou que “problema é de classe”! O elemento econômico suaviza o efeito do racismo, mas não o anula. Nesse sentido, os racistas e as bananas prestam um serviço: Lembram a esses meninos que eles são negros e que o dinheiro e a fama não os tornam brancos!
      Daniel Alves, Neymar, Dante, Balotelli e outros tantos jogadores de alto nível e salários pouca chance terão de ser confundidos com um assaltante e de ficar presos alguns dias como no caso do ator Vinícius; pouco provavelmente serão desaparecidos, depois de torturados e mortos, como foi Amarildo; nada indica que possam ter seus corpos arrastados por um carro da polícia como foi Cláudia ou ainda, não terão que correr da polícia e acabar sem vida com seus corpos jogados em uma creche qualquer. Apesar das bananas, dificilmente serão tratados como animais, ao buscarem vida digna como refugiados em algum país cordial, de franca democracia racial, assim como as centenas de Haitianos o fazem no Acre e em São Paulo.
      O racismo não os atinge dessa maneira. Mas os atinge. E sua reação é proporcional. Cabe a nós dizer que sua reação não nos serve! Não será possível para nós, negras e negros brasileiros e de todo o mundo, que não tivemos o talento (ou sorte?) para o estrelato, comer a banana de dinamite, ou chupar as balas dos fuzis, ou descascar a bainha das facas. Cabe a nós parafrasear Daniel, na invertida: “Não tem que ser assim! Nós precisamos mudar! Convivemos há 500 anos com a mesma coisa no Brasil. Temos que acabar com esses racistas retardados, especialmente os de farda e gravata”.
      Quanto a Neymar, ele é bom de bola. E como quase todo gênio da bola, superacumula inteligência na ponta dos pés. Pousa com seu filho louro, sem saber que por ser louro, mesmo que se pendure num cacho de bananas, jamais será chamado de macaco. A ofensa, nesse caso, não fará sentido. Mas pensemos: sua maneira de rechaçar o racismo foi uma jogada de marketing ou apenas boa vontade? Seja o que for, não nos serve.
      Sou negro, nascido em um país onde a violência e a pobreza são pressupostos para a vida da maior parte da população, que é negra. Querido Neymar – mas não: Luciano Hulk, Angélica, Reinaldo Azevedo, Aécio Neves, Dilma Rousseff, artistas e a imprensa que, de maneira geral, exaltou o “devorar da banana” e agora compartilham fotos empunhando a saborosa fruta, neste país, assim como em todo o mundo, a comparação de uma pessoa negra a um macaco é algo culturalmente ofensivo.
      Eu como negro, não admito. Banana não é arma e tampouco serve como símbolo de luta contra o racismo. Ao contrário, o reafirma na medida em que relaciona o alvo a um macaco e principalmente na medida em que simplifica, desqualifica e pior, humoriza o debate sobre racismo no Brasil e no mundo.
      O racismo é algo muito sério. Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro que continua em todo o mundo.
      Eu adoro banana. Aqui em casa nunca falta. E acho os macacos bichos incríveis, inteligentes e fortes. Adoro o filme Planeta dos Macacos e sempre que assisto, especialmente o primeiro, imagino o quanto os seres humanos merecem castigo parecido. Viemos deles e a história da evolução da espécie é linda. Mas se é para associar a origens, por que não dizer que #SomosTodosNegros ? Porque não dizer #SomosTodosDeÁfrica ? Porque não lembrar que é de África que viemos, todos e de todas as cores? E que por isso o racismo, em todas as suas formas, é uma estupidez incompatível com a própria evolução humana? E, se somos, por que nos tratamos assim?
      Mas não. E seguem vocês, “olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico”.

  2. Bruno B.Machado

    Engraçado…o texto encaixaria perfeitamente alternando as palavras vadia e macaco, negro e mulher fora dos padrões sexuais normativos.
    Foda-se que os macacos e os negros eram considerados inferiores evolutivamente, se eu quiser me chamar de macaco e mostrar que não superior nem igual, posso ser macaco, lontra, besouro, arqueia. Não é a ausência da comparação que vai deter o genocídio. Ele é intrínseco ao ser humano. Preconcepções não são exclusividade do homem ocidental. Assim como eu designar a raça humana de “homem” não me faz machista. Cuidado com a supervalorização e demonização do uso das palavras. As intenções são mais importantes do que a comparação escolhida. Estamos pregando a solução menos eficaz.

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