Experiência científica em presos é o fascismo colocando as orelhas de fora

Não sou ativista de direitos dos animais, simpatizo, até por que tenho a consciência de que para uma mudança social profunda será necessário também modificar as relações com a exploração animal, pois estas muitas vezes estão ligadas a trabalho escravo também por conta do agronegócio e afins. Por estes motivos não queria entrar no debate sobre a experiência em animais, deixo isso para pessoas que debatem a questão animal com muita propriedade.

A questão é que hoje me deparei com o artigo da Cora Rónai n’O Globo falando sobre o tema e no texto ela verbaliza e publica o que até então só vinhamos ouvindo e lendo pelas redes sociais:

“Pesquisas já são feitas com voluntários, podem ser feitas em criminosos que desejem reduzir suas penas ou ainda em culturas de células humanas”. [grifo meu].

Quando eu leio uma passagem em um artigo defendendo a possibilidade de experiência científicas em seres humanos o que me passa pela cabeça é uma enorme interrogação. É inconcebível, para mim, pensar a liberdade de um ser vivo em detrimento do outro. Para além disso, a perspectiva em se apresentar a possibilidade de se fazer experiências científicas em pessoas que estão presas remete as piores heranças do nazifacismo.

Outras experiências repugnantes tinham por meta facilitar os objetivos raciais nazistas, com uma série de experiências de esterilização, realizadas principalmente em Auschwitz e Ravensbrueck. Lá, os” cientistas” testaram diversos métodos, com o objetivo de desenvolver um procedimento eficaz e barato de esterilização em massa de judeus, ciganos, e outros grupos considerados pelos nazistas como racial ou geneticamente indesejáveis. (As experiências médicas nazistas)

É preciso localizar exatamente a quais processos essas ideias “ingênuas” remetem e a qual tipo de sociedade ela ajuda a construir: Uma sociedade higienista, gentrificada e punitivista. No Brasil passamos por um processo profundo de encarceramento em massa e sob a égide de manter a ordem e a disciplina em nossa sociedade leva aos estabelecimentos carcerários aquilo que eu convencionei chamar de os indesejáveis. Ou paramos para pensar quem são os suspeitos que estão nestes estabelecimentos?

Em síntese, os pobres culpabilizados por um fracasso que lhes foi atribuído, passam a ser perseguidos e condenados pelos crimes dos quais são vítimas. A comprovação para esta tese estaria no índice desproporcional de despossuídos (negros, chicanos, árabes) nas penitenciárias públicas dos países centrais. (NKOSI, Deivison. O Encarceramento em massa e os aspectos raciais da exploração de classe no Brasil)

O recrudescimento do encarceramento em massa e agora este sentimento  que o episódio do resgate de animais no Instituto Royal de que experiências científicas em detentos só corroboram com um projeto: O do genocídio da população negra e periférica. Ora, os capitalistas em outros países já se deram conta que o processo de apenas punir a sociedade, ao invés de dar instrumentos para que realmente haja combate de preconceitos, opressões e discriminações é muito mais rentável do que garantir direitos sociais e emancipação da população mais empobrecida: é melhor criminalizar do que garantir direitos.

Assim como Kirkman, ativistas sociais e grupos ligados aos Direitos Humanos acusam o governo e a iniciativa privada de promover uma “máquina”, que “gera pobres e marginalizados” para serem enviados à prisão mais tarde. “É um sistema de encarceramento massivo. Ou seja, você precisa promover a pobreza e não oferecer suporte – como educação de qualidade. Então, não resta outro caminho a não ser a criminalidade e, depois, a prisão. É um círculo que ajuda a manter as penitenciárias privadas lucrando”, afirma o ativista norte-americano Michael Snyder. (CALIXTO, Dodô. Penitenciárias privadas batem recorde de lucro com política do encarceramento em massa)

Pergunto a todos que defendem essa lógica de poder fazer experimentos científicos em detentos, mas em especial para Cora Rónai: As denuncias apresentadas pelos ativistas que resgataram os animais no Instituto Royal era de que estes seres vivos apresentavam tumores, iam ser executados e precisavam de cuidados médicos, tudo bem isso acontecer com uma população encarcerada que na sua maioria é negra? Tudo bem verbalizar racismo na ânsia de haver um mundo melhor? A perspectiva de direitos dos animais e direitos humanos não deveriam andar em conjunto?

Não é uma via plausível pautar que seres humanos que são socialmente marginalizados há séculos sirvam para experiências científicas sejas quais forem, assim como não é plausível fazê-las em outros seres vivos. Ou a opressão de um justifica a opressão do outro?

Essa agenda de abrir vias para aprofundar o genocídio da população negra e periférica é facista. Não há outro nome para qual ideologia essa lógica aponta, defender experiências científicas em uma população historicamente excluída e vítima de um sistema penal perverso. É a mesma coisa de dizer que “bandido bom é bandido morto”, ou que direitos humanos é coisa para garantir direito de bandido.

É preciso fazer o debate dos direitos dos animais? Com certeza. Mas não em uma perspectiva que aprofunde a política de encarceramento em massa, de racismo institucional, extermínio da população negra e periférica, gentrificação, higienismo e tantos outros instrumentos políticos que só visam manter a exclusão social e intensificar o populismo penal midiático para recrudescer ainda mais o estado de barbárie que nossa sociedade vive atualmente.

11 respostas para Experiência científica em presos é o fascismo colocando as orelhas de fora

  1. pauka

    é pra testar em assassino, pedófilo e estrupador, que de fato, não podem ser considerados seres humanos.

    • pedro moraes

      Você veio confirmar o ponto da Luka: não há nada mais emblemático do nazifascimo do que o pensamento de que a vida humana é um privilégio, e não um direito. Mero privilégio que um autoritário, um fascista como você, acha que pode decidir retirar.

  2. MArcos Garcia Neto

    Tá na moda usar “fascismo” como sinônimo de “racismo” e outras monstruosidades mais. Estudem história E gramática. Fascismo vem da expressão “feixe”; no caso, Benito Mussolini mostrava que quebrar uma vara era fácil, mas quebrar um feixe de varas era difícil. É a ideia de “juntos somos fortes”.

    “Matar pessoas” não é fascismo. “Torturar” não é fascismo. Ser “de direita” não é fascismo. Se você acha que uma passeata de pessoas pode fazer mais do que uma pessoa sozinha, parabéns, você é fascista.

    “Mas então como chamamos matança e tortura?”. Chamamos de matança e tortura. Querem exemplos? Lá vai: aquilo que Ernesto “Che” Guevara fazia com homossexuais em campos de concentração cubanos era matança e tortura (sim, isso mesmo, agora saiam do PC e estudem, pelo amor de Odin).

    • Luka – Autor

      Bem, acho que primeiro quem precisa se localizar é você, né? Por que significado de palavras não é estudado pela gramática, pois essa ciência trata de normas de uso da língua e não do seu significado. Outra coisa é que quem faltou nas aulas de história e de ciência política foste tu, pois a localização programática que determinou o surgimento do nacional-socialismo (e nisso está incluso os movimentos nazistas, facistas, franquistas e salarzaristas) também incluía um forte aparato repressivo d determinados extratos sociais e origens populacionais. Então sim, o fato de que os adeptos ideológicos não fazerem profunda reflexão e auto-crítica sobre o processo estabelecido junto ao nacional-socialismo, faz a tortura, as experiências em pessoas, o punitivismo exarcebado parte intríseca do programa nazi-facista.

      Já na questão dos países do socialismo real, há d se localizar que há entre o movimento socialista profunda reflexão e auto-crítica quanto a perseguição contra LGBTs, mulheres e afins, inclusive uma profuda reflexão e auto-crítica sobre o que levou o punitivismo e o estado penal nessas experiências a rerudescer uma perspectiva capitalista e desigual de sociedade quando do advento da queda do muro de Berlin.

      Acho que quem tem que sair do computador, parar de falar groselha e se localizar nos debates históricos e políticos és tu.

      • Cesar

        “Já na questão dos países do socialismo real, há d se localizar que há entre o movimento socialista profunda reflexão e auto-crítica quanto a perseguição contra LGBTs, mulheres e afins, inclusive uma profunda reflexão e auto-crítica sobre o que levou o punitivismo e o estado penal nessas experiências a recrudescer uma perspectiva capitalista e desigual de sociedade quando do advento da queda do muro de Berlin.”
        Colocar todos os países de socialismo real num tacho só é um reducionismo da sua parte, não vejo no caso de Cuba nenhum mea-culpa por erros cometidos no presente, nem no passado. Assim como que a perspectiva capitalista é uniforme e também é um tacho só é outro reducionismo, está cada vez mais difícil separar esquerda de direita, o que há de comum em todos são os esqueletos no armário que hora são cobertos com um verniz de uma cor ou de outra para dar uma aparência mais bonita. Ridículo dizer que um lado pôde descumprir os direitos humanos e o outro não, me parece, guardada as devidas proporções quando um partido pode cometer ilícitos e não ter ninguém preso pelo “passado histórico” e o outro partido deve ter os seus envolvidos em ilícitos de mesma gravidade condenados.

      • Luka – Autor

        Nunca falei que um lado pode descumprir nada, falei que existe hoje por parte da esquerda socialista (não necessariamente os setores que construíram o socialismo real), o que falei é que as atrocidades cometidas pelo socialismo real hoje são alvo de críticas duras e há um embate importante para que não aconteçam novamente e a construção de um projeto societário seja feito d uma maneira de totalidade e não pensada apenas dentro da lógica da planificação econômica sem levar em conta as questões de modificação de moral e ética tão questionadas no estado burguês.

        E não vejo auto-crítica e nm disputa profunda por parte de quem se reivindica nacional-socialista dos horrores que cometeram, na verdade reivindicam tais horrores em ações diretas contra imigrantes, mendigos, empregadas domésticas, indígenas, encarcerados, mulheres, LGBTs e afins…

      • Cesar

        ” falei que existe hoje por parte da esquerda socialista (não necessariamente os setores que construíram o socialismo real)” existe hoje o que?,” o que falei é que as atrocidades cometidas pelo socialismo real hoje são alvo de críticas duras” o que você quis dizer com isto? Não entendi.

  3. Todo Preso Es Político
    Los Redonditos de Ricota

    Si esta cárcel sigue así,
    todo preso es político.
    un común va a pestañear
    si tu preso es político.

    El ascensor ya sube
    (tu confesión ya sube)

    Obligados a escapar,
    somos presos políticos,
    reos de la propiedad,
    los esclavos políticos.

    El ascensor ya sube
    (tu confesión ya sube)

    ¡deténganme! x 3
    ¡ ¡deténgalos!! x 3

    Quince años pago ayer
    con tres bucos políticos,
    Todos esquivándole,
    temerosos políticos.

    El ascensor ya sube
    (tu confesión ya sube)

    Si esta cárcel sigue así,
    todo preso es político.
    un común va a pestañear
    si tu preso es político.

    El ascensor ya sube
    (tu confesión ya sube)

    ¡deténganme! x 3
    ¡ ¡deténgalos!! x 3

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