O medo, a política e o momento de não se omitir

Os “partidos” podem se apresentar com os mais diversos nomes, incluindo o de anti-partido ou de ‘negação de partidos’. Na realidade, até os chamados ‘individualistas’ são homens de partido, apenas gostariam de ser ‘chefe de partido’ pela graça de Deus ou da imbelicidade de quem os segue. (GRAMSCI, Antônio)

Com tudo o que está acontecendo eu ainda estou confusa, acho que o momento é delicado, é inédito para a minha geração e carece de uma reflexão mais aprofundada. Porém apesar do momento ser confuso e necessitar reflexão profunda da esquerda como um todo é importante lembrar que não é momento de se omitir.

Qualquer caracterização apressada é equivocada. Porém uma coisa é real: O sentimento anti-partido que está disseminado na massa não é permeado nem de longe dialoga com o debate posto há anos entre socialistas e autônomos.  O debate que reverbera nas ruas contra partidos políticos é por conta da negação do que aí está e abre brecha para que a direita organizada se aproprie do discurso e legitime processos de linchamentos público como os que vimos ontem. É por isso que não podemos ser afobados.

Ontem eu estava na Av. Paulista. No bloco da esquerda unificada. Foi a primeira vez que fui as manifestações novamente como militante, até então ficava mais afastada cobrindo para o trabalho. Fui como militante por que na terça-feira eu me assustei, me assustei de como a massa assimilava com facilidade um discurso nacionalista, fascista e totalitário. Fui por que acredito na revolução e na destruição do estado, assim como muitos dos meus companheiros autônomos ou organizados em outros partidos políticos. Ontem eu temi perder um amigo, temi assim como temo perder meus companheiros nas mãos da PM.

Engana-se, porém, quem diz que essa era uma massa fascista uniforme. Havia, sim, um pessoal dodói da ultradireita, que enxerga comunismo em ovo e estava babando de raiva e louco para derrubar um governo. Que tem saudades de 1964 e fotos de velhos generais de cueca na parede do quarto. Essa ultradireita se utiliza da violência física e da intimidação como instrumentos de pressão e que, por menos numerosos que sejam, causam estrago. Estão entre os mais pobres (neonazistas, supremacia branca e outras bobagens), mas também os mais ricos – com acesso a recursos midiáticos e dinheiro. A saída deles do armário e o seu ataque a manifestantes ligados a partidos foi bastante consciente

Mas um grupo, principalmente de jovens, precariamente informado, desaguou subitamente nas manifestações de rua, sem nenhuma formação política, mas com muita raiva e indignação, abraçando a bandeira das manifestações. A revolta destes contra quem portava uma bandeira não foi necessariamente contra partidos, mas a instituições tradicionais que representam autoridade como um todo. Os repórteres da TV Globo, por exemplo, não estão conseguindo nem usar o prisma com a marca da emissora na cobertura – e não é só por conta de militantes da esquerda. Alckmin e Haddad, que demoraram demais para tomar a decisão de revogar e frear o caldo que entornava, ajudaram a agravar a situação de descontentamento com a classe política. “Que se vão todos”, pensam esses jovens. “Não precisamos de partidos para resolver nossos problemas”, dizem outros, que não conhecem a história recente do Brasil. “Políticos são um câncer”, que colocam todo mundo no mesmo balaio de gatos. (SAKAMOTO, Leonardo. E, em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas. Literalmente)

Acredito haver espaço de disputa nestas mobilizações. Tenho dúvidas se elas permanecem massivas se não convocadas pela esquerda. Por que sim os atos que se massificaram foram atos organizados pela esquerda, seja autônoma ou organizada em partidos, e como normalmente são chamados com pauta específica tenho sérias dúvidas se continua a massificar. Caso continue, creio que há espaço de disputa ideológica, mas é preciso saber dialogar. E mais pra além da disputa ideológica necessária a ser feita é preciso refletir o que nos fez chegar até aqui. Por que nestes mais de 20 anos de redemocratização vemos eclodir no senso-comum posições que dialogam mais com a direita do que com a esquerda.

Se abriu um processo que está em disputa sim, mas não uma disputa fácil, não uma disputa com a qual estamos acostumados normalmente, pelo menos a minha geração não está. Estamos disputando com a direita e precisamos nos diferenciar da burocracia, não é simples, pois estamos lidando com um sentimento de insatisfação com as instituições muito pesado. Porém é preciso apontar que a esquerda socialista e autônoma tem um projeto de destruição do estado e não um melhorismo como tem sido apontado pelos governos Lula e Dilma.

O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje, da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos. (Nota no. 11: sobre o ato dessa 5a feira)

Para a disputa que se abre é necessário unidade da esquerda anti-capitalista, é necessário que aqueles que lutam contra a redução da maioridade penal, pela demarcação de terras indígenas, contra o genocídio da juventude negra, pela legalização do aborto, contra a homofobia, por uma cidade sem catracas, pelo transporte público e tantas outras pautas que temos construído mês após mês se unam para debater e apresentar saídas programáticas reais, sem capitular a burguesia e a direita.

O momento é difícil, apavora e é um erro não falarmos com todas as letras que dá medo. Dá medo de perder um companheiro, dá medo de perder um amigo, dá medo de perder a si próprio. Mas o medo não pode nos imobilizar, é ombro a ombro, é olhar nos olhos de quem é do PSOL, PSTU, autônomos e encontrar ali a segurança de que estamos na mesma luta, na mesma disputa ideológica e no mesmo confronto social. Nos reconhecermos e disputarmos com a direita o senso-comum presente nas manifestações.

É importante notar que a revolta apresentada na quinta-feira não foi apenas com os partidos, mas também com organizações civis do movimento sindical, do movimento negro, do movimento feminista e afins. Foi uma demonstração de que há um setor na sociedade que preza pela despolitização dos espaços e se aproveita para dar respostas e apontamentos fascistas para a massa. É preciso refletir, ou ninguém notou que entre as principais matérias da grande mídia sempre se destaca matérias ressaltando o apartidarismo, por que isso interessa aos poderosos? Alguém se perguntou isso?

Eu quero mudar o mundo, eu quero a revolução, eu quero a morte do capital e eu milito em um partido e em movimentos sociais e não quero mais ter medo de colocar as minhas camisas e levantar as minhas bandeiras!

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva pela Democracia!

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