Morreu Margareth Thatcher, aquela que ajudou a oprimir mulheres

Quando morre alguém de direita eu normalmente friso o quanto não comemoro a morte de ninguém, acho fundamental sempre frisar isso por conta de uma lógica pouco humana que acaba circulando por aí: se é de direita seus filhos não sofrem, não se deve ter o mínimo de solidariedade e isso não faz parte do que eu acredito para uma mudança social.

Pois bem, ontem morreu Margareth Thatcher, conhecida como dama de ferro e que recentemente teve sua história nas telinhas do mundo inteiro com a interpretação de Meryl Streep. Novamente o que vemos é a grande mídia exaltar sua firmeza durante o período em que foi 1ª ministra da Inglaterra. Para quem não sabe Thatcher foi a 1ª – e creio que única até o momento – mulher a ocupar o mais alto cargo político da Inglaterra. Uhul uma mulher no poder, só que não.

Não devo nada ao movimento de libertação das mulheres. As feministas odeiam-me, não é? Não as posso culpar uma vez que odeio o feminismo. É puro veneno. (THATCHER. Margareth)

A ascensão de Thatcher na Inglaterra em nenhum momento significou melhora na condição de vida das mulheres daquele país, ou até mesmo do mundo. Foi ela quem iniciou o processo de guerra nas Malvinas, e como é bem sabido (ou deveria) em momento de guerra se dá também a ausência de direitos e quem mais sofre são as mulheres.

Seu papel foi decisivo para a rearticulação da contraofensiva conservadora dos anos 80. Ela irrompe na cena política de seu país e no teatro internacional em um momento no qual o capitalismo vivia novo ciclo de crise e uma onda revolucionária havia, na década anterior, fortalecido posições da União Soviética e seus aliados. A revolução portuguesa (1974), a vitória comunista no Vietnã (1975), a derrubada do xá no Irã e o triunfo sandinista, ambos em 1979, são os principais fatos da última escalada progressista do período histórico aberto com a revolução russa de 1917. (ALTMAN, Breno. Margaret Thatcher foi a grande apóstola da guerra fria)

O legado que a 1ª mulher a ocupar o cargo de primeiro ministro da Inglaterra deixou não é o de avanço aos debates feministas ou da auto-organização das mulheres para a sua emancipação social. Isso não quer dizer que alguns pontos não tenha tido posições mais arejadas como quando votou pela descriminalização da homossexualidade masculina e pela legalização do aborto. Mas ao mesmo tempo era contrária a legalização do divórcio e pela manutenção da pena de morte. O que para mim apenas significa um compromisso com a manutenção de uma família nuclear burguesa e heteronormativa, visto que não há uma única menção de Thatcher sobre apoio ao lesbianismo.

Thatcher privatizou a Inglaterra e garantiu assim que a vida das mulheres inglesas fosse mais dificultada, além de defender a necessidade das mulheres estarem nos locais públicos, mas também terem tempo para cuidar da sua família.  Além do mais estabeleceu como uma de suas principais metas o combate ao “comunismo” e o apoio a “democratas” da estirpe de Pinochet.

Ela pode ter sido a nossa 1ª ministra, mas os homens ainda terminaram a década de seu governo ganhando muito mais do que as mulheres. (How Britain changed under Margaret Thatcher. In 15 charts)

Suas ações políticas a frente da Inglaterra tinham reflexo direto nas “minorias” sociais, pois se balizavam na retirada de direitos sociais conquistados, era reconhecidademente uma opositora do estado de bem-estar social presente na Europa.

Quando foi Ministra da Educação e da Ciência privatizou a distribuição de leite nas escolas estaduais para crianças de 7 a 11 anos, mantendo apenas uma quantidade mínima da bebida para crianças menores de 7 anos.

Questionou em 1989 a forma como o seu governo havia recebido as críticas realizadas pelo Relatório Taylor, sobre a polícia inglesa e seus excessos.

Depois do colapso do neoliberalismo em 2008, ninguém nunca ouviu uma simples autocrítica sua a respeito da crise que destroçou a economia de seu país, toda ela inspirada em ideias que ela colocou em circulação. O que não é estranho para alguém que, cinco anos depois de assumir o governo do Reino Unido, produziu o declínio da produção industrial, o fim de fato do salário mínimo, dois anos de recessão e o pior índice de desemprego da história britânica desde o fim da Segunda Guerra (11,9%, em abril de 1984). Nesse caso, também sem a mínima autocrítica. (SAFATLE. Vladimir, Canonizando Margareth)

A presença de Thatcher na direção da Inglaterra entre 1979 e 1990  só demonstra o quanto a garantia de direitos e avanços sociais sob a égide de um símbolo conservador não aglutina para emancipação das “minorias” sociais. É importante analisar a fundo os acontecimentos e a quem as políticas públicas afetam diretamente e prioritariamente.

Pessoalmente, não quero mais Thatchers no mundo, quero ver na verdade outros perfis de mulheres que conseguem compreender que a nossa emancipação se dá em conjunto com a emancipação de outros setores sociais e que a política conservadora e capitalista em geral só tem uma tarefa: a de manter as coisas como estão. Sinceramente? Eu quero mais é subverter as coisas.

Margaret Thatcher was no feminist, por Hadley Freeman

22 respostas para Morreu Margareth Thatcher, aquela que ajudou a oprimir mulheres

  1. Mauro

    Muito bom o artigo, companheira… e BidêBrasil é um achado como nome de um blog feminista!!!

  2. arbusto

    Então vc comemora a morte dela, apenas por ela não governar de acordo com as SUAS causas?
    bem democrático hein…

    • Luka – Autor

      Caro arbusto, leste o post direito? Eu não comemoro mortes, está bem no começo do post e de forma bem frisada. Porém também não santifico quem não deve ser santificado, que é o caso da Margareth Thatcher, pois o legado dela simplesmente oprimiu os setores mais vulneráveis da Inglaterra e do mundo… Leia as coisas melhor, pode ter sido apenas dislexia.

      • arbusto

        “normalmente friso o quanto não comemoro a morte de ninguém”
        foi isso o que eu li, sem dislexia…

      • Luka – Autor

        Leia o resto do parágrafo, falo que comemorar morte de outrém não faz parte da minha formação política. E depois relembro pontos do por que não a exalto e por que pra mim ela não entra pra história por bons motivos.

      • Victor_AC

        Por favor, vc como formador de opinião. Concordo que mostre o lado negativo, mas também deve mostrar o positivo.

        Não queremos uma juventude onde suas posições sejam definidas por seus professores, mas que seus professores mostrem as posições e os permitam escolher.

      • Luka – Autor

        Caro Victor, este blog tem posição muito bem definida e é a de não ficar em cima do muro, até por que ficar em cima do muro é manter e conservar o status quo do jeito que aí está. Grandes sites, blos e jornais dão o outro lado e tem um alcance muito maior do que este blog, aqui o espaço é justamente para dar o lado que não dá, e firma muito claramente que a falácia da isenção só corrobora para manter as amarras sociais.

        O lado positivo do thatcherismo está na primeira página de todos os jornais de grande circulação, de todos os sites de grande acesso, os blogs tem mesmo é que dar outro ponto de vista que não tem espaço por aí.

  3. O texto me parece interessante mas não consegui terminar de ler pois essas linhas horizontais são uma verdadeira tortura para quem sofre de alguns problemas de vista! Estou toda confusa, minha visão fica péssima, tenho que me concentrar muito para conseguir ler e é como se tudo estivesse piscando nas laterais. Peço encarecidamente que você considere mudar o layout para que os leitores que tem dificuldades com linhas tenham a opção de ler com mais tranquilidade. Obrigada!

  4. Carlos

    Bacana afirmar que quem mais sofre nas guerras são as mulheres. Elas são tão oprimidas por não irem à frente de batalha. ‘Como podemos nos identificar tanto nessa teoria cheia de achismos!’

  5. diego

    acho q vc n está levando em consideração o contexto histórico q viveu Margareth Tatcher, na época q havia um feminismo extremista e fanático e que a economia inglesa precisava com urgência de um pulso firme para se reestabelecer. Logicamente Margareth cometeu erros, entretanto o Reino unido não seria oque é hoje se não fosse o pulso forme da ministra

  6. Lia

    Então tu não quer mais Thatchers no mundo quer Dilmas. haha. Poupe-me! Nenhum político é perfeito. Gostei da frase dizendo que o feminismo é puro veneno. Sou mulher mais longe de ser feminista.

    • Luka – Autor

      Não quero mais mulheres que não pensam nas mulheres e Thatcher e Dilma são faces da mesma moeda. Não avançam para os direitos sociais e políticos das mulheres que mais precisam.

      • Carlos Prado

        O que mais oprime às mulheres atualmente é que eles não podem ter conquistas nenhumas pelo individuo que são. Devem tudo ao feminismo e por ele tem que arrastar um monte de mulheres que não obtêm sucesso por mãos próprias junto. Um individuo que seja mulher não é apenas mulher, não apenas pensa e age dentro de um padrão pré-programado do que uma mulher deve ser. Ela é mais que uma peça num coletivo de mulheres, não precisa lutar pelos “ideais” que dizem ser comuns às mulheres. Não há essa de “direitos sociais e políticos das mulheres” como os movimentos femimistas proclamam; pois nem todas as mulheres são iguais, anseiam pelas mesmas coisas. Cada mulher pode ser mais que apenas uma peça nessa massa de manobra femimista – não precisa ter um pensamento e uma vida pré-programados de como uma “mulher livre” deve se portar.

      • Luka – Autor

        Bem, se tu não sabes o que é construção histórica, política de marginalização (que não é algo só da questão de gênero), meritocracia como ferramenta de segregações diversas e outras coisas que tanto o capital, quanto o patriarcado, o racismo e afins se utilizam para marginalizar os diferentes em massa fica difícil debater.

      • Carlos Prado

        Se estes forem pontos tão cruciais a esta discussão, fica mesmo. Mas também não é fácil debater com quem assume uma suposta ignorância do outro interlocutor, se colocando acima sem antes apresentar nada que agregue; com quem pouco está disposto a discutir com o objetivo de agregar um conhecimento, aprender algo ou fazer concessões conforme se mostre errado; com quem apenas verborragia uma cartilha tão antiga posta como tão atual que dá a vantagem de carregar tantos preconceitos que quem assiste manda um “já ganhou” sendo que ninguém ganhou nada novo; ou com quem se preocupa mais com massas do que com pessoas e prefere que uma oprima a outras a seu gosto. Há muitos tipos difíceis se de debater.
        Saiba que aqui, assim como você faz no comentário anterior, não apresento argumento algum. Se quiser apresentar poderá ver quão difícil pode ser um debate contra mim. Tenho facilidades de adotar posições as quais fui totalmente contra a poucos minutos quando me apresentam bons argumentos – me aconteceu muito. Talvez você consiga me adequar ao pensamento da classe ao qual pertenço e devo defender.

  7. Gabrielli Junkes

    Gostaria de saber o porquê da frase “em momento de guerra se dá também a ausência de direitos e quem mais sofre são as mulheres.” Que eu saiba, quem vai para os campos de batalha e morre pelo povo são os homens. E outra, vocês defendem com unhas e dentes este esquerdismo todo sem levar em conta que os locais mais “opressores” são os dominados pelo socialismo, ou acham que em Cuba e Coreia do Norte a vida das mulheres é muito melhor? Foi no capitalismo que as mulheres alcançaram espaço de trabalho além dos afazeres domésticos, no próprio filme da Thatcher mostra como ela achava errado a mulher não participar das coisas. Vocês que gostam de criticar tanto o capitalismo sem estudar que o socialismo foi muito mais mortífero e ainda é muito mais ditatorial e sem liberdade de expressão.

    • undefinedGABRIELLI você esta com toda a razão…Não perca tempo com a dona desse blog ,ela está tão possessa de utopias que,é perca de tempo.Deixe ela e suas comparsas-mocorongas que ,depois de um tempo cai a ficha e teremos que pagar a psicanálize para reintegra-las a sociedade.Como disse Thatcher “ELAS SÃO PURO VENENO” Lástima………

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