Até o liberalismo sacou que é importante combater as diferenças de gênero

O texto abaixo saiu há dois dias na Folha de São Paul e é do Alexandre Vidal Porto. O debate proposto é bem interessante, pois coloca o quanto é necessário inclusive para o capitalismo nesta atual etapa avançar nas questões relativas ao combate das diferenças de gênero, principalmente na Ásia que tem sido nas últimas décadas o motor do capitalismo mundial.

Reflexão que leva em conta a necessidade de se considerar a diferenças de gênero do ponto de vista estratégico, seja quando falamos do liberalismo quanto do socialismo.

A continuidade da expansão na Ásia exige o aumento de produtividade possibilitado pela inclusão das mulheres

A Ásia é o único continente do planeta onde há mais homens que mulheres. Na China, para cada mil homens, existem 943 mulheres. Na Índia, a situação é ainda mais crítica: de 0 a 6 anos, a proporção é de mil meninos para apenas 914 meninas.

Em grande parte, as causas desse deficit derivam de estruturas culturais que priorizam filhos homens. Na Ásia, a mortalidade infantil é mais alta entre mulheres. A preferência por um filho é tanta que, em certos países, grávidas decidem abortar ao saberem que esperam meninas.

Em nenhum outro continente a desvantagem relativa das mulheres é tão grande. São mais pobres, têm menos poder político e menor proteção legal. Em alguns lugares, não podem votar. Em outros, são trocadas por carneiros.

Embora varie de país para país, a condição das asiáticas é inferior à média global. O que já é ruim no resto do mundo na Ásia é pior.

A conscientização sobre a gravidade da questão, no entanto, parece aumentar. Alguns governos incluíram igualdade de gênero em suas políticas. Afeganistão, Japão e Coreia do Sul mantêm ministérios específicos para o tema. A causa dos direitos da mulher avança no continente, ainda que de forma lenta.

Ao mesmo tempo, as mulheres começam a sair às ruas para reclamar contra a desigualdade e exigir maior proteção. Em janeiro, houve manifestações maciças na Índia, Paquistão, Nepal e Bangladesh. Na China, ativistas com vestidos de noiva sujos de sangue protestaram publicamente contra a violência doméstica.

À ação política agrega-se uma dimensão econômica. Relatório conjunto da Organização Internacional do Trabalho e do Banco para o Desenvolvimento Asiático revela a importância da mão de obra feminina para o aumento da produtividade e do crescimento.

Estudos recentes do Banco Mundial apontam conclusões semelhantes. Cresce o consenso de que a continuidade da expansão econômica exigirá o aumento de produtividade possibilitado pela inclusão das mulheres na economia formal.

Quando se considera que apenas um terço das indianas e menos da metade das taiwanesas, por exemplo, integram o mercado de trabalho, é possível dimensionar esse desperdício humano. O “China Daily”, maior jornal chinês em língua inglesa, de linha governista, publicou na semana passada matéria de capa sobre a questão.

Segundo Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, 100 milhões de mulheres asiáticas, que poderiam estar vivas, levando vidas produtivas, morreram desnecessariamente por causa de infanticídio, maus tratos ou aborto seletivo. Das sobreviventes, muitas têm suas possibilidades existenciais limitadas por tradições culturais e religiosas.

Quantos prêmios Nobel estarão escondidas sob uma burca? Qual a contribuição material que as mulheres asiáticas poderiam dar e não dão? Quais são os custos disso para o crescimento da região?

Essas são algumas das perguntas que as classes dirigentes da Ásia começam a se fazer. Espero que cheguem à conclusão óbvia de que o respeito aos direitos humanos, além de ser dever moral, vale dinheiro e é fator elementar no desenvolvimento econômico das nações.

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