A lição a se tirar neste um ano de Pinheirinho

Primeiro post do ano, nesta altura de janeiro em 2012 eu estava pegando algumas mudas de roupa e o computador para passar alguns dias em São José dos Campos. Nesta altura do campeonato já havia pedido de reintegração de posse aceito para desalojar as famílias do Pinheirinho e eu arrumava minhas malas para ir passar alguns dias em Jacareí.

Dia 22 de janeiro fará 1 ano do massacre promovido pelo tucanato contra xs moradores do Pinheirinho. Das experiências do ano passado talvez uma das mais intensas que vivi até agora.

Durante toda a sexta-feira (14 de janeiro) advogados e lideranças da ocupação estiveram reunidos com o governo federal e estadual construindo um protocolo para a regularização da área. A prefeitura também foi chamada para a reunião, porém não compareceu e ao receber a proposta construída durante o encontro ficou de pensar sobre o caso, porém sem estipular qual o prazo necessário para avaliar a proposta e ter uma posição oficial sobre o que foi proposto, informou o advogado do movimento Toninho. Segundo os advogados presentes na reunião com o governo federal e estadual a prefeitura não teria que arcar financeiramente com nada, apenas com a burocracia de tornar a região ocupada em Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) para poder regularizar uma ocupação que hoje é efetivamente um bairro de São José dos Campos, contando com casas de alvenaria equipadas com telefone e antenas parabólicas, mas sem luz provida pelas concessionárias de energia locais oficialmente por conta da decisão do prefeito Eduardo Cury de não conceder as condições de regularização da área. (FRANCA, Luka. Ocupar, resistir, enfrentar! Do Pinheirinho eu não saio não)

Os impasses jurídicos, as negociações com o governo, as mobilizações pelo país e até mesmo algumas unidades históricas me demonstraram a força enorme que a classe trabalhadora tem e o quanto a unidade da esquerda classista nesses momentos é fundamental, sem sectarismos, mas construindo no quente a luta de classes.

Um ano depois, os moradores ainda lutam por justiça. “Temos o dever de nunca olvidarmos, para que não venha acontecer novamente e, principalmente, exigir moradia para as famílias desalojadas e punição aos responsáveis, disse Antônio Donizete Ferreira, advogado e liderança da ocupação. (CANDIDO, Luciana.  Há um ano da desocupação, moradores do Pinheirinho ainda buscam justiça)

O Pinheirinho abriu o ano de 2012 em luta, luta difícil que resultou em uma das ações da tropa de choque mais truculentas. Uma lavada de mão por parte do governo estadual, mas também por parte do governo federal, pois Dilma poderia sim ter assinado documento dizendo que aquela área era área de interesse social da União, porém não o fez e não o faria.

Lembro do meu telefone tocando no domingo de manhã, eu pulando por cima do meu companheiro para mandar emails e acionar alguns contatos que eu tinha em São Paulo e na região do Vale do Paraíba  A desocupação havia começado às 5 da manhã, alguns meses depois voltei lá junto com uma equipe de TV e reencontrei algumas pessoas que conheci durante o mês de janeiro de 2012, várias com quem tinha passado muito tempo conversando e com o bolsa-aluguel mal tinham conseguido reorganizar o espaço para morar.

O ano de 2012 abriu mostrando o quanto a burguesia brasileira odeia mulheres negras, homens, crianças e idosxs do povo trabalhador desse país, pois durante todo ano não foi apenas do massacre do Pinheirinho que a especulação imobiliária e o descaso pelo afã neo-desenvolvimentista legou em diversas regiões do nosso país.

O Pinheirinho virou símbolo da luta pela moradia, contra o genocídio da população negra, das mulheres e por direitos humanos. Assim como no final do ano os Guarani Kaiowá também viraram este símbolo ao escrever mais um parte de sua dura história de lutas contra o governo estadual do MS, agronegócio e o governo federal.

O problema é que no final das contas acabamos por viver de arautos, mártires e símbolos. É óbvio que há sempre a dor que dói mais profundamente, que toca aos outros e provoca mobilização social, porém nenhuma dor é maior do que a outra e elas todas em conjunto fazem parte do que nós militantes convencionamos chamar de programa.

Em 2012 o Pinheirinho era a cracolândia, a juventude periférica esmagada pela truculência policial, a luta quilombola e indígena, as mulheres e todos aqueles que lutam, que batalham dia após dia para se endividar no crediário das Casas Bahia e poder garantir uma vida melhor para seus entes queridos.

Hoje o Pinheirinho continua sendo as periferias brasileiras onde a juventude morre, não apenas pela truculência policial chefiada pelo tucanato, em alguns lugares quem chefia também é quem faz parte da base do projeto de sociedade do governo Dilma. A vida daqueles que trabalham, dos que precisam de moradia assim como eu e você, daquelas que enlouquecem por não conseguir vagas nas creches da cidade que for. O muro da desigualdade deve ir abaixo, mas é preciso ir de forma contundente, sem conciliação com aqueles que olham a terra urbana e a querem especular, ou com gente que explora trabalho escravo.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou, nesta sexta-feira, 11 de janeiro, a tentativa feita pela MRV de suspender, por meio de um mandato de segurança, sua reinserção no cadastro de empregadores flagrados explorando trabalho escravo. A empresa voltou à relação na atualização semestral divulgada em 28 de dezembro. A “lista suja”, como é conhecida a relação, é mantida pelo Ministério do Trabalho e Emprego e pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, e serve como parâmetro para financiamentos de bancos públicos e transações comerciais das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. (SANTINI, Daniel. Tentativa da MRV de forçar na Justiça saída da “lista suja” fracassa)

A lição que podemos tirar do massacre de quase 1 ano atrás é que o governo tucano mostrou que há uma faceta mais reacionária que as outras na sociedade, porém representando projetos muito parecidos, com mudanças localizadas em reformas bem pontuais, que melhoram num primeiro momento a nossa vida, mas a longo prazo beneficiam ao outro lado com o tanto que garante para o fortalecimento dos exploradores.

Em São José dos Campos vimos em prática o projeto de sociedade do PSDB, a omissão do governo federal e a necessidade concreta da unidade da esquerda socialista brasileira, independente da ferramenta em que estejam organizados. No final das contas o Pinheirinho só mostrou o que os saltimbancos já nos cantam há anos: Juntos somos fortes.

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