Comunicação, gênero e violência: Mais um passo na construção da disputa de poder

Normalmente pensamos o debate de gênero e o debate de comunicação dentro da perspectiva da publicidade, e há inúmeros motivos para isso, seja as propagandas de cerveja, as de lingerie, as de brinquedos para crianças. A manutenção e reflexão do machismo e da sociedade patriarcal transborda na maioria das peças publicitárias.

Além da publicidade tem a nova-velha polêmica sobre o humor, sobre piadas machistas, racistas e homofóbicas que reaparece sempre no debate da comunicação também. Porém sinto as vezes que ficamos apenas na superfície do problema, criticamos uma piada machista, uma peça publicitária misógina, os esteriótipos das mulheres nas novelas e nunca localizamos o modelo de comunicação junto a sociedade em que vivemos e como isso ajuda manter um status quo que ajuda a oprimir mulheres, negrxs e LGBTs.

Violência é tema recorrente aqui no Blogueiras Feministas, além disso criticar piadas sobre o tema se tornou perseguição a liberdade de expressão. Ou seja, o Rafinha Bastos pode ridicularizar uma situação de estupro que tudo bem, a Prudence pode em sua campanha publicitária incluir como fantasia sexual estupro de mulheres e quem questionar isso corrobora para o atentado contra a liberdade de expressão.

Só lembrar do primeiro programa do Pedro Bial na Globo, tratando exatamente do tal politicamente correto. Ou seja, você reconhecer que há diferenças sociais entre negrxs e brancxs, homens e mulheres, heteros e LGBTs, ricos e pobres em nosso país e questionar piadas que reafirmam estas diferenças, ou que influem diretamente na perpetuação da violência é tolhir liberdade de expressão. (FRANCA, Luka. Prudence e a fetichização do estupro)

Há no Brasil, como no mundo, um monopólio das empresas de comunicação e este monopólio ajuda a estruturar, refletir e manter a ordem social vigente. É por isso que quando vemos a estruturação do segmento de comunicação para mulheres nós vemos algo que não debate política, economia geral, cotidiano e afins. Como se estes assuntos não estivessem presentes no nosso cotidiano, como se nos anos 80 não tive sido nós a ir para rua questionar o aumento do custo de vida. A estrutura de comunicação brasileira ajuda a manter os pilares de opressão racista, machista e homofóbica em um estado capitalista e quando faz isso ajuda a permear também uma forma de organização social e cultural de violência.

As ferramentas tem o poder que a política e as organizações sociais dão a ela, não fazem mágica por si só, não perpetuam ideologia espontaneamente de suas ligações elétricas. Se a mídia hoje também se estrutura de uma forma a manter o status quo social, repassar ideologicamente diversos valores na forma em que estrutura seus cadernos de notícias, suas peças publicitárias e novelas é por que se localiza em uma sociedade patriarcal, homofóbica, escravocrata e capitalista. Ela mantém este status quo por que faz parte de um modelo de negócio e para se manter esse negócio é preciso manter ideologicamente uma determinada organização social baseada na opressão.

Isso passa de quais critérios se tem para regulamentar a mídia, por que talvez as pessoas não saibam, mas o que chega por sinal aberto ou fechado naquela caixinha de cores é regulamentado, mal e porcamente, mas é regulamentado. Você pensar que questões ligadas aos direitos humanos são fundamentais entrarem como critério de regulamentação da mídia é pensar em como fazer uma disputa ideológica também com o modelo de negócio da comunicação que temos visto, pois pensar uma programação que não corrobore com a política do medo, com a espetacularização do crime e afins também é disputa ideológica de qual sociedade realmente queremos organizar e não ajudar a perpetuar este sistema que já deixa mostras claras de não conseguir ser reformado.

 É criar dentro da barbárie que vem se instaurando uma necessária disputa de poder e esta disputa de poder reverbera no que é produzido pelos meios de comunicação, pois notícias, peças publicitárias e afins são produto também da correlação de forças sociais que temos na sociedade e atualmente é o recrudescimento do estado penal e do reacionarismo que vem vencendo a batalha, nos colocando apenas numa perspectiva de reação as absurdices que veiculam.

Porém é leviano simplificar o debate sobre liberdade sexual e direitos reprodutivos da mulher como o professor Luiz Felipe Pondé fez no artigo Meninas Fáceis publicado na Folha de São Paulo do dia 03 de maio. Usar linguagem descolada para por no mesmo saco estupro e liberdade sexual é no mínimo maquiavélico, reforçar argumentos conservadores culpando as mulheres como era feito na década de 30 e 40 é perigoso e ajuda a reforçar uma construção social de que a mulher é propriedade do homem e deve se portar com parcimônia pois seu papel natural é o de mãe monogâmica, garantindo assim ao homem que os filhos gerados daquela relação sejam realmente dele. (FRANCA,Luka. Fácil pra quem?)

Pensar um projeto de comunicação ousado, que enfrente realmente as opressões estruturantes da nossa sociedade, consiga formular notícia de forma antisistêmica, quebrar os modelos pré-estabelecidos e entrar num ambiente de subversão é fundamental. Porém nós nos adaptamos, dizemos fazer novidades, mas perpetuamos o modelo de negócio do fazer comunicação, esquecemos lições de atuação em rede importantes como o telégrafo ou o radio amadorismo e acrescentar nestas experiências que retomamos hoje de redes, articulações e afins pitadas gigantescas de ousadia e não uma ferramenta de para ajudar a despolitizar os debates, minimizá-los e corroborar com uma lógica de mídia de massa que para nós não é interessante, pois só ajuda manter status quo.

Como falar das taxas de violência machista, homofóbica e do genocídio da juventude negra sem sermos gelados, pois naqueles números ditos pela TV, sites, rádio e jornais estão nossos parentes, amigos, namoradas… Quando falamos de comunicação, gênero e violência não é apenas de conteúdo que estamos falando, é de estrutura social, de disputa de poder e necessidade de nos organizarmos de formas a disputar ideologicamente a sociedade para um outro projeto realmente emancipador para todxs nós.

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