Avenida Brasil e Carminha: é machista por que é punitivista

Eu gosto de assistir novela, aprendi com a minha mãe e as minhas tias, gosto de falar da estrutura da ficção, torcer pela personagem mais legal, me identificar com esta ou aquela personagem e afins. Atualmente com uma vida louca cabulosa não tenho conseguido acompanhar nenhuma novela. Mas to refletindo pra escrever este post já faz um tempo.

Bem, não dá para você falar de relação entre a mídia e a sociedade partindo do pressuposto apenas da sua experiência pessoal, A começar que o processo é dialético. Uma novela não apenas forma caldo ideológico como também reflete o senso-comum. É um processo dialético e nem um pouco simples. A novela não apenas reflete o que existe na sociedade, mas ela também ajuda a manter o status quo, o qual pode ser mais ou menos progressista dependendo do enredo, das reviravoltas da trama e, é claro, da própria organização do debate a sociedade. O processo se dá junto e combinado e compreender isso é chave para se criticar, pois aí você olha socialmente e não do alto do seu empoderamento pessoal diante de como analisar algumas questões.

Nessas novelas, homens apanhando não são vendidos como espetáculo, por pior que tenham se portado. Pode ter lá uma briga e uns sopapos, mas não há essa conotação moral. A surra na vilã é atração da semana, às vezes um dos pontos altos da trama. Dá capa em revista semanal e pico de audiência. Os pecados dessas mulheres variam muito: umas foram adúlteras, outras só foram sensuais; umas são estelionatárias, outras assassinas. Então não interessa se é um crime que pode ser apurado e punido por lei, se é uma fraqueza de caráter ou um simples desvio de conduta de acordo com a moral estabelecida. A pena prevista é uma só: surra.(PAIVA, Iara. Mas mulher apanhando dá audiência, né?)

Não vou começar a falar por que baterem na Carminha em “Avenida Brasil” é machista, como eu disse a novela ela reflete e mantém o status quo social. Acho que a reflexão é anterior, é como uma lógica social punitivista está intrísecamente ligada a uma lógica social patriarcal e é isso que me incomoda em “Avenida Brasil” desde o começo.

Um estado autoritário é também um estado que não respeita os direitos de suas minorias. São Pinheirinhos, Carajás, Sabra e Chatila, Guarani Kayowaá, incêndios criminosos em favelas e tantas outras coisas que limpam a cidade para que quem tem dinheiro possa usá-la. Não é esse partido ou aquele, mas sim o colocar em prática uma política de organização do estado que não beneficia a liberdade, mas sim a repressão e quem primeiro sofre com isso são as pessoas que tem menos direitos: os pobres, as mulheres, LGBTs, negrxs.

Ser feminista e se dizer apolítica, ou corroborar com políticas públicas que nos afetam e nos sucumbem ao status quo não deve ser o almejado. Não quero um mundo menos pior para as mulheres, mas isso não passa apenas por acertar um voto, isso passa por que espaços conseguimos organizar para discutir e pensar qual mundo queremos. Uma andorinha só não faz verão, mas ela pode acordar o bando inteiro. (FRANCA, Luka. Mulheres, fascismo e estado penal)

Pontuo isso por que no final das contas é sobre isso que “Avenida Brasil” trata: de todo mundo poder resolver por si mesmo seus problemas e usar  o método que for para fazê-lo. A começar pela Nina, que vai se vingar da Carminha, ou seja, julgamento sumário está valendo. A Nina pode torturar a Carminha, a Carminha pode torturar a Nina, o Tufão pode bater na Carminha, a Ivana pode ameaçar o Max e está tudo bem, por que o que vale é cada um resolver o problema da sua forma: julgar, condenar e punir da forma que bem achar plausível.

É por isso que a novela é machista e é punitivista, não é por um episódio pinçado e esperado arduamente, ou é normal as timelines de todo mundo, nas padarias você ouvir sempre que uma dessas cenas acontece algo do tipo: a mais mereciam mesmo, tinha que ser torturada, apanhar e afins. Isso é sadismo, isso reflete o quanto a sociedade está pouco ligando para como estruturamos o nosso estado e um estado punitivista no pior estilo Judge Dredd só corrobora para uma organização conservadora que atenta contra os direitos humanos (mulheres, LGBTs, negrxs, indígenas e afins).

Há um dado concreto de que as maiores surras exibidas nas novelas foram realizadas contra mulheres, e isso já dava um debate inteiro sobre como se estrutura ideologicamente o discurso. Mas não quero me ater a isso, quero me ater ao fato de que todas as personagens da trama tem total poder de realizar julgamentos e punições e isso é perigoso.

As pessoas envolvidas em casos de violência contra mulheres colocam em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: quem não se enquadra em um padrão moral que nos foi empurrado – e que não obedece à hegemonia masculina, heterossexual e cristã – é a corja da sociedade e age para corromper o nosso modo de vida e tornar a existência dos “cidadãos de bem” um inferno. Seres que nos ameaçam com sua liberdade, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos “homens de bem”.

Quando uma mulher tem uma relação extraconjugal, o coletivo não a agride por ter rompido unilateralmente um acordo interno do casal, mas por ter desrespeitado uma regra social que todas as outras pessoas estão obrigadas a obedecer. Quem é ela para achar que pode ser melhor do que os outros? (SAKAMOTO, Leonardo. Que tal processar Tufão pela Lei Maria da Penha?)

Carminha apanhou não pelos crimes que cometeu na trama, mas por que traiu Tufão, e isso no diálogo é deixado claro. Max apanhou também por que traiu, por que subverteu como as relações entre pessoas devem ser constituídas, deixaram de ser propriedade, foi por isso que apanharam. Assim como Suellen foi punida por exercer sua liberdade sexual e depois novamente punida na novela quando é encarcerada pelo homem que a traficou (engraçado que disso todo mundo esquece).

O julgamento sumário em “Avenida Brasil” acontece a torto e a direito, e é dado a todos o direito de punir, mas o principal alvo dessas punições sumárias são entre as mulheres, mesmo que seja da Nina punir a Carminha. E isso reflete e fomenta uma lógica social, que é a lógica social que vimos em 2006 e vemos novamente, onde as pessoas podem sim julgar, condenar e punir. Onde ex-maridos decidem se mantém ou não a vida das mulheres com quem se relacionaram, ou esquecemos de Maria Islaine, Mércia Nakashima, Eliza Samudio e Eloá?

A grande mídia nos bombardeia com os trágicos casos de Eliza Samudio e Mércia Nakashima, porém estes não são casos isolados, não ocorreram por que Bruno e Ismael são maçãs podres na cesta e se retiradas do convívio social o resto estará protegido de sua influência nefasta. Segundo o estudo Mapa da Violência no Brasil 2010 do Instituto Zangari dez mulheres foram assassinadas por dia no Brasil entre os anos de 1997 e 2007 em um total de 41.532 mortas, Eliza e Mércia engrossam a estatística que coloca o nosso país acima do padrão internacional e Bruno e Ismael nada mais são de uma parte das maçãs podres que enxergam nas mulheres um objeto a ser usado e jogado fora, que não tem direito a decidir o final de uma relação, são mais dois exemplos de como a mulher não tem autonomia alguma assegurada neste país. (FRANCA, Luka. Mais uma vítima do descaso com o problema da violência contra a mulher)

E essa lógica não se coloca apenas nas relações entre homens e mulheres. O processo de extermínio da juventude negra e de encarceramento em massa que vive o Brasil também chega na lógica punitivista refletida e perpetuada por “Avenida Brasil”. É a lógica do bandido bom é bandido morto, para uns a saída é apenas o julgamento sumário, a justiça pelas próprias mãos e o foda-se os direitos humanos por que precisamos de humanos direitos. É essa reflexão que “Avenida Brasil” traz desde o seu começo com todos os seus personagens, cada um pode resolver seus impasses com os outros pegando os métodos que quiserem: tortura, tapas, socos e escurraços.

Nós deixamos isso passar por que entramos no transe, é só uma novela, assim como é só uma piada. Ninguém fala sobre as porradas que Max sofreu, ou a tortura feita por Nina a Carminha, ou a tentativa de assassinato de Nina por Carminha e tantas outras soluções sumárias que a novela nos apresentou. É machista por que é punitivista, mostra uma forma de estruturar o poder que mantém patriarcado e as estruturas vigentes. Pelo menos para mim é esse o debate e não o debate de: eu sei fazer o distanciamento entre ficção e realidade.

Ou agora vão dizer que uma novela é menos pior que uma piada machista?

6 respostas para Avenida Brasil e Carminha: é machista por que é punitivista

  1. Tava com a maior preguiça desse debate, mas você veio e explicou exatamente o que eu penso. É a lógica do vale tudo, da solução individual, sem lei, sem estado, pode bater, pode torturar. Se você “tortura” por uma boa causa pode. Essa é a mensagem da novela como um todo.

    • Luka – Autor

      Sim, e acho que é importante compreender que a novela em si reflete e mantém uma estruturação social x, não é um entretenimento por entretenimento, essa lógica é pobre e contraditória quando vamos pensar nos questionamentos sobre publicidade ou piadas machistas, então criticar publicidade e piada machista pode, mas questionar novela que é entretenimento igual, pior constrói enredo durante meses e ajuda a manter o que tá aí não dá?

      Fora a lógica de também pensar que mudança dentro do entretenimento e afins tem como construir enredos mais progressistas, ainda mais nesse momento que vivemos. Tipo já tivemos Malu Mulher, era interessante e questionava coisas importantes nos anos 70 que não eram fáceis de serem questionadas, isso não conta? Só o que há hj e agora conta? Que análise pobre é esta então que temos por aí?

  2. Debora

    Que gente mais chaaaaataaaaa!!! É uma trama de novela, gente! Pra dramaturgia dar certo, ela tem que fazer emocionar! E isso acontece quando tem mocinhos e vilões. E que emoção causaria o Tufão chamando a polícia pra prender a Carminha? Ela sempre foi super temperamental e extremista. Precisava receber algo a altura dos sentimentos que nos provocou. Que provocou em todos. Aposto que muita gente que acha isso um absurdo, ama os filmes do Nelson Rodrigues e todas as histórias desse “submundo” que move a “ficção”.

    • Luka – Autor

      Debora,

      Minha problematização não é com o entretenimento das pessoas, por entretenimento é apenas uma parte da colcha de retalhos social, como falei em outro comentário teve época em que tivemos na TV seriados como Malu Mulher ou novelas como Roque Santeiro que cabiam, divertiam e eram críticas, fomentavam algum debate, hoje isso não há e não é só por causa da industria do entretenimento, mas também por que pra sociedade em geral tudo bem ir lá e resolver tudo por si só e é isso que Avenida Brasil reflete e ajuda a manter: os fins justificam os meios. Me causa estarrecimento é gente que critica piada machista, livros assim ou assado e publicidade misógina dizer que novela é novela e é intocável quando não é.

      Essas coisas todas são produtos sociais e vão refletir e ajudar a manter um tecido social dependendo a conjuntura, hoje Avenida Brasil ajuda a manter uma lógica de que cada um pode julgar, punir e definir método do de punição como bem quiser. Se a Nina tortura a Carminha ela pode, por que a Carminha merece, se a Carminha atira na Nina pode por que a Nina ia chantagear a Carminha, se tiram a roupa da Suellen ela merece por que é periguete, isso é plausível? Eu acho que nada disso justifica e acho que a lógica é entretenimento não se questiona um tanto raso, por que arte e entretenimento é produto social, faz parte de como hoje a sociedade é tomada ideologicamente. É isso… Pelamor não é uma crítica ao seu direito liberal ao entretenimento, mas sim ao que estamos produzindo e refletindo em nossa sociedade. Pq é isso, hoje vale tudo, até tribunal de exceção pode.

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