A guerra invisível das vítimas de estupro nas tropas dos EUA

Violência sexual sempre é tema recorrente em blogs feministas, quando se fala de violência contra a mulher nos jornais sempre é lembrado dos altos índices de estupro existentes no Brasil. Cerca de 15 mil mulheres são estupradas por ano no nosso país e ainda nos deparamos com piadinhas e tentativas de ganho publicitário sobre o tema.

Há uma dificuldade rela em se falar sobre estupro e afins, óbvio, é uma violência e praticada em uma sociedade patriarcal, onde querendo ou não há uma tremenda culpabilização das vítimas e um tabu enorme para que possamos tratar esse assunto de forma séria. Ou quando não é o tabu é propaganda ou humorista tirando sarro de episódios de violência sexual.

É quase natural não falarmos de direito a cidade quando falamos de violência sexual, não encaramos que o espaço urbano e até mesmo de outros aparelhos sociais são espaços que se organizam de forma a propiciar a violência contra mulher, e não é por que foram construídos e organizados por homens demoníacos, mas pelo fato de terem sido organizados em uma sociedade patriarcal, onde os papéis de gênero se delimitam inclusive quais espaços são ocupados por homens e mulheres: homens o espaço público e mulheres o espaço privado.

Mas, é preciso ir além da discussão de segurança nas cidades e questionar os pressupostos sociais e culturais a respeito do que é considerado o “lugar” adequado para a mulher na sociedade e, consequentemente, na cidade. Ou seja, não se deve focar apenas nas intervenções de infraestrutura por si só. Mudanças apenas no espaço da cidade, sem articular com uma posição clara sobre o direito das mulheres como cidadãs e seu direito à cidade, não é suficiente para garantir a segurança das mulheres nos espaços públicos. (NEDER, Renata. Cidades mais seguras para mulheres)

O espaço público na sociedade é organizado de uma forma a excluir as mulheres que normalmente acabamos vendando os olhos para situações que podem sim ocasionar crimes sexuais, como os casos do metrô de São Paulo ou os casos que vem sendo divulgados na mídia estado unidense sobre estupros de militares mulheres nos EUA após o lançamento do documentário The Invisible War de Kirby Dick no começo deste ano.

Os gêneros masculino e feminino ocupam espaços diferentes dentro das cidades, quem dirá no serviço militar. Em matéria da CNN de abril algumas vítimas de estupro dentro da comunidade militar estado unidense revelam que após reportarem as instâncias devidas a violência sofrida receberam laudos de que eram psicologicamente instáveis, além de terem ouvido de superiores coisas como:

Don’t come bitching to me because you had sex and changed your mind

Não venha reclamar para mim só por que você teve relações sexuais e mudou de idéia

Ou

Forget about it. It never happened

Esqueça isso, nunca aconteceu

Não é mera coincidência quando ouvimos relatos de mulheres que foram culpabilizadas pela violência sofrida ao reportarem isso as autoridades competentes. Os casos de estupro dentro das tropas estado unidense tem crescido durante os últimos anos, segundo o próprio Pentágono. O Secretário de Defesa Leon Panetta chegou até a afirmar que:

Sexual assault has no place in this department. It is an affront to the basic American values we defend, and to the good honor of our service members and their families

Estupros não tem lugar neste departamento. É uma afronta aos valores americanos básicos defendidos por nós e para a honra daqueles que servem a nós e para suas famílias.

Na mesma matéria Panetta também revela que muito ainda precisa ser feito para combater os casos de abusos sexuais dentro das tropas estado unidense, até por que o Pentágono estima que a cada ano 19 mil militares (homens e mulheres) são vítimas de crimes sexuais cometidos por colegas de tropa. Panetta foi a público falar sobre os casos e divulgar oficialmente estes dados dois dias antes do filme de Dick ir a público no festival de Sundance.

The numbers around the level of sex assault in the military are staggering. There is so much of this going on in the US military that women soldiers’ advocacy groups have created a new term for it: military sexual trauma or MST. Last year, there were 3,158 cases of sexual assault reported within the military. The Service Women’s Action Network notes that rape is always under-reported, and that a military context offers additional hurdles to rape victims: the Department of Defense, they point out, estimates that these numbers are misleading because fewer than 14% of survivors report an assault. The DoD estimates that in 2010 alone, over 19,000 sexual assaults occurred in the military. (WOLF, Naomi. A culture of coverup: rape in the ranks of the US military)

Os números relativos a agressão sexual no exército são surpreendentes. São tantos casos como estes acontecendo no exército dos EUA que grupos de defesa das militares criaram um novo termo para isso: trauma sexual militar ou TSM. No ano passado, foram 3.158 casos de violência sexual relatados dentro das forças armadas. O Service Women’s Action Network observa que o estupro é sempre sub-relatado, e que um contexto militar oferece dificuldades adicionais para as vítimas de estupro: o Departamento de Defesa, é estimado que esses números são enganadores, porque menos de 14% das sobreviventes que relatam um ataque. O Departamento de Defesa estima que só em 2010 mais de 19 mil agressões sexuais ocorreram nas forças armadas. (WOLF. Naomi. Uma cultura de encobrimento: estupro nas fileiras do exército dos EUA)

O que acontece dentro do serviço militar dos EUA raramente extrapola para o conjunto da sociedade saber, tanto que muitos tem as tropas estado unidense como arautos da moral, honra e bons costumes (seja lá o que estas coisas signifiquem em uma sociedade preconceituosa, fundamentalista e afins). Desde o lançamento do The Invisible War em Janeiro o tema ganha mais espaço em diversos meios de comunicação.

A pergunta que fica é: 19 mil são apenas os casos relatados, quantos mais ocorreram? E no Brasil que há, como já dito, 15 mil casos de estupro por ano entre os civis, em um país de cultura machista tão arraigada não seria de estranhar haver casos não públicos de crimes sexuais dentro das tropas militares brasileiras. Mas em um país que vem tentando a passos de tartaruga investigar os crimes dos militares durante a Ditadura Civil Militar em velocidade de lesminha, é bem difícil vir a público casos de violência sexual se existirem.

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