É preciso enfrentar o racismo para realmente proteger filhxs de casamentos interraciais

Ainda de férias na terrinha, me deparando com algumas coisas que não fazem sentido algum para mim e estudando pra enterder melhor o que não faz sentido em Belém. Porém em meio as férias me deparei hoje com um texto do Bispo Edir Macedo sobre casamento intergeracional e interracial. A máxima do texto não é a de combater o preconceito geracional ou racial, mas na verdade prevenir que ele não aconteça, ou seja, aconselhar aos homens que não se casem com mulheres mais velhas ou de raça diferente da sua para que a família não sofra com o preconceito encontrado dentro da IURD ou da sociedade em geral.

Além do pesado conteúdo racista, ao colocar que os homens da IURD deveriam pensar duas vezes antes de casar com mulheres de raça diferente da sua, o texto do principal líder religioso da Universal do Reino de Deus ainda é deveras machista, pois ainda coloca a culpa do adultério nas mulheres que envelhecem mais rápido do que os homens, o fato de que um homem mais velho se casar com uma mulher mais nova não ser problema, além de colocar todo o peso da decisão de se casar ou não sobre o ombro masculino, deixando de aldo os anseios das mulheres… Porém o mais gritante é a questão racial no texto.

Ora, a reivindicação do casamento interracial foi pauta importante para a luta do movimento negro e antirracista pelo mundo, até pouco tempo negrxs e brancxs não podiam se casar pois estariam comentendo um crime junto a lei de diversos países. A máxima propagada no texto do líder da IURD é a de que o racismo existe no mundo, xs filhxs de casis interraciais sofrerão com o preconceito, logo não devemos combater o racismo no mundo, mas refletir se as pessoas devem casar e ter filhxs com gente de raça diferente por causa da missão maior da igreja, ou seja, não vamos combater o racismo, o aceitem e casem com gente que tem a mesma raça que você, igual era durante os processos segregacionistas no mundo.

Podemos questionar a instituição casamento da forma apresentada aí na sociedade para constituição de núcleos sociais e afins, talvez seja por este motivo que qualquer argumentação que visse restringir as formas de relacionamento, seja pela monogamia, heterossexualidade e agora este debate sobre casamento interracial e intergeracional.

Porém não é a primeira vez que aparece conselhos para se ter cautela com o casamento interracial em pregações protestantes e afins, a profetisa adventista Ellen White, lá nos idos do século XIX nos EUA, sempre numa perspectiva de não se questionar o status quo, de manter como as coisas estão sem questionamentos e nem enfrentamentos para mudar a sociedade.

Somos uma irmandade. Não importa qual o ganho ou a perda, temos de agir nobre e corajosamente à vista de Deus e de nosso Salvador. Que nós, como cristãos que aceitam o princípio de que todas as pessoas, brancas e negras, são livres e iguais, adotemos este princípio, e não sejamos covardes em face do mundo, e em face dos seres celestiais. Devemos tratar as pessoas não-brancas com o mesmíssimo respeito com que tratamos as brancas. E podemos agora, por preceito e pelo exemplo, ganhar outros para o mesmo procedimento.

Mas há uma objeção ao casamento de brancos com negros. Todos devem considerar que não têm o direito de trazer a sua prole aquilo que a coloca em desvantagem; não têm o direito de lhe dar como patrimônio hereditário uma condição que os sujeitaria a uma vida de humilhação. Os filhos desses casamentos mistos têm um sentimento de amargura para com os pais que lhes deram essa herança para toda a vida. Por essa razão, caso não houvesse outras, não deveria haver casamentos entre brancos e negros. (WHITE, Ellen. Manuscrito 7, 1986. Ellen White e os Conselhos contra o Casamento inter-racial)

Tais argumento tanto hoje em dia quanto nos séculos passados só ajudam a manter o status quo racista da nossa sociedade, sem colocar parâmetros de que o considerado diferente deve ser tratado igual e não deve ser excluído desta forma. A preocupação com as crianças advindas de casamentos interracias só existe por que existe racismo e não é fingindo que este racismo não existe que o preconceito acaba, é confrontando, é mostrando as incoerências e as diferenças de tratamento entre homens e mulheres, negrxs e brancxs, heteros e LGBTs que combatemos o preconceito, pois opressão deve ser combatida em todos os ambitos.

Precisamos cada vez mais de Mildreds e menos de Edirs. Pois é visível o quanto o recrudescimento conservador não só no Brasil, mas no mundo tem avançado até mesmo por cima dos direitos que já conquistamos, tentando dar uma maquiagem nova a argumentos velhos e recalcados que só escondem embaixo de palavras bonitas o racismo, machismo e homofobia. Atacando assim diretamente tantos acumulos sobre direitos humanos que temos obtido através das décadas com muita luta.

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