Marcha das Vadias e a feiura de assumir lados e ideologias

Como é de costume continuo corrida com a vida por aqui, mas não tinha como não parar e escrever sobre a Marcha das Vadias que rolará amanhã em diversas cidades brasileiras, igual ao ano passado o debate se este espaço é ou não um espaço em que as feministas devam estar, ou se é parte ou não do movimento feminista retornou durante a organização da manifestação.

Muito bem, há feministas no mundo todo que acham que este espaço da Marcha das Vadias não é um espaço feminista. Eu não me enquadro neste perfil, na verdade acredito na apropriação de qualquer espaço que debate violência machista e acho que se apropriar de espaços como este é fundamental, ainda mais, é um desafio para o movimento feminista no mundo todo. Tenho pensado tanto nisso que até minhas avaliações sobre o Femen tem mudado brutalmente, mas isso é tema para outro post.

O processo de culpabilização das vítimas de violência sexual, no Brasil e no mundo, acaba por se basear mais ou menos por causa do papel atribuído aos diferentes gêneros em uma sociedade patriarcal e machista. Ou seja, quando o gênero feminino se retira do seu lugar natural e se coloca em outro acaba por ser reprimido violentamente.

Ora, o que mais subverte a lógica dos papéis construídos socialmente para nós do que  se colocar na rua? Nosso papel é o do lugar privado, se não estamos ali então devemos ser punidas por tal e é óbvio que a justificativa recaí sobre o fato de estarmos vestidas desta ou daquela maneira. Mas no fundo é por que historicamente e socialmente o espaço público da sociedade foi construído para ser ocupado pelos homens. É o lugar “natural” deles e quando nos colocamos neste lugar é preciso que sejamos punidas e esta punição se manifesta em forma de todos os tipos de violência.

É por este motivo que não há como uma Marcha das Vadias não ser feminista, porque questiona o status quo posto na sociedade para homens e mulheres, justamente por questionar o papel social construído para os gêneros durante os séculos.

Porém, em um país onde 10 mulheres morrem por dia, onde no início do governo da primeira mulher presidente corta-se a verba do Pacto de Enfrentamento à Violência Contra Mulher em 23% do já combalido orçamento destinado a este programa, não é importante a iniciativa de mulheres irem para as ruas pautar a discussão de violência sexual? Só se faz disputa de hegemonia dispuando a hegemonia, pois não há lugar vago na política, se não houver setores no SlutWalk brasileiro dispostos a pautar o debate sobre violência machista e mercantilização do corpo da mulher e das relações sociais com propriedade é óbvio que a ideologia prenominante será a do senso comum, sem aprofundar a discussão e afins. (FRANCA, Luka. SlutWalk e os desafios do feminismo no Brasil)

Porém esta negação de ideologias não é só com o feminismo, mas também sobre qualquer outra ideologia que tenha claramente programa para modificar o status quo social armado há séculos. É feio assumir qualquer lado que for, seja quando se trata da luta das mulheres contra a violência machista, seja quando se trata dxs trabalhadorxs do metrô ao entrarem em greve. É feio questionar a sociedade, ter lado, querer saber de política e ter ideologia, foi este o legado nos dado dos anos 90 até agora.

O problema manifestado por haver feministas organizando a Marcha das Vadias é o mesmo de se ter sindicalistas apoiando uma luta do movimento popular, perdemos o pé da política, da discussão de qual projeto de sociedade nós queremos e como não se quer mudar o projeto de sociedade – mesmo que ele exproprie homens e mulheres e violente brutalmente o gênero feminino – nós negamos ideologicamente quem quer fazê-lo, mesmo usando os mesmos argumentos feministas para explicar o motivo de se manifestar contra a violência sexual.

Quem fica em cima do muro nada mais faz do que conservar o status quo, ou seja, a expropriação dxs trabalhadorxs e a violência machista.

Deixar escancarado qual projeto tu defendes para uma sociedade é fundamental, pelo menos para mim o é. Quando falamos de violência machista lembramos dos casos de estupro no metrô paulistano ano passado, da continua violência que trans e travestis sofrem apenas por se colocarem na sociedade no lugar de um gênero menor (vamos combinar, né? Gênero feminino na sociedade é um gênero menor) e das mulheres negras que historicamente são violentadas dia após dia e ainda tem negado por certos Demóstenes Torres insistem em dizer que no Brasil a miscigenação foi feita consensualmente por sinhozinhos e escravas.

Violência machista tem sido tema recorrente de piadas e vem gerado a revolta não apenas do movimento feminista, mas de mulheres que não se reconhecem feministas, homens, LGBTs e tantos outros setores oprimidos nesta sociedade machista, racista e homofóbica. Parte considerável dos problemas incitados nos programas de televisão, principalmente referentes a violência machista poderiam ser resolvidos pelos nossos governos, há anos é denunciado a falta de capacitação de profissionais para acolher mulheres em situação de violência, da falta de investimento do poder público na articulação de uma rede efetiva de combate à violência contra mulher. Isso combate diretamente e concretamente a violência machista, para além do necessário enfrentamento simbólico aos que acham engraçadinho perpetuar a violência contra mulher em piadinhas. (FRANCA, Luka. A misoginia do governo paulistano e sua representação no Zorra Total)

Pautar isso em todos os espaços de rua que existem, localizar concretamente onde está a violência machista para além dos simbolismos é fundamental, pois é preciso apontar quem é o responsável por implementar políticas que combatam substantivamente esta violência. Não localizar estes debates na ideologia e na ação política concreta de nada adianta, não ajuda a mudar estruturas, fica só no chororô individualista.

A violência que as mulheres (negras, trans, travestis, trabalhadoras) sofrem diariamente é advinda do machismo e do racismo também. Localizar isso não quer dizer que todos os homens são maus, ou todos os brancos são maus. Mas que há uma construção social onde há privilegiados por serem do gênero masculino ou por serem brancos, é construção social e na média das pesquisas quem é mais expropriado são as mulheres negras, trans e travestis.

Em 2010 foram 4.297 casos, o que representa uma média de 4,4 assassinatos por 100 mil mulheres. Com essa cifra, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil se insere na 7ª posição em uma lista com 84 países. Nos primeiros lugares estão El Salvador, com taxa de 10,3 homicídios para cada 100 mil mulheres, Trinidad e Tobago (7,9), Guatemala (7,9), Rússia (7,1), Colômbia (6,2) e Belize (4,6).  (Mapa da violência 2012 revela que 91 mil mulheres foram assassinadas de 1980 a 2010)

Me perdoem a falta de tato, mas não há como a Marcha das Vadias não ser recheada de ideologia, mesmo que suas fundadoras assim não quisessem. Só o seu tema já problematiza os lugares colocados para as mulheres na sociedade, se não está no privado então pode ter seu corpo expropriado pelos homens, incluindo aí as trabalhadoras do sexo e as mulheres trans e travestis. Se mostrar e ocupar espaço público sendo do gênero feminino não quer dizer poder ter seu corpo expropriado e punido.

Sim, a Marcha das Vadias é pura ideologia feminista, antirracista e se formos analisar mais cautelosamente até mesmo classista. Pois confronta o conservadorismo que vemos nas periferias. Aquelxs que negam a ideologia nestes espaços a única coisa que fazem é ajudar a perpetuar o horror da violência machista na sociedade, mesmo que inconscientemente.

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