80 anos da conquista do sufrágio feminino e que catzo isso tem com a nossa vida hoje?

Em vésperas de 8 de março sempre lembramos do quanto as conquistas das mulheres se deram em meio a muita luta, bom pontuar que não apenas luta das mulheres em si, mas da disputa ideológica feita na sociedade e nos próprios movimentos sociais para que apoiassem nossas lutas, pois como bem disse Rosa Luxemburgo: Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede.

Hoje fazem 80 anos que se conquistou o sufrágio feminino no Brasil, luta árdua das feministas do começo do século não apenas aqui, mas no mundo todo e devemos celebrar esta conquista, mas sem perder de vistas a necessidade de realmente se aprofundar o debate feminista e socialista sobre a participação da mulher na política. Não podemos obviamente deixar de lado o contexto histórico que as sufragistas estavam inseridas, momento em que no Brasil estava em ebulição política, fazia 10 anos da semana de arte moderna e do movimento tenentista e o Brasil vivia um momento de mudança política intensa, só lembrar que foi no mesmo ano em que São Paulo entrou em guerra com o Brasil por conta da derrota da ditadura do Café com Leite em 1930. A disputa política existia junto a sociedade e havia algum tipo de ascenso, se assim pode ser dito, o que torna o debate de idéias mais necessário e mais palatável a sociedade em geral.

É esse aspecto extremo da luta das sufragistas que mais impressiona e nos faz reflectir. Hoje não se tem uma ideia da coragem que foi precisa para desafiar as prisões sucessivas, a alimentação forçada por entubação – três vezes ao dia, por vezes semanas e meses a fio, até chegar ao limite da resistência física e mental – e, como se não bastasse, a hostilidade machista quando se apresentavam em público para fazer propaganda, em que eram recebidas com insultos, agressões e ataques com ovos, fruta podre e lixo.
Este ambiente profundamente hostil explica que as tácticas das sufragistas tenham sido tão radicais, inventivas e variadas. Junto do parlamento e do governo, não davam tréguas aos políticos; pressionavam os partidos e personalidades influentes, obrigavam-nos a explicar-se e a tomar posição; resistiam à acção da polícia prendendo-se com correntes de ferro às grades e monumentos; para combater a parcialidade da imprensa, criaram órgãos próprios que vendiam na rua aos milhares; nos julgamentos, recusavam-se a pagar multas e optavam sempre pela prisão; para chamar a atenção do grande público organizaram cortejos alegóricos, lançaram panfletos de um balão, passearam nas ruas uma carruagem puxada por mulheres, a simbolizar a opressão, exibiram cartazes num barco no Tamisa sob a varanda onde centenas de parlamentares tomavam chá. (BARRADAS, Ana. O movimento das sufragistas – Modelo de combatividade)

Há uma diferença substancial entre a luta sufragista e hoje o que ocorre nos corredores do congresso nacional, querendo ou não o debate do voto feminino ganhou espaço na agenda para além da institucionalidade, as mulheres não apenas iam ao parlamento fazer lobby, organizavam uma luta por aumento dos seus direitos políticos ao extremo, mostrando o quanto a sociedade estava se organizando não apenas submetida a lógica de classes, mas também reafirmando o poder de um gênero sobre o outro.

O tema que hoje é comemorado ainda continua em voga, mas com diferenças brutais, vemos um completo descolamento das lutas feministas da realidade da maioria das mulheres, ou seja, das trabalhadoras a maiores expropriadas da nossa sociedade. O travamento das lutas na rua, o profundo refluxo que vemos os diversos movimentos sociais incrustados e o lobysmo exacerbado, jogando a disputa ideológica presente principalmente na luta das mulheres contra uma sociedade de classes e patriarcal só mostra o quanto hoje o debate da necessidade de uma Reforma Política altamente democrática com profunda inclusão das mulheres da classe trabalhadora e com mecanismos que realmente acabem com o coronelismo ainda presente no Brasil urge, mas urge não apenas para o debate lá em Brasília, pois não é em Brasília que está a nossa força, nossa força para poder pressionar o planalto central está em Teresina, Vitória, Rio de Janeiro, São José dos Campos, Petrolina, Mato Grosso do Sul e tantas outras cidades brasileiras que hoje vem se confrontando contra os governos em todas as suas instâncias e jogando na cara do quão pouco democrático é este país que vivemos, uma sociedade nascida de uma abertura democrática pouco ampliada, que manteve em seu cerne o que vinha desde os tempos do Império, os feudos, o coronelismo, a truculência.

As organizações de mulheres que dantes reivindicavam uma prática organizativa democrática, com estruturas não hierárquicas, acabaram por imitar as instituições existentes. Seduzidas pelos financiamentos postos à sua disposição, dedicam-se agora a obras sociais ou de formação profissional, todas elas concorrendo, ainda que indirectamente, para o reforço do Estado e dos governos. Vêem a igualdade de direitos enquadrada no sistema e não denunciam a desigualdade fundamental, a económica, que condiciona mais do que todas as outras condições de vida das mulheres, sobremaneira deterioradas desde que se iniciou a dominação neoliberal. A acção feminista, virada para outros objectivos, não tem praticamente influência alguma nos salários das trabalhadoras mais exploradas e mais discriminadas e nos sectores em que predomina o emprego feminino mal pago (têxteis e vestuário, alimentação, serviços indiferenciados na educação e na saúde), embora as mulheres da classe média tenham vindo a ascender nas suas carreiras.
O crescente assalariamento das mulheres e as contradições de classe que as dividem (chefas e subordinadas, patroas e empregadas, senhoras e criadas) reduzem o espaço para as reivindicações comuns. Mesmo assim, causas como o direito ao aborto, o assédio sexual e a violência masculina têm condições para unir todas as mulheres.
Porém, mais campanha, menos campanha, o domínio do homem continua a exercer-se, dentro e fora de casa. Os políticos são os primeiros a dar o exemplo, com os seus governos, parlamentos e autarquias monocromaticamente preenchidos com o cinzentismo do fato e gravata. No mundo da hierarquia estatal e empresarial, a mesma coisa, a todos os níveis. Nos sindicatos e outras formações supostamente mais democráticas e populares, a mulher surge timidamente representada e sempre alinhada pelas posições dominantes.
No plano da vida quotidiana, não é só a violência contra as mulheres que as impede de se sentir livres e sem medo. É o salário desigual, a segregação sexual no local de trabalho, a condenação aos escalões mais baixos nas hierarquias, os efeitos gravosos da redução dos gastos públicos, a luta cada vez mais dura pela sobrevivência, a noção de que as conquistas relacionadas com os direitos reprodutivos estão sob ataque, podem sofrer novos recuos e, na melhor das hipóteses, são tuteladas por decisões tomadas por outros, segundo critérios patriarcais. (BARRADAS, Ana. O movimento das sufragistas – Modelo de combatividade)

Lembrar da conquista do sufrágio feminino é importante, mas o mais fundamental é lembrar de como no mundo isto foi conquistado e mais, lembrar de que no Brasil esta luta abriu também para a conquista do voto universal, pois é preciso lembrar sempre que o debate das mulheres sem estar em aliança profunda com o debate da classe trabalhadora é um tiro no pé, é cair na cilada do feminismo burguês, pois igualdade entre homens e mulheres só irá ser feita se conquistarmos direitos e igualdade entre as mulheres e os homens da classe trabalhadora. Compreender de que mesmo com a revolução ainda teremos muita luta ideológica para ser feita, que precisamos localizar qual a morfologia da classe trabalhadora hoje para realmente debatermos com as mulheres de nosso país o por que é importante elas terem maior protagonismo político e mais participação em todos os espaços de decisão política, não queremos mulheres que reafirmem um poder patriarcal e burguês, queremos mulher que subvertam o poder, que revolucionem a sociedade e não tenham medo de ousar.

O dia de hoje para mim serve para isso: Lembrar a necessidade de ousar, de que não há debate proibido entre nós, pois todos os debates nos atingem, pois somos maioria da classe trabalhadora, então termos nossos direitos políticos assegurados dentro das diferenças históricas construídas por conta da divisão sexual do trabalho na sociedade capitalista e patriarcal é fundamental. Mas não com lobby, não de forma tímida. É preciso ousar para vencer e não puxar o freio de mão com medo da represália ali na frente.

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