Muita estrada pela frente para construção de mudança social

Final de janeiro é sempre meio corrido, alterado, nonsense, junta aniversário da mamãe, aniversário da Rosa e este ano acabei enlouquecida acompanhando o desenrolar da história do Pinheirinho em São José dos Campos. Tanto que não tenho conseguido parar e escrever aqui para o BiDê Brasil, porém no final de semana fui fazer uma mesa sobre mulher e desenvolvimento no I Encontro de Mulheres da Fened e o post de hoje é baseado na fala que fiz lá na Flaskô.

Tratar sobre o tema mulher e desenvolvimento é também tratar de conjuntura política nacional e internacional, pois é um temário que trata de projeto societário e para debatê-lo não podemos recair no erro cotidiano da esquerda socialista de segmentar a pauta econômica da pauta política, tática esta que acaba secundarizando diversos debates – principalmente os de combate às opressões – junto aos movimentos sociais. Digo isso pelo fato de tanto no movimento de mulheres quanto no movimento feminista esta lógica de segmentar os debates também é presente, descolando muitas vezes a nossa pauta da análise de conjuntura e consolidando assim uma perspectiva bem pós-moderna do feminismo.

Do plano da aspiração para o plano da realidade, vemos que esta é uma pauta ainda distante. Como dizer sobre responsabilização do Estado pelos trabalhos reprodutivos em tempos neoliberais, de garantia de Estado mínimo e de privatização e mercantilização de tudo? A privatização da saúde (vide o gerenciamento por instituições religiosas das Organizações Sociais em SP), da educação, da educação infantil, de creches, etc. deixa a impressão que para obtermos direitos, teremos que comprá-los. E como tê-los se a maioria das mulheres hoje, no mundo, vivem abaixo da linha da pobreza? Se somos as miseráveis dentre os miseráveis?

A simples verificação da realidade coloca que os trabalhos mais precarizados são desenvolvidos por mulheres. São eles: trabalhos de limpeza, de cuidado, de cozinha e a prostituição. O aumento de parcerias público-privadas, do trabalho informal (aquele cujo predomínio é da ausência de qualquer garantia de direitos trabalhistas e previdenciários), das terceirizações (em sua maioria de trabalhos vinculados à limpeza, ou seja, despendidos por mulheres) e da transformação de direitos em mercadoria, nos (nós, mulheres) afasta de nossa própria emancipação. (KOETZ, Vanessa. Às custas de quem a sociedade burguesa se desenvolve?)

É preciso localizar o debate sobre mulher e desenvolvimento neste momento de retomada de um projeto desenvolvimentista para o país, baseado nas grandes obras, grandes eventos, grandes especulações financeiras, criando algo chamado de meganegócios em diversas esferas da nossa sociedade, tal política de desenvolvimento além de atingir diretamente as mulheres por conta dos despejos e até mesmo aumento do turismo sexual no país e nas regiões onde há projetos como PAC, megaeventos e tantos outros. Bom lembrar que normalmente as grandes empresas que se beneficiam do financiamento público destas obras são as mesmas que ajudam a financiar campanhas eleitorais de diversos partidos brasileiros, corroborando para aprofundar a corrupção estrutural do estado burguês.

Não é muito de se admirar que estes movimentos tenham em sua base social uma quantidade expressiva de mulheres, até por que é dito em alto em bom som em todos os cantos que as mulheres são a maioria da classe trabalhadora e, sendo assim, são as mais expropriadas pelo capital. Então nos movimentos onde as pautas com moradia, creches, carestia e em geral acabaram organizando em muito a vida política das mulheres, pois dialogavam com pautas concretas da classe e destas tomavam contato com outras pautas também importantes às mulheres.

As mulheres acabam por se colocar nestas lutas por terem a responsabilidade na sociedade patriarcal de organizar e vertebrar a família, é nossa a tarefa de cuidar e criar os filhos e como fazê-lo sem um teto, sem água e luz? Pensar esta relação intrínseca entre as mulheres os demais movimentos  sociais é importante, ainda mais para quem se propõe a transforma a sociedade, sem identificar quem são as pessoas que mais sofrem com a expropriação, opressão e afins fica apenas o discurso retórico, com pouco ganho para um avanço real de consciência e da própria luta e talvez hoje por hoje esta relação e necessidade de pensar as coisas de forma casada seja muito mais perceptível junto ao movimento popular ou de moradia. Por motivos óbvios. (FRANCA, Luka. Mulheres em movimento mudam o mundo)

O projeto societário e de desenvolvimento colocado hoje para a sociedade e capitaneando sim pelo PT e PSDB aprofunda cada vez mais a precarização da vida das mulheres trabalhadoras, pois ajuda a intensificar o tráfico de pessoas – junto aos canteiros de obras se proliferam casas de tolerância e bordéis, no mesmíssimo formato que víamos durante as grandes obras populistas e da Ditadura Militar – e intensificam os despejos pelo país para que casas populares deem espaço para estádios, condomínios de luxo, parques lineares, ginásios, estradas e sem ter o mínimo planejamento de para onde levar as famílias despejadas, deixando milhares de pessoas sem ter onde morar. Sabemos que este projeto de desenvolvimento e societário também acaba por ser uma forma de salvar da crise capitalista, que começou a dar as caras em 2008 em nosso planeta, os empresários, especuladores e afins, saída esta que libera milhões do dinheiro público para os meganegócios, criando assim bolhas de especulação bem parecidas com a bolha imobiliária dos EUA e assegurando via congresso nacional retirada de direitos trabalhistas e previdenciários da população brasileira, além dos cortes em áreas sociais atingindo diretamente as mulheres, porém que não são áreas estratégicas ou com importância econômica pujante para o governo Dilma. Juntar estas duas coisas é fundamental, pois os ditames econômicos estão intrinsecamente ligados ao projeto societário.

Além do mais, a sanha punitiva do Estado-locomotiva (sic) da nação é grosseira, tendo – na maioria das vezes – como alvo a massa de sem-teto, sem-terra, dependentes químicos, pobres, enfim, os rotos que ousam ficar no meio do caminho. São Paulo é a prova viva do que ocorre com uma sociedade quando ela não digere e entende o seu passado. Ainda usamos métodos dos verde-oliva da ditadura, pois não refletimos como povo sobre eles após o fim dela, simplesmente anistiamos. Mudam-se os rótulos, ficam as garrafas. Qual a diferença de descer porrada em indígenas no Amazonas e Roraima para construir uma estrada durante a Gloriosa e lançar balas de borracha em uma comunidade pobre em São José dos Campos para, quem sabe, erguer um empreendimento? (SAKAMOTO, Leonardo. Pinheirinho, Brasil e a tragédia do desenvolvimento)

Há resistência contra tal projeto, lutas como as por um transporte público como temos visto no Piauí e Espírito Santo, pela demarcação das terras, seja na serra Raposa do Sol, seja no Mato Grosso do Sul através da luta do povo Guarani Kayowá, a defesa pelo direito a moradia no Pinheirinho, Itaqui, Guarituba, Pantanal, Morro do Bumba e tantos outros locais que foram ou despejados, ou sofrem diuturnamente com a ameaça de despejos ou de algum incidente “natural” durante o período das chuvas no Brasil. Todas estas lutas são questionadoras diretas do projeto societário hoje implementado em todos os estados brasileiros, estas lutas tem desnudado a luta de classes em nosso país, pois é onde os lados de cada um de nós ficam mais claros, pois há os que ganham muito e tem onde morar e os que quase nada ganham e não tem onde morar.

É levando em conta o papel da mulher junto a sociedade capitalista e patriarcal e compreendendo que o projeto societário em curso hoje em nosso país ataca frontalmente a classe trabalhadora, sendo assim ataca frontalmente as mulheres, negros e juventude do nosso país que urge a esquerda socialista catar os caquinhos para realmente intervir nestes processos de luta de forma democrática, sem sectarismos e realmente construindo uma alternativa para o país. Com o andar da carruagem esta maratona de unidade da esquerda em todas as lutas e para disputar contra a burguesia e o petismo um projeto societário que combata a barbarie social está longe de terminar.

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