Desafios para além da cosmética do feminismo burguês

Começa ano, termina ano e alguns assuntos são recorrentes: violência machista, legalização do aborto, mulher e política. Troca-se o ano, mas os assuntos não mudam muito, bem pelo menos no âmbito político, pois no mundo pop um dia é mais louco que o outro e tudo muda em 30 segundos. Pelo simples fato dos temas gerais não mudarem muito talvez seja normal vermos tantos textos, intervenções e debates feministas sobre direitos sexuais e reprodutivos, violência machista, mulher e poder e tantas outras coisas que são temas recorrentes das análises feitas por feministas e afins. Se repetem pelo simples fato de não termos respostas contundentes para os problemas revelados por estas discussões, o máximo que temos são ações cosméticas para melhorar um pouco a cara do machismo em nossa sociedade – ações cosméticas necessárias, mas que por si só não modificam realmente a estrutura de poder patriarcal da sociedade capitalista.

A pauta das mulheres tem ganhado destaque e importância, mesmo que apenas nos discursos e na prática ainda continue sendo secundarizada como de costume, mas ganha destaque, ganha por que há mulheres a frente de importantes nações e do próprio FMI, pela forma que são tratadas durante conflitos armados e tantas outras questões que vem ganhado destaque nos debates junto a sociedade civil. As mulheres ganharam mais destaque em diversos espaços do mundo – de uma forma mais cosmética como já disse – e analisar o quanto isso também impactou a garantia de seus direitos é fundamental, de forma geral esta garantia de direitos junto com a ascensão individual de algumas mulheres e que não ajudaram em assegurar em nada os nossos direitos.

Hoje cabe a nós mulheres de esquerda impor uma outra forma de fazer política nos espaços do movimento, compreendendo que violência machista deve ser combatida em todos os seu âmbitos e que é preciso se solidarizar às companheiras que sofrem violência de forma contínua, levando a pauta da defesa e auto-defesa das mulheres a sério. O atual momento em nosso país nos coloca este desafio, o como iremos tratar casos de violência machista nos espaços dos movimentos sociais também e ano passado tivemos casos e mais casos de violência machista e que devem servir para refletirmos sobre como armamos as mulheres militantes para enfrentar estas situações.

Denunciar um agressor não é achar que apenas ele cometa esse tipo de agressão nem se esquecer de todas as outras posturas machistas de outras pessoas dentro dos movimentos socias, pelo contrário, é exatamente por entender que diversas formas de agressão em diversos níveis diferentes ocorrem o tempo todas às mulheres dentro e fora da esquerda, que agressões com essa magnitude devam ser denunciadas, para então discutirmos não apenas o caso específico, mas como as inúmeras formas de agressões ‘brandas’ e ‘sutis’ (a forma desigual como as mulheres são tratadas na militância, as vozes desiguais entre homens e mulheres nas reuniões, as inúmeras piadinhas ‘inofensivas’ que temos que engolir para manter um clima ‘amigável’, e um longo etc…) que estruturam uma lógica de pensamentos e atitudes que sustentam a possibilidade de ocorrer casos graves como o que foi denunciado. Pois essas ‘pequenas’ coisas revelam o lugar que querem colocar nós mulheres: de meros objetos; onde nossas vidas e nossa integridade física e psicológica valem menos, onde não temos legitimidade como pessoa, que não devemos pensar, questionar ou nos posicionar, devemos apenas enfeitar a mesa, suprir necessidades masculinas e quanto for conveniente sermos descartadas e destruídas. Basta! (Escancarando o escracho – verborragia sobre uma ação de autodefesa feminista)

Dar respostas tanto do ponto de vista pedagógico para o conjunto das ações machistas que encaramos por aí, assim como também dar resposta aos agressores e afins é importante e não são ações dicotômicas entre si, mas ambas necessárias para confrontar o machismo nos movimentos sociais e na sociedade. Não é tarefa fácil, pois muitas vezes podem nos contrapor a camaradas valorosos, mas que por conta de como se coloca a divisão do poder hoje em nossa sociedade podem não compreender as necessidades de mulheres se organizarem e lutarem por políticas de ações afirmativas ou estimularem escrachos contra agressores machistas e esta falta de compreensão que muitos tem é também reflexo de uma forma de organização de poder patriarcal, pois por não ser alvo direto da opressão machista ter a dimensão do quanto esta opressão ajuda a permear o próprio capitalismo dificulta ainda mais, até por que não somos uma bolha, as vezes referendamos o senso comum por que também temos dificuldade em radicalizar o nosso discurso para poder ganhar nossos camaradas para esta concepção e aí ficamos no limbo, seja no combate à violência machista, seja na discussão de mulher e poder.

Ainda assim, as mulheres continuam sofrendo todo tipo de violência e sendo mortas pelas mãos de ferro do machismo que segue legitimado pela sociedade. Já existe lei de enfrentamento à violência contra as mulheres no Brasil, mas a impunidade ainda persiste. (OLIVEIRA, Suely. A impunidade é cúmplice da violência)

A retomada dos debates feministas logo tão cedinho em 2012 é fundamental, ainda mais depois de um ano conturbado como 2011 em todos os sentidos, mas ainda mais pelo fato de não termos conseguido dar uma resposta mais contundente ao recrudescimento conservador de nossa sociedade, da aliança do governo Dilma com o setores mais reacionários de nosso país, ao não conseguirmos combater de forma mais concreta o machismo recorrente no movimento social. Nossas tarefas para o próximo período continuam a ser grandes e importantes, agora é necessário saber se damos conta da construção de uma resistência que não se venda e não titubeie quando precisar enfrentar o machismo de nosso cotidiano.

Responder a Desafios para além da cosmética do feminismo burguês

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s