Violência contra a mulher: dos abusos do metrô até a violência institucional

Hoje é o dia internacional de combate a violência contra mulher e o Blogueiras Feministas convocou uma blogagem coletiva sobre o tema, parei um pouco algumas coisas que estava fazendo para poder escrever este texto de hoje pois dialoga diretamente com o que farei durante o dia todo. No Brasil morrem 10 mulheres por dia vítimas de feminicídio e a cada 2 minutos 15 mulheres são espancadas em nosso país.

Feminicídio é algo que vai além da misoginia, criando um clima de terror que gera a perseguição e morte da mulher a partir de agressões físicas e psicológicas dos mais variados tipos, como abuso físico e verbal, estupro, tortura, escravidão sexual, espancamentos, assédio sexual, mutilação genital e cirurgias ginecológicas desnecessárias, proibição do aborto e da contracepção, cirurgias cosméticas, negação da alimentação, maternidade, heterossexualidade e esterilização forçadas.

Em todos esses casos, o que se tem em comum é o fato de as vítimas serem mulheres, e estarem sendo coagidas a cumprir o papel que aquela sociedade destina a elas. As mulheres que não se adaptam a esse sistema (“desobedientes”, “vadias”, prostitutas, de “gênio forte”, dentre outros termos afins) perdem o direito à autonomia e à própria vida. As agressões a elas são toleradas, inclusive pelo Estado, suas mortes não são lamentadas e seus agressores não são punidos; muitas vezes, serão até glorificados. Neste ponto, vale lembrar que houve negociações para que, no primeiro aniversário da morte de Eloá, seu ex-namorado concedesse entrevistas para a televisão.  (SEMIRAMIS, Cynthia. Feminicídio: a morte de mulheres em razão de gênero)

Este quadro é presente em todo nosso país, milhares de mulheres são vítimas de violência doméstica, sexual, tráfico de pessoas e tantas outras tipificações de violência que muitas vezes não temos nem compreensão, o tema é algo tão delicado que também é tabu entre a própria esquerda e este ano acabou ganhando destaque por conta das diversas Marchas das Vadias que aconteceram no Brasil, a campanha promovida pelo Sindicato dos Metroviários de São Paulo contra os abusos sexuais nos transportes públicos e os casos de estupros que escandalizaram em Barão Geraldo (Campinas). O drama da violência contra mulher ocorre em todo Brasil, falta investimento por parte do governo federal na aplicação da Lei Maria da Penha e em São Paulo não seria muito diferente, talvez um pouco mais recrudescido por conta do governo tucano conservador que não liga muito para a vida das mulheres.

Enquanto isto, além das intragáveis piadas do Zorra Total, a Companhia Metropolitana e o governo do Estado de São Paulo também tratam o problema com uma escandalosa falta de seriedade.

Ao mesmo tempo em que gastam milhões para fazer propaganda sobre as supostas modernidade e eficiência do sistema, estes senhores têm dado declarações à imprensa que soam como verdadeiros insultos para as mulheres que têm passado por estas experiências traumatizantes. (SILVA, Wilson. Enquanto Globo faz piada, aumentam os ataques a mulheres no metrô)

Não é de hoje que mulheres são “encoxadas”, sente mãos passarem em suas bundas e em casos calcinhas rasgadas, dedos em suas vaginas e outras formas de violência sexual, é tudo isso também é abuso sexual e assim deve ser enquadrado. A falta de transportes públicos de qualidade e em quantidade para poder melhor atender a população também ajudam nestes crimes de oportunidade e ainda contam conivência do governo estadual e das autoridades que dirigem a Companhia do Metropolitano de São Paulo, ou seja, como sempre este não é um problema apenas das mulheres, este também é um problema seu.

Assim como na maioria dos casos de organismos responsáveis pelo atendimento a mulheres em situação de violência não tem profissionais capacitados para nos atender isso acontece também no metrô e CPTM, pois não tem em sua capacitação uma formação do que é a violência machista e o como atender e acolher mulheres vítimas deste tipo de violência, isso não é algo recorrente apenas nos casos de abusos e estupros recorrentes nos transportes públicos, mas a falta de investimento e capacitação de profissionais para atender e acolher mulheres em situação de qualquer violência machista é uma máxima em nosso país.

O debate que se abre hoje pelo sindicato dos metroviários de São Paulo sobre a violência machista nos metrôs não deve ser debatido e combatido apenas no simbólico, mas também na realidade concreta e esta realidade nos mostra uma postura misógina por parte do governo tucano, assim como o total descaso com o transporte público, pois as duas coisas se entrelaçam. É responsabilidade do governo encontrar formas para nos proteger e investir nesta proteção e para isso a SPM deve se posicionar e cobrar o governo de São Paulo uma solução para este grave problema que não atinge apenas as mulheres, mas a todos. (FRANCA, Luka. A misoginia do governo paulistano e sua representação no Zorra Total)

O debate da violência contra a mulher seja nos transportes públicos, em casa, nos espaços de militância política, hospitais, universidades são debates concretos, é preciso desmistificar o simbólico que muitas vezes está entranhado em nossa sociedade, porém apenas com apontamentos de soluções efetivas para combater a violência nestas diversas frentes é que nós mulheres realmente teremos avançado na disputa pela nossa própria vida; algo que tanto para o senso-comum, quanto para a grande mídia parece não ter grande relevância, mas pra nós que a vivemos cotidianamente.

O combate a violência contra a mulher deveria ser algo entranhado em todos os espaços da política brasileira, fosse por conta dos assédios morais que atingem na maioria das vezes mulheres em seus locais de trabalho, abusos nos transportes públicos, estupros nas cidades universitárias, violência institucional quando não temos um atendimento integral à nossa saúde assegurado ou nos damos de cara com um déficit de vagas na educação infantil astronômico, isso tudo é violência contra mulher e isso tudo também dialoga com as pautas dos movimentos sociais em geral. O que falta é realmente conseguirmos derrubar a pecha utilitarista e de secundarização da pauta que tomou conta da esquerda brasileira.

4 respostas para Violência contra a mulher: dos abusos do metrô até a violência institucional

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s