Convidada: Mulheres e a arte do cuidar como prática da transformação

Mais um texto da Camila Gibin, agora sobre maternidade, patriarcado e capitalismo. Tema que tenho tido dificuldade de abordar por aqui mas que é importantíssimo para se refletir e realmente construir uma outra sociedade, superando assim o capitalismo.

Refletir em torno das primeiras bases para uma nova sociedade é compreender o que está colocado para superarmos os atuais valores mediante uma educação psicológica permanente, garantindo a emancipação intelectual e o rompimento de uma vez por todas com o cerne objetivo e subjetivo que estrutura a sociedade de classes: o princípio da autoridade, do individualismo e da propriedade privada.

Desconstruir o individualismo e construir relações opostas a este perpassa também pela forma como nós mulheres temos compreendido e lidado com a maternidade e com a arte do cuidar, a qual tem sido historicamente massacrada e apropriada pelos interesses do patriarcalismo, dimensionando essas esferas como mais uma mercadoria do capital, necessária para a manutenção do sistema.

Isso se dá com clareza na própria relação que o patriarcado impõe a nós, mulheres, no que tange a relação com a gestação e com o processo educativo das crianças, que deixa de ser questão coletiva e passa a ações individualistas e superficiais – querer ter filhos ou não; o desejo pelo “meu” filho e etc. – respondendo, na maior parte das vezes, a anseios egoístas para suprir incertezas/inseguranças e necessidades do “eu”, relacionando-se de forma autoritária com o gerar e com os supostos sentimentos para com a criança que estará por vir, pautado na relação com o bebe o espirito de propriedade – o meu.

A sociedade cristã patriarcal – caracterizada pela hierarquia, pela violência e pela competição – não somente tem subtraído das mulheres essa relação de solidariedade, como também tem tido papel de controle dos nossos corpos, pela impossibilidade de optarmos pela livre maternidade, com a proibição do aborto e com os julgamentos morais que impedem a livre utilização dos métodos anticoncepcionais. O controle se dá também a partir da negação à importância do processo educativo à infância, com a falta de politicas que garantam o acesso a educação de qualidade e pela ausência de politicas diversas que permitam com que as mulheres tenham uma vida digna e consolidem um tempo livre para dedicarem-se a arte de cuidar.

As relações do capital têm penetrado também em nosso cotidiano e feito com que nos estranhamos e nos fragmentemos na luta, inclusive no que tange a questão das mulheres e da maternidade, classificando as mulheres como mães e não-mães e , assim, desestruturando dimensões solidárias que venham a indicar que todas somos mães, potenciais ao ato de gerar e/ou ao ato do cuidado para com todos os sujeitos/espécies.

Cabe então a reflexão do que é ser mãe na sociedade masculina e o que nós podemos propor para a dimensão da maternidade de modo que corresponda e contribua a valores mais humanos. A princípio, para o debate atual, o ser mãe está ligado necessariamente a dimensão biológica, pensamento o qual é fortalecido pela Igreja, pelo Estado e pela própria medicina. A Igreja vem historicamente defendendo esse pensar e disseminando a moral cristã ao determinar regras no que tange as relações matrimoniais e ao sexo, entendido apenas como forma de reprodução da espécie. Na mesma perspectiva, o Estado conserva as ideias cristãs e dimensiona o ser mãe biológico pelo interesse na manutenção da família e consequentemente da propriedade privada. Para respaldar tais valores, os conhecimentos médicos deterministas impõe a relação mãe-biologica e aterroriza aquelas que não engravidassem, argumentando que poderiam correr graves riscos de saúde, inclusive a morte. Relacionar a questão materna com a dimensão biológica vem de encontro então a vários interesses do capital.

Por outro lado, ampliar esse debate dimensionando a relação do cuidado é sermos no hoje propositivas a relações humanas que descontruam essa fragmentação imposta e necessária pelos motivos vários motivos já apresentados. Entender o papel da maternidade como algo além do ato de parir é visualizar a capacidade e a responsabilidade de coletiva no ato de cuidar. Portanto, todas as crianças de nosso bairro, de nossa cidade e do mundo são nossos filhos e filhas, remetendo a nós a responsabilidade de defendê-las e de cuidá-las, bem como o de cuidarmos de nós mesmas, enquanto irmãs.

A pratica do cuidar privado ou público (sejam as relações ou os espaços) tem sido acumulada e preservada pelas mulheres, que devido a contextos históricos vem assumindo este papel que acaba por ter valores, significados e interesses diferenciados. Somos então nós quem possuímos acumulo a maior percepção e sensibilidade quando comparado a maioria daqueles do sexo masculino, os quais, de maneira geral, são extremamente violentos e possessivos, chegando a ações de grande gravidade contra a espécie humana. Não atoa as expressões dessas atitudes nos processos de guerras para o firmamento de sociedades patriarcais, realizadas através da prática do estupro como mecanismo de controle utilizado pelos homens, reflexo da ideia de dominação que se tem assimilados e reafirmados pela lógica da propriedade e por eles mesmos durante os anos. Ainda sobre o contexto de guerra vale destacar aqui para nossa reflexão que temos, por um lado, as condutas masculinas descritas, e por outro as mulheres, mais uma vez, a frente nos trabalhos de acolher e cuidar dos feridos.

Diante destes diferentes processos de acumulação histórica na construção “ser” entre homens e mulheres, nós mulheres nos firmamos como sujeitos ainda mais humanistas e sensíveis ao cuidado, demonstrando que estamos avançadas quanto a perspectiva de ruptura e emancipação das relações individualistas. Mesmo vivendo em tempos difíceis de violenta desumanização das relações, resistimos e mantemos muitas práticas sensíveis. Vejamos, por exemplo, quem são que se encontram nas filas dos postos de saúde para garantir a saúde, das creches para conquistar a vaga, das prisões/febem´s para acolher/fortalecer a pessoa amada? Mulheres, mulheres, mulheres…e alguns poucos homens.

No entanto, essa compreensão só se faz de fato quando assumimos a mesma com leituras históricas e quando trabalhamos as questões subjetivas capazes de nos enxergar com esta intensa capacidade de avançar de forma mais coerente e veloz do que os homens, portanto, há a importância de nos apropriarmos novamente dos nossos conhecimentos e de nossas potencialidades que foram retiradas de nós durante a história simplesmente para nos submeter a uma logica violenta e manter-nos como submissas aos homens. Dentre esses conhecimentos temos, como exemplo, a questão da maternidade e do parto, conhecimento o qual sempre foi da mulher e que foi tomado bruscamente pela medicina machista que ignorou a sabedoria feminina em detrimento de uma prática inconsequente do parir, que é a linha de produção do nascer com as cesárias, sem ter devido olhar ao momento ideal da criança e da mãe.

Visto este contexto, é de nossa responsabilidade usufruir da arte do cuidar para nos emanciparmos subjetivamente, rompendo com o discurso forjado do cuidar que o capital tem utilizado contra nós mesmas, pois somos submetidas a lógica do cuidar de forma desrespeitosa e desvalorizada que acaba por ser interessante a classe dominante. O caso de compreender a mulher inserida no mundo privado, assumindo o papel de “cuidadora do lar”, é uma maneira do capital se apropriar de nosso valor humanitário e permeado de dimensão revolucionária a favor de si mesmo. Então submete de forma autoritária essa dimensão que, assimilada de forma alienada, não pode ser entendida como arte e como potencialidade para um novo mundo. Este “cuidado” entendido pelo patriarcalismo é permeado, por detrás, de relações de exploração e de opressão contra as mulheres. Apesar dessas problemáticas pertencentes a estruturação do capital pelo processo de exploração e de desvalorização de praticas solidarias, as mulheres, ainda em meio ao caos, conservam elementos significativos para a compreensão destas relações e transformação ao novo.

Desta forma, cabe entendermos que é somente o cuidar interiorizado e entendido como uma escolha ética é que poderemos construir relações mais solidarias entre nós e com a beleza do educar, permeados de novos valores que se contraponham ao do capital, pois a moral do cuidado é capaz de aproximar as pessoas, lidando com dados reais, diferente da moral masculina pautada apenas na dimensão dos princípios, que por não relacionar-se com proximidade das relações acaba por cometer erros.

Devemos compreender que diante desse processo temos responsabilidade traçar os caminhos a novas formas de ser e estar que visualizam outra sociedade. Coletivamente, devemos reaprender e fortalecer relações mais humanas e de cuidado que sejam de fato espontâneas, compreendidas como algo belo e fundante ás relações humanas, quebrando assim as rédeas das relações pautadas no medo e na submissão que muitas vezes o é nesta sociedade masculina.

Estabeleçamos então o olhar a cultura do eu e do nós, de nossa subjetividade, para enfrentarmos as violências e dar indicativos e ações as transformações. O papel e a responsabilidade da arte do cuidar como prática para a emancipação socioeconômica é nossa.

Camila Gibin – Compõe o movimento de defesa da infância e juventude e o Coletivo Feminista Anastácia Livre.

Nota da autora: Algumas leituras me fizeram refletir essa questão: de Kollontai a Sara Morace. As conversas com companheiras e companheiros também foram determinantes nesse processo. Mas, essencialmente, o desejo por relações de irmandade entre nós mulheres, o amor pela infância e pela juventude e a esperança pelo novo são os indicativos ao alimento desse pensar e dessa constante tentativa em agir, tendo como horizonte a emancipação humana.

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