O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP

As pessoas tem acompanhado o que vem acontecendo na USP pro meio da TV e grande mídia em geral. O debate sobre segurança na cidade universitária já estava aberto há bastante tempo, basta lembrar do campo de guerra instaurado no Butantã em 2009 a mando do então governador José Serra. Eu iria mais longe, a política de criminalização do movimento social como um todo no Brasil tem se recrudescido dia após dia, a USP é apenas a ponta do iceberg e talvez não seja tão ponta assim, ou esqueceram da onda de ocupações de reitorias acontecidas em 2007 por todo país?

Só em São Paulo em 2007 foram 5 reintegrações de posse comandas pela tropa de choque: Unesp Araraquara, Unifesp GuarulhosPUC São Paulo, Fundação Santo André e USP (SanFran). Este não é um debate novo, também não nasceu com as desocupações paulistas em 2007 e não é algo que acontece apenas em São Paulo, em 2007 a UFBA também foi desocupada, mas não pelo choque e sim pela polícia federal. O que vemos acontecer já há alguns anos é o arrancar da democracia e autonomia universitária pétala por pétala.

Óbvio, há as ponderações sobre o método, da construção da política, mas fechar os olhos para um problema concreto que tem como tubo de ensaio a USP. A realidade de violências nas cidades universitárias não é algo novo, e nem mesmo a fácil solução de colocar a PM dentro dos campi ajudou a solucionar o problema, até por que acaba muito menos servindo de patrulha ideológica do que realmente garantir a integridade física da comunidade universitária.

Para além da polêmica em torno da ocupação da Reitoria, me parece que estão em jogo nessa questão três aspectos que têm sido muito pouco abordados. O primeiro refere-se à estrutura de gestão dos processos decisórios dentro da USP: quem e em que circunstâncias decide os rumos da universidade? Não apenas com relação à presença da Polícia Militar ou não, mas com relação à existência de uma estação de metrô dentro do campus ou não, ou da própria política de ensino e pesquisa da universidade e sua relação com a sociedade. A gestão da USP e de seus processos decisórios é absolutamente estruturada em torno da hierarquia da carreira acadêmica.

Há muito tempo está claro que esse modelo não tem capacidade de expressar e representar os distintos segmentos que compõem a universidade, nem de lidar com os conflitos, movimentos e experiências sociopolíticas que dela emergem. O fato é que a direção da USP não se contaminou positivamente pelas experiências de gestão democrática, compartilhada e participativa vividas em vários âmbitos e níveis da gestão pública no Brasil. Enfim, a Universidade de São Paulo não se democratizou. (ROLNIK, Raquel. Muito além da polêmica sobre a presença ou não da PM no campus da USP)

Segurança comunitária nos campi universitários é demanda antiga do movimento estudantil em geral, mas isso não significa militarizar os espaços universitários como temos visto ocorrer por aí, e não apenas na USP. Importante lembrar que há propostas alternativas reais a intolerância que vem sendo implementada na USP e em outras universidades brasileiras, lembro isso, pois normalmente só ouvimos pela grande mídia que os estudantes mobilizados só querem fazer baderna, quando muitas vezes sentaram a bunda na cadeira e estudaram formas alternativas e eficazes para se combater a violência nos espaços universitários.

Muitos estudantes defenderam um projeto alternativo de segurança ao implementado pela atual reitoria. A opinião expressa pela maioria daqueles que estavam na assembleia era de que a Polícia Militar no ambiente universitário não corresponde a mais segurança. Ao contrário, a comunidade universitária se sente mais intimidada, devido as constantes revistas e batida policial. Por isso, posicionam-se contra a presença da PM na universidade, reivindicando um programa de segurança construído pelo movimento estudantil, contendo: melhoria da iluminação; aumento do número de ônibus, itinerários e circulares; guarda universitária, constituída por funcionários de carreira, de caráter preventivo e com formação compatível com direitos humanos; criação de um efetivo feminino de guardas, capacitadas para o atendimento de vítimas de assédio sexual e estupro. (DCE-Livre USP.Nota de esclarecimento sobre a assembleia geral dos estudantes de 01 de Novembro)

O que aconteceu na madrugada de ontem para hoje na USP é apenas mais um capítulo do longo romance sobre truculência e ataque a autonomia universitária que temos visto ano após ano tomar conta do estado de São Paulo e do Brasil. Infelizmente é preferível ficar que nem uma rã dentro da panela sendo cozinhada ao invés de parar e pensar nas contradições existentes na sociedade para conseguir compreender melhor e assim se posicionar sobre a mobilização social que for. A moda do momento é não pensar no que acontece no mundo.

É, mas sempre tem aqueles que preferem não andar na moda. Ainda bem.

4 respostas para O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP

  1. […] As pessoas tem acompanhado o que vem acontecendo na USP pro meio da TV e grande mídia em geral. O debate sobre segurança na cidade universitária já estava aberto há bastante tempo, basta lembrar do campo de guerra instaurado no Butantã em 2009 a mando do então governador José Serra. Eu iria mais longe, a política de criminalização do movimento social como um todo no Brasil tem se recrudescido dia após dia, a USP é apenas a ponta do iceberg e talvez não seja tão ponta assim, ou esqueceram da onda de ocupações de reitorias acontecidas em 2007 por todo país? (FRANCA, Luka. O longo caminho da truculência e seu mais recente capítulo na USP) […]

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