Monalisa Perrone e a violência machista que só existe para a burguesia

Casos de violência contra a mulher não são raros, seja a classe social que for, há uma realidade de qeu o machismo e o patriarcado em maior ou menor intensidade oprime todas as mulheres. No sistema e regime em que vivemos é possível empoderar algumas mulheres por meio da ascensão social sim, porém por muito tempo o capitalismo se valeu do patriarcado como um todo para poder explorar de formas diferentes a força de trabalho de homens e mulheres tendo assim uma taxa de lucro maior.

É engraçado que hoje mesmo lia um texto da Clara Zetkin falando sobre duas conversas que tivera com Lênin sobre a necessidade de se organizar as mulheres da classe trabalhadora em um movimento feminino comunista e internacionalista e tem uma passagem interessante do Lênin neste texto:

Odiamos, sim; odiamos tudo aquilo que tortura e oprime a mulher trabalhadora, a dona de casa, a camponesa, a mulher do pequeno comerciante e, em muitos casos, a mulher das classes possuidoras. (ZETKIN, Clara. Lênin e o movimento feminino)

Começo assim justamente para problematizar o acontecido ontem com a jornalista da Rede Globo, Monalisa Perrone, acredito que o tal ativista não teria derrubado a repórter se ali estivesse desde o começo o Burnier, até por que não faz muito tempo, outro repórter da vênus prateada foi “vítima” de uma ação direta durante outro link ao vivo, mas com uma diferença grande, e em nenhum momento Filippo Mancuso foi derrubado no chão durante a ação direta, isso diz muita coisa. Pelo menos pra mim.

Mas agora vem o peculiar, este ano foi um em que muitas vezes se questionou a grande mídia sobre brincadeiras, propagandas e tantas outras coisas que afetam diretamente as mulheres também, seja aquela piadinha infâme do Rafinha Bastos sobre estupro, seja o caso absurdo que tem tomado a mídia neste último mês sobre os estupros no metrô de São Paulo – convenhamos sabemos que são nos transportes públicos em geral – e não receberam notinhas de repúdio por parte de duas das grandes entidades patronais relacionadas aos meios de comunicação: a ABI e ABERT.

Pior as duas notas falam de liberdade de imprensa e o escambau e não falam do fato que as outras ações diretas feitas pelo grupo Merdtv em nenhum momento terminaram com o repórter caído no chão, em post no site deles o grupo pede desculpas para a repórter dizendo ter sido um acidente de percurso, fico me perguntando, mas um dos caras logo após a repórter cair ao invés de ajudar a levantar a repórter continua a intervenção antes de voltarem a imagem pro estúdio, me parece um pouco uma atitude de to nem aí pro que acabou de acontecer.

A questão básica é a seguinte: é violência contra mulher quando convém, não apenas no caso da Monalisa Perrone, mas é algo que acabo vendo na rotina da sociedade, inclusive nos movimentos sociais e organizações políticas de esquerda se foi um camarada meu que foi machista então não foi machismo, mas se foi uma camarada minha a atacada então é machismo e precisa ser denunciado, corporativismo entre as organizações e movimentos é algo que ainda precisa ser superado.

Porém, agora falam sobre violência contra mulher por que a repórter da globo foi agredida em frente a milhões de pessoas é um escândalo! Mas quando são as mulheres abusadas no metrô é um equívoco jurídico ter transformado qualquer ato libidinoso em estupro com a reforma do código penal.

Em um dos últimos casos noticiados, o sujeito rasgou a calcinha da moça e bolinou sua área genital. Isso agora é denominado estupro -evidentemente, um exagero que só vem confundir as coisas.

É perfeitamente possível passar as mãos nas partes íntimas de uma pessoa em pleno vagão lotado do metrô, do trem ou no ônibus sem que os outros percebam. E isso acontece com frequência. Não deveríamos ter que chamar essa conduta de estupro, mas a reforma penal trouxe essa alteração que podemos considerar indevida. (ELUF, Luiza Nagib. Estupros no metrô)

Sobre este caso o único pronunciamento feito, foi o da Rede Globo dizendo que não iam tirar o quadro do Zorra Total do ar por que na opinião deles não incentivava em nada os casos de abusos sexuais e estupros no transportes públicos, ABI e ABERT em nenhum momento vieram se solidarizar com as dezenas, centenas de mulheres que são vítimas de violência nestes espaços e são alvo de piada aos sábado a noite na Rede Globo.

Quando tu denuncias só um lado, sem o localizar dentro de um problema social grave e fecha os olhos para as milhares de mortes de mulheres no Brasil por causa dos famigerados crimes “passionais”, dos diversos casos de estupro que acontecem nas cidades, seja no metrô, baladas ou universidades. A grande mídia convencionou a tratar todos estes casos de violência machista como fatos isolados, sem relação alguma com a formação social e a educação construída durante os anos em nossa sociedade.

Este caso, e muitos outros de mesmo teor, mas sem a mesma abordagem midiática, poderiam ser vistos como fatalidades isoladas que acometem mulheres. No entanto, estão sendo estudados pela antropologia e por ativistas feministas como feminicídios. Trata-se de uma categoria criada para englobar o que há em comum na agressão e morte de mulheres pelo fato de serem mulheres, evidenciando o impacto político de uma desigualdade de gênero. Em outras palavras, procura-se mostrar que mulheres são mortas ou sofrem violência para se adequar àquilo que determinada sociedade considera ser o papel das mulheres. (SEMÍRAMIS, Cynthia. Feminicídio: a morte de mulheres em razão de gênero)

Óbvio que a repórter Monalisa Perrone carece receber solidariedade, como disse pelo que vi no vídeo não me pareceu ser preocupação dos que fizeram a ação direta – mesmo que de forma estabanada e ocasionando o trombamento com a repórter – ajudar e procurar saber se a repórter estava bem, se precisava de alguma ajuda, não mencionam isso em seu pedido de desculpas na página do grupo.

Porém é importante atentar o como o caso teve repercussão e muitas pessoas falaram de violência contra mulher e quantos outros casos de violência contra a mulher acontecem por aí e são tratados de forma naturalizada ou sensacionalista pela grande mídia, e até mesmo a importância dos grandes meios de comunicação em perpetuar esteriótipos e banalizar a violência machista são levados como neura da esquerda e das feministas. Violência contra a mulher pode acontecer com todas, e muitas vezes não esperamos que aconteça e ficamos como Monalisa ficou: estremecida, sem saber o que fazer e boquiaberta.

Por fim, não tenho nenhuma nesga de esperança de que ela pegue este caso e o coloque como uma forma de denunciar e problematizar a violência que as mulheres sofrem diuturnamente, isso a faria denunciar o Zorra Total e perder o emprego e acho que ela não seria alguém propensa a comprar estas brigas.

4 respostas para Monalisa Perrone e a violência machista que só existe para a burguesia

    • Luka – Autor

      Conversei com um diretor do sindicato dos metroviários e a fala do presidente do metrô em reunião com eles é exatamente esta também, um absurdo…

    • Luka – Autor

      Bem,

      Não acho que a ação direta seja a questão central do debate neste caso, mas o fato da grande mídia (não só a globo) em geral apenas falar sobre violência de gênero de forma sensacionalista e ainda contribuir com o recrudescimento tanto de uma ideologia liberal e conservadora, acou usando o acontecido para falar sobre liberdade de expressão e muitos violência contra mulher, quando em nenhum momento se questiona o por que se solidarizar apenas aquela mulher especificamente e dar as costas para centenas que são, por exemplo, abusadas nos transportes públicos.

      Há questões subjetivas também envolvidas no debate se é ou não violência de gênero, não apenas do ponto físico, mas também pelos próprios signos colocados no vídeo, a explicação da MerdTV é pífia, lacônica e não acho que sirva nem como explicação, a questão é sendo ou não “sem querer” virar e falar em uma entrevista que está pouco se lixando pra repórter e afins não é a postura de alguém que se coloca de forma anti-capitalista e anti-corporativista, é apenas individualismo, puro e simples.

      Acho a manifestação inócua e não dialoga com a sociedade em geral também, muito diferente da greve dos radialistas nos anos 90 na Manchete que eles tiraram a tv do ar e colocaram no lugar uma tv dos trabalhadores que alcançava diversos televisores do país, é uma ação completamente diferente, assim como o fechamento da ANATEL na década passada aqui em São Paulo, estas coisas tem sim mudança efetiva do ponto de vista de organização social e política pública…

      Por fim, o debate do post não é julgar se foi ou não violência de gênero, mas sim por que alguns setores só cobram sobre violência de gênero quando é alguém da classe deles que sofre e ignora a maioria das mulheres que sofre isso diariamente, como se fosse apenas ocasional.

      No mais, eu não acho que uma andorinha só faz verão, mas sim ação coletiva e organizada.

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