O respeito com a criança é também o respeito com a mulher

Faz tempo que não falo sobre maternidade e feminismo por aqui, falei algumas vezes no blogueiras feministas que podem ser lidos aqui, aqui e aqui. Porém hoje li um post fantástico da Bananda no Mamíferas falando sobre parto respeitoso e da blogagem coletiva promovida pela Parto do Princípio pela Semana do Respeito à Criança, tema que eu acho dialogar frontalmente com a proposta da blogagem coletiva das blogueiras feministas sobre infância, consumo e sexismo.

A postagem da Bananda calou tão fundo aqui dentro que resolvi escrever sobre isso aqui no BiDê, pois hoje por hoje acho importante pensar uma relação entre feminismo e maternidade e como tantas intervenções no parto e pós-parto também são sintomas de uma sociedade machista e movida pelo capital sim.

Nascimento respeitoso tem haver com privatização da saúde, tem haver com expropriação do corpo da mulher e tantas coisas que normalmente achamos melhor não encarar, a forma com que se é mãe e como nossos filhos vem ao mundo é uma escolha política também, pois desde o parto, até como se criará a criança perpassam por escolhas ideológicas e posicionamentos políticos. Não estimulo a minha filha por exemplo brincar com brinquedos sexistas, e suas bonecas nunca são filhas, mas sim suas amigas e parceiras de aventuras, como ela é para mim… A melhor companheira de aventuras que já tive depois da minha própria mãe.

Para mim não há duvida de que feminismo e maternidade tem relações próximas, não apenas pela questão da criação e formação das pessoas, mas também pelo fato da sociedade encarar o maternar como função exclusiva da mulher, sem compreender a revolta hormonal que acontece no corpo feminino durante a gravidez e no puerpério, ou então quando se escandaliza ao ver uma mulher amamentanto no ônibus sem cobrir os seios como se fosse um sério atentado ao pudor.

O papel de mãe acaba por se enquadrar na lógica de só existir apenas dois tipos de mulheres no mundo: as santas e as putas. Justamente a visão sacralizada de maternidade que a Iara se refere no parágrafo citado acima, mães não trepam, não mostram os seios, não tem desejos… Vivem apenas para as crias e se fogem disso logo escutam: Isso não é um comportamento aceitável, você é mãe. (FRANCA, Luka. Feminismo, maternidade e a briga nossa de cada dia)

Respeitar a criança é também saber lidar com as adversidades de um mundo consumista e de como apresentar a ela de como brincar é diferente de consumir, conseguir colocar no mundo dela, que atualmente é tão presente o querer e o ter, a diversão do apenas brincar, sem pretensões ou brinquedos super-ultra-mega-blaster desenvolvidos, buscar lá na imaginação a interação de uma minhoca feita de cadarço.

Perdemos, inclusive os pais, essa mágica de como lidar com a infância e respeitar o tempo dos nossos filhos, não procuramos recebê-los neste mundo de forma respeitosa e sem traumas, não esperamos o próprio tempo deles para decisões importantes e não dá para escolher maternar assim de forma comprometida quando se encara dupla ou tripla jornada de trabalho.

Óbvio que do ponto de vista político esta forma de maternidade é bem pesada quando você estuda, trabalha e cuida sozinha da criança, e aí é que precisamos retomar algumas pautas feministas importantíssimas como a socialização do trabalho doméstico, a luta pelos direitos de aumento de licença maternidade e amamentação, aumento da licença paternidade e outras tantas, pois maternar não é uma tarefa apenas da mulher, mas também do homem. Eles possuem papéis diferentes e é dever do Estado assegurar tanto a informação chegar para que as pessoas saibam o que implica substituir uma lata de leite pelo leite materno, vacinar ou não, prolongar amamamentação ou não, usar qual método para fazer o bebê dormir ou não. Mas para que todas possam realmente ter este poder de escolha a primeira coisa que deve ser feita é a luta pelo aumento dos direitos das mulheres e não um ataque frontal, equivocado a uma forma de maternidade… Um ataque que em últimas instâncias benefícia as empresas alimentícias e de fabricação de mamadeiras e afins. (FRANCA, Luka. Não é ser melhor ou pior mãe, mas ter informação bastante para escolher)

Respeitar a criança, também é respeitar a mulher, garantir a ambos seus direitos para que possam desfrutar da relação mãe-filho ou pai-filha da forma mais proveitosa possível, não são temas dicotômicos com a realidade vivida no Brasil, onde a licença maternidade não contempla ter tempo disponível suficiente para o maternar, ou não há educação infantil pública suficiente para as crianças, isso também é os desrespeitar e nos desrespeitar.

Talvez compreender o quanto o respeito a criança e o respeito as mulheres caminham junto e não há como ter acesso a um maternar que melhore as relações entre pais e filhos sem que haja mudança políticas profundas na nossa sociedade para que possamos parir melhor, maternar melhor, viver melhor e querer assegurar o respeito às crianças e às mães para uma parcela mais abastada, e não pra quem realmente necessita e não tem acesso a isso.

Ao violar os direitos das mulheres, o Estado viola, consequentemente, os direitos da infância, e vice versa. Isto porque, além de ambos setores serem igualmente inferiorizados e descaracterizados pelo capital, estão relacionados culturalmente e afetivamente entre si. Assim, o movimento inverso também, de conquista dos direitos das crianças acarreta na conquista e fortalecimento dos direitos das mulheres, sendo necessário resgatarmos a luta de defesa da infância nos movimentos feministas, pois para nenhum outro setor essa relação de avanço na luta dos direitos se deu historicamente e se dá de forma tão intensa e característica. (GIBIN, Camila. Convidada: Crianças e mulheres, a nossa luta é a mesma)

É talvez não seja apenas querer e ter força de vontade, mas também ser necessária política públicas que realmente assegurem os direitos das crianças e das mulheres.

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