Meu caro Bruno, não somos nem piranhas e nem santas, precisamos ser livres

Não é raro ver por aí uma celebridade falando besteira sobre as mulheres, sobre violência machista, o lugar da mulher na sociedade e tantas outras sandices do senso-comum. Muitas vezes senso-comum perpetrado pelas próprias mulheres por diversos motivos, entre eles o fato do machismo e do patriarcado ter sido naturalizado em nossa sociedade, então não é nada de mais ouvir piadas e comentários que fomentam a precarização da vida da mulher, negrxs e LGBTs.

Agora o cantor Bruno, da dupla sertaneja Bruno&Marrone, fez um lamentável comentário em show em São Francisco chamando as mulheres brasileiras de piranhas e ainda fazendo piada com o tráfico das pessoas existente no Brasil, o mais grave de todo o comentário, pois o começo da fala do cantor acaba reproduzindo o bom e velho discurso da mulher que precisa ficar esperando marido em casa após trabalhar incansavelmente para manter tudo em ordem e nada receber por isso.

Enquanto vocês, apesar do machismo explícito , continuarão a ganham rios de dinheiro  eu vou continuar também . Vou continuar  acordando cedo, pegando ônibus lotado, trabalhando muito ,chegando tarde e cansada em casa todos os dias e mantendo minha família com um salário que não é lá essas coisas … Afinal sou uma piranha brasileira … (SAMPAIO, Regina. Carta aberta para o cantor Bruno de uma “piranha” brasileira)

A questão é que pouco importa a dura realidade das mulheres ou “minorias” em geral no Brasil, importa quem faz o comentário mais jocoso e preconceituoso da semana, bem diferente de outrora que temas como o machismo, racismo e homofobia eram tratados no humor de forma inteligente e reflexiva.

Até então, quem questionasse suas falas corria o risco de ser chamado de autoritário, alguém que não respeitava a liberdade de expressão. Infelizmente, parece que esquecemos ser possível fazer humor com inteligência, acidez e crítica. Nos contentamos com sem-gracinhas baseadas em racismo, preconceitos e humilhações. Espero que esse debate em torno de Rafinha Bastos nos permita ao menos refletir sobre isso. (KUBICK, Maíra. Por piadas com graça)

O tema do tráfico de pessoas no Brasil é um problema gravíssimo, pois é o que ajuda a manter o turismo sexual em diversas capitais do país, além de também ajudar na manutenção do trabalho escravo por aqui, tão grave que há em curso no congresso nacional uma CPI do Tráfico Humano, justamente para investigar e trazer à tona dados e depoimentos tão difíceis de colher por conta da relação das pessoas traficadas, muitas vezes mulheres, com seus cafetões, traficantes e afins.

O Brasil é o maior exportador de crianças e mulheres para prostituição das Américas e serve como país de trânsito para aliciadas nas nações latino-americanas a caminho da Europa, Ásia e dos Estados Unidos. (SIQUEIRA, Priscila. Contra o tráfico de mulheres e crianças)

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, mais de 100 mil meninas são exploradas sexualmente no Brasil, isso para mim não é piada, é grave, pois são as crianças mais pobres os alvos mais fáceis do tráfico de pessoas, crianças e mulheres.

Entre 600 e 800 mil homens e mulheres são vítimas do tráfico internacional de pessoas a cada ano, aponta o Departamento de Estado norte-americano. A maioria será alvo de exploração sexual comercial – e desse universo 80% das vítimas são mulheres e meninas. Estima-se, por exemplo, que cerca de 70 mil brasileiras, grande parte delas aliciadas pelo tráfico de pessoas, trabalhem como profissionais do sexo em outros países.

As políticas de migração cada vez mais restritivas diminuem as possibilidades de entrar legalmente nos países, o que acaba por facilitar que os migrantes sejam aliciados por esses traficantes. Em geral, as vítimas estão em busca de uma vida melhor e são atraídas por promessas enganosas de trabalho. Contudo, a ONU ressalta que, mesmo não sendo um migrante legal no país estrangeiro, os direitos básicos devem ser garantidos a essa pessoa. (CAMARGO, Beatriz. Mulheres são mais vulneráveis à exploração sexual e ao trabalho forçado)

Este quadro só mostra o quanto as mulheres não são tratadas de foram igual e nem emancipadas nesta sociedade, a questão é tão dramática que a OIT calcula que este comércio de pessoas movimenta algo em torno de 31,6 bilhões de dólares no mundo inteiro, além do que parte considerável das mulheres traficadas não têm consciência da violência sofrida, muitas vezes por conta dos abusos ou coação mesmo. Piada com isso é muito engraçado, né? Reafirmar que mulher serve como artigo de exportação é, como sempre, jogar para baixo do tapete temas espinhosos do nosso país e da nossa sociedade, temas que normalmente não são muito claros, mesmo com relatórios internacionais e CPIs, pois envolvem uma rede de tráfico enorme.

Piadas são importantes para podermos levar a vida de forma mais leve, porém há algumas questões que não há como fazer piada, pois ajudam a reafirmar o vigente em nossa sociedade e não modificá-la ou refleti-la, as mulheres brasileiras não precisam ser piranhas, vadias, putas, santas ou boas moças, nós precisamos apenas ser livres e ter assegurada esta liberdade.

Atualização às 16h49 de 06 de outubro :

Hoje saiu o pedido de desculpas do cantor sobre o acontecido em São Francisco, em seu pedido de desculpas ele lamenta terem postado o vídeo no youtube ao invés de lamentar seu comentário desastroso e se prontificar a apoiar e lutar contra o tráfico humano no país, em especial o de mulheres. A palavra desculpa serve para tudo, ele deve agora conseguir dormir mais sossegado em seu travesseiro de plumas.

7 respostas para Meu caro Bruno, não somos nem piranhas e nem santas, precisamos ser livres

  1. Caçador de pitbulls

    Bom, piranha tem em todo lugar, assim como mulheres decentes.Também não é nenhuma novidade que mulheres latinas em geral (brasileiras incluídas) formam o maior contingente de prostitutas na Europa. E além do mais, o que vc esperava de um “cantor” de música sertaneja?

    • Luka – Autor

      Ricardo,

      Sim a maioria das mulheres em situação de prostituição na Europa e EUA são latinas, e tanto pesquisas da ONU quanto da OIT dão conta de que estas mulheres foram traficadas, muitas sendo tiradas das famílias ainda crianças, a questão do tráfico de pessoas em nosso país não é brincadeira e nem algo simples de compreensão, pois a maioria das pessoas se vendam para isso e acabam repercutindo comentários rasteiros sem analisar concretamente a realidade das mulheres que acabam sendo traficadas, condições de vida e afins.

      Nosso país consegue tornar o turismo sexual algo quase legalizado em diversos estados brasileiros, e sim esperava algo melhor de um cantor de sertanejo, pois já vi cantores e cantoras de brega mais bem localizados no que falam.

  2. Maria ( Goiânia )

    Estou morrendo de vergonha de ser conterrânea deste cafajeste.
    Chamando as mulheres Brasileiras de piranhas.
    E ele um boiola sertanejo que vai pescar piranhas e leva o cunhado.
    Duvido que um Sergio Reis, um Chitãozinho e Xororó, Um Daniel fariam um comentário tão infeliz, tão maldoso como esse.
    Isso é uma indescência.
    Depois de dizer que as mulheres Brasileiras são piranhas, fica sorrindo, e o público balançando o dedo discordando dele.
    Que graça tem isso ?
    Bruno deveria deixar de cantar e ser palhaço de circo.

  3. mara Nogueira

    Isso foi de um mal gosto sem tamanho, não sei como ainda tem mulheres que conseguem ser fã de um cafajeste como esse, deveriamos boicotá-lo, para que ele pudesse ter uma reflexão maior sobre o ocorrido

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s