O direito de votar e se votada para as sauditas e a pressão da primavera árabe

Este ano é sem dúvida o ano da mulher na política, talvez com motivações diferentes, mas não há dúvida que o papel da mulher na sociedade e na política voltou à tona no Brasil e no mundo. No mundo por conta do protagonismo das mulheres nas revoluções da primavera árabe e conquistas alavancadas pela unidade com a juventude e classe trabalhadora formal, protagonismo importantíssimo para poder avançar os processos naquele pedaço do mundo. Pela América Latina a principal mobilização do continente tem como referência política a estudante Camila Vallejo, presidente da FECH do Chile. Além obviamente do tema Brasil, onde temos a primeira presidente mulher e agora discute-se a reforma política e há plataforma para se aumentar a participação das mulheres nas casas legislativas.

Há algumas semanas foi divulgado na imprensa uma “conquista” das mulheres sauditas, agora elas podem votar e ser votadas, caso o marido ou homem responsável pelas mesmas o deixe. Muito se foi ponderado e ouvido sobre esta decisão, Wajeha Al-Huwaider – uma das principais ativistas pelo direito das mulheres no país – concedeu entrevista falando sobre a situação das mulheres, curioso que ela comemora a decisão do ditador Abdullah e ao mesmo tempo acaba fazendo ponderações sobre o regime político da Arábia Saudita.

Foi um discurso bem feito pelo rei Abdullah e a notícia foi bem recebida por nós, mas é só uma promessa para 2015, o que é frustrante. Não sabemos nem se será cumprida. De toda forma, eleições na Arábia Saudita não são grande coisa, porque metade dos cargos é apontada pelo rei. Os conselheiros não têm poder de fato, não podem mudar leis ou sugerir políticas, apenas escrevem recomendações ao rei. Mas é assim que funciona a política na Arábia Saudita. O país não é do povo, é de uns poucos homens que nunca foram eleitos. O sufrágio universal é uma conquista importante, mas apenas o começo. Estranhei terem ressuscitado o caso de Shaima Ghassaniya dois dias depois do anúncio do voto. Pegou mal e o rei teve que intervir cancelando a sentença das chibatadas, o que, aliás, não é uma pena comum aqui. (AL-HUWAIDER, Wajeha. Na fila da cidadania)

É importante levar em conta o funcionamento do regime político nos países para se ter noção e não cair em impressionismos, importante lembrar que na Árabia Saudita as mulheres necessitam de permissão masculina para tudo, seja de marido, irmão, pai, filho, até para ir a escola é necessário a autorização de um homem.

Sim, a comparação é péssima, mas acho que me fiz entender. Mas bem, como alguém espera que mulheres se candidatem esejam eleitas se não podem sair de casa? Se não podem dirigir um carro, se não tem direito a NADA enquanto seres humanos?

Imaginem se, por algum milagre, o rei indica uma mulher para a Shura. Esta irá legislar sobre seu marido, sobre outros homens, mas até para ir até o parlamento ela precisará de permissão destes mesmos homens para sair de casa e realizar o percurso. Se a mulher sequer morar em Riad, a capital, precisará de permissão para viajar! (TSAVKKO, Raphael. Direitos das mulheres: uma farsa para Saudita ver)

A decisão aparece de um forma tanto formalista, de tentativa liberal de garantir o direitos de algumas mulheres, e não uma mudança drástica no regime político saudita e este dado deve ser levado em consideração. Pois emancipação das mulheres no formalismo não é realmente emancipação das mulheres e o advento da primavera árabe naquela região também é um forma de forçar essa pseudo-abertura do regime saudita, ainda mais por conta da crise parecida com os demais países inssurretos que assola a Arábia Saudita.

Todos os amigos dos reis sauditas estão caindo e eles estão preocupados. Por isso mandaram forças militares ao Bahrein para tentar abafar o levante. Quando o presidente egípcio estava caindo, o rei Abdullah voltou do exterior, onde passava por tratamento médico, e tentou apaziguar os ânimos dos sauditas com dinheiro. Aumentou os salários dos funcionários públicos, especialmente da indústria do petróleo. E US$ 130 bilhões foram liberados para gastos públicos numa estratégia de calar o povo e ganhar tempo. Mas as pessoas estão se mobilizando no Facebook e criticando a realeza, pressionando para que ela reveja leis e dê mais oportunidades para os pobres melhorarem de vida. A imigração, atrelada ao desemprego, é motivo de grande insatisfação por aqui. Enquanto 8 milhões de trabalhadores na Arábia Saudita são estrangeiros, 28% dos homens não tem emprego porque é mais barato contratar um filipino que um saudita. Nosso país é de jovens, 60% da população tem menos de 25 anos, porque a taxa de natalidade é alta. Somo famílias grandes. Esses jovens precisam de escola, emprego, casa para começar a família. Hoje 80% dos sauditas vivem de aluguel pois não conseguem comprar um imóvel. (AL-HUWAIDER, Wajeha. Na fila da cidadania)

A decisão de Abdullah é necessária, pois os direitos das “minorias” tem uma parte que há como se resolver com intervenções liberais mais contundentes, porém acabamos por nos deparar com um medievalismo arrogante em diversos países e talvez a Arábia Saudita seja o expoente-mór disso, justamente por conta também das restrições culturais e políticas impostas as mulheres daquele país. Porém, sim, há um processo de revoluções e revoltas próximas a Arábia Saudita, que teve ganhos importantes nos direitos das mulheres, vencendo até mesmo o fundamentalismo religioso para avançar e, acredito eu, que Abdullah não é um bem-feitor que dá ponto sem nó, dar alguma abertura política ao país ajuda a se manter no poder e o apoio que tem dos EUA, é necessário para o país não estourar como seus vizinhos.

A realidade dos países vizinhos chega de uma forma ou outra à Arábia Saudita, ainda mais nesta era das novas mídias e redes sociais, ter acesso há notícias sobre conquistas e mobilizações na vizinhança ajuda também a avançar o caldo político e cultural de uma nação, pois é bom lembrar que por muito tempo no mundo não ouvíamos a palavra revolução para se depor regimes e conquistar direitos, ficávamos apenas na fábula já longíqua das revoluções cubana, cultural chinesa ou russa. Obviamente com tanta mobilização e atenção ao mundo árabe, ter mudanças sutis, formais, porém sem mexer nas estruturas da sociedade são tomadas para se manter o poder.

Antes, quando eu conversava com as mulheres sobre nossos direitos elas diziam que eu estava errada, a vida delas era confortável, estava tudo ok. Agora, a consciência de que estamos sendo diminuídas, desumanizadas e exploradas é maior. O melhor nível de educação das mulheres e a internet ajudaram muito. Elas estão por aí, organizando-se pelo Facebook, esperando a hora de serem ouvidas. (AL-HUWAIDER, Wajeha. Na fila da cidadania)

A decisão tomada por Abdullah acaba pro ser apenas formal, pois não combate as tradições conservadoras do país, porém é também uma resposta ao avanço das mobilizações da primavera árabe, das conquistas obtidas pelas mulheres naquela região e que poderiam por conta da conjuntura similar ajudar a estourar revoltas entre os sauditas, bom lembrar que no Egito e Tunísia mulheres e juventude foram preponderantes para se estourar o processo revolucionário e também para mantê-lo, vale a pena dar alguma atenção as mulheres sauditas nos próximos anos, pois panelas de pressões não se mantém por muito tempo, ainda mais existindo revoluções na vizinhança.

Uma resposta para O direito de votar e se votada para as sauditas e a pressão da primavera árabe

  1. Aline Maria

    Muito boa observação. Texto leve e que consegue “dar conta do recado”: certas atitudes tomadas por governantes e mandatários servem somente para legitimar seu poder de comando e amenizar as inevitáveis insurreições populares, pois não mexem na estrutura que é o ponto central da questão. Mas como servem essas notícias para sabermos que de alguma forma as mulheres árabes e do mundo em geral, começam a se movimentar e que qualquer atitude de um governante é sempre resultado da organização da classe que se reinvindica! PARABÉNS A NÓS MULHERES DO MUNDO TODO!

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