28 de junho: reflexões sobre o toctoctoc do facismo em nossas portas

O Brasil possui a maior Parada Gay do mundo já faz algum tempo, ao mesmo passo que é um dos países com menos direitos assegurados a comunidade LGBT. União civil estável só foi aprovada a pouco tempo e por decisão do STF, há resistência ao se debater o casamento civil igualitário por relacioná-lo de forma mecânica e equivocada ao casamento religioso, fora a incompreensão de que as lutas LGBTs são parte da discussão de gênero e fundalmentalmente da discussão anticapitalista.

Óbvio, não podemos esquecer da perseguição por parte dos PCs durante os anos 50 e 60 aos homossexuais e a esquerda em geral tem divida imensa com a comunidade LGBT, até por que foi à esquerda que nasceu uma das reflexões mais interessantes sobre o amor burguês.

Durante as décadas a história do 28 de junho acabou por se perder, apenas lembrada nos guetos dos guetos da política. Servindo de base para uma disputa contra o machismo e o femismo nas organizações anticapitalistas ou reformistas. É importante lembrarmos que esta data dialoga diretamente com a luta contra a criminalização dos movimentos sociais e o extermínio da juventude negra e pobre tão noticiado por aí.

Há 42 anos, na madrugada do dia 28 de junho de 1969, a polícia invadiu de surpresa o dance bar Stonewall Inn, ponto de encontro de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais da região de Greenwich Village, Nova York. Teve início o mais famoso episódio da luta pelos direitos LGBT do século XX, a Rebelião de Stonewall. Pela primeira vez os homossexuais se reuniam em grande número para enfrentar a polícia e iam às ruas denunciar a violência, a intolerância e a ausência de direitos, em uma época em que dois homens eram proibidos por lei de dançarem juntos nos Estados Unidos e o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, se referia publicamente aos homossexuais como vítimas de “doença trágica”. Os vários dias de confronto nas ruas de Nova York são considerados ainda hoje como marco inicial dos eventos que celebram o orgulho gay mundo afora. É por isso que nós do Coletivo 28 de Junho, resgatamos em nosso nome a essência combativa da Rebelião de Stonewall. Para lembrar que é com luta que se abre caminhos em direção a um mundo mais justo, igualitário e sem preconceitos. (Coletivo 28 de junho)

Mais de 40 anos e acompanhamos em cima do muro retrocessos e mais retrocessos no que tange os direitos da comunidade LGBT e o combate da homofobia. Não podemos tapar o sol com a peneira e negar que o veto ao kit antihomofobia e o recrudecimento de posicionamento da sociedade sobre tantos assuntos ligados às liberdades democráticas não são apenas ligados a direita clássica, pois há sim em curso no Brasil uma reorganização da extrema direita e ela não é capitalizada apenas por DEMos e tucanos, mas por gente que pertence a própria bancada governista no congresso nacional, caso mais recente é o da deputada estadual do Rio de Janeiro Myrian Rios e o rebu da igreja católica sobre a campanha pelo uso da camisinha apresentada durante a última Parada Gay de São Paulo.

A deputada Myrian Rios é filiada ao PDT (sim o mesmo PDT dos agressores de mulheres que faziam parte da gestão do DCE PUC/RS, pra ver o compromisso do partido com a luta das mulheres e LGBT) e ontem em discurso no plenário da ALERJ relacionando a orientação sexual das pessoas com pedofilia.

“Não sou preconceituosa e não discrimino. Só que eu tenho que ter o direito de não querer um homossexual como meu empregado, eventualmente”, disparou. “Por exemplo, digamos que eu tenha duas meninas em casa e a minha babá é lésbica. Se a minha orientação sexual for contrária e eu quiser demiti-la, eu não posso. O direito que a babá tem de querer ser lésbica, é o mesmo que eu tenho de não querer ela na minha casa. São os mesmos direitos. Eu vou ter que manter a babá em casa e sabe Deus até se ela não vai cometer pedofilia contra elas [as crianças], e eu não vou poder fazer nada”, emendou.(RIOS, Myrian)

Já faz alguns meses que pela internet ouvimos falar sobre a tentativa de instaurar uma Ditadura Gay no país, pois os defensores dos direitos humanos e afins querem tolhir a liberdade de expressão daqueles que disseminam ódio e preconceito a torto e a direito, com voz e cobertura diuturna da grande mídia. Na verdade paulatinamente vemos acontecer o avanço de um totalitarismo sim, mas não relacionado às mulheres ou LGBTs, mas sim o totalitarismo que tantos de nós tivemos medo de acontecer caso o Serra tivesse sido eleito. A tal onda facista está por aí e não com o respaldo dos demo-tucanos, infelizmente.

Porque ninguém está mexendo nas suas coisas ou ameaçando tirá-las de você. Porque sua orientação sexual não está correndo riscos. Porque você tem e vai continuar tendo todo o direito de andar de mãos dadas, beijar, casar com alguém do sexo oposto, adotar uma criança, e ninguém vai te olhar feio. Ninguém vai te expulsar do recinto, ninguém vai te bater ou matar, ninguém vai querer te transformar, ninguém vai dizer que se envergonha de ser seu pai/mãe, ninguém vai pensar que sua orientação sexual é depravada ou relacioná-la à pedofilia, ninguém vai te despedir do emprego por causa da sua heterossexualidade, ninguém vai dizer que o que você faz é pecado e que você vai arder no inferno por conta disso. Ou seja, você não precisa de uma data específica pra defender sua orientação sexual. Ela não está sob ataque. Todo santo dia você está mostrando seu orgulho hétero. Todo dia é um desfile sem fim pra você. Então, em vez de se orgulhar do seu privilégio, que tal envergonhar-se de viver numa sociedade que insiste em negar direitos a quem não é “normal” como você? (Lola)

Hoje é 28 de junho, dia de luta contra o facismo e o machismo abundando pelo mundo. Dia de mostrar que assim como a luta das mulheres, negros, estudantes e sindicalistas a luta LGBT é todo dia e só mudaremos o mundo se conseguirmos unificar estas lutas de forma consistente sem cair na secundarização de nenhuma delas.

Este post também faz parte da Blogagem Coletiva promovida pelo Blogueiras Feministas sobre o 28 de junho.

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