Estupro não é questão de sexo, é questão de poder

Semana passada foi divulgado pela imprensa nacional o fato de que na Líbia mulheres estupradas e por decorrência disto engravidaram podiam ser assassinadas por suas famílias sob a condição de “Morte Honrosa”, os abusos tem ocorrido sistematicamente por conta do conflito instaurado no país desde o começo do ano. A guerra entre a Otan e Gadaffi tem massacrado apenas um lado: o povo – em especial as mulheres. Segundo o coordenador de emergência da UNHCR para a Líbia, Jamal, os abusos sexuais tem sido realizados pelos dois lados.

As denúncias de violência sexual cometidas pelo exército de Kadaffi são mais um elemento que caracteriza o governo deste ditador. O passado de enfrentamentos com o imperialismo ficou longe. Há quase 20 anos que Kadaffi converteu-se em um fiel aliado dos interesses do imperialismo estadunidense e europeu. Sua ditadura proíbe a liberdade para que o povo se organize política e sindicalmente, a repressão às/aos lutadores populares, sindicais e estudantis, cárcere e tortura para quem tenta expressar divergências. (TADINI, Giulia)

Porém usar violência sexual como arma de guerra não é especificidade da Líbia, tal tática é usada amplamente em diversos conflitos no mundo, como já vem alertando a Anistia Internacional há bastante tempo. Normalmente as mulheres são vistas como símbolos de honra nos povoados, assim os ataques às mulheres e meninas são formas de subjugar e desmoralizar os homens de determinada região, ajudando assim a espalhar o medo e afugentar as pessoas. As mulheres vítimas de violência sexual em territórios de conflitos não sofrem apens de traumas psicológicos e emocionais por conta dos abusos, mas também sofrem com o receio de serem negadas por suas famílias.

A Anistia Internacional disse que mulheres e meninas estão sendo estupradas em conflitos no mundo todo e que as autoridades fazem pouco para prevenir esses crimes.

De acordo com a organização, a violência contra as mulheres não é somente um subproduto da guerra, mas uma deliberada estratégia militar contra os inimigos. (BBC Brasil)

A grande maioria das vezes os crimes sexuais realizados durante guerras e conflitos em geral não são nem julgados pelos tribuinais internacionais, respaldando a máxima de que as dicussões específicas das mulheres são secundárias. É importante lembrar que não basta apenas tais crimes serem julgados, mas também haver um processo de formação nos países e afins para combater o machismo e a lógica de agressão dos mais “frágeis” para impor uma hegemonia ou vitória em conflitos armados.

Normalmente a ordem de se usar violência sexual como tática de guerra vem dos superiores e não podemos fechar os olhos que tropas deste ou daquele país respondem sim aos seus governantes e estes são os principais responsáveis pela interveção de suas tropas militares em áreas de conflito. Caso mais próximo do Brasil é a intervenção das nossas tropas no Haiti.

Casos de estupro no Haiti já acontecem há bastante tempo, pelo menos desde as épocas da escravidão, até por que não dá para se aplicar no caso Haiti a bizarra teoria de Demóstenes Torres sobre sexo consensual entre escravas e sinhozinhos e que foi amplamente combatida pelo movimento negro nacional, negar um processo parecido no Haiti seria no mínimo hipócrita. Outra coisa que não podesmo esquecer e o processo político existento naquele país desde sua luta por indepêndencia, passando pelas intervensões americanas e dos anos 90 pra cá as missões de paz da ONU.

O relatório da Anistia Internacional abre apenas um flanco para um problema de anos no país caribenho gravíssimo de violência sexual que atravessa os séculos, hoje são homens armados e em bandos, que sinceramente não sei precisar como faz o relatório da Anistia dizendo que são apenas locais e jovens pertecentes a gangs, até por conta das últimas notícias veiculadas no Brasil sobre a pressão que os EUA fizeram junto ao Brasil para que fossem tomadas medidas mais “robustas” da Minustah para conter a violência no Haiti. (Luka)

Porém nos próprios processos de revoluções acontecidos no Oriente Médio há pouco tempo vemos uma repressão machista contra as mulheres de forma violenta, usando também de agressões e abusos sexuais.

Um general egípcio não-identificado ouvido pela rede de TV americana CNN (assista abaixo) admitiu que os militares fizeram “testes de virgindade” nas manifestantes da praça Tahrir durante os protestos contra o então presidente Hosni Mubarak. As prisões do Egito são conhecidas por desrespeitar os direitos humanos e não foi diferente durante a chamada primavera do Oriente Médio. (SORG, Letícia)

e

Resumindo: o general disse que era preciso verificar a virgindade das mulheres para evitar que elas alegassem terem sido estupradas pelos militares.

Alguém seria capaz de explicar para esse general que mulheres não-virgens também podem ser estupradas? E que a própria verificação da virgindade é uma forma de violência sexual? (SORG, Letícia)

Já não é dado novo o fato das mulheres serem as que mais sofrem com conflitos armados pelo mundo, perdem família, são estigmatizadas junto a comunidade e ainda são alvos prioritários de guerrilhas, tropas e afins para que os soldados possam demonstrar sua força e poderio militar, mas a solução para tais intervenções e conflitos que não passem por massacrar as mulheres ainda estão longe de ser encontrada.

In her work on sexual violence in civil wars over the past three decades, Dara Kay Cohen, Assistant Professor at the Humphrey School of Public Affairs at the University of Minnesota, has identified several factors that increase the likelihood that widespread rape will occur in a given conflict, including one unexpected one: the method of recruitment. Forcibly recruited men, she argues, meld into a cohesive unit through gang rape, a process she calls “combatant socialization.” A risky, time-consuming, and inefficient practice (as opposed to swiftly lopping off someone’s head), gang-rape, she writes, “creates loyalty and esteem from … initial circumstances of fear and mistrust.”

In other words, strange men thrown together in an impromptu fighting force use it as an unspoken means to build team spirit. The public, performative nature of gang rape carries a different message (“We’re all in this together”) than an individual rape perpetrated in private (“I’m doing this right now because a breakdown of law and order means I can get away with it.”) (SUSSMAN, Anna Louie)

Em seu trabalho sobre violência sexual em guerras civis nas últimas três décadas, Dara Kay Cohen, Professora Assistente da Escola de Humphrey de Relações Públicas da Universidade de Minnesota, identificou vários fatores que aumentam a probabilidade do estupro ocorrer em um determinado conflito, incluindo um inesperado: o método de recrutamento. Homens recrutados à força, ela argumenta, se fundem em uma unidade coesa através de estupro coletivo, um processo que chama de “socialização combatente.A arriscada, prática demorada e ineficiente (em oposição à rapidez decepar a cabeça de alguém) o estupro coletivo, escreve ela, “cria lealdade e estima… levando em conta as circunstâncias iniciais de medo e desconfiança.

Em outras palavras, homens estranhos jogado juntos em uma força de combate de improviso utilizam o estupro como um meio tácito para construir espírito de equipe. A natureza, pública performativo do estupro coletivo traz uma mensagem diferente (“Estamos todos juntos nessa“) do que um estupro individual perpetrado privadamente (“Eu estou fazendo isso agora porque de um colapso da ordem pública , significa que eu posso fugir com ela.“) (SUSSMAN, Anna Louie)

Em momentos de conflito e guerras a face mais cruel do patriarcado acaba se revelando, são as ordens misóginas para se adotar tática x ou y para a disputa territorial e de poder. Colocando novamente em perigo este ser de segunda classe que são as mulheres, mas se preocupar para que? A discussão sobre direitos humanos das mulheres não é importante, mesmo nós sendo massacras guerra após guerra, conflito após conflito.

7 respostas para Estupro não é questão de sexo, é questão de poder

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