As mulheres e as revoluções árabes

Texto da jornalita e escritora Mercè Rivas Torres, publicado originalmente em espanhol no Rebelion sobre a situação das mulheres no Oriente Médio, a tradução foi feita pelo Lucas Morais e publicada no Diário Liberdade.

Oportunamente o Lucas me mandou este texto no momento em que começo a produzir um post sobre a questão da violência sexual no Oriente Médio, espero concluí-lo em breve.

Quando o Ocidente pensava que as mulheres seguiam aprisionadas por véus, religião e subordinação aos homens de sua família, pudemos nos alegrar ao vê-las nas ruas vestindo jeans ou com véu, sós ou acompanhadas, mas com uma grande força em seus rostos. Foi-nos dito, ao mundo todo, em poucas palavras, que elas também querem liberdade, que as respeite como seres humanos e que tem muito a dizer nos processos de democratização de seus países. Falaram nas ruas ou através das redes sociais, e isto é só o início.

As primeiras a conseguir algo tangível e positivo foram as tunesinas. Serão as primeiras, dentro do mundo muçulmano, a estrear uma democracia paritária. O Parlamento estará formado por 50% de homens e 50% de mulheres.

Mas também há que reconhecer que eram as que partiam de uma melhor situação. A Tunísia de Habib Burguiba dos anos 50 promulgou um estatuto especial às mulheres outorgando-lhes uma série de direitos sem precedentes no mundo árabe. Começaram a ter direito ao voto, ao divórcio e proibiu-se a poligamia.

Na realidade, suas discriminações, hoje em dia, são mais sociais que legais. Tem acesso aos estudos e uma taxa de natalidade de 2,5, mas por outro lado vivem situações de desigualdade no trabalho, o desemprego ocorre mais com elas e sofrem intensamente a violência de gênero.

Suas vizinhas líbias já enfrentam uma realidade mais difícil. Nas manifestações na cidade de Benghazi as vimos alçando sua voz, mas separadas dos homens.

Outras morreram em Trípoli, assassinadas por oferecer água aos homens manifestantes, e a advogada Iman al Obeidi foi violada por quinze membros da tropa e acusada de difamar o regime de Kadafi. A União Europeia, afortunadamente, saiu em sua defesa e o jornalista do Financial Times que tentou ajudá-la, foi deportado.

Tudo isso ocorria enquanto o regime seguia mantendo a guarda pretroriana pessoal de seu líder formada por 200 jovens virgens, perfeitamente formadas e maquiadas.

As mulheres egípcias, que já no início do século XX despontavam no movimento feminista mundial, mas que durante os 30 anos da ditadura de Mubarak retrocederam espetacularmente, lançaram-se à Praça Tahrir com mais força que ninguém. Estudantes (há cerca de 50% de mulheres nas Universidades), aposentadas ou donas de casa, analfabetas ou intelectuais, quiseram deixar muito claro que querem participar nas decisões do país.

Entretanto, a Anistia Internacional e o Parlamento Europeu tiveram que denunciar a tortura de 18 mulheres na Praça Tahrir, no dia 9 de Março. Após serem golpeadas, foram obrigadas a fazer prova de virgindade, sob a ameaça de que as que não fossem virgens seriam acusadas de prostituição. Ou o espancamento que recebeu a jornalista da CBS, Sara Logan, enquanto a desnudavam e a atacavam sexualmente.

Apesar da violência e acosso sexual que sofrem habitualmente as mulheres egípcias, reclamam liberdade e respeito. Não se pode esquecer que nas zonas rurais do Egito, mais de 60% das jovens são mutiladas genitalmente apesar de ser ilegal.

No Iêmen, o país mais pobre do Oriente Médio, as mulheres levam anos protestando toda terça-feira em frente ao Palácio do Governo desde 2007 mas sem nenhum êxito. Afortunadamente, as revoltas do norte da África conseguiram animá-las. Apesar de seu nível educativo baixo e do controle dos homens de sua família, as iemenitas lançaram-se com seus véus de cores fortes para protestar pela falta de liberdade, de trabalho, de oportunidades e porque querem acabar de uma vez por todas com a escandalosa tradição de serem compradas aos 12 anos para se casar e, assim, seu pai poder receber um importante dote. O mesmíssimo Bin Laden pagou na Síria 5 mil dólares por sua quarta esposa, Amal al Sadah, de 17 anos. Isso ocorreu quando ele tinha 43 anos.

Em linhas gerais se sentem asfixiadas, necessitam se relacionar, se informar, mudar suas vidas. Talvez seja essa a razão pela qual estão entusiasmadas com as redes sociais até o ponto que grupos de Facebook como “Solteiro na Arábia Saudita” ou “Sexo no Barein” estão revolucionando os países mais conservadores. Homens e mulheres podem agora estabelecer relações através de SMS ou Internet, algo insólito em lugares onde todavia os pais são os que arranjam os matrimônios e onde se castiga o fato de flertar ou nos casos mais extremos, falar com o sexo oposto.

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