Reflexões sobre o lugar da mãe na política

Faz tempo por aqui que não escrevo especificamente sobre maternidade e feminismo, mesmo tendo pensado bastante sobre esta relação e até escrito algumas coisas no Blogueiras Feministas sobre saúde da mulher nesta fase da vida. Basicamente sobre parto e amamentação, faz tempo que não falo sobre telações sociais e o lugar da mulher-mãe na política. Tenho tido vontade de retomar este tempo há bastante tempo, muito pelo fato de estar acompanhando quase diariamente o Blog da Elaine César e muitas das coisas que lá ela escreve me fazem refletir sobre a própria relação entre maternidade e militância.

Para mim não há duvida de que feminismo e maternidade tem relações próximas, não apenas pela questão da criação e formação das pessoas, mas também pelo fato da sociedade encarar o maternar como função exclusiva da mulher, sem compreender a revolta hormonal que acontece no corpo feminino durante a gravidez e no puerpério, ou então quando se escandaliza ao ver uma mulher amamentanto no ônibus sem cobrir os seios como se fosse um sério atentado ao pudor.

O papel de mãe acaba por se enquadrar na lógica de só existir apenas dois tipos de mulheres no mundo: as santas e as putas. Justamente a visão sacralizada de maternidade que a Iara se refere no parágrafo citado acima, mães não trepam, não mostram os seios, não tem desejos… Vivem apenas para as crias e se fogem disso logo escutam: Isso não é um comportamento aceitável, você é mãe. (Luka)

A questão inicial é justamente a não compreensão, muitas vezes até por falta de formação mesmo, de qual é o lugar da mulher na sociedade e já faz alguns post que para exemplificar uso 2 vídeos, um da campanha equatoriana Reacciona Equador, el machismo es violência e um outro produzido pela SOF. Ambos seguem abaixo:

e

A Divisão Sexual do Trabalho existente na sociedade é reverberada também nas organizações políticas em geral, acabamos por encontrar a existência de poucas políticas afirmativas e de formação para as mulheres poderem se apropriar dos espaços de direção e formulação da política, muitas vezes sendo relegadas as tarefas de organizar espaços para as reuniões, se responsabilizarem por garantir a alimentação, creches e o máximo apitar sobre a política relacionada às mulheres. Mui raro é vermos uma real transversalidade entre a discussão política-econômica e a discussão política-feminista. Criando assim a tal da Divisão Sexual da Militância.

As coisas acabam se dificultando quando é preciso assegurar políticas de inclusão militante das mulheres-mães, seja no movimento social, seja nas organizações políticas.

Para uma mãe solteira, jovem e militante não é fácil fazer escolhas, não é fácil escolher entre ir a uma reunião e ficar em casa acompanhando a filha, não é fácil decidir se o melhor para a criança é ter uma babá ou ir para escolinha no período em que estarás na faculdade, não é fácil lutar pelos direitos das mulheres de terem acesso a creches públicas decentes e não encararem uma fila de espera de mais de seis meses para poderem voltar a trabalhar enquanto você mesma passa por algo parecido. Acaba sendo você e você no olho do furacão para decidir algo.

Verdade seja dita, mesmo aqueles que pretendem te ajudar de alguma forma acabam te julgando, ou julgam pelas escolhas do teu parto e não tem coragem de vir discutir contigo, ou julgam quando é necessário deixar a filha para poder cumprir uma tarefa, ou fazem cara de não estou te entendendo quando tu viras e fala que não tem condição de ajudar em tarefa de acompanhamento alguma. No final das contas as mães militantes (sejam solteiras ou não) são as mais solitárias em suas escolhas e as que precisam de mais força para continuarem nos dois percursos. (Luka)

Até por que a demanda concreta de que para se participar de uma reunião, encontro, congresso ou qualquer outra coisa é necessa´rio também pensar em local adequado para os rebentos das militantes não é vivida pela grande parte do movimento ou organização, se não for lembrado pelas mulheres e reivindicado pelas mulheres-mães para que existam formas para garantir a sua participação na ida política e que não seja onerando do trabalho reprodutivo outras mulheres é fundamental, pois o cuidado com as crianças e com todo universo do trabalho reprodutivo não tem como ser tarefas também das mulheres em um movimento ou organização política, ou será que os anticapitalistas querem reproduzir a divisão de trabalho entre mulheres e homens nas suas próprias organizações?

Na lógica que eu escolhi para criar minha filha não são descasados a escolha por entender e participar de cada dia da cria e a luta por uma sociedade socialista, mas os companheiros e as companheiras socialistas, principalmente os jovens, não estão preparados para encarar em conjunto o desafio de ter uma companheira mãe que faz escolhas peculiares, sem a julgar por fora ou tentar ponderar o que seria realmente melhor tanto para o trabalho da corrente quanto para a militância da própria companheira mãe. Não entendem por que desconhecem, por que não querem conhecer até a vontade de ter filhos bata em suas portas e eles se deparem com a gama interminável de escolhas difíceis que temos de fazer e aí se sentirem mais uma vez sozinhos ao fazer essa escolha. (Luka)

Compreender que crianças pequenas acordam durante a madrugada e não são as/os outras/os camaradas que irão acordar para dar de mamar, ninar, tirar temperatura, levar ao PS – caso necessário – e para que consigamos fazer isso sem beirar a fadiga completa é importante pensar no que são as durações das atividades, se há espaço de descanso propício para crianças de todas as idades e algum companheiro assumindo esta tarefa que não seja uma mulher da organização. Mas refletir sobre isso não é fácil, pois nós mesmas achamos ter que dar conta de tudo, levar o mundo nas costas e não dividi-lo com ninguém, no melhor exemplo do mito da mulher-maravilha, podemos trabalhar, acordar a noite sozinhas, militar e ainda cuidar de casa sem precisar de ajuda, pois é assim a nossa vida e não te relação alguma com a construção social do que é papel do homem e do que é o papel da mulher na sociedade.

No final das contas repassamos para o âmbito da militãncia também o mito da mãe-santa, pura e que tudo resolve.

Quando engravidamos, algumas pessoas parecem nos incumbir de uma indumentária pura, imaculada, e assexuada. Infelizmente, nosso mito criador dominante exclui ou camufla o sexo. E o milagre da concepção da Virgem Maria nos imputa, a nós mães, a difícil tarefa de, na fantasia coletiva, dar à luz sem ter vivido o prazer sexual. Há outras formas de se entender essa história, sim. Há cristãos que privilegiam a sacralidade do feminino, sem a necessidade de sufocá-lo numa pureza mítica. Nesses casos, Jesus dialoga muito bem com o prazer, conhece as necessidades e os desejos humanos, e sabe que sexo é bom e a gente gosta. Portanto, apesar de ter dado à luz sem ele uma vez não significa que Maria tenha permanecido “pra sempre virgem, amém”. (POMBO, Carolina)

Pessoalmente sei o quanto isso cansa, lembrar para companheiras sempre que é preciso garantir alguém que tome conta da Rosa, me convencer que há horários que não tem como me extender nas atividades pois ela precisa dormir e descansar e eu também, pois não tenho como ser uma boa mãe fatigada e atolada de atividades para tocar, não ir a uma reunião política para poder ir na reunião da escola e compreender hoje que a minha tarefa prioritária é sim conseguir educar e criar uma criança de uma forma diferente da colocada aí, e que isso não conseguirei fazer sem que se pense seriamente o que é a inclusão da mulher-mãe na política. Ou alguém aí já viu um serviço de creche no Congresso Nacional para as funcionárias e parlamentares?

Falamos tanto do fato do lugar da mulher ser na política, mas de quais mulheres?

3 respostas para Reflexões sobre o lugar da mãe na política

  1. […] A Divisão Sexual do Trabalho existente na sociedade é reverberada também nas organizações políticas em geral, acabamos por encontrar a existência de poucas políticas afirmativas e de formação para as mulheres poderem se apropriar dos espaços de direção e formulação da política, muitas vezes sendo relegadas as tarefas de organizar espaços para as reuniões, se responsabilizarem por garantir a alimentação, creches e o máximo apitar sobre a política relacionada às mulheres. Mui raro é vermos uma real transversalidade entre a discussão política-econômica e a discussão política-feminista. Criando assim a tal da Divisão Sexual da Militância. (FRANCA, Luka. Reflexões sobre o lugar da mãe na política) […]

  2. […] Há 3 anos me organizei em uma corrente política, para quem ainda não se deu conta eu sou filiada ao PSOL e organizada numa corrente chamada Coletivo Socialismo e Liberdade, e dentro destes dois espaços de militância também me deparei com a mesma realidade encontrada no movimento estudantil, algo que normalmente é chamado de divisão sexual da militância, respaldado muitas vezes na própria realidade da divisão sexual do trabalho onde mulheres cuidam do trabalho reprodutivo e os homens do trabalho produtivo, mulheres passam mais tempo nos espaços privados da sociedade e os homens nos espaços públicos. A Divisão Sexual do Trabalho existente na sociedade é reverberada também nas organizações políticas em geral, acabamos por encontrar a existência de poucas políticas afirmativas e de formação para as mulheres poderem se apropriar dos espaços de direção e formulação da política, muitas vezes sendo relegadas as tarefas de organizar espaços para as reuniões, se responsabilizarem por garantir a alimentação, creches e o máximo apitar sobre a política relacionada às mulheres. Mui raro é vermos uma real transversalidade entre a discussão política-econômica e a discussão política-feminista. Criando assim a tal da Divisão Sexual da Militância. (FRANCA, Luka. Reflexões sobre o lugar da mãe na política) […]

  3. […] Há 3 anos me organizei em uma corrente política, para quem ainda não se deu conta eu sou filiada ao PSOL e organizada numa corrente chamada Coletivo Socialismo e Liberdade, e dentro destes dois espaços de militância também me deparei com a mesma realidade encontrada no movimento estudantil, algo que normalmente é chamado de divisão sexual da militância, respaldado muitas vezes na própria realidade da divisão sexual do trabalho onde mulheres cuidam do trabalho reprodutivo e os homens do trabalho produtivo, mulheres passam mais tempo nos espaços privados da sociedade e os homens nos espaços públicos. A Divisão Sexual do Trabalho existente na sociedade é reverberada também nas organizações políticas em geral, acabamos por encontrar a existência de poucas políticas afirmativas e de formação para as mulheres poderem se apropriar dos espaços de direção e formulação da política, muitas vezes sendo relegadas as tarefas de organizar espaços para as reuniões, se responsabilizarem por garantir a alimentação, creches e o máximo apitar sobre a política relacionada às mulheres. Mui raro é vermos uma real transversalidade entre a discussão política-econômica e a discussão política-feminista. Criando assim a tal da Divisão Sexual da Militância. (FRANCA, Luka. Reflexões sobre o lugar da mãe na política) […]

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