Politicamente incorreto, amamentação, censura e um CQC que não é a sombra do Olhar Eletrônico

Durante pelo menos uns 5 anos militei na Enecos, lá obtive contato com o movimento feminista, MST, MTST, movimento pela educação e o movimento de democom. Foi no movimento pela democom que aprendi sobre liberdade de imprensa, monopólio midiático (que não é só o tão propalado PIG), radiodifusão digital, PNBL e tantas outras coisas, durante a época em que militei na Enecos coincidiu com uma breve vitória tida pelo movimento junto aos grandes meios de comunicação, foi quando durante quase um mês foi ao ar na Rede TV! o programa Direitos de Resposta.

Direitos de Resposta foi o nome dado à série de 30 programas produzidos em conjunto por seis entidades da sociedade civil organizada, entre elas o Intervozes, e que substituíram durante um mês um programa veiculado pela emissora Rede TV! considerado pela Justiça como ofensivo aos direitos humanos. Os programas foram ao ar entre os dias 12 de dezembro de 2005 e 13 de janeiro de 2006, das 17h às 18h.

Cerca de um mês antes, a Justiça Federal havia concedido uma liminar em resposta à Ação Civil Pública (ACP) movida pelo Ministério Público Federal e as seis organizações da sociedade civil contra a Rede TV! por conta das seguidas violações aos direitos humanos, em especial dos homossexuais, nos quadros do programa Tardes Quentes, do apresentador João Kleber.

A liminar suspendia imediatamente o programa e determinava a exibição de outro, em seu lugar, em caráter de contra-propaganda. A emissora não cumpriu a liminar, por isso, no dia 14 de novembro de 2005, pela primeira vez na história, uma emissora de TV comercial teve seu sinal retirado do ar por decisão da Justiça.

A Rede TV! propôs, então, um acordo com as entidades e o MPF, o que levou à produção e exibição do Direitos de Resposta. A ACP, a decisão da Justiça e a produção e exibição dos programas podem ser consideradas o primeiro “direito de resposta coletivo” concedido e realizado no Brasil. (Intervozes)

O politicamente incorreto já vem tomando as nossas televisões e não é de hoje, só lembrar do famigerado Jackass e todas suas imagens de degradação humana fazendo sucesso no começo deste século e a necessidade de confrontá-lo é fundamental, até por que apesar destes humoristas ou jornalistas se apegarem à pecha do humor, da ironia é importante lembrarmos que eles fazem parte da opinião pública, ou seja, são formadores de opinião, estão no que tanto estudamos na faculdade de ágora de debates pública que deveria ser a mídia brasileira. Sim, eles tem responsabilidades pelo que dizem e o MPF já demonstrou isso há alguns anos com o processo contra a Rede TV!

O politicamente incorreto está na moda nos meios de comunicação. (Fora deles, não, pois não pode estar na moda o que nunca caiu em desuso). Colunistas, jornalistas e blogueiros enchem o peito e, como se fossem os paladinos da liberdade de expressão, desancam os movimentos sociais, o feminismo, maio de 68, os quilombolas, os índios e tudo mais que tiver um ar de correção política ou cheire a idéias de esquerda. Tá legal, eu aceito os argumentos, mas não levantem as vozes tanto assim: não há ousadia nenhuma em ser politicamente incorreto no Brasil; aqui, a realidade já o é.

Imagine uma escola religiosa na Dinamarca. Flores nas janelas, cheiro de lavanda no ar, vinte alunos loiros, com cristo no coração e leite A correndo pelas veias, respondendo a uma chamada oral sobre o Pequeno Príncipe. Ali, o garoto que se levantar e cuspir no chão será ousado. Mostrará que a despeito do aroma de lavanda, o ser humano é áspero, é contraditório, é violento. Quando a realidade fica muito Saint-Exupéry, é importante que surjam uns Sex Pistols para equilibrar. Agora, cuspir no chão de uma escola municipal em São Paulo, diante da professora assustada que não consegue fazer com que os alunos, analfabetos aos dez anos, fiquem quietos, não tem nenhuma valentia. Quando a realidade da polis é o caos, o som e a fúria são a correção política. (PRATA, Antônio)

Tais jornalistas e humoristas se consideram tão sagazes, tão iluminados, mas o máximo que fazem é reverberar preconceitos já incrustrados junto à sociedade. Falam sobre preconceito regional (quem não se lembra do rompante de Mayara Petruso durante o período eleitoral em 2010?), holocausto, apologia ao estupro como se fossem as coisas mais naturais e socialmente aceitas do mundo, o Marcelo Rubem Paiva fez um post bem interessante relacionando o politicamente incorrento com o avanço repressivo do estado no Brasil que devem servir para reflexão sobre tudo isso que vem acontecendo no país, mas que toma proporções enormes na blogosfera.

Reproduz preconceitos antiquíssimos como se fossem novidades cintilantes. “Mulheres são burras!” “Ser contra a guerra é viadagem!” “Polícia tem de dar porrada!” “Bolsa Família serve para engordar vagabundo!” “Nordestino é atrasado!” “Criança só endireita no couro!” (COELHO, Marcelo)

Confesso que durante os meus anos de faculdade de jornalismo uma das experiências mais interessantes que tomei contato foram as iniciativas dos anos 80 que misturavam jornalismo e humor, de forma consequente e sem se utilizar do politicamente incorrento, há um curta sobre estas experiências da Laura Barile o “E aquele projeto ainda estará no ar” e quem conseguir achar pra assistir vale a pena, dá pra ver as diferenças profundas entre o Ernesto Varela e os repórteres do CQC. O Ernesto Varela foi minha referência de versatilidade, desprendimento e bom humor. O programa sobre a Serra Pelada é antológico:

ou então a entrevista com o chefe da seleção daquela época Nabi Abi Chedid:

A postura do Marcelo Tas junto a discussão sobre o post da Lola Aronovich tratando da crítica sobre mulheres que amamentam em locais públicos feita pelo Rafinha Bastos e pelo Marco Luque, sempre parto do pressuposto de que há sempre lados na sociedade, e Marcelo Tas falou ser à favor do aleitamento materno, porém em nenhum momento deu um basta nas falas de Bastos e Luque e pra mim não existe em cima do murismo. As críticas feitas no CQC 3.0 se relacionam diretamente com a forma que a sociedade lida com a sexualidade feminina e em nenhum momento o Marcelo Tas interviu sobre isso. Porém apesar da postura de Tas no programa não frear de forma alguma os outros dois âncoras o que mais me incomoda é a postura dele frente ao post da Lola, partindo para as ameaças de processo, não condiz muito com o a postura desafiadora do rapaz que entrevistou Chedid, condiz? O caso está repercutindo, a Lola já escreveu mais dois posts só sobre a censura da qual ela é ameaçada e podem ser lidos aqui e aqui.

Obviamente que o debate pelo mundo virtual seria polêmico, tanto que o assunto está dando pano pra manga lá no blog da Lola. Acredito que há alguns elementos do que é o ativismo pró-amamentação que acabam ficando no limbo, até por não ser um assunto de interesse das pessoas, só nos pegamos pensando sobre parto, amamentação e afins quando viramos mães, os pais as vezes demoram mais pra pensar nestas coisas, visto que não é o corpo deles que modifica e muito menos não são os hormônios deles que enlouquecem.

O mamaço do Itaú Cultural já havia gerado uma discussão na blogosfera materna por conta de uma artigo na Folha de S. Paulo do João Pereira Coutinho onde ele comparava o amamentar público com o direito de fazer sexo em público e afins. O texto do Coutinho acaba por colocar de forma não humorística o que grande parte da sociedade pensa sobre o ato de amamentar, poderia sim ser escrito pelo Rafinha Bastos ou pelo Marco Luque, pois externa justamente a discussão sobre a mulher na sociedade ter apenas dois papéis: de santa ou de puta. O papel da mãe é o papel da santa, mãe não trepa, não goza, não sente prazer em amamentar – talvez esta seja a única coisa que eu concorde do artigo do Coutinho de que a amamentação faz parte da sexualidade da mulher. (Luka)

Tas já se pronunciou dizendo que pra ele está história é uma questão pessoal, porém novamente acaba se colocando de forma equivocada, pois se o tema que acabou desenrolando o quiprocó foi discutido em um programa de internet com audiência considerável e o meio de comunicação (vamos combinar que um blog, mesmo que pessoal é sim um meio de comunicação alternativo) o qual questionou a postura dos âncoras do programa é também um blog com tráfego considerável e é óbvio que por se tratar de meios de comunicação este assunto é um assunto público de interesse de todos nós. Assim como o caso do João Kléber foi, como a abertura dos arquivos da ditadura é e como a discussão geral sobre democratização da comunicação é.

Caberia sim o CQC fazer uma boa matéria sobre o que são os mamaços, a militância pró-aleitamento materno e todas as dificuldades que nós mulheres temos ao amamentar, precisamos de estímulo para continuar amamentando e não críticas sem pé nem cabeça apenas para referendar senso-comum preconceituoso e machista. Isso seria algo bom a se fazer sobre o tema tão porcamente tratado pelo CQC 3.0 e não processar uma blogueira.

Dois blogs lançaram Blogagens Coletivas sobre o caso: A vida sem manual da Patrícia Daltro sobre a Valorização feminina na mídia e a Rede mulher e mãe da Calu, Glau e Tati chamada Eu digo BASTA! E você? sobre o direito de amamentar.

2 respostas para Politicamente incorreto, amamentação, censura e um CQC que não é a sombra do Olhar Eletrônico

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